A maldita herança liberal na América Latina

Emir Sader

Correio da Cidadania, 12 a 19 de junho de 2004

Mais da metade dos 400 milhões de latino-americanos não conseguem satisfazer suas necessidades básicas. 102 milhões são indigentes, não conseguindo sequer dar o que comer a seus filhos. Esse é o balanço sintético da aplicação das políticas liberais no continente nas duas últimas décadas.

Nos últimos 20 anos, quase 91 milhões de pessoas se tornaram pobres na América Latina. 226 milhões vivem com menos de dois dólares (seis reais) por dia. Aumentou o número de pobres e de indigentes. Há 40 milhões a mais de indigentes hoje do que há 20 anos.

Um dos aspectos novos é o surgimento dos “novos pobres”, setores de classe média que se proletarizaram – a Argentina é o caso mais dramático. Nos últimos seis anos, 23 milhões de latino-americanos deixaram de pertencer à classe média, para passarem à categoria de pobres.

Na Argentina, a taxa de pobreza duplicou entre 1999 e 2003, passando de 19,7% a 41,5%, enquanto a indigência se multiplicou quase por quatro, subindo de 4,8% a 18,6%. Cerca de 7 milhões de pessoas deixaram de ser da classe média para se transformarem em pobres.

Os
dados estão no documento “Desigualdade na América Latina e Caribe: ruptura com a história?”, redigido pelo Banco Mundial (BID). Como resultado das políticas liberais, o país mais eqüitativo da América Latina em termos de renda é mais desigual que o país mais injusto da Europa – incluída a Europa do leste, também assolada pelo liberalismo – e somente comparável com algumas zonas da África e com alguns países surgidos do desmembramento da União Soviética. Enquanto na Suíça a classe média representa 60% da população, em vários países do nosso continente não chega a 20%.

Os setores mais vulneráveis nesse vendaval de miséria que o liberalismo promoveu no continente são os idosos, as mulheres, os indígenas e, sobretudo as crianças. A precarização das relações de trabalho se estendeu a níveis sem precedentes, junto com o desemprego, que bateu seu recorde histórico no continente em 2003.

A concentração de renda, sob os efeitos da financeirização das suas economias, fez com que o segmento mais rico tenha renda 20 vezes superior ao que recebe os que estão entre os 40% mais pobres. A perspectiva é desalentadora, porque a desigualdade é muito alta. Sem programas econômicos centrados na distribuição de renda, e não na estabilidade monetária e no ajuste fiscal, essa situação assustadora tende a piorar. Segundo o BID, a proliferação da violência está associada ao aumento da miséria e da indigência no continente.

Uma de cada três crianças tem fome e 60% delas são pobres na América Latina, apesar da enorme capacidade do continente de produzir alimentos. A cada ano, 190 mil crianças latino-americanas morrem por males ligados à pobreza, que poderiam ser evitados. Atualmente, cerca de 40 milhões de crianças vivem ou trabalham nas ruas da América Latina. Somente na América Central, mais de dois milhões de crianças estão no mercado de trabalho. A cifra de crianças é igual à de adultos desempregados, o que significa que, caso se evitasse que as crianças trabalhassem, esses adultos teriam acesso aos empregos. No entanto, os empregadores preferem as crianças, porque estas não gozam de direitos trabalhistas e acabam sendo remuneradas bem abaixo do que os mais velhos.

Somente na favelas brasileiras residem 6,5 milhões de pessoas, mais do que o dobro da população do Uruguai. Em Buenos Aires e nos seus subúrbios, as “vilas miséria” abrigam 1,3 milhão de habitantes.

Entre 1999 e 2002, a taxa de pobreza aumentou de 43% a 44% e a indigência chegou a 19,4%. Daí que a maioria da população latino-americana rejeita o sistema político, econômico e social existente, que os analistas confundem com rejeição da democracia. A pergunta das pesquisas não deveria ser se gostam da democracia, mas se gostam do tipo de sistema em que vivem: essa é a rejeição da maioria dos latino-americanos.

 

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História”

 

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