As Testemunhas de Jeová e a Questão do Sangue

O SANGUE é vital à vida. Embora isto já seja reconhecido desde os tempos antigos, a pesquisa moderna propicia maior entendimento das suas funções sustentadoras da vida.

A prática de transfundir sangue humano ocupa um lugar destacado nos cuidados médicos modernos. Os que fazem parte do setor médico, e muitos outros, consideram a transferência de sangue de um humano para outro como método terapêutico aceitável. Mas, há pessoas que não aceitam transfusões de sangue. São as Testemunhas de Jeová.

As Testemunhas de Jeová prezam e respeitam profundamente a vida. Esta é uma das razões pelas quais não fumam, não usam tóxicos, nem praticam abortos. Aprenderam, pela Bíblia, a considerar a vida como sendo sagrada, algo a ser protegido e preservado, tanto para elas mesmas como para seus filhos.

Por que, então, as Testemunhas de Jeová objetam às transfusões de sangue? Existe alguma base racional para tal convicção, que elas sustentam até mesmo em face da morte? E é sua posição sobre o assunto totalmente incompatível com os conhecimentos e os princípios modernos da medicina?

Este tópico deve interessar a todos da classe médica, pois, a qualquer hora, um médico pode confrontar a questão da transfusão de sangue. Isto é bem possível, visto haver mais de dois milhões de Testemunhas de Jeová em toda a terra. É provável que algumas delas morem em sua comunidade. O que se segue foi escrito a fim de ajudar os médicos a compreender as Testemunhas de Jeová como pacientes, e para que considerem como é possível haver uma adequação razoável do conceito delas. Primeiramente examinaremos a base religiosa da posição delas. Daí, consideraremos a ética envolvida e algumas descobertas e observações recentes, da parte de médicos habilitados, que possam ser de valor prático na solução dos problemas relativos ao uso do sangue.

Mesmo as pessoas que não fazem parte do setor médico são convidadas a examinar este assunto importante. A posição que as Testemunhas de Jeová assumem quanto ao sangue envolve realmente direitos e princípios que podem atingir a cada um de nós. E o conhecimento daquilo em que elas crêem, e da razão disso, ajudarão a pessoa a obter melhor entendimento desta questão que amiúde tem preocupado médicos, juristas e estudiosos da Bíblia. Quais, então, são os fatores básicos da questão?

A BASE RELIGIOSA

A maioria dos médicos encaram o uso do sangue como sendo essencialmente uma questão de critério médico, como as suas decisões diárias quanto ao uso de certos remédios ou processos cirúrgicos. Outros talvez encarem a posição das Testemunhas de Jeová como sendo mais uma questão de ordem moral ou legal. Talvez pensem em termos do direito à vida, da autoridade de fazer decisões sobre o próprio corpo, ou das obrigações civis do governo de proteger a vida de seus cidadãos. Todos estes aspectos têm que ver com o assunto. Todavia, a posição assumida pelas Testemunhas de Jeová é sobretudo religiosa; é uma posição baseada no que a Bíblia diz.

Muitos talvez se indaguem sobre a validez da declaração acima. Estão a par de que numerosas igrejas apóiam o uso do sangue, estabelecendo programas de bancos de sangue e incentivando a doação de sangue. Assim sendo, surge logicamente a pergunta:

O que diz a Bíblia sobre as criaturas humanas receberem sangue em seus corpos?

Até mesmo pessoas que não consideram pessoalmente a Bíblia como sendo a inspirada palavra de Deus têm de admitir que ela tem muito o que dizer sobre o sangue. Desde o primeiro livro da Bíblia até o último, menciona-se o “sangue” mais de quatrocentas vezes. Certos versículos da Bíblia são especialmente pertinentes à questão de sustentar a vida com sangue. Examinemo-los brevemente:

O registro bíblico mostra que, bem cedo na história da humanidade, o Criador e Dador da Vida expressou-se sobre a questão do sangue. Logo depois do dilúvio global, quando Deus concedeu pela primeira vez aos humanos o direito de comerem carne animal, ele ordenou a Noé e sua família: “Todo animal movente que está vivo pode servir-vos de alimento. Como no caso da vegetação verde, deveras vos dou tudo. Somente a carne com a sua alma — seu sangue — não deveis comer.” — Gênesis 9:3, 4.

Primeiro de tudo, o Criador provia um regulamento alimentar numa ocasião em que a humanidade tinha um novo começo. (Compare com Gênesis 1:29.) Deus mostrou, contudo, que, ao matar os animais para obter alimento, havia algo mais envolvido, além da dieta. Isto se dava porque o sangue duma criatura representava sua vida ou sua alma. Destarte, algumas traduções da Bíblia traduzem Gênesis 9:4 assim: “Somente não comereis da carne ainda com sua vida, isto é, o sangue.” — Tradução do Pontifício Instituto Bíblico de Roma; Almeida.

Assim, este regulamento divino não era simples restrição dietética, tal como o conselho dum médico a um paciente para que evite o sal ou as gorduras. O Criador vinculou ao sangue um princípio moral de suma importância. Ao derramar todo o sangue que pudesse ser razoavelmente escoado, Noé e seus descendentes manifestariam seu respeito pelo fato de que a vida procedia do Criador e dependia dele. Mas, examinemos mais este assunto.

O texto supracitado se aplica ao sangue animal. Será que o mesmo princípio se aplicaria ao sangue humano? Sim, com ainda maior força. Pois Deus prosseguiu dizendo a Noé: “Além disso, exigirei de volta vosso sangue das vossas almas. . . . Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue, pois à imagem de Deus fez ele o homem.” (Gênesis 9:5, 6) Bem, se o sangue animal (representando a vida animal) tinha significado sagrado para Deus, obviamente o sangue humano tinha um significado sagrado de ainda maior valor. As pessoas que obedecessem a estas orientações divinas não derramariam o sangue dos (não matariam) humanos, nem comeriam quer sangue animal quer humano.

No entanto, era esta ordem dada a Noé apenas uma restrição limitada ou temporária? Vigora para as gerações posteriores, inclusive para a nossa?

Muitos peritos bíblicos reconhecem que Deus delineou aqui um regulamento que se aplicava, não apenas a Noé e sua família achegada, mas a toda a humanidade desde esse tempo — em realidade, todos os que vivem desde o Dilúvio pertencem à família de Noé. (Gênesis 10:32) Por exemplo, João Calvino, teólogo e reformador, reconheceu quanto à proibição do sangue que “esta lei foi dada ao mundo inteiro, logo depois do dilúvio”. E Gerhard von Rad, professor da Universidade de Heidelberg, refere-se a Gênesis 9:3, 4, como “um estatuto para toda a humanidade”, porque toda a humanidade descende de Noé.

Visto que a lei sobre o sangue foi vinculada à declaração de Deus que sublinhava a alta consideração pela vida humana, podemos avaliar as observações do Rabino Benno Jacob:

“Assim, as duas proibições são da mesma classe. Constituem as exigências mais elementares de humanidade, no sentido literal da palavra. . . . A permissão de se comer carne, mas sem seu sangue, e a proibição de derramar-se sangue humano, indicam o lugar do homem dentro do mundo dos viventes . . . Em suma: a razão da proibição do sangue tem caráter moral. . . . Mais tarde, o judaísmo considerava este trecho como estabelecendo a ética fundamental para todo ser humano.” (Grifo acrescentado)

Com efeito, judeus posteriores compuseram, da primeira parte de Gênesis, sete “leis básicas” para a humanidade, e esta ordem dada a Noé e seus filhos sobre o sangue era uma delas.5 Sim, apesar de a maioria das nações não a seguirem, tratava-se realmente de uma lei para toda a humanidade. — Atos 14:16; 17:30, 31.

Mais tarde, em sua lei dada à nação de Israel, Jeová Deus proibiu o assassínio, comprovando que o mandado que ele dera a Noé ainda vigorava. (Êxodo 20:13) De forma correspondente, Deus também proibiu o consumo do sangue, afirmando:

“Quanto a qualquer homem da casa de Israel ou algum residente forasteiro que reside no vosso meio que comer qualquer espécie de sangue, eu certamente porei minha face contra a alma que comer o sangue e deveras o deceparei dentre seu povo.” — Levítico 17:10.

Os israelitas só tinham permissão de usar o sangue animal de uma forma. Esta era para oferecê-lo como sacrifício a Deus, reconhecendo-o como o Dador da Vida, a quem estavam endividados. Ele lhes disse: “A alma da carne está no sangue, e eu mesmo o pus para vós sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas, porque é o sangue que faz expiação pela alma [ou vida] nele.” — Levítico 17:11.

Que dizer do sangue dos animais mortos como alimento, e não para sacrifício? Deus disse a seus adoradores que o caçador que pegasse um animal selvagem ou uma ave “neste caso tem de derramar seu sangue e cobri-lo com pó. Pois a alma de todo tipo de carne é seu sangue pela alma nele. Por conseguinte, eu disse aos filhos de Israel: ‘Não deveis comer o sangue de qualquer tipo de carne, porque a alma de todo tipo de carne é seu sangue. Quem o comer será decepado da vida.’” — Levítico 17:13, 14; Deuteronômio 12:23-25.

Tal derramamento do sangue não era simples ritual religioso; era, em realidade, uma extensão da lei divina fornecida a Noé. Ao matar um animal, a pessoa deve reconhecer que a vida dele provém de Deus e pertence a Ele. Por não comer o sangue, mas ‘derramá-lo’ sobre o altar ou no solo, o israelita, com efeito, devolvia a vida dessa criatura a Deus.

Mostrar um israelita desrespeito pela vida, conforme representada pelo sangue, era considerado erro seríssimo. A pessoa que deliberadamente desconsiderasse esta lei sobre o sangue deveria ser ‘decepada da vida’, executada. (Levítico 7:26, 27; Números 15:30, 31) Certa medida de culpa resultaria de se comer até mesmo a carne, que contivesse sangue, dum animal que morresse por si mesmo ou que fosse morto por um animal selvagem. — Levítico 17:15, 16; compare com Levítico 5:3; 11:39.

Poderia a lei de Deus quanto ao sangue ser posta de lado em ocasiões de emergência?

A Bíblia responde que Não. Não havia nenhuma dispensa especial para tempos de grande estresse. Podemos ver isso pelo que ocorreu com alguns soldados de Israel, nos dias do Rei Saul. Famintos após longa batalha, eles mataram ovelhas e gado bovino e os ‘foram comer junto com o sangue’. Estavam famintos e não comiam deliberadamente o sangue, mas, na pressa de comer a carne, não se certificaram de que os animais fossem devidamente sangrados. Será que o fato de parecer tratar-se duma “emergência” desculpava seu proceder? Pelo contrário, seu rei designado por Deus reconheceu a ação deles como sendo ‘pecado contra Jeová, comer junto o sangue’. — 1 Samuel 14:31-35.

Será que esta aversão correta ao sangue também se aplica ao sangue humano?

