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AS CRUZADAS

 

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O Cruzado errante, s�c. XIX,
Rheinisches Landesmuseum, Bona

Introdu��o

Em novembro de 1095, o papa Urbano II fez um importante pronunciamento ao final do Conc�lio realizado em Clermont, na Fran�a. Nesse Conc�lio ele mobilizou a nobreza europ�ia ocidental, os francos, para que fossem para o Oriente, a fim de ajudar seus irm�os crist�os, os bizantinos, contra os ataques dos turcos mu�ulmanos. Aparentemente ele os estava encorajando a libertar Jerusal�m, a cidade mais sagrada e querida da cristandade, da domina��o dos mu�ulmanos, que a governavam desde que havia sido tomada dos crist�os bizantinos, em 638.

A resposta ao discurso de Urbano deve ter assustado o pr�prio papa. Uma grande quantidade de francos, entre nobres e plebeus, responderam ao seu chamado com grande entusiasmo e, em grandes ondas, partiram em dire��o ao Oriente. Al�m de todas as expectativas mais otimistas, eles retomaram Jerusal�m em julho de 1099, estabelecendo muitos estados cruzados que duraram por quase dois s�culos. Deixaram sua marca no imagin�rio ocidental, que perdura at� os dias de hoje. Criaram um legado permanente para as culturas crist� e mu�ulmana. Como qualquer grande evento hist�rico, alguns dos legados foram positivos e outros foram negativos. E come�aram um movimento que, de acordo com muitos historiadores, durou muito al�m da Idade M�dia.


O que foram as Cruzadas? Quem participou delas? Por que elas aconteceram?

Antecedentes pol�ticos e militares

Para responder � primeira quest�o, precisamos considerar, primeiramente, a hist�ria da Europa e do Oriente M�dio no mil�nio anterior a 1095.

No primeiro s�culo da era crist�, o cristianismo surgiu na Palestina e se espalhou rapidamente por todo o Imp�rio Romano. Ao final do s�culo IV, o Imp�rio Romano tornou-se oficialmente crist�o, como resultado de uma atividade mission�ria pac�fica, oriundo de dentro da sociedade. A Palestina e a S�ria, situadas dentro das fronteiras do Sacro Imp�rio Romano, tornaram-se predominantemente crist�s (a popula��o judia de Jerusal�m havia sido dispersada pelas autoridades romanas e somente uns poucos judeus permaneceram na regi�o).

No s�culo VII, o Islam surgiu na pen�nsula ar�bica. Como o cristianismo, o Islam oficialmente condenava as convers�es for�adas, mas instru�a seus seguidores a assegurar que o mundo isl�mico se mantivesse  sob o controle pol�tico e militar dos fi�is. O Islam irrompeu por toda a Ar�bia e rapidamente controlou o Oriente M�dio. Biz�ncio e a P�rsia, os dois maiores imp�rios da �poca, estavam desgastados por conflitos prolongados entre si. A primeira a sucumbir foi a P�rsia, seguida do imp�rio bizantino, que foi derrotado e aniquilado em 636. Jerusal�m se renderia em 638. Por todo o s�culo VII, os ex�rcitos �rabes avan�aram inexoravelmente para o norte e oeste. 

No in�cio do s�culo VIII, as for�as �rabes alcan�aram o Estreito de Gibraltar e, em 711, cruzaram a Espanha europ�ia e destru�ram os visigodos crist�os. Em 712, alcan�aram o centro da Pen�nsula Ib�rica e em 730 estavam atacando o cora��o da Fran�a, quando foram derrotados em Tours, interropendo o avan�o mu�ulmano em dire��o norte.

Pelos pr�ximos 300 anos, crist�os e mu�ulmanos se envolveram numa luta prolongada, incluindo o cerco de Constantinopla pelos �rabes, em 717-718, e a tomada da Sic�lia e de outras ilhas do Mediterr�neo, no s�culo IX, pelos mu�ulmanos. Durante o s�culo X, os bizantinos alcan�aram algumas pequenas vit�rias para o imp�rio, mas n�o conseguiram retormar Jerusal�m.

