
Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso
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IBN RUSCHD - AVERR�ES
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Abul Walid Muhammad Ibn Achmed, Ibn Mohammad Ibn
Ruschd, fil�sofo, astr�nomo jurista �rabe, nasceu em C�rdoba, em 1125, e morreu no
Marrocos, em 1198. Averr�es, como � conhecido no ocidente, recebeu a educa��o
alcor�nica tradicional em sua cidade natal, onde seu pai e seu av� foram cadi
(juiz civil), e desempenhou um papel importante na hist�ria pol�tica da Andalusia.
Dedicou-se � jurisprud�ncia, medicina e matem�tica, assim como � filosofia e �
teologia. Com a idade de 27 anos, Averr�es foi convidado pelo governante almoada em
Marrakesh para ajud�-lo a estabelecer instutui��es educacionais isl�micas. Ibn
Tufayl, o grande fil�sofo mu�ulmano da corte almoada, apresentou-o ao sult�o Abu Yaqub,
um pr�ncipe interessado em quest�es filos�ficas e conhecedor de Arist�teles e Plat�o.
Averr�es foi indicado cadi em Sevilha com a idade de 44 anos. Naquele ano ele traduziu e resumiu o livro de Arist�teles, "De Anima", que depois foi traduzido para o latim. Dois anos mais tarde, ele foi transferido para C�rdoba, sua cidade natal, onde passou dez anos como juiz naquela cidade. Durante esses dez anos, Averr�es escreveu coment�rios sobre a obra de Arist�teles, inclusive a "Metaf�sica". Mais tarde foi chamado de volta a Marrakesh para trabalhar como m�dico do califa.
Durante os governos de Abu Yaqub Yusuf e de seu filho, Yaqub al-Mansur, ele gozou de extraordin�ria simpatia da corte e execeu diversos cargos importantes em Marrocos, Sevilha e C�rdoba. Mais tarde, caiu em desgra�a e foi banido juntamente com outros s�bios. Um pouco antes de sua morte, o Edito contra os fil�sofos foi revogado, mas muitos de seus trabalhos sobre l�gica e metaf�sica haviam sido destru�dos pelo fogo.
Segundo Jos� Silveira da Costa, em Averr�is, O Aristotelismo Radical, "a opini�o predominante na hist�ria do pensamento isl�mico ocidental apresenta Averr�es como um grande s�bio e fil�sofo, consagrado � reflex�o, ao estudo e � investiga��o racional, preocupado com a observa��o direta dos fen�menos naturais e, igualmente, como um mu�ulmano fiel e um grande trabalhador."
Seus "Coment�rios", sobre Arist�teles, sua obra filos�fica e seus tratados sobre teologia chegaram at� n�s atrav�s de tradu��os latinas e hebraicas. Os "Coment�rios", que lhe deram o t�tulo de "Cr�tico", s�o de tr�s esp�cies: uma pequena par�frase ou an�lise, uma exposi��o breve do texto e uma exposi��o mais ampla, e que s�o conhecidas como Coment�rios Menores, M�dios e Maiores, respectivamente. Nenhum deles � de import�ncia para a cr�tica textual de Arist�teles, uma vez que Averr�es, n�o sendo versado em grego ou cir�aco, baseou toda a sua exposi��o numa tradu��o �rabe imperfeita da vers�o cir�aca do texto grego. No entanto, foram de grande import�ncia na determina��o da interpreta��o cient�fica e filos�fica de Arist�teles. Seus tratados filos�ficos originais incluem: "Destructio Destructiones", uma refuta��o ao "Destrui��o dos Fil�sofos", de al-Ghazali, publicado em latim, em Veneza; dois tratados sobre a uni�o dos intelectos ativo e passivo, tamb�m publicado em latim, emVeneza; tratados l�gicos sobre as diferentes partes do "Organon", publicado em Veneza; tratados m�dicos baseados na "F�sica", de Arist�teles; um tratado em resposta a Avicena; e um outro sobre a concord�ncia entre a filosofia e a teologia, sendo que estes dois �ltimos s� existem os textos em hebraico e �rabe.