Sim. E isso é inteiramente compreensível, pois a lei de Deus proibia o consumo de “qualquer espécie de sangue”, do “sangue de qualquer tipo de carne”. (Levítico 17:10, 14) Podemos ver como a nação judaica considerava esta lei por considerarmos um incidente que envolvia alguns dos judeus que tinham seguido e ouvido a Jesus. Em certa ocasião, ele falou figuradamente sobre ‘beber-se seu sangue’, pois sabia que, com o tempo, seu sangue seria derramado numa morte sacrificial e que isso resultaria em vida para aqueles que, com fé, aceitassem seu sacrifício. (João 6:53-58) Não compreendendo, evidentemente, que Jesus falava em sentido simbólico, alguns de seus discípulos judaicos ficaram chocados com as palavras dele e deixaram de segui-lo. (João 6:60-66) Sim, a idéia de ingerir sangue humano era completamente detestável para tais adoradores judaicos de Deus.

QUE DIZER DOS CRISTÃOS?

A lei mosaica apontava para a vinda e a morte sacrificial do Messias. Por isso, depois que Jesus morreu, os adoradores verdadeiros não mais estavam obrigados a cumprir a lei mosaica. (Romanos 10:4; 6:14; Colossenses 2:13, 14) As restrições dietéticas da Lei, tais como as que proibiam comer gordura ou a carne de certos animais, não eram mais obrigatórias. — Levítico 7:25; 11:2-8.

Assim, aplica-se aos cristãos a proibição divina sobre o sangue?

Este assunto mereceu consideração em 49 E.C., durante uma conferência dos apóstolos e anciãos de Jerusalém, que serviam como o corpo central de anciãos para todos os cristãos. A conferência foi realizada em resposta a uma questão sobre a circuncisão. Este concílio apostólico decidiu que os não-judeus que aceitaram o cristianismo não tinham de ser circuncidados. Durante a discussão, Tiago, meio-irmão de Jesus, trouxe à atenção do concílio outras coisas essenciais que ele julgou importante que incluíssem em sua decisão, a saber, “que se abstenham das coisas poluídas por ídolos, e da fornicação, e do estrangulado, e do sangue”. (Atos 15:19-21) Ele se referiu aos escritos de Moisés, que revelavam que, mesmo antes de ser dada a Lei, Deus desaprovava as relações sexuais imorais, a idolatria e o comer sangue, o que incluiria comer a carne, que continha sangue, de animais estrangulados. — Gênesis 9:3, 4; 19:1-25; 34:31; 35:2-4.

A decisão do concílio foi enviada, por carta, às congregações cristãs. Acha-se agora incluída na Bíblia, como parte das Escrituras inspiradas, que são proveitosas “para ensinar . . . para endireitar as coisas”. (2 Timóteo 3:16, 17) A decisão foi:

“Pareceu bem ao espírito santo e a nós mesmos não vos acrescentar nenhum fardo adicional, exceto as seguintes coisas necessárias: de vos absterdes de coisas sacrificadas a ídolos, e de sangue, e de coisas estranguladas, e de fornicação. Se vos guardardes cuidadosamente destas coisas, prosperareis.” — Atos 15:28, 29.

Sim, muito embora os cristãos não estivessem sob a lei mosaica, era “necessário” que se abstivessem do sangue. Tratava-se apenas da opinião pessoal dos apóstolos? De forma alguma. Conforme declararam, essa decisão fora feita em harmonia com o espírito santo de Deus.

A respeito desse decreto cristão, o Professor Walther Zimmerli, da Universidade de Gottingen, Alemanha, comentou:

“A primeira congregação cristã-judaica, na decisão relatada em Atos 15, fez uma distinção entre a Lei dada a Israel, mediante Moisés, e a ordem dada [mediante] Noé a todo o mundo.” — Zürcher Bibelkommentare.6

A ordem de ‘abster-se do sangue’ não era simples restrição dietética, mas era sério requisito moral, conforme visto por ser tão sério para os cristãos quanto ‘absterem-se da idolatria ou da fornicação’.

OS CRISTÃOS PRIMITIVOS E O SANGUE

O concílio de Jerusalém enviou esta decisão explícita às congregações cristãs, com resultados positivos. Lemos em Atos, capítulo 16, a respeito de Paulo e seus associados: “Enquanto viajavam através das cidades, entregavam aos que estavam ali, para a sua observância, os decretos decididos pelos apóstolos e [anciãos] que estavam em Jerusalém. Portanto, as congregações continuavam deveras a ser firmadas na fé e a aumentar em número, dia a dia.” — Atos 16:4, 5.

Era a decisão registrada em Atos 15:28, 29 um simples requisito temporário, e não uma obrigação que continuava a vigorar para os cristãos?

Algumas pessoas sustentam que o decreto apostólico não era uma obrigação permanente para os cristãos. O livro de Atos, porém, indica claramente o contrário. Mostra que, cerca de dez anos depois de o concílio de Jerusalém expedir tal decreto, os cristãos continuavam a obedecer à “decisão, de que se guardem do que é sacrificado a ídolos, bem como do sangue, e do estrangulado, e da fornicação”. (Atos 21:25) Isto mostra que estavam cônscios de que a exigência de se absterem do sangue não se limitava aos conversos gentios em certa área, nem se aplicava apenas a um curto período.

Mas, qual era a situação nos séculos posteriores, quando o cristianismo se difundiu a lugares distantes? Consideremos a evidência dos séculos que se seguiram à publicação do decreto registrado em Atos 15:28, 29.

Eusébio, escritor do terceiro século, que é considerado o “pai da história da Igreja”, relata o que ocorria em Lião (agora em França) no ano 177 E.C. Os inimigos religiosos acusaram falsamente os cristãos de comer crianças. Durante a tortura e execução de alguns cristãos, uma jovem chamada Bíblias respondeu à falsa acusação, dizendo: “Como podemos comer crianças — nós, a quem não é nem lícito comer o sangue de animais?”7

Acusações falsas similares moveram o teólogo latino, Tertuliano (c. 160-230 E. C.), a apontar que, embora os romanos comumente bebessem sangue, os cristãos certamente não bebiam. Escreve ele:

“Corai de vergonha pelos vossos modos desnaturais, diante dos cristãos. Nós nem mesmo temos o sangue dos animais em nossas refeições, pois estas consistem em alimentos comuns. . . . Nos julgamentos dos cristãos, oferecei-lhes chouriços cheios de sangue. Estais convictos, naturalmente, de que a própria coisa com a qual tentais fazê-los desviar-se do caminho correto lhes é ilícita. Como é, então, que, quando estais confiantes de que ficarão horrorizados diante do sangue dum animal, credes que se deliciarão ansiosamente com o sangue humano?”8

Também, referindo-se ao decreto de Atos 15:28, 29, ele afirma: “O interdito do ‘sangue’, nós entenderemos como sendo [um interdito] ainda mais do sangue humano.”9

Minúcio Félix, advogado romano que viveu até cerca de 250 E.C., frisa o mesmo ponto, escrevendo: “Evitamos tanto o sangue humano que não usamos o sangue nem mesmo dos animais comestíveis em nossa alimentação.”10

A evidência histórica é tão abundante e clara que o Bispo John Kaye (1783-1853) pôde declarar categoricamente: “Os Cristãos Primitivos obedeciam escrupulosamente ao decreto proclamado pelos Apóstolos em Jerusalém, de abster-se das coisas estranguladas e do sangue.”11

Mas, são os ‘cristãos primitivos’ e as Testemunhas de Jeová dos tempos modernos os únicos que adotaram tal conceito baseado na Bíblia?

De jeito nenhum. Comentando Atos 15:29, o perito bíblico católico, Giuseppe Ricciotti (1890-1964) se refere ao incidente de Lião (já descrito antes) como evidência de que os primitivos ‘cristãos não podiam comer sangue’. Daí, acrescenta, “mas, até mesmo nos séculos que se seguiram, até à Idade Média, encontramos ecos inesperados desta primitiva ‘abominação’ [ao sangue], devida inquestionavelmente ao decreto”.12

Exemplificando: O Concílio Qüinissexto, realizado em 692 E. C. em Constantinopla, declarou: “A Escritura divina nos manda abster-nos do sangue, das coisas estranguladas, e da fornicação. . . . Se alguém, daqui por diante, aventurar-se a comer de qualquer modo o sangue dum animal, se for um clérigo, que seja destituído; se for um leigo, que seja extirpado.”13 Similarmente, Otto de Bamberg (c. 1060-1139 E. C.), famoso prelado e evangelista, explicou aos conversos na Pomerânia “que não deveriam comer nenhuma coisa imunda, ou que morresse por si mesma, ou que fosse estrangulada, ou sacrificada aos ídolos, ou o sangue de animais”.14

Chegando mais perto de nossos tempos, Martinho Lutero também reconheceu as implicações do decreto de 49 E. C. Ao protestar contra as práticas e crenças católicas, inclinava-se a agrupar o concílio apostólico com concílios eclesiásticos posteriores, cujos decretos não faziam parte da Bíblia. Ainda assim, Lutero escreveu a respeito de Atos 15:28, 29:

“Daí, se quisermos ter uma igreja que se ajuste a este concílio (visto ser correto, uma vez que é o primeiro e o principal concílio, e foi realizado pelos próprios apóstolos), temos de ensinar e insistir que doravante, nenhum príncipe, senhor, burguês, ou campônio, coma gansos, corça, veado, ou leitão cozinhado em sangue, . . . E os burgueses e campônios têm de abster-se especialmente da morcela e do chouriço com sangue.”15

No século dezenove, Andrew Fuller, considerado como “talvez o mais eminente e influente dos teólogos batistas”, escreveu a respeito da proibição do sangue, de Gênesis 9:3, 4:

“Isto, sendo proibido a Noé, parece também ter sido proibido a toda a humanidade; nem deve tal proibição ser considerada como cabendo às cerimônias da dispensação judaica. Não só foi ordenada antes que tal dispensação existisse, mas também foi imposta aos cristãos gentios pelos decretos dos apóstolos, Atos XV. 20. . . . O sangue é a vida, e Deus parece reivindicá-la para si mesmo como sagrada.”16

Poderia o cristão pretender que o exercício do que alguns chamam de “liberdade cristã” lhe devia permitir ignorar esta proibição do sangue? Em seu livro The History of the Christian Church (A História da Igreja Cristã), o clérigo William Jones (1762-1846) responde:

“Nada pode ser mais explícito do que a proibição, Atos XV. 28, 29. Podem aqueles que alegam sua ‘liberdade cristã’ com respeito a este assunto indicar-nos qualquer parte da Palavra de Deus em que esta proibição tenha sido subseqüentemente anulada? Se não puderem, talvez nos seja permitido perguntar: ‘Com que autoridade, exceto a dele mesmo, pode qualquer das leis de Deus ser anulada?’” — P. 106.