Em meados do s�culo XI, os �rabes foram substitu�dos na lideran�a do Islam  pelos turcos, que haviam se convertido ao Islam. Os turcos desorganizaram as estruturas pol�ticas e sociais da regi�o e criaram consider�veis embara�os para os peregrinos ocidentais. At� ent�o, os governantes �rabes tinham sido tolerantes com os interesses crist�os nos lugares sagrados (a �nica exce��o foi o Califa Hakim, o Louco, que no come�o do s�culo XI destruiu igrejas e perseguiu judeus e crist�os). Na segunda metade do s�culo XI, muitos peregrinos seguiam para os lugares sagrados somente em grandes grupos armados, grupos esses que em muito j� davam sinais do que viriam a ser as pr�ximas cruzadas.

Os turcos tamb�m impuseram uma nova amea�a aos bizantinos. Em 1071, eles enfrentaram e derrotaram o ex�rcito bizantino na Batalha de Manzikert, pr�ximo � Arm�nia, deixando todo o imp�rio, na �sia Menor, exposto e sem defesa. Os turcos logo se estabeleceram em Nic�ia, pr�ximo a Constantinopla. No mesmo ano, os normandos do sul da It�lia, liderados por Robert Guiscard, derrotaram os bizantinos em Bari e os expulsaram do territ�rio italiano.

A coroa bizantina foi contestada tanto por Manzikert como por Bari; o vitorioso foi Alexius Comnenus, um soldado capaz e diplomata inteligente. Percebendo que o imp�rio estava em situa��o periclitante, ele enviou um desesperado pedido de socorro ao Ocidente, principalmente ao Papa. Greg�rio VII pensou logo em mandar uma expedi��o para ajudar os bizantinos. No entanto, ele estava por demais preocupado com o imperador Henrique IV e a Controv�rsia da Investidura e com o crescimento do poder normando sob a lideran�a de Robert Guiscard, no sul da It�lia, para atender ao pedido de forma mais concreta.

Alexius continuou a apelar ao Ocidente, mas, na primavera de 1095, o Papa Urbano II permitiu a presen�a de delegados bizantinos no Conc�lio de Piacenza e deu sua autoriza��o para aqueles nobres que estivessem inclinados a atender ao pedido de Alexius. Em seguida, foi para a Fran�a para resolver alguns problemas ligados � Igreja. Em novembro desse mesmo ano, ele estava em Clermont e foi l� que ele pronunciou seu discurso que contagiou o imagin�rio do Ocidente.

N�o se sabe exatamente o que Urbano tinha em mente quando conclamou os nobres para as expedi��es ao Oriente. Parece pouco prov�vel que Urbano vislumbrasse ondas de camponeses francos viajando para Jerusal�m. Alexius tinham pedido um grande contingente de mercen�rios, principalmente normandos, para se apresentarem e servirem ao ex�rcito bizantino. Urbano possivelmente pensasse em alguma coisa um pouco mais elaborada do que aquilo - entre outras coisas, � prov�vel que esperasse que uma expedi��o ao Oriente, realizada sob a lideran�a papal e composta de nobres de diversas partes da Europa ocidental, fortaleceria sua posi��o na Controv�rsia da Investidura com o Santo Imp�rio Romano.

A Primeira Cruzada

Nem Alexius, nem Urbano, conseguiram executar exatamente o que tinham em mente. Um grande n�mero de cavaleiros e camponeses pobres responderam  ao chamado e partiram imediatamente sem qualquer preparativo pr�vio. Essa esp�cie de participa��o n�o era o que eles esperavam e ningu�m estava preparado para lidar com eles.

Pelo caminho, alguns desses cruzados despreparados massacraram judeus alem�es, na suposi��o de que a batalha contra os inimigos de Cristo devia come�ar em casa. Quando os cruzados chegaram � �sia Menor no ano seguinte, foram rapidamente massacrados pelos turcos. Os bar�es francos, acostumados � guerra e aos seus preparativos necess�rios, esperaram pelo momento oportuno para a partida. No ver�o de 1096, eles partiram com grandes contingentes de soldados e seguiram por  diferentes caminhos. Nenhum rei participou dessa cruzada e a lideran�a dos contingentes coube a diversos nobres e a um representante do Papa. Os mais conhecidos foram Bohemond de Taranto, Raymond de Toulouse, Hugh de Vermandois, Godofredo de Bouillon, Baldwin de Boulogne, Robert de Flandres e Robert da Normandia. O representante do papa foi o bisto Adhmar, de Le Puy.