Averr�es foi criticado por muitos s�bios mu�ulmanos por causa da resposta dada a al-Ghazali em "Destructio Destructiones", o qual, no entanto, exerceu uma profunda influ�ncia no pensamento europeu, pelo menos at� o in�cio da filosofia moderna e da ci�ncia experimental. Suas opini�es sobre destino eram que o homem n�o tem o controle total sobre seu destino e nem o destino � completamente predeterminado.
Averr�es tinha grande considera��o por Arist�teles, cuja palavra era para ele a express�o mais elevada da verdade em quest�es de ci�ncia e filosofia. Nesta admira��o exagerada para o fil�sofo, ele foi muito al�m do que qualquer outro estudioso.
Averr�es defendeu o princ�pio da verdade em duas partes, afirmando que a religi�o tem uma esfera e a filosofia tem outra. A religi�o, dizia ele, � para as multid�es incultas; a filosofia para uns poucos escolhidos. A religi�o ensina por interm�dio de sinais e s�mbolos; a filosofia apresenta a verdade por si mesma. Mas, embora o fil�sofo perceba que o que � verdade na teologia � falso na filosofia, ele n�o deve, por causa disso, condenar a instru��o religiosa, porque assim privaria o povo do �nico meio pelo qual ele pode alcan�ar o conhecimento (simb�lico) da verdade.
A filosofia de Averr�es, como a de todos os outros fil�sofos �rabes, � uma mistura do aristotelismo com o neo-platonoismo. Nela encontramos a doutrina da eternidade da mat�ria como um princ�pio positivo do ser; o conceito de uma multid�o de esp�ritos ordenados hierarquicamente entre Deus e a mat�ria e a media��o entre eles; a nega��o da Provid�ncia no sentido mais comumente aceito; a doutrina de que cada uma das esferas celestes � animada; a no��o da emana��o ou extra��o, como um substituto da cria��o; e, finalmente, a glorifica��o do conhecimento m�stico (racional) como a aspira��o m�xima da alma humana, em suma,todos os elementos caracterizadamente plat�nicos e que os �rabes acrescentaram ao aristotelismo puro.
O que � peculiar na interpreta��o que Averr�es faz de Arist�teles, � o significado que ele d� � doutrina aristot�lica do Intelecto Ativo e Passivo. Seu predecessor, Avicena, ensinou que, enquanto o Intelecto Ativo � universal e separado, o Intelecto Passivo � individual e inerente � alma. Averr�is afirma que tanto o Intelecto Ativo como o Intelecto Passivo s�o separados da alma individual e s�o universais, isto �, um para todos os homens. Ele acha que Alexandre de Afrod�sia estava errado ao limitar o Intelecto Passivo a uma simples disposi��o e que os "outros comentaristas" (talvez Themistius e Theophrastus) erravam ao descrev�-lo como uma subst�ncia individual dotada de disposi��es; ele afirma, ao inv�s, que � uma disposi��o em n�s, mas pertencente a um intelecto fora de n�s. Os termos passivo, poss�vel e material, s�o usados sucessivamente por Averr�es para designar essas esp�cies de intelecto, que, em �ltima an�lise, se prescindirmos das disposi��es de que ele fala, � o pr�prio Intelecto Ativo. Al�m disso, Averr�es tamb�m fala do Intelecto Adquirido, referindo-se � mente individual em comunica��o com o Intelecto Ativo. Portanto, conquanto o Intelecto Ativo seja numericamente um, existem tantos intelectos adquiridos quanto sejam as almas individuais com as quais o Intelecto Ativo estabelece contato. (Os escol�sticos falam de um prolongamento do universal com a mente individual, traduzindo literalmente do �rabe, que aqui siginifica contiguidade, ao inv�s de uni�o). O sol, por exemplo, na medida em que � e permanece uma fonte de luz, multiplica-se e se transforma em muitas fontes de luz, e, assim, ilumina muitos corpos; o mesmo acontece com a mente universal e as mentes individuais que entram em contanto com ela. A precariedade desta doutrina, como uma explica��o psicol�gica da origem do conhecimento � n�o considerar os fatos da consci�ncia, que indicam que n�o � simplesmente uma disposi��o individual, e sim um princ�pio ativo individual, que entra em a��o e que se expressa pela palavra "Penso!". Um outro ponto � que deixa sem resposta a quest�o da imortalidade da alma individual.