A conclusão é clara: Sob a orientação do espírito santo, o concílio apostólico decretou que os cristãos que desejam ter a aprovação de Deus têm de ‘abster-se do sangue’, como Deus exige desde os dias de Noé. (Atos 15:28, 29; Gênesis 9:3, 4) Este conceito bíblico era aceito e seguido pelos cristãos primitivos, mesmo quando fazê-lo lhes custava a vida. E, através dos séculos, tal requisito tem sido reconhecido como “necessário” para os cristãos. Assim, a determinação das Testemunhas de Jeová de abster-se do sangue se baseia na Palavra de Deus, a Bíblia, e é apoiada pelos muitos precedentes na história do cristianismo.

O SANGUE COMO REMÉDIO

Até este ponto, estabelecemos que a Bíblia exige o seguinte: Um humano não deve sustentar sua vida com o sangue de outra criatura (Gênesis 9:3, 4) Quando se tira a vida dum animal, o sangue que representa tal vida deve ser ‘derramado’, sendo devolvido ao Dador da Vida. (Levítico 17:13, 14) E, conforme decretado pelo concílio apostólico, os cristãos devem ‘abster-se do sangue’, o que se aplica tanto ao sangue humano como ao sangue animal. — Atos 15:28, 29.

Será que estas declarações bíblicas, contudo, se aplicam à aceitação da transfusão de sangue como um processo médico que salva a vida?

Algumas pessoas contendem que a Bíblia proíbe a ingestão de sangue como alimento, e que isto difere fundamentalmente de se aceitar uma transfusão de sangue, um processo médico que não era conhecido nos tempos bíblicos. É válida tal posição?

Não se pode negar que, nos tempos bíblicos, a lei de Deus tinha aplicação específica ao consumo do sangue como alimento. A administração intravenosa de sangue não era praticada então. Mas, muito embora a Bíblia não considerasse diretamente as técnicas médicas modernas que envolvem o sangue, ela, com efeito, as antecipou e abrangeu, em princípio.

Note, para exemplificar, a ordem para que os cristãos persistam em ‘abster-se do sangue’. (Atos 15:29) Não se declara nada aqui que justifique uma distinção entre tomar sangue pela boca ou recebê-lo nos vasos sanguíneos. E, realmente, existe qualquer diferença básica, em princípio?

Os médicos sabem que uma pessoa pode ser alimentada pela boca ou intravenosamente. De forma similar, certos remédios podem ser ministrados por vários meios. Alguns antibióticos, por exemplo, podem ser tomados por via oral, em forma de cápsulas, ou injetados nos músculos da pessoa ou no seu sistema circulatório (intravenosamente). Que dizer se tivesse tomado certa cápsula de antibiótico e, por manifestar perigosa reação alérgica, fosse avisado de que deveria abster-se de tal droga no futuro? Seria razoável considerar que tal aviso médico significava que não mais poderia tomar tal droga em forma de cápsula, mas poderia injetá-la seguramente em sua corrente sanguínea? Dificilmente! O ponto principal não seria a via de administração, mas que deveria abster-se completamente desse antibiótico. Similarmente, o decreto de que os cristãos têm de ‘abster-se do sangue’ abrange de modo claro receber sangue no corpo, quer pela boca, quer diretamente na corrente sanguínea.

Quão importante é esta questão para as Testemunhas de Jeová?

As pessoas que reconhecem sua dependência do Criador e Dador da Vida devem estar determinadas a obedecer às suas ordens. Esta é a posição firme que as Testemunhas de Jeová assumem. Estão plenamente convictas de que é correto obedecer à lei de Deus que ordena a abstenção do sangue. Nisso, não seguem um capricho pessoal ou algum conceito fanático e sem base. É por obediência à autoridade suprema do universo, o Criador da vida, que elas se recusam a introduzir sangue em seus sistemas, quer por comê-lo, quer pela transfusão.

A questão do sangue para as Testemunhas de Jeová, portanto, envolve os princípios mais fundamentais sobre os quais elas, como cristãos, baseiam sua vida. Sua relação com seu Criador e Deus está em jogo. Ademais, crêem de todo o coração nas palavras do salmista: “As decisões judiciais de Jeová são verdadeiras; mostraram-se inteiramente justas. . . . Há grande recompensa em guardá-las.” — Salmo 19:9, 11.

Algumas pessoas que só olham para os efeitos a curto prazo de suas decisões talvez duvidem de que obedecer à lei de Deus sobre o sangue possa ser considerado ‘recompensador’. Mas as Testemunhas de Jeová estão seguras de que obedecer às orientações de seu Criador é para o seu bem duradouro.

Os cristãos primitivos também pensavam assim. A história mostra que sua obediência a Deus às vezes era provada ao máximo. No Império Romano, foram submetidos a grande pressão para realizar atos de idolatria ou para empenhar-se em imoralidade. Sua recusa em ceder poderia significar ser lançados na arena romana a fim de ser despedaçados por animais ferozes. Mas, tais cristãos se apegaram à sua fé; obedeceram a Deus.

Pense só no que isso envolvia. Para os cristãos primitivos que eram pais, a recusa de violar a lei de Deus talvez significasse a morte de seus filhos. Todavia, sabemos pela história que tais cristãos não voltaram, temerosamente e sem fé, suas costas para Deus e para os princípios segundo os quais viviam. Criam nas palavras de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem exercer fé em mim, ainda que morra, passará a viver.” (João 11:25) Por isso, apesar do custo imediato, tais cristãos obedeceram ao decreto apostólico de abster-se das coisas sacrificadas aos ídolos, da fornicação e do sangue. A fidelidade a Deus significava tanto assim para eles.

Hoje em dia, também significa tanto assim para as Testemunhas de Jeová. Elas sentem corretamente uma obrigação moral de fazer decisões, quanto à adoração, para si mesmas e para seus filhos. Por esse motivo, as Testemunhas de Jeová não pedem a outrem, quer seja um médico, um administrador hospitalar ou um juiz, que faça tais decisões morais por elas. Não desejam que outrem tente assumir sua responsabilidade perante Deus, pois, na realidade, nenhuma outra pessoa pode fazê-lo. Trata-se duma responsabilidade pessoal do cristão para com seu Deus e Dador da Vida.

É A RECUSA UMA FORMA DE SUICÍDIO?

Em face de maciça perda de sangue, resultante de ferimentos, de doença ou de complicações cirúrgicas, amiúde se têm ministrado transfusões de sangue na tentativa de preservar a vida. Por isso, quando as pessoas ouvem dizer que alguém recusa uma transfusão de sangue, talvez imaginem que, na realidade, está tirando sua própria vida. Dá-se isso realmente?

É “suicídio” ou exercer o “direito de morrer” recusar alguém uma transfusão de sangue?

O suicídio é tentar tirar a própria vida. É uma tentativa de autodestruição. Mas, qualquer pessoa que esteja mesmo de leve familiarizada com as crenças e práticas das Testemunhas de Jeová pode ver que elas não tentam autodestruir-se. Embora recusem transfusões de sangue, acolhem a assistência médica alternativa. Um artigo publicado em The American Surgeon (O Cirurgião Estadunidense) comentava de modo correto:

“Em geral, a recusa de cuidados médicos não equivale ao ‘suicídio’. As Testemunhas de Jeová procuram assistência médica, mas recusam somente uma faceta dos cuidados médicos. A recusa dos cuidados médicos ou de partes deles não é um ‘crime’ cometido contra si mesmo por um ato evidente do indivíduo de destruir-se, como é o suicídio.” (Grifo acrescentado.)17

O Professor Robert M. Byrn indicou em Fordham Law Review (Sinopse Jurídica de Fordham) que ‘rejeitar a terapia salvadora e tentar o suicídio são tão diferentes na lei como são as maçãs das laranjas’.18 E, falando a uma conferência médica, o Dr. David Pent, do Arizona, EUA, comentou:

“As Testemunhas de Jeová acham que, caso morram por causa de sua recusa de receber uma transfusão de sangue, morrem devido às suas crenças, quase da mesma forma que os primitivos mártires religiosos o fizeram séculos atrás. Se isto é suicídio médico passivo, há vários médicos na assistência, agora mesmo, que fumam cigarros, isso provavelmente constitui um suicídio igualmente passivo.”19

Que dizer da idéia de que, ao recusarem as transfusões, as Testemunhas de Jeová exercem seu “direito de morrer”? A realidade é que as Testemunhas de Jeová desejam continuar vivas. É por isso que procuram assistência médica. Mas, não podem violar e não violarão suas convicções religiosas arraigadas, e baseadas na Bíblia.

Os tribunais de justiça amiúde têm sustentado o princípio de que toda pessoa tem direito à sua integridade física, querendo dizer que, em última análise, a própria pessoa é responsável de decidir o que será feito com seu corpo. Realmente, não é assim que gostaria que acontecesse, caso ficasse doente ou fosse hospitalizado? Visto que é a sua vida, a sua saúde e o seu corpo, não deveria ter a palavra final quanto a se algo lhe será feito ou não?

Há conseqüências lógicas deste conceito inteligente e de senso moral. Um folheto publicado pela Associação Médica Americana explica: “O paciente tem de ser o árbitro final quanto a se correrá os riscos do tratamento ou da operação recomendada pelo médico, ou se se arriscará a viver sem tal. Este é o direito natural da pessoa, que a lei reconhece.” “Um paciente tem o direito de negar seu consentimento ao tratamento salvador. Assim sendo, pode impor os termos, as condições, e os limites que deseje, ao dar seu consentimento.”20

Isto se aplica à transfusão de sangue, assim como a qualquer outro “tratamento salvador”. O Dr. jur. H. Narr, de Tübingen, Alemanha, declarou: “O direito e o dever de curar do médico é limitado pela liberdade básica do homem, de autodeterminação com respeito a seu próprio corpo. . . . O mesmo se dá com outra intervenção médica, daí, também, com a recusa da transfusão de sangue.”21

Compreensivelmente, algumas pessoas ficam abaladas diante da idéia de alguém recusar sangue, caso isso possa ser perigoso ou até mesmo fatal. Muitos acham que a vida é a coisa principal, que a vida deve ser preservada a todo custo. Na verdade, a preservação da vida humana é um dos interesses mais importantes da sociedade. Mas, deve isto significar que “preservar a vida” vem antes de todo e qualquer princípio?