Depois de uma viagem longa e penosa, finalmente, no ver�o de1099, os primeiros cruzados  alcan�aram Jerusal�m e a ocuparam. O resultado final da Primeira Cruzada foi o estabelecimento de quatro "estados" latinos, ou "reinos", no Oriente M�dio: o Condado de Edessa, o Principado de Antioquia, o Condado de Tripoli e o Reino de Jerusal�m, a quem coube uma certa preponder�ncia sobre os outros tr�s.

� um fato curioso que a tomada de Jerusal�m n�o tenha causado uma agita��o maior no mundo mu�ulmano e raramente � mencionado nas cr�nicas mu�ulmanas da �poca. N�o foi sen�o mais tarde, que os mu�ulmanos decidiram retomar Jerusal�m dos crist�os pela segunda vez.

As Cruzadas e  as   Contra-Cruzadas

Enquanto isso, os sucessores de Zangi, como Nur ad-Din, continuavam investindo contra os estados cruzados. Depois da morte de Nur ad-Din, a lideran�a isl�mica ficou com o oficial curdo, Salah ud-Din, ou Saladino, como � mais conhecido no Ocidente. Saladino foi um dos maiores generais mu�ulmanos e tinha uma personalidade admir�vel e carism�tica. Em 1187 ele aprisionou todo o ex�rcito do Reino de Jerusal�m nas montanhas pr�ximas ao mar da Galil�ia e o aniquilou. Em poucos meses ele retomava todo o reino, com exce��o do porto mar�timo de Tiro e o castelo das proximidades.  Mas Tiro n�o resistiu por muito tempo e o Ocidente, mais uma vez,veio em socorro dos estados cruzados, realizando a Terceira Cruzada. Liderada por Ricardo Cora��o de Le�o, da Inglaterra, Felipe II da Fran�a e Frederico, Barba Ruiva, conseguiram retomar uma grande parte do territ�rio perdido. Apesar dos esfor�os de Ricardo Cora��o de le�o, Jerusal�m n�o foi retomada. Tanto Ricardo quanto os bar�es locais concordaram que a menos que o poder eg�pcio estivesse em m�osde aliados, Jerusal�m n�o poderia ser retomada, mesmo que pudesse ser capturada.

Em1198, chegou ao poder o papa Inoc�ncio III. Ele tinha um particular interesse nas cruzadas e um de seus primeiros atos foi promover a Quarta Cruzada. Esta cruzada sofreu uma s�rie de contratempos e jamais alcan�ou a Terra Santa. A interven��o dos interesses comerciais venezianos e dos pr�ncipes bizantinos deserdados, desviou a aten��o do governo de Biz�ncio, o que determinou, em 1204,  a captura e o saque desastroso de Constantinopla. Embora os bizantinos recuperassem sua capital em 1261, a Quarta Cruzada s� trouxe preju�zo ao Imp�rio. Quando ela terminou, os atritos e desentendimentos entre o Ocidente e o Oriente, que tinham come�ado com a Primeira Cruzada, transformaram-se em �dio permanente.

Desapontado, Inoc�ncio come�ou os preparativos para uma outra cruzada, mas ele morreu antes que pudesse empreend�-la. A Quinta Cruzada foi direcionada contra o Egito, tendo em vista a realidade estrat�gica que Ricardo havia notado e quase foi um sucesso, mas, no final, acabou em derrota tamb�m.

As Sexta, S�tima e Oitava Cruzadas cumpriram alguns objetivos limitados. Nenhuma delas foi realmente vitoriosa, embora a S�tima Cruzada, em especial, liderada pelo Rei Lu�s IX, da Fran�a, tenha chegado at� n�s como um epis�dio rom�ntico, igual, em muitos aspectos, � Terceira Cruzada. Enquanto isso, a Contra-Cruzada mu�ulmana se recuperava  do rev�s sofrido na Terceira Cruzada e, em 1291, os crist�os foram expulsos de suas �ltimas fortalezas. O cristianismo perdia, uma vez mais, a Terra Santa.