Na verdade, Averr�es admitia abertamente sua inabilidade em lidar com as bases filos�ficas da doutrina da imortalidade individual, satisfazendo-se em mant�-la como um dogma religioso. A maior influ�ncia de Averr�es foi como cr�tico. Suas doutrinas tiveram um destino variado nas escolas crist�s. Primeiro, elas asseguram uma certa quantidade de adeptos, depois, aos poucos, sua incompatibilidade com os ensinamentos crist�os tornou-se aparente e finalmente, devido � revolta do Renascimento em rela��o � Escol�stica, elas garantiram, mais uma vez, uma audi�ncia tempor�ria. Seus coment�rios, no entanto, alcan�aram um sucesso imediato e duradouro. S�o Tom�s de Aquino usou o "Grande Coment�rio" de Averr�es como seu modelo, sendo, � primeira vista, o primeiro escol�stico a adotar aquele estilo de exposi��o; e embora rebatesse os erros de Averr�es, e tenha dedicado diversos tratados com essa finalidade, ele sempre falava do cr�tico �rabe como um dos que tinha corrompido a tradi��o peripat�tica mas cujas palavras, no entanto, deveriam ser tomadas com respeito e considera��o. O mesmo pode ser dito sobre as refer�ncias de Dante a ele. Foi ap�s S�o Tom�s de Aquino e Dante que Averr�es come�ou a ser apresentado como o "arqui-inimigo da f�".
Um exame cuidadoso de sua obra, no entanto, revela que ele era profundamente religioso. Como exemplo, encontramos em seus escritos que "qualquer um que estude anatomia aumentar� sua f� na onipot�ncia e unicidade de Deus, o Todo Poderoso." Em sua obra m�dica e filos�fica,percebemos a profundidade de sua f� e conhecimento do Alcor�o e das sunas, que muitas vezes ele cita para amparar seus pontos de vistas em diferentes assuntos. Averr�es disse que a felicidade verdadeira para o homem pode ser alcan�ada atrav�s da sa�de ps�quica e mental e que as pessoas n�o podem usufruir de uma sa�de psicol�gica se n�o seguirem os caminhos que levam � felicidade na outra vida, e que acreditem em Deus e na Sua unicidade.
Averr�es dizia que o Islam objetiva o conhecimento verdadeiro, que � o conhecimento de Deus e de Sua cria��o. Este conhecimento verdadeiro tamb�m inclui o conhecimento dos v�rios meios que levam � satisfa��o mundana e evitam a mis�ria na outra vida. Este tipo de conhecimento pr�tico abrange dois ramos: (1) a jurisprud�ncia, que lida com os aspectos materiais e tang�veis da vida humana; e (2) as ci�ncias espirituais, que lidam com quest�es como paci�ncia, gratid�o a Deus e moral. Ele compara as leis espirituais � medicina em seu efeito sobre os seres humanos do ponto de vista f�sico e do ponto de vista moral e espiritual. Ele assinalou que a sa�de espiritual � chamada de "taqwa" (tem�ncia a Deus) no Alcor�o.
Averr�es � tido como um dos maiores pensadores e cientistas do s�culo XII. De acordo com Philip Hitti, ele influenciou o pensamento ocidental at� o s�culo XVI. Sua obra foi inclu�da em muitas universidades europ�ias at� o surgimento das ci�ncias experimentais modernas.
FONTES:
Averr�is, o Aristotelismo Radical - Jos� Silveira da Costa
Enciclop�dia Cat�lica
The Origins of the Islamic State - Philip Hitti - Universidade de Col�mbia NY