Em resposta, Norman L. Cantor, Professor Adjunto da Faculdade de Direito de Rutgers, EUA, indicou:

“A dignidade humana é ressaltada por se permitir que o indivíduo determine por si mesmo por que crenças vale a pena morrer. Através das eras, uma multidão de causas nobres, religiosas e seculares, têm sido consideradas como dignas do auto-sacrifício. Por certo, a maioria dos governos e das sociedades, inclusive a nossa, não consideram a santidade da vida como sendo sempre o valor supremo.”22

O Sr. Cantor citou como exemplo o fato de que, durante as guerras, alguns homens voluntariamente enfrentaram ferimentos e a morte ao lutar pela “liberdade” ou pela “democracia”. Será que seus concidadãos encararam tais sacrifícios, a bem de princípios, como sendo moralmente errados? Será que suas nações condenaram tal proceder como ignóbil, visto que alguns dos que morreram deixaram viúvas e órfãos que precisavam de cuidados? Acha que os advogados ou os médicos deveriam ter obtido mandados judiciais para impedir que tais homens fizessem sacrifícios em prol de seus ideais? Daí, não é óbvio de que a disposição de correr riscos por causa de princípios não é exclusividade das Testemunhas de Jeová e dos cristãos primitivos? O fato é que tal lealdade a princípios tem sido altamente respeitada por muitos.

Também, vale a pena tornar a enfatizar que, embora as Testemunhas de Jeová não aceitem transfusões de sangue, acolhem tratamentos alternativos que podem ajudá-las a continuar vivendo. Por que, então, deveria alguém insistir e até mesmo impor certa terapia que viola totalmente os princípios e as mais profundas crenças religiosas duma pessoa?

Todavia, isso tem acontecido. Alguns médicos ou administradores hospitalares até mesmo recorreram aos tribunais para obter autorização legal de impor sangue a uma pessoa. A respeito dos que seguiram este proceder, o Dr. D. N. Goldstein escreveu em The Wisconsin Medical Journal (Revista Médica de Wisconsin), EUA:

“Os médicos que assumem esta posição negaram os sacrifícios de todos os mártires que glorificaram a história com sua suprema devoção aos princípios mesmo ao custo de sua própria vida. Pois os pacientes que preferem a morte certa a violar um escrúpulo religioso são da mesma massa que os que pagaram com sua vida pela fé em Deus, ou que foram para a estaca ao invés de aceitar o batismo [forcado]. . . . O nosso dever é salvar vidas, mas, bem que podemos questionar se não temos também o dever de salvaguardar a integridade e preservar os poucos gestos de autenticidade pessoal que continuam a ocorrer em uma sociedade cada vez mais arregimentada. . . . Nenhum médico deve procurar obter assistência legal para salvar um corpo por destruir uma alma. A vida do paciente pertence a ele mesmo.”23

O PAPEL DO MÉDICO

Já vimos que, por causa de suas fortes crenças religiosas, as Testemunhas de Jeová evitam tanto o alimento que contenha sangue como o sangue ministrado como terapêutica. Mas, como é que tal posição influi em outros, tais como nos médicos que tratam pacientes que são Testemunhas?

Os médicos estão dedicados a salvar ou prolongar a vida. Essa é sua profissão. Por conseguinte, quando um médico acostumado a considerar a transfusão de sangue como prática normal está tratando dum paciente que está gravemente enfermo ou que tenha perdido muito sangue, talvez ache angustiante saber que o paciente recusa o sangue. Ao passo que a consciência biblicamente treinada do paciente não permite a transfusão de sangue, o médico, também, tem sua consciência, e segue uma ética que lhe é extremamente importante.

Deve o médico seguir sua própria formação e suas próprias convicções médicas caso ache que uma transfusão de sangue, embora recusada pelo paciente, é necessária para salvar a vida de tal pessoa?

Não resta dúvida de que, em tais casos, existe uma situação delicada. Mas, cada um de nós pode perguntar: Caso eu estivesse numa situação em que houvesse um conflito entre a minha consciência, como paciente, e a convicção sincera dum médico que me tratasse, que proceder acho eu que deveria ser seguido? Considere as observações feitas pelo Dr. William P. Williamson, no Primeiro Congresso Nacional de Ética e Profissionalismo Médicos:

“Por certo, o primeiro pensamento do médico tem de estar voltado para o bem-estar do paciente. Visto que a vida é uma dádiva do Criador para o indivíduo, a decisão primária cabe de direito ao paciente, visto que o paciente é o depositário de tal dádiva. . . . O médico deve tratar o paciente segundo os ditames da religião do paciente, e não impor suas próprias convicções religiosas ao paciente.” (Grifo acrescentado.)24

Há outra razão, uma razão legal, para não se desprezar a consciência do paciente. Conforme o Professor Byrn escreveu em Fordham Law Review: “. . . Não quero dizer que o médico esteja limitado pela opção do paciente a fazer algo contrário à consciência do médico. . . . Quero realmente dizer que o paciente não está limitado pela consciência do médico a fazer algo contrário à opção do paciente, e, por conseguinte, que o médico poderá ter o direito e a opção de não fazer nada. A lei do consentimento esclarecido não teria nenhum significado se a opção do paciente fosse subserviente ao critério médico consciencioso.” (Grifo acrescentado.)25

Existe a possibilidade de que um médico nesta situação ‘não faça nada’, isto é, se retire do caso; mas, é essa a única alternativa? Em seu artigo “Processos de Emergência Cirúrgica de Testemunhas de Jeová Adultas”, o Dr. Robert D. O’Malley comentou: “A recusa do paciente em aceitar a transfusão de sangue não deve ser usada como desculpa para ser abandonado pela classe médica.”26

O que, então, poderia fazer o médico? O Dr. J. K. Holcomb declarou num editorial duma revista médica:

“Não há dúvida de que nós, como médicos, nos sentimos frustrados, e até mesmo irados, quando um paciente obstinado recusa aceitar o que consideraríamos o regime preferível de terapia. Mas, será que deveríamos honestamente sentir-nos assim quando o paciente cita uma crença religiosa como a base de sua relutância em aceitar determinado tratamento? Se formos honestos com nós mesmos, admitiremos que nos contentamos com algo inferior ao tratamento ideal no caso de muitos pacientes em nossa clínica cotidiana. . . . Se podemos fazer isto por respeito às nossas convicções médicas, não deveríamos nós, da mesma forma, estar dispostos a fazer o melhor que podemos quando as convicções de um paciente, especialmente as religiosas, impedem-nos de oferecer o que consideraríamos a forma desejável de terapia? Em geral, os pacientes que têm razões religiosas para não aceitar transfusões de sangue, etc., estão cônscios dos riscos médicos envolvidos em sua decisão, mas estão dispostos a correr esses riscos e pedem apenas que façamos o melhor que pudermos.”27

Há outra ponderação quanto ao aspecto moral do assunto. John J. Paris, Professor-Adjunto de Ética Social, indicou: “Há grande consenso, tanto na comunidade médica como na moral, de que a pessoa não tem nenhuma obrigação moral de submeter-se ao tratamento médico ‘extraordinário’. E, se o paciente não tem nenhuma obrigação moral de submeter-se ao tratamento ‘extraordinário’ — não importa quão comum seja no exercício regular da medicina — tampouco tem o médico qualquer obrigação moral de fornecê-lo; nem o juiz de ordená-lo.”28 Para as Testemunhas de Jeová, que pautam sua vida pela Bíblia, as transfusões de sangue certamente são um tratamento “extraordinário”. Com efeito, são moralmente proibidas.

COOPERAÇÃO ENTRE PACIENTE E MÉDICO

Todos os interessados neste assunto podem estar certos de que as Testemunhas de Jeová não são fanáticos que se opõem aos cuidados médicos. Lembre-se de que Lucas, que escreveu o relato bíblico do decreto contrário ao sangue, era ele próprio um médico. (Colossenses 4:14) Assim, quando as Testemunhas de Jeová ficam doentes ou sofrem um acidente, não esperam que ocorra alguma “cura pela fé” milagrosa. Antes, procuram socorros médicos. Nisso, não tentam ditar aos médicos como exercer a medicina ou até mesmo como lidar com seu problema específico. A única coisa que solicitam coerentemente aos médicos é que não se use sangue.

As Testemunhas têm elevado respeito pela formação profissional e pelas habilitações das pessoas do setor médico. Apreciam sinceramente os médicos que usam sua perícia para tratar um paciente, mas, que o fazem segundo as crenças conscienciosas do paciente. As Testemunhas reconhecem que é preciso coragem para um médico operar sem estar livre para usar sangue. Também, é preciso certa medida de coragem para contrariar os conceitos dos seus contemporâneos médicos e concordar em exercer a medicina sob condições que possam ser consideradas como abaixo das ideais, em sentido médico.

Naturalmente, as Testemunhas de Jeová estão cônscias de que certos processos cirúrgicos talvez envolvam tanta perda de sangue que um médico talvez creia honestamente que não possam ser realizados nos termos que as Testemunhas apresentam. A maior parte da cirurgia, contudo, pode ser realizada sem sangue. É verdade que os médicos talvez achem que, por não usarem sangue, a operação se torna mais perigosa. Mas, as Testemunhas estão dispostas a enfrentar tais riscos aumentados, com a corajosa ajuda de médicos peritos.

Durante um painel realizado na Universidade de Pensilvânia, EUA, o Dr. William T. Fitz relatou um caso interessante. Envolvia um paciente de 34 anos que sangrava gravemente devido a um tumor no cólon. O rapaz, uma das Testemunhas de Jeová, disse aos médicos que “se submeteria de bom grado a qualquer processo cirúrgico, conquanto não lhe dessem sangue”. Os médicos concordaram em operá-lo, prometendo que não ministrariam sangue. Durante a operação, e depois dela, a perda de sangue foi tão grande que a taxa de hemoglobina do paciente, que normalmente é de 14 ou 15 gramas, caiu para 2,4 gramas. Mas, ele não morreu. Ao invés, sua condição se estabilizou e, daí, seu hematócrito aumentou. Comentando a promessa dos médicos de não lhe ministrar sangue, o Dr. Francis Wood, Diretor do Departamento de Medicina, disse: “Acho que tinham perfeito direito de prometer. O rapaz iria morrer se não o operassem. Ele tinha alguma possibilidade de ficar bom em resultado da operação sem transfusão de sangue; portanto, acho que estavam perfeitamente justificados em lhe dar tal oportunidade, nos próprios termos dele.”29

LIVRAR OS MÉDICOS DA RESPONSABILIDADE

Os médicos acham-se em posição difícil ao tratar de qualquer caso grave, pois deixar de usar todos os recursos disponíveis talvez os envolvam num processo de erro médico. As Testemunhas de Jeová, contudo, estão dispostas a assumir a responsabilidade de sua recusa em aceitar a transfusão de sangue. Assinarão termos de responsabilidade que livrarão a equipe médica e o hospital de qualquer responsabilidade quanto a processos, no caso em que os danos sejam atribuídos a operarem sem sangue.

A Associação Médica Americana recomendou um formulário intitulado “Recusa de Permitir a Transfusão de Sangue” para os pacientes que não querem aceitar sangue devido a crenças religiosas. Reza: “Eu (Nós) solicito(amos) que nenhum sangue ou derivados de sangue sejam ministrados a .................... durante esta hospitalização, não importa que tal tratamento possa ser considerado necessário, na opinião do médico que cuida do caso ou de seus assistentes, a fim de preservar a vida ou promover a recuperação. Eu (Nós) isento(amos) o médico que cuida do caso, seus assistentes, o hospital e sua equipe, de qualquer responsabilidade quanto a quaisquer resultados indesejáveis devido à minha (nossa) recusa de permitir o uso do sangue ou de seus derivados.”30 Este documento deve ser datado e assinado pelo paciente e pelas testemunhas presentes. Um parente próximo, tal como um cônjuge ou genitor (no caso dum filho menor) também poderia assinar o formulário.