Tendo tomado a iniciativa, os mu�ulmanos a conservaram. Os europeus ocidentais j� n�o mais tinham interesse nas cruzadas, a menos que vivessem em regi�es fronteiri�as com os mu�ulmanos e, por outro lado, Fran�a e Inglaterra estavam come�ando a Guerra dos Cem Anos, um conflito que iria absorver todos os seus recursos. Algumas outras cruzadas foram empreendidas em 1365 (Cruzada de Alexandria), em 1396 (Cruzada de Nic�polis) e 1444 (Cruzada de Varna). Mas os turcos pareciam cada vez mais invenc�veis. Em 1453, eles tomaram Constantinopla dos �ltimos sobreviventes do Imp�rio Bizantino, colocando um fim a quase 2.000 anos de governo romano no Oriente.

As �ltimas Cruzadas.

Costuma-se achar que as Cruzadas terminaram em 1291, com a perda da Terra Santa. Estudiosos modernos t�m argumentado que os homens medievais podem ter achado que as expedi��es empreendidas a outros lugares tivessem o mesmo peso e prest�gio das antigas Cruzadas. Fontes prim�rias confirmam que muitos, sen�o todos os mecanismos administrativos que apoiaram as Cruzadas no Oriente, tamb�m apoiaram cruzadas a outros lugares. Atualmente, muito poucos estudiosos se apegam � no��o de que as Cruzadas morreram com a perda da Terra Santa. O que se percebe � que a id�ia das cruzadas evoluiu e se adaptou �s novas circunst�ncias e necessidades, permanecendo viva durante a Idade Moderna.

A pen�nsula ib�rica tinha sido palco de luta constante desde que os �rabes mu�ulmanos a invadiram em 711. Por volta da metade do s�culo XI, for�as crist�s conseguiram recuperar quase metade da pen�nsula e os papas, a fim de ajud�-las em sua luta, tinham disponibilizado indulg�ncias para aqueles que viessem de outras terras para ajudar os espanh�is em seu objetivo de reconquista. Em alguns aspectos, ent�o, pode-se afirmar que a Reconquista foi a verdadeira "Primeira Cruzada".

Quando em 1140, depois da queda de Edessa,  S�o Bernardo pregou a Segunda Cruzada, os espanh�is pediram e receberam privil�gios para um esfor�o renovado contra os mu�ulmanos. Al�m disso, os sax�es receberam alguns privil�gios em raz�o de uma cruzada contra os vizinhos pag�os. Portanto, a Segunda Cruzada foi, de fato, um terceiro front de guerra e embora tenha contribu�do para a sua derrota final, tamb�m estabeleceu o precedente de que as cruzadas poderiam ser oficialmente empreendidas em �reas que n�o a Terra Santa.

Um outro passo na evolu��o das cruzadas chegou no in�cio do s�culo XIII. Uma heresia manique�sta, cujos seguidores eram conhecidos como os c�taros, ou albigenses, surgiu no sul da Fran�a.  Espalhou-se rapidamente e mostrou-se imposs�vel de ser extirpada atrav�s de meios comuns, como a persuas�o. Finalmente, Inoc�ncio III declarou uma cruzada contra aqueles her�ticos, tornando a Cruzada Albigense a primeira contra inimigos internos do cristianismo, ao inv�s dos habituais inimigos externos.

Por todo esse per�odo, o papado manteve um longo conflito com o Santo Imp�rio Romano, iniciado primeiramente na pen�nsula it�lica. Em per�odos de grandes necessidades, os papas algumas vezes iriam empreender cruzadas contras seus inimigos pol�ticos nesses conflitos, o que acabou desvirtuando o ideal primeiro das cruzadas e trazendo descr�dito a elas.

Enquanto isso, os bispos germ�nicos  come�aram um trabalho mission�rio entre os pag�os da regi�o dos Balc�s. Alguns prussianos, lituanos e livonianos (povo que vivia na regi�o que hoje corresponde � Est�nia) realmente se converteram, mas seus vizinhos infi�is muitas vezes os perseguiram e assassinaram, tanto convertidos quanto mission�rios. Finalmente, os mission�rios pediram ajuda para proteger seus convertidos e os cruzados, originariamente germanos, responderam ao chamado.

Logo uma ordem militar, os Cavaleiros Teut�nicos, envolveu-se na regi�o e uma cruzada b�ltica contra os pag�os se iniciou. Este conflito foi marcado por um n�vel de selvageria muito maior do que na Terra Santa. A civiliza��o dos prussianos e lituanos pag�os eram bem inferior � dos relativamente sofisticados crist�os germanos por um �nico aspecto, o m�tuo respeito que muitas vezes marcou os contatos entre turcos e francos esteve praticamente ausente na regi�o dos Balc�s. E, como bem pode imaginar-se, a proibi��o crist� contra convers�es for�adas foi esquecida.

Os Cavaleiros Teut�nicos estabeleceram "Estados-Ordem" na Pr�ssia e em Liv�nia, e logo sua pol�tica de cruzadas imbricou-se com a pol�tica externa desses estados. Muitas vezes os Cavaleiros empreenderam cruzadas contra os crist�os, inclusive contra os cat�licos e os russos ortodoxos. Ocasionalmente, o papado tentava refre�-los, mas sem muito sucesso.

Ao final do s�culo XIV, os lituanos se converteram em massa ao cristianismo e as coroas da Pol�nia e da Litu�nia se unificaram pelo casamento. Este poder combinado mostrou ser demais para os Cavaleiros Teut�nicos. Em 1410, eles foram derrotados na Primeira Batalha de Tannenberg e deixaram de ser os principais atores na regi�o. No s�culo seguinte, os prussianos e os Cavaleiros Teut�nicos da Livonia converteram-se ao luteranismo e fundaram  ducados seculares.

Os cruzados tamb�m foram chamados para lutar contra os hussitas da Bo�mia, no s�culo XV. Os hussitas eram seguidores do reformador bo�mio, Jan Hus, que foi declarado her�tico e queimado em 1415. Muitos bo�mios, motivados por raz�es pol�ticas e religiosas, revoltaram-se contra seus governantes germ�nicos cat�licos e formaram uma esp�cie de rep�blica. Muitas cruzadas foram empreendidas contra eles mas todas fracassaram. Finalmente, as Cruzadas Hussitas terminaram com um acordo.

Antecedentes adicionais

Deste relato, poderia parecer que as Cruzadas fossem simplesmente uma quest�o pol�tico-militar. No entanto, este n�o foi o caso. Havia muitos outros elementos que levaram ao fen�meno da cruzada, que envolveu a participa��o de crist�os na guerra organizada por conta de sua religi�o e de seu Deus.

No come�o, o cristianismo tinha um comportamento ambivalente em rela��o � guerra. O pacifismo nunca foi a posi��o oficial da Igreja, embora houvesse sempre uma fac��o pacifista dentro do cristianismo, alguns dos primeiros convertidos crist�os eram soldados e aparentemente permaceram em seus postos depois da convers�o (Atos 10). Depois que o governo romano tornou-se oficialmente crist�o, no entanto, os oficiais crist�os precisavam de orienta��o para o uso da viol�ncia. Em resposta a essa necessidade, a doutrina da Guerra Justa evoluiu. Afirmava que a viol�ncia era um mal, mas reconhecia que a passividade em face da viol�ncia dos outros poderia ser um mal maior. Consequentemente, tr�s condi��es principais foram estabelecidas e se essas condi��es fossem encontradas, os crist�os poderiam se engajar na guerra sem temer o fogo eterno. A guerra devia ter uma Causa Justa, precisava ser feita sob a Autoridade Devida e os combatentes crist�os precisavam ter Inten��es Corretas.

A estrutura teol�gica da Guerra Justa � complicada mas, em resumo, significava que a guerra, seja para evitar uma prov�vel inj�ria, seja para corrigir uma inj�ria passada, precisava ser feita sob a dire��o e atendendo ao chamado de uma autoridade governamental suprema, e que a viol�ncia empregada n�o fosse excessiva.

Nos s�culos X e XI, in�meros sacerdotes come�arama se preocupar com o estado organizacional e a moral da Igreja. Eles criaram um movimento que finalmente tomou o controle do papado e trouxe uma  mudan�a radical para o cristianismo ocidental.