A disposição das Testemunhas de Jeová de assumir a responsabilidade pessoal no que tange à sua posição sobre o sangue é indicada ainda mais pelo fato de que a maioria delas carrega um cartão assinado que solicita “Não Admito Transfusão de Sangue!” Tal documento reconhece que o portador compreende e aceita as implicações da recusa do sangue. Assim, mesmo que esteja inconsciente ao ser levado a um médico ou hospital, esta declaração assinada torna clara a sua posição firme.

Poderia um médico ou um hospital ser responsabilizado criminalmente se não der sangue?

Um artigo no University of San Francisco Law Review (Sinopse Jurídica da Universidade de São Francisco) considerou este ponto, com relação aos Estados Unidos. Explicou que o Ministro Warren Burger, que se tornou o Ministro Presidente do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, disse que um processo de erro médico “pareceria sem base” no caso em que se havia assinado um termo de responsabilidade. Continuava o artigo:

“A possibilidade dum processo criminal é ainda mais remota. Um comentarista que pesquisou a literatura relatou: ‘Não consegui encontrar nenhuma autoridade para a declaração de que o médico incorre . . . em responsabilidade criminal por deixar de impor uma transfusão a um paciente não disposto.’ O risco parece ser mais o produto duma mente legal fértil do que uma possibilidade realística.”31

A respeito da situação na Inglaterra, Emergencies in Medical Practice (Emergências no Exercício da Medicina) dizia: “Se se deixou bem clara a posição perante o paciente, e ele morrer sem ser transfundido, não se pode mover nenhum processo contra o médico, pois nenhum paciente é obrigado a preservar sua vida pelo uso de medidas especiais ou extraordinárias.”32

Um médico que espera operar um paciente desejará, naturalmente, explicar de forma clara quais são os possíveis riscos de recusar sangue. Mas, uma vez tenha feito isso, o médico não precisa sentir nenhuma obrigação moral de aprofundar-se no assunto. Por certo, seria falta de ética tentar “cansar” ou atemorizar o paciente a submeter-se a isso, quando ele decidiu resolutamente não aceitar sangue.

Visto que as Testemunhas de Jeová voluntariamente assumem a responsabilidade de sua decisão, os médicos ficam legal e, com efeito, moralmente livres de qualquer obrigação de insistir em dar sangue. E é assim que muitos médicos de ética e sinceros preferem que seja. “Não se pode avisar com demasiada insistência do perigo de se enfraquecer o direito humano de autodeterminação, inclusive o do paciente”, escreveu o cirurgião G. Haenisch, de Hamburgo, Alemanha. “A concessão de autoridade para que o médico realize um tratamento que considera correto, embora seja contrário à vontade do paciente, deve ser rejeitada de forma intransigente.” — Deutsche Medizinische Wochenschrift.33

Em vista deste direito humano, as publicações legais e médicas em alguns países avisam repetidas vezes que a administração duma transfusão contra a vontade dum paciente poderia tornar o médico (ou a equipe hospitalar) criminalmente responsável a um processo de agressão qualificada ou a um justificado processo de erro médico.

O que dizer de se ministrar o sangue sem contar ao paciente, talvez quando ele estiver inconsciente?

Muitos médicos sinceros acham que, em algumas situações, tais como no câncer terminal (fase final), é bondoso não dar ao paciente informações plenas sobre seu quadro clínico. Ao passo que talvez haja opiniões variadas sobre o acerto de se reter pormenores do quadro clínico dum paciente, isso é bem diferente de um médico ministrar deliberadamente um tratamento que sabe que o paciente proibiu. Escrevendo no New York State Journal of Medicine (Revista Médica do Estado de Nova Iorque), o Dr. Bernard Garner e seus colegas sublinharam tal ponto. Reconheceram que, às vezes, um médico tem deixado que um paciente que é Testemunha fique inconsciente e então lhe dado sangue, talvez imaginando: ‘O que ele não sabe não lhe fará mal.’ Mas, concluíram de modo enfático: “Embora o motivo possa ser altruísta, isto seria muitíssimo repugnante, em sentido ético.”34

Por que isto se dá foi esclarecido por Marcus L. Plante, Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Michigan, EUA. Ele escreveu que “o médico mantém uma relação fiduciária [uma baseada em confiança] com seu paciente, e tem obrigação absoluta de jamais enganar o paciente, por palavras ou pelo silêncio, quanto à natureza e ao caráter do processo médico que propõe utilizar”.35

Ademais, em algumas localidades, caso o médico prometa não dar sangue e então, sub-repticiamente o faça, isso é legalmente errado. Por exemplo, na Medical Tribune da Alemanha Ocidental foi indicado que “nada muda quando o paciente fica inconsciente”. Isto se dá porque a ‘recusa de aceitar uma transfusão de sangue, uma vez expressamente declarada por um paciente capaz, também é válida caso ele fique inconsciente’.36 Ressaltando o assunto com mais ênfase, declarou a Suprema Corte de Kansas, EUA:

“. . . Cada homem é considerado dono de seu próprio corpo, e ele pode, se goza de sanidade mental, proibir expressamente a realização duma cirurgia que salve a vida, ou outro tratamento médico. Um médico bem que pode crer que certa operação, ou forma de tratamento, é desejável ou necessária, mas a lei não lhe permite substituir o julgamento do paciente pelo seu próprio, por nenhuma forma de artifício ou de engano.” (Grifo acrescentado.)37

Por conseguinte, ministrar enganosamente uma transfusão de sangue a uma das Testemunhas de Jeová é contrário à ética profissional dos médicos de boa moral. Isso poderia tornar um médico passível dum processo legal.

RESPEITO PELA RESPONSABILIDADE PARENTAL

É provável que o aspecto desse assunto mais altamente carregado de emoções envolva o tratamento duma criança. Todos nós compreendemos que as crianças precisam de cuidado e de proteção. Os genitores tementes a Deus, em especial, avaliam isso. Amam profundamente seus filhos e sentem vividamente sua responsabilidade, dada por Deus, de cuidar deles e de fazer decisões em favor do bem-estar duradouro deles. — Efésios 6:1-4.

Também a sociedade reconhece a responsabilidade parental, admitindo que os genitores são os primariamente autorizados a cuidar de seus filhos e de fazer decisões por eles. Logicamente, as crenças religiosas da família têm que ver com isso. Os filhos são certamente beneficiados se a religião de seus pais sublinha a necessidade de se cuidar deles. Isto se dá com as Testemunhas de Jeová, que de nenhum modo desejam negligenciar seus filhos. Reconhecem que é sua obrigação, dada por Deus, prover alimento, roupa, abrigo e cuidados médicos para eles. Ademais, o genuíno apreço da necessidade de fazer provisões para os filhos também exige inculcar-lhes a boa moral e o respeito pelo que é correto. Como já foi mencionado, os cristãos primitivos eram exemplares nisso; os pais não só ensinavam a seus filhos, mas também viviam pessoalmente segundo os princípios morais que proclamavam. A história relata que famílias inteiras às vezes ficaram expostas à morte nas arenas romanas porque os pais não violavam suas crenças conscienciosas.

Todos estamos a par de que a falta de ensino e exemplo moral dos pais contribui para que muitos jovens, hoje, não possuam quaisquer valores básicos; não acham nada demais pôr em perigo sua saúde e sua vida, bem como a vida de outros, numa busca irrestrita de emoções. Não é muito melhor que os jovens tenham genitores que promovam a boa moral e o respeito pelos princípios elevados? Os pais que são Testemunhas de Jeová mostram grande amor a seus filhos, bem como a Seu Deus, por usarem a Bíblia para ajudar os filhos a se tornarem pessoas de boa moral. Assim, quando tais filhos crescem o suficiente para saber o que a Bíblia ensina sobre o sangue, eles mesmos apóiam a decisão de seus pais de ‘abster-se do sangue’. — Atos 15:29.

Precisa um médico achar que tem de transfundir sangue em uma criança, apesar da vontade resoluta dos pais, e talvez até mesmo da própria criança?

Francamente, em vista do bem-reconhecido direito da responsabilidade parental, a posição moral, baseada em princípios e coerente dum médico é reconhecer a responsabilidade de os pais amorosos e preocupados fazerem decisões para seus filhos menores.

Neste particular, o Dr. A. D. Kelly, Secretário da Associação Médica Canadense, escreveu que “os pais de menores, e o parente próximo de pacientes inconscientes, possuem o direito de interpretar a vontade do paciente, e deveríamos aceitar e respeitar seus desejos. . . . Não admiro os trâmites dum tribunal simulado, convocado às 2 horas da madrugada, para retirar uma criança da custódia de seu genitor”.38

Alguns membros da classe médica e jurídica reconhecem que um adulto capaz tem o direito de recusar uma transfusão de sangue. Mas, sustentam que, se os pais recusam a permissão para seu filho, a transfusão deve ser imposta por mandado judicial. Tal posição, contudo, carece de coerência e harmonia fundamentais, conforme indicado pelo periódico Forensic Science (Ciência Forense):

“Devemos, então, presumir que os tribunais se dispõem a designar para os filhos uma religião diferente da de seus pais, quando as estatísticas mostram que a maioria absoluta dos filhos são criados, e deveras seguem, a mesma denominação religiosa de seus pais? Não eqüivaleria isso também ao cerceamento dos direitos religiosos dos filhos, por parte dos tribunais, os mesmos direitos que o tribunal tenta proteger para os adultos, de acordo com a Primeira Emenda [da Constituição dos EUA], por não permitirem a transfusão quando o adulto tiver objeções? Não estão os tribunais, em essência, designando uma religião aos filhos, se negam as transfusões por motivos religiosos, para os adultos, e as permitem para os filhos desses mesmos adultos?”39

Existe, não raro, outra crassa incoerência moral em impor uma transfusão de sangue a uma criança cujos pais solicitaram que fossem usados outros tratamentos médicos. Em alguns hospitais, os médicos em uma sala talvez imponham uma transfusão a uma criança. Todavia, numa sala vizinha, outros médicos talvez estejam realizando abortos legais, acabando com vidas apenas alguns meses mais jovens do que a criança a quem se impõe sangue ‘para salvar uma vida’. Isto tem levado as pessoas refletidas a imaginar se ‘preservar a vida’ é sempre a verdadeira questão por trás de transfusões impostas.

Considere as implicações do tratamento médico ordenado pelo Estado, que remove à força o direito da responsabilidade parental. Na Escócia, A. D. Farr, conferencista universitário sobre técnicas de transfusão de sangue, escreveu a respeito de impor transfusões a adultos e crianças:

“A decisão superior contrária, com respeito a uma crença religiosa minoritária, se estende à decisão superior contrária ao inteiro princípio de que se permite que um adulto aceite ou rejeite determinada forma de tratamento médico. . . . O Estado está gradualmente assumindo a função decisória do indivíduo. É deste modo que os países livres deixam de ser livres e se tornam totalitários. Foi deveras a tomada das crianças alemãs para o movimento da Juventude Hitlerista que a liberdade e a privatividade foram finalmente suprimidas na Alemanha Nazista. Não se trata de simples especulação fantasiosa. A liberdade é uma possessão preciosa e comparativamente rara, a ser zelosamente guardada naqueles países em que ela existe. Qualquer cerceamento da liberdade individual já é excessivo.”40

Adicionalmente, mesmo que o médico creia sinceramente que a criança precisa duma transfusão de sangue, significa isso que nenhum outro tratamento serviria? Ou significa, ao invés, que ele acha que uma transfusão oferece mais possibilidade de êxito do que os tratamentos alternativos? Neste sentido, um conselho de juízes dos Estados Unidos da América escreveu em “Orientações Para o Juiz em Caso de Mandados Médicos Que Atinjam Crianças”:

“Se existir a opção de processos — se, por exemplo, o médico recomenda certo processo que tenha 80 por cento de possibilidades de êxito, mas que os genitores desaprovam, e os genitores não tenham objeção a certo processo que só tenha 40 por cento de possibilidades de êxito — o médico precisa seguir o proceder mais arriscado, do ponto de vista médico, mas que não inclui objeções por parte dos pais.”41

Estes magistrados também afirmaram que “o conhecimento médico não é suficientemente adiantado para habilitar um médico a predizer, com razoável certeza, que seu paciente viverá ou morrerá, ou que sofrerá permanente deficiência ou deformação física”. Não existe muita verdade nisso? Não sublinham as autoridades médicas que, no máximo, só podem dizer o que parece provável que aconteça? Assim sendo, muitos médicos e cirurgiões respeitados cooperam com as Testemunhas de Jeová, provendo excelentes tratamentos médicos tanto para jovens como para idosos, ao passo que respeitam suas convicções sobre o sangue, alicerçadas na Bíblia.

TRATAR O “HOMEM INTEIRO”

O pessoal do setor médico avalia cada vez mais que é importante lidar com um paciente como um “homem inteiro” ou “como um todo”. O que precisa de tratamento não é apenas uma tireóide ou um fígado, mas a pessoa inteira, uma criatura humana com sentimentos e crenças que, em realidade, podem influir em sua resposta ao tratamento. Num editorial do Texas Medicine, o Dr. Grant F. Begley escreveu que “quando eu trato uma doença que influi no corpo, na mente, e no espírito da pessoa sob meus cuidados, é o que ela crê que é importante. São as crenças dela, e não as minhas, que a fazem sentir medo, dúvida e culpa. Se meu paciente não crê nas transfusões de sangue, não importa o que eu creio sobre elas”.42

Tratar o “homem como um todo” é tanto humano como prático, em vista dos resultados trágicos que podem advir de se agir de outra forma. “O médico perceptivo”, instou o Dr. Melvin A. Casberg em The Journal of the American Medical Association, “tem de estar cônscio destas facetas separadas, mas inter-relacionadas, do corpo, da mente e do espírito, e avaliar que a cura do corpo em face duma mente ou dum espírito esfacelado não é senão uma vitória parcial, ou, até mesmo, completa derrota”.43

Um médico segue assim o proceder sábio e trata o “homem inteiro” quando mostra respeito pelas convicções religiosas de seu paciente quanto ao uso do sangue.

É DESARRAZOADA EM SENTIDO MÉDICO A POSIÇÃO DELAS?

Muito embora a objeção básica das Testemunhas de Jeová às transfusões de sangue seja por motivos religiosos, muitos consideram tal posição como desarrazoada do ponto de vista médico. Mas, será que é? Visto que a posição das Testemunhas quanto ao sangue se relaciona a uma questão médica, há proveito em se examinar brevemente as implicações médicas de se recusar o sangue.

Apenas nos Estados Unidos, no Japão e em França, cerca de 15 milhões de unidades (500 cc. cada uma) de sangue são transfundidas cada ano. É apropriado perguntar: É todo esse sangue ministrado porque é necessário para salvar vidas?

A conclusão tirada por 800 médicos europeus, reunidos em Paris, era a de que “o sangue mui amiúde é considerado um ‘tônico milagroso’ fornecido ao paciente, quer ele precise dele quer não”. Tais médicos desaprovaram, em especial, as transfusões de uma só unidade, que eles disseram ser “inúteis em 99 dentre 100 casos”.44 Um estudo feito nos Estados Unidos sugeria que 72 por cento das transfusões em alguns lugares são ‘desnecessárias ou questionáveis’.45

O Dr. Rune Eliasson, de Estocolmo, Suécia, aventou a opinião de “que muitos médicos, talvez desorientados pelo poder da palavra sobre a mente, permitiram-se ficar facilmente cegados pelo halo que eles próprios colocaram em torno da transfusão de sangue, a ponto de não poderem ver as vantagens e as desvantagens desta forma de tratamento em sua perspectiva correta”.46

Quer concorde quer não com as razões religiosas pelas quais as Testemunhas de Jeová não aceitam transfusões de sangue, as “vantagens e desvantagens desta forma de tratamento” merecem consideração. Isto se dá, em especial, visto que alguns juízes, ao considerarem as transfusões, recomendaram que os desejos dum paciente quanto ao tratamento alternativo fossem seguidos, se houvesse claro risco associado ao tratamento padrão.

O SANGUE — COMPLEXO E ÍMPAR

Ao passo que alguns talvez chamem prontamente a rejeição do sangue de “suicida”, um enfoque razoável do assunto exige que se reconheça que há incertezas e até mesmo perigos inerentes à transfusão de sangue.

Os médicos sabem que o sangue é extremamente complexo. Isto se manifesta até mesmo na questão dos tipos sangüíneos. As obras de referência declaram que há cerca de quinze a dezenove sistemas de grupos sangüíneos conhecidos. Quanto a somente um deles, o sistema do grupo sangüíneo Rh, recente livro sobre o sangue disse que “no tempo atual, cerca de trezentos tipos diferentes de Rh podem ser teoricamente reconhecidos”.47

Outra faceta da complexidade e qualidade ímpar do sangue de cada pessoa é a variedade de anticorpos nele. Numa reunião de cientistas em Zurique, Suíça, um grupo de criminologistas ingleses apontou que os anticorpos são tão diversificados que se poderia dizer que o sangue de cada pessoa é específico e ímpar. Os cientistas esperam poder “reconstruir, à base duma mancha de sangue, a imagem da personalidade de cada pessoa que deixe atrás de si um vestígio de sangue”.48

Ser o sangue um tecido extremamente complexo, que difere de uma pessoa para outra, tem significativa relação com a transfusão de sangue. Este é um ponto que frisou recentemente o Dr. Herbert Silver, do Banco de Sangue e da Divisão de Imunohematologia do Hospital de Hartford (Connecticut, EUA). Ele escreveu que, considerando-se apenas os fatores sangüíneos cujos testes podem ser realizados, “há uma possibilidade de menos de 1 em 100.000 de se dar a uma pessoa o sangue exatamente semelhante ao dela”.49

Por conseguinte, quer nutram objeções religiosas às transfusões de sangue quer não, muitas pessoas talvez rejeitem o sangue simplesmente por se tratar, em essência, de um transplante de órgão que, no máximo, só é parcialmente compatível com seu próprio sangue.

AS TRANSFUSÕES DE SANGUE — QUÃO PERIGOSAS SÃO REALMENTE?

Os médicos sabem que qualquer preparado médico apresenta certa medida de risco, mesmo os remédios comuns como a aspirina e a penicilina. Assim, poder-se-ia esperar que o tratamento com uma substância tão complexa como o sangue humano envolvesse algum perigo. Mas, exatamente quanto perigo? E que relação poderia isso ter com o conceito dum médico sobre a posição assumida pelas Testemunhas de Jeová?

Uma avaliação franca dos fatos prova que a transfusão de sangue deve honestamente ser considerada como um processo que envolve considerável perigo e até mesmo como sendo potencialmente letal.50

O Dr. C. Ropartz, Diretor do Departamento Central de Transfusões em Ruão, França, comentou que “um frasco de sangue é uma bomba”. Visto que os resultados perigosos talvez não surjam senão depois de certo tempo, acrescentou ele, “ademais, pode também ser uma bomba-relógio para o paciente”.51 Uma publicação do Governo dos Estados Unidos estampava um artigo sobre os perigos do sangue e dizia que

“. . . doar sangue pode ser comparado a se enviar uma arma carregada a uma pessoa insuspeita e despreparada. . . . Como a arma carregada, há um pino ou trave de segurança que governa as transfusões de sangue. Mas, quantas pessoas morreram por ferimentos a bala em resultado de crerem que o pino estava ‘seguro’?”52

Podem os médicos entendidos no assunto rejeitar os perigos declarados como sendo exagerados?

Dificilmente, pois, a realidade dos perigos não raro é frisada pelos próprios médicos. “Nenhum produto biológico”, escreveu Winfield S. Miller, em Medical Economics, “tem maior potencial para erros fatais no exercício da medicina do que o sangue. Mais de um médico já aprendeu, para sua tristeza, que cada frasco de sangue nos bancos de sangue é um frasco de nitroglicerina em potencial”.53

O paciente, ou sua família, talvez não compreenda os perigos até que já seja tarde demais. O Dr. J. Garrot Allen, da Universidade de Stanford, EUA, destacado perito no problema sangüíneo, calculou que as transfusões de sangue matam pelo menos 3.500 estadunidenses por ano, e causam danos a outros 50.000.54 Mas, existe forte motivo para se crer que este é, em realidade, um total subestimado. Por exemplo, o Southern Medical Journal sugeriu, em data recente, que o cálculo de “entre 3.000 e 30.000 mortes atribuíveis às transfusões” é, provavelmente, um cálculo moderado.55 E tenha presente que são totais de apenas um país, para não se dizer nada do resto do mundo.

Numa reunião do Colégio Americano de Cirurgiões, o Dr. Robert J. Baker relatou que o ‘perigo de efeitos adversos do sangue é muito maior do que se cria anteriormente, um de cada 20 pacientes apresentando uma reação’. Quantas pessoas discernem isto? Mostrando porque tal relatório devia deixar preocupados a todos nós, o Dr. Charles E. Huggins, diretor-adjunto dum grande banco de sangue, adicionou: “O relatório é atemorizador, mas realístico, porque os mesmos problemas confrontam toda instituição [por todo] o mundo.”56

Há algum alívio em vista? Muitos, talvez até mesmo alguns da classe médica, possivelmente achem que a ciência tem feito verdadeiros progressos em vencer os perigos da transfusão de sangue. Mas, como foi declarado num número recente da revista Surgery (Cirurgia), “grandes problemas novos relacionados à transfusão maciça têm sido propostos, problemas dificilmente considerados, ou não considerados de forma alguma, até mesmo há cinco anos atrás, todavia, que sobrepujam potencialmente quase todos os problemas que deixavam sobressaltada a consciência dos técnicos de bancos de sangue, dos clínicos e dos pesquisadores nos primeiros 40 anos dos bancos clínicos de sangue”.57

QUAIS SÃO ESSES PERIGOS?

Sem insistir demais que existem perigos, podemos examinar brevemente quais são alguns deles. Embora muitos médicos estejam familiarizados com a informação que segue, isso talvez possa ajudar outras pessoas a avaliar que, muito embora a posição assumida pelas Testemunhas de Jeová seja por motivos religiosos, ela tem seus méritos em sentido médico.

O compêndio Hematology contém a seguinte tabela:58

Tipos de Reações Transfusionais

Febris

Anticorpos dos leucócitos

Anticorpos das plaquetas

Pirogênios

Alérgicas

Hemolíticas

(transfusão incompatível)

Transmissão de doença

Hepatite sérica

Malária

Sífilis

Infecção por citomegalovírus

Maciça contaminação bacteriana

Sobrecarga circulatória

Intoxicação pelo citrato

Intoxicação potássica

Hemorragia anormal

Transfusão incompatível

Transfusão maciça

Isossensibilização

Hemossiderose transfusional

Mistas

Tromboflebite

Embolia gasosa

Injeção de matéria estranha

Estes numerosos tipos de reações transfusionais são deveras graves, pois podem provocar a morte. Consideremos alguns deles.

A tabela apresenta, primeiro, algumas das reações “imediatas”. Uma reação febril pode usualmente ser tratada com êxito. No entanto, conforme relata o Professor de Medicina, James W. Linman, “graves reações febris ocorrem e podem ser suficientemente estressantes a ponto de ameaçar a vida no caso de certos pacientes agudamente enfermos”.58 O sangue incompatível produz uma reação hemofílica, envolvendo a rápida destruição dos glóbulos vermelhos, que pode provocar a insuficiência renal, o choque e até a morte. As reações hemolíticas são especialmente perigosas para os pacientes sob anestesia, pois os sintomas podem não ser notados até que já é tarde demais.59

A “transmissão de doenças” também é alistada entre as possíveis reações. Existe qualquer perigo substancial dessa fonte?

A hepatite B (hepatite sérica ou por vírus) é uma complicação perigosa das transfusões de sangue. O sangue dum doador, sem que se suspeite disso, pode conter o vírus da hepatite que pode prejudicar a saúde duma pessoa que receba tal sangue, ou até mesmo matá-la. Quanto mais transfusões receber alguém, maior é a probabilidade de que contraia a hepatite sérica. Todavia, não é preciso muito sangue. Menos de uma gota já serve; poderá contrair tal doença de tão pouco quanto uma milionésima parte de um mililitro de sangue infetado.60

Quão provável é que contraia hepatite por uma transfusão de sangue? Até certo ponto, isso depende de onde vive, pois a hepatite pós-transfusional é mais comum em terras onde parte do sangue provém de “doadores” pagos, pessoas que vendem seu sangue.

Uma estimativa que amiúde aparece nas revistas médicas é de que um por cento, ou uma pessoa em cada cem, contrai a hepatite depois duma transfusão.61 No entanto, a evidência indica que a real incidência dela pode ser muito maior. Isto se dá porque a hepatite B tem um período de incubação de até seis meses, de modo que a doença talvez não surja senão muito tempo depois da transfusão. Os Drs. John B. Alsever e Peter Van Schoonhoven escreveram em Arizona Medicine:

“Sua incidência, nos últimos dez a quinze anos, nos grandes centros comunitários de sangue, tem sido de cerca de 1%, em estudos retrospectivos relatados da doença clinicamente manifesta. Entretanto, quando se estuda os pacientes transfundidos prospectivamente no laboratório, em intervalos de 2 a 4 semanas, descobre-se uma incidência até dez vezes superior de infecção.”62

Veja isso de outro ponto de vista. Não raro se tem dito que, nos Estados Unidos, há 30.000 casos de hepatite pós-transfusional a cada ano, com 1.500 a 3.000 mortes.63 Se essa fosse mesmo a situação, já seria bastante grave. Outrossim, a informação fornecida pelo Centro de Controle de Doenças, do Governo dos EUA, aponta um total moderado para os casos de hepatite B como sendo de 200.000 ou mais, anualmente.64 E quem pode sequer calcular o total de casos de hepatite relacionada com as transfusões para toda a América do Norte e do Sul, a Europa, a África e a Ásia?

Naturalmente, alguns consideram a possibilidade de contraírem hepatite por uma transfusão de sangue como um risco justificável. Um médico talvez arrazoe: “Eu prefiro que meu paciente continue vivo, com hepatite, que eu posso tratar, do que morto por não receber uma transfusão.” Mas, tal raciocínio não é base válida para considerar como ‘suicidas’ e indignas de consideração as objeções conscienciosas dum paciente à transfusão.

Pode um paciente ter a garantia razoável de que sobreviverá à hepatite pós-transfusional?

Faz-nos pensar o fato de que as autoridades admitem que cerca de 10 a 12 por cento dos que contraem a hepatite sérica por transfusões morrem em resultado disso.65 No caso de pessoas com mais de quarenta anos, a taxa de mortalidade é de 20 por cento — uma de cada cinco.66 Nos pacientes com mais de 60 anos, cerca de metade morre devido à hepatite.67

Ademais, não existe nenhum meio seguro de se eliminar o elevado risco de se contrair hepatite pelas transfusões. The Journal of Legal Medicine reconheceu que “nenhum dos métodos agora conhecidos de preservação do sangue possui quaisquer propriedades antivirais. Qualquer modalidade que destrua ou até mesmo atenue o vírus da hepatite também destruirá o sangue ou a fração sanguínea.”68

Que dizer dos progressos das técnicas de laboratório, a fim de identificar e assim eliminar o sangue contaminado? O Dr. M. Shapiro, do Serviço Sul Africano de Transfusão de Sangue, indicou recentemente que “até mesmo com os testes mais sensíveis, talvez apenas 1 em cada 8, ou menos, casos de hepatite pós-transfusional sejam evitáveis através apenas da seleção, feita em laboratório, dos doadores de sangue”.69

Por conseguinte, mesmo que a hepatite sérica fosse o único perigo pós-transfusional, haveria amplos motivos médicos para uma pessoa nutrir reservas quanto a aceitar sangue. A realidade, porém, é que a hepatite é apenas um dos riscos. Observe estes outros:

“O sangue deve ser considerado um remédio perigoso, e deve ser usado com a mesma cautela que, por exemplo, a morfina.”70 Assim, o Professor H. Busch, diretor dum departamento de medicina transfusional, concluiu um relatório feito a um congresso de cirurgiões do norte da Alemanha. Nele, mencionou um dilema a respeito das transfusões de sangue. Ele disse que, para ter seu valor biológico ideal, o sangue doado deveria ser transfundido dentro de vinte e quatro horas; depois disso, os riscos metabólicos aumentam por causa das mudanças que ocorrem no sangue estocado. Por outro lado, o sangue deve ser estocado pelo menos por setenta e duas horas, pois do contrário pode transmitir a sífilis. E até mesmo os testes para identificar sangue sifilítico não constituem salvaguarda, pois não detectam a sífilis em seus estágios iniciais. Não há necessidade de descrever aqui os danos que podem advir a uma pessoa que recebe sangue infetado de sífilis, bem como os danos causados à família dele ou dela.

O relatório alemão também sublinhava o perigo de transfusões de sangue que espalham as infecções por citomegalovírus e a malária. O citomegalovírus é reconhecido como sendo especialmente perigoso para as crianças. Com boa razão, então, os médicos alemães foram avisados dos “resultados muito graves, até mesmo fatais” que existem em potencial nas transfusões de sangue. E a Associação Médica Americana avisou que “com o aumento das viagens globais, e a volta de soldados das áreas endêmicas, tem havido um aumento na incidência da malária nos receptores da transfusão de sangue”.71

Nas áreas tropicais, há várias outras doenças que podem ser transmitidas pelas transfusões de sangue, tais como a doença de Chagas (com índice de mortalidade de uma em cada dez pessoas), a tripanossomíase africana (doença do sono africana), a bouba e a filariose.72

Outro perigo que não pode ser despercebido é a maciça contaminação bacteriana do sangue. Certos tipos de bactérias podem multiplicar-se até mesmo em sangue refrigerado, representando grave ameaça para qualquer pessoa que mais tarde receba tal sangue. Embora menos pacientes apresentem esta complicação do que, digamos, a hepatite sérica, os resultados são trágicos para os que a manifestam. A taxa de mortalidade se acha entre 50 e 75 por cento.73

O que reserva o futuro quanto aos perigos inerentes às transfusões de sangue? “A lista das doenças transmissíveis”, relata o Dr. John A. Collins, da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, EUA, “variará e certamente aumentará, e considerável inquietação poderá pairar, à medida que mais vírus relacionados a tumores sejam identificados no sangue humano”.74 Assim sendo, muitos hospitais exigem agora que o paciente assine um termo de responsabilidade ou acordo de que não considerará o médico nem o hospital responsáveis pelos danos resultantes duma transfusão de sangue.75

Significa esta breve consideração de apenas alguns dos riscos médicos do sangue que as Testemunhas de Jeová objetem às transfusões primariamente por razões médicas? Não, este não é o caso. A razão fundamental de não aceitarem transfusões de sangue é o que a Bíblia diz. A sua objeção é basicamente religiosa, e não médica. No entanto, haver graves riscos em se tomar sangue simplesmente sublinha a razoabilidade, até mesmo do ponto de vista médico, da posição das Testemunhas de Jeová.

TRATAMENTOS ALTERNATIVOS

Se o proceder seguido pelas Testemunhas de Jeová fosse um proceder fanático, que não tivesse nenhuma base, e, inevitavelmente, significasse dano para si mesmas e talvez para outros, haveria motivos de preocupação. Neste respeito, poder-se-ia indagar:

É este conceito religioso assumido pelas Testemunhas de Jeová tão incompatível com os padrões da sociedade humana e com os conhecimentos médicos que não possa haver uma adequação razoável dele?

A resposta fatual é que sua objeção ao sangue, baseada na Bíblia, certamente pode ser adequada na maioria dos casos pelo uso de tratamentos alternativos.

Como é bem conhecido, no caso da cirurgia de eleição, os médicos podem ‘fortificar o sangue do paciente’ antes e depois dela, como por exemplo, com aminoácidos e compostos de ferro orais e injetáveis76; isto pode reduzir qualquer necessidade de transfusão. A hipotermia profunda (redução da temperatura do corpo do paciente) resultou vantajosa em minimizar a perda sangüínea durante a cirurgia, até mesmo em bebês.78 Similarmente, a hipotensão induzida (redução da pressão sangüínea) pode reduzir o sangramento dos vasos diminutos durante a cirurgia. E, provavelmente, o que resultou ter muitíssimo êxito é a atenção meticulosa à sutura de até mesmo os menores vasos cortados. Em American Journal of Obstetrics and Gynecology (Revista Americana de Obstetrícia e Ginecologia), certo médico que já operou muitas Testemunhas de Jeová disse:

“Não resta dúvida de que a situação em que opera sem a possibilidade duma transfusão tende a melhorar sua técnica cirúrgica. Faz-se um esforço mais cuidadoso de pinçar cada vaso que sangre.”79

Se o paciente perdeu muito sangue durante a cirurgia ou num acidente, é razoável o conceito de que não existe nenhuma alternativa para a transfusão?

Alguns fatos apresentados pelo Professor James W. Linman em Hematology servem como excelente base para se avaliar a resposta:

“O sangue não é um tônico ou um estimulante; não promoverá a cura dos ferimentos nem suprimirá uma infecção; e sua capacidade de condução de oxigênio raramente é, se for alguma vez, um fator limitativo da cirurgia. Uma transfusão serve apenas para aumentar o volume total de sangue, para ampliar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue, e como fonte dos constituintes normais do plasma.” (Grifo acrescentado.)80

Consideremos primeiro a questão de ‘aumento do volume total do sangue’. Com muita freqüência, quando uma pessoa perde muito sangue, o que, fundamentalmente, é necessário para impedir o choque ou a morte é a reposição do volume do fluido perdido. Num congresso da Associação Médica da África do Sul, um especialista em transfusões de sangue explicou que uma pessoa pode perder até 1,5 litros de sangue e ainda ter mais de 60 por cento de seus glóbulos vermelhos,81 quantidade adequada para nutrir seus tecidos. Mas, a pessoa precisa de mais fluido em seus vasos para que os glóbulos vermelhos continuem circulando.

O periódico britânico Anaesthesia (Anestesia) relatou que soluções isentas de sangue fazem isso mais eficazmente do que as transfusões de sangue, pois não reduzem a eficiência cardíaca, uma complicação comum que acompanha a transfusão de sangue. Dizia o artigo que, em ocasiões em que quantidades aparentemente adequadas de sangue total falharam em produzir o resultado desejado, no caso do trauma, o uso de soluções isentas de sangue amiúde produziu dramática melhora. Por isso, o artigo observava:

“Mesmo que um suprimento adequado de sangue total esteja disponível, contudo é duvidoso se é o fluido de eleição para o tratamento inicial para a transfusão rápida de pacientes maciçamente hipovolêmicos [os que perderam muito sangue].”82

Não é lógico que uma pessoa normalmente possa perder o equivalente a uma unidade (500 cc.) ou mais de sangue sem haver resultados fatais? Muitos doaram uma unidade de sangue e daí continuaram em suas atividades diárias. O estudo clínico controlado indica que uma pessoa com ‘grande volume sangüíneo pode tolerar a perda de até dois litros [2.000 cc.] de sangue total’ sem exigir nada mais do que a reposição do fluido perdido por soluções isentas de sangue.83

Que dizer, porém, de se ‘ampliar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue’? Os médicos sabem que as soluções alternativas não são, realmente, “substitutos do sangue”. Por que não? Porque a hemoglobina dos glóbulos vermelhos conduz o oxigênio através do corpo. As soluções isentas de sangue não contêm isto.

No caso dum paciente que perdeu muito sangue, é preciso ministrar sangue total ou um concentrado ou papa de hemácias a fim de suprir oxigênio a todo o seu corpo?

Este é o conceito freqüentemente expendido, mas, harmoniza-se com os fatos?

Uma pessoa possui normalmente cerca de 14 ou 15 gramas de hemoglobina em cada 100 cc. de sangue. Os médicos geralmente assumem a posição de que ‘sob condições sofisticadas, uma taxa de hemoglobina de 10,3 a 10,5 gramas é considerada o valor mínimo seguro para a cirurgia de rotina’.84 Mas, em realidade, grande parte da hemoglobina duma pessoa está em reserva, para ser usada durante esforços estrênuos, daí, um paciente acamado amiúde se sente confortável com apenas 5 ou 6 gramas.85 M. Keith Sykes, Professor de Anestesia Clínica da Universidade de Londres, recentemente indicou: “Embora a maioria dos centros escolha um valor de 9 ou 10 g por cento como a linha divisória entre a aceitação e a recusa para operações eletivas, deve-se sublinhar que não existe evidência conclusiva de que os valores acima deste nível sejam ‘seguros’ ou de que os valores abaixo deste nível signifiquem um risco extra para a cirurgia. Por conseguinte, parece desarrazoado escolher um algarismo arbitrário como nível aceitável da hemoglobina.”86 Semelhantemente, o Dr. Jeffrey K. Raines, do Hospital das Clínicas de Massachusetts, EUA, declarou que “podemos permitir que o hematócrito abaixe muito mais do que pensávamos. Costumávamos pensar que um paciente tinha de ter um valor de hemoglobina 10, mas sabemos agora que não é realmente assim”.87 O Dr. Ricardo Vela, dum departamento de anestesia de Madri, Espanha, teve experiências neste sentido com pacientes que são Testemunhas de Jeová. Ele escreveu que níveis muito baixos de hemoglobina que, antes, teriam sido considerados proibidos, “eram surpreendentemente bem tolerados pelos pacientes”.88

Existe outro aspecto deste assunto que não tem sido amplamente avaliado, mesmo no setor médico.

Será que a transfusão aumentará imediatamente a capacidade de transporte de oxigênio do sangue?

Muitos crêem que aumentará, mas recente editorial de Anaesthesia frisou o seguinte ponto interessante: “Vale a pena lembrar também que a hemoglobina das hemácias conservadas, em solução de citrato de sódio, não se torna plenamente disponível para a transferência do oxigênio para os tecidos por cerca de 24 horas após a transfusão . . .; a transfusão rápida de sangue, portanto, tem de ser considerada primariamente como simples expansor do volume nos estágios iniciais.”89 Pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio, EUA, descobriram que a razão disso é que ocorrem mudanças químicas no sangue conservado. Suas investigações mostraram que o sangue conservado por mais de dez dias “não melhora, ou talvez até mesmo piore, a oxigenação dos tecidos logo depois da transfusão”. E descobriram que a oxigenação dos tecidos ainda estava abaixo de seu nível normal 24 horas depois.90

Quais são alguns dos fluidos isentos de sangue usados como alternativas para as transfusões de sangue? Estão sendo usados eficazmente? Quais são suas vantagens?

É provável que o substituto de emergência do plasma mais amplamente disponível e utilizado com maior freqüência seja a simples solução salina (0,9%). É fácil de preparar, barata, estável e quimicamente compatível com o sangue humano.91 A solução de Ringer com lactato de sódio (solução de Hartmann) é uma solução eletrolítica ou cristalóide adicional que tem sido utilizada com êxito em casos de queimaduras maciças ou na cirurgia em que os pacientes perderam até 66 por cento do volume líquido de seu sangue.92

Outro enfoque é substituir o sangue perdido por colóides, tais como a dextrana. Trata-se duma solução clínica de açúcar que resulta valiosa tanto na cirurgia como no tratamento de casos de queimaduras e choque.93 Às vezes é combinada com uma solução salina tampão, de modo a ressaltar as melhores propriedades de cada uma delas. O Haemaccel e a solução de hidroxietila de amido também têm sido empregados com bons resultados em várias situações cirúrgicas como expansores do volume do plasma.94

Cada um destes fluidos tem suas próprias propriedades e méritos. Mas, a respeito das situações calamitosas, comentou Anaesthesia:

“Inicialmente, no estágio agudo, o exato fluido escolhido uma vez que não seja positivamente prejudicial, é relativamente sem importância. Mais tarde uma vez se tenha expandido o volume circulatório, as exigências específicas de determinado caso devem ser levadas em conta.”95

Significa isso que tais fluidos são apenas para emergências? De forma alguma. A respeito de “todos os grandes tipos de operação”, os cirurgiões da Faculdade de Medicina da Universidade de Kentucky, EUA, escreveram:

“Cem pacientes perderam, cada um, mais de 1.000 ml de sangue quando eram operados, e receberam de duas a três vezes esse volume da solução de Hartmann. A mortalidade e a morbidade pós-operatórias não foram afetadas pela falta de sangue no regime de reposição. . . . Apesar da tradição persistente de que o sangue é o único substituto eficaz do sangue perdido, a prática de usar soluções salinas para a reposição de parte ou de todo o sangue tem ganhado terreno em muitos centros.”96

Embora as Testemunhas de Jeová não aceitam sangue, por motivos religiosos, não apresentam tais objeções quanto ao uso de expansores do plasma isentos de sangue. Do ponto de vista dum médico, então, estes produtos têm a vantagem de poderem ser usados nos pacientes que são Testemunhas. Mas, há inúmeras outras vantagens.

“Os substitutos não-biológicos do sangue”, escreveu o Professor E. A. Moffitt, do Canadá, “podem ser fabricados em grandes quantidades e conservados por longos períodos de tempo. . . . Os riscos da transfusão de sangue são as vantagens dos substitutos do plasma: evitar a infecção bacteriana ou viral, as reações Transfusionais e a sensibilização ao fator Rh”.97

Existe outro benefício, digno de nota, de se usarem expansores do plasma. Quando o sangue humano é conservado, é preciso adicionar-lhe substâncias químicas para impedir a coagulação. Mais tarde, quando este sangue é dado a um paciente, os aditivos podem interferir na capacidade natural do próprio sangue dele de coagular-se; o resultado pode ser de contínua perda de sangue. O cardiocirurgião Dr. Melvin Platt, trouxe à atenção que este problema é evitado quando se usa “uma substância neutra” tal como a solução de Ringer com lactato de sódio, ao invés de sangue conservado.98

GRANDE CIRURGIA SEM SANGUE

Os médicos corajosos que concordaram em operar as Testemunhas de Jeová sem usar sangue amiúde verificaram que tal experiência era reveladora. Isto é ilustrado pelos aperfeiçoamentos um tanto recentes na cirurgia a coração aberto. No passado, usavam-se normalmente quantidades maciças de sangue. Mas, a equipe cirúrgica do Dr. Denton Cooley, do Instituto do Coração do Texas, decidiu tentar operar as Testemunhas de Jeová. Visto que os médicos não podiam usar sangue como volume de escorva para a necessária máquina coração-pulmões, nem transfundir sangue durante a cirurgia ou depois dela, utilizaram expansores do plasma isentos de sangue. Relata o Dr. Cooley: “Ficamos tão impressionados com os resultados obtidos com as Testemunhas de Jeová que começamos