Uma dessas mudan�as envolvia um ajustamento na doutrina da Guerra Justa. A Igreja e o estado estavam intimamente ligados neste per�odo e alguns pensadores conclu�ram que isto significava a Vontade de Cristo para a humanidade, personificada na Igreja, poderia  avan�ar tamb�m nas estruturas pol�ticas dos povos crist�os. Eles tamb�m teorizavam que a viol�ncia n�o poderia ser simplesmente o mal menor (como a doutrina da Guerra Justa estipulava); a viol�ncia, diziam eles, era moralmente neutra e aqueles que a usassem para o progresso do Reino de Cristo poderia   transform�-la num bem positivo. A doutrina � conhecida como a Guerra Santa.

Uma outra mudan�a envolveu as classes dos nobres guerreiros do Ocidente. Os guerreiros tinha defendido a civiliza��o crist� contra as ondas sucessivas de ataques dos b�rbaros na segunda metade do primeiro mil�nio, mas, no s�culo X, os b�rbaros ou foram domesticados ou destru�dos. Somente os mu�ulmanos, ou "sarracenos", permaneceram. Nas regi�es que estivessem longe da fronteira mu�ulmana, esses nobres guerreiros voltaram suas energias uns contra os outros, ou pior, contra os n�o combatentes pr�ximos a eles. Esta viol�ncia end�mica na sociedade contradizia o ensinamento crist�o e perturbou profundamente alguns sacerdotes mais atentos.

Os monges reformistas esfor�aram-se para pacificar esses nobres guerreiros ingovern�veis. V�rios conc�lios propuseram tr�guas, onde as hostilidades precisavam cessar e estabeleceram que os n�o combatentes (camponeses, cl�rigos, mulheres, comerciantes) n�o podiam ser atacados. Essas tentativas tiveram um sucesso limitado.

Um outro elemento da sociedade europ�ia ocidental, que indubitavelmente influenciou na forma��o das cruzadas, foi a especula��o sobre uma segunda vinda do Cristo. Os estudiosos questionam sobre a import�ncia desse fator, mas parece prov�vel que, pelo menos algumas pessoas acreditassem que Jerusal�m precisava ser retomada pelos crist�os antes que o Cristo retornasse e algumas pessoas (principalmente entre as classes mais baixas) tinham uma vaga id�ia mental de "Jerusal�m", que conflitava a cidade terrestre na Palestina e a Jerusal�m Celeste. Se era ruim ter os descrentes controlando a cidade terrena, muito pior era que eles governassem a cidade celeste.

Fatores s�cio-econ�micos tamb�m contribu�ram para a forma��o das Cruzadas. Na segunda metade do primeiro mil�nio, europeus ocidentais adotaram in�meras inova��es agr�colas. � prov�vel que essas inova��es tenham aumentado a produ��o de alimentos, o que, por sua vez, deve ter determinado o aumento da popula��o, disponibilizando a for�a masculina para as expedi��es (e possivelmente criando press�o sobre os recursos existentes que, de acordo com alguns historiadores, levaram os homens a come�ar a procurar por aventuras externas). Al�m disso, a ascens�o de uma classe de nobres menores, que coletavam e dispunham da produ��o local com relativa efici�ncia pode ter contribu�do, colocando recursos nas m�os das pessoas que realmente podiam ajudar nas cruzadas.

Alguns estudiosos deram muito import�ncia � id�ia de que os cruzados ganharam fortunas oriundas das Cruzadas e que muitos desses cruzados foram motivados pela gan�ncia e fome de poder. As fontes prim�rias n�o amparam essa id�ia, porque parece que as cruzadas foram uma proposi��o cara, perigosa, dif�cil e solit�ria. S�o poucos os que aceitam essa explica��o hoje.

Existem outros fatores que levaram �s Cruzadas, mas os descritos acima foram os mais importantes. Deve-se ter em mente que as Cruzadas foram um enorme fen�meno complexo, que se espalhou por muitas terras, durante  s�culos. Muitas motiva��es para as cruzadas existiram e muitas provavelmente coexistiram dentro das mentes dos cruzados.

Cruzadas - Votos e Privil�gios

Independente da motiva��o, um indiv�duo passava por uma cerim�nia espec�fica antes que ele pudesse ser considerado um "cruzado". Esse cerimonial, de uma certa forma, evoluiu no decorrer dos s�culos, mas suas linhas  gerais permaneceram as mesmas. Um aspirante a "cruzado" buscava uma autoridade eclesi�stica (um padre, um bispo) e jurava realizar "peregrina��o" armada em defesa dos Lugares Sagrados. De um modo geral, ele recebia uma capa com uma cruz que ele colocava sobre suas roupas para significar sua nova condi��o.

Os votos eram tomados normalmente em resposta a um pedido oficial de uma cruzada, feito por um cl�rigo licenciado. Eles s� podiam ser feitos por lutadores ou por aqueles que, de outra maneira, contribu�ssem para o esfor�o militar e n�o podiam ser tomados sem a permiss�o da esposa do cruzado, uma vez que a sua longa aus�ncia a privaria do que delicadamente se chamava "direitos conjugais" (O papa Inoc�ncio III, precisando de tropas para seus objetivos, modificou esta condi��o no s�culo XIII, mas isso violava uma antiga tradi��o da Igreja e as claras inten��es da lei can�nica).

A propriedade do cruzado e a pessoas que nela morassem eram colocadas sob a prote��o da Igreja e ele podia se preparar para partir. Se ele n�o cumprisse seu juramento dentro de um certo per�odo de tempo, ele poderia ser excomungado pela Igreja at� que ele mantivesse a palavra.

Muitas vezes era oferecida aos cruzados que retornavam uma indulg�ncia pela participa��o nas dificuldades da cruzada. A indulg�ncia mais tarde foi vulgarizada e a palavra adquiriu uma conota��o justificadamente ofensiva.

Em resumo, a indulg�ncia afirmava que se um indiv�duo fosse um verdadeiro penitente de seus pecados ele poderia obter a remiss�o ou o perd�o para as faltas temporais, desempenhando algumas tarefas �rduas, virtuosas ou desagrad�veis, como compensa��o pelos pecados. Esta remiss�o se aplicaria �s penalidades impostas pela Igreja na terra e poderia ser tamb�m aplicada para as penalidades impostas pela Igreja no outro mundo.

Muitas das pessoas naquela �poca tinham um profundo interesse pelo seus destinos no outro mundo e a indulg�ncia foi um incentivo poderoso para a participa��o nas cruzadas. Foi especialmente eficaz entre os povos a quem a Igreja tentava recrutar, como os bar�es, por exemplo, que eram guerreiros valentes mas que usavam sua compet�ncia para alvos il�citos, como lutar contra outros crist�os, e que, por consequ�ncia, tinham a consci�ncia pesada.

Deve ser notado tamb�m, que cruzados n�o faziam votos para "ir �s cruzadas". O termo cruzada em qualquer l�ngua � uma inven��o posterior. O que chamamos de "cruzadas", naquela �poca era conhecido como "peregrina��o" ou, mais simplesmente, "viagens".

Legado

A Espanha completou sua Reconquista em 1492, ao derrotar o reino mu�ulmano de Granada e finalmente recuperar a pen�nsula que tinha sido ocupada pelos mu�ulmanos desde 711. Os longos s�culos de cruzadas afetaram a Espanha e explicam muito das atividades da Espanha moderna. � interessante notar que Crist�v�o Colombo queria em parte encontrar um novo caminho para Jerusal�m e em parte adquirir fortuna que possibilitasse os reis cat�licos de Espanha levar sua Reconquista atrav�s do norte da �frica e em dire��o a Jerusal�m. Outros conquistadores foram aparentemente motivados pelas mesmas raz�es e a armada espanhola enviada contra a Inglaterra protestante, em1588, tinha muitos dos aspectos legais de uma cruzada.

As cruzadas continuaram a ser invocadas, como a de 1683, quando o rei polon�s Jan Sobieski liderou uma para o resgate de Viena, salvando-a de um cerco promovido pelos turcos otomanos. Depois de 1700, contudo, a amea�a do mundo mu�ulmano come�ou a diminuir consideravelmente e com isso os �ltimos vest�gios das cruzadas organizadas come�aram a desaparecer.






Copyright (C) 1997, Paul Crawford. Este arquivo pode ser copiado sob a condi��o de que seu conte�do, inclusive o t�tulo e este aviso de copyright, permane�am intactos.

 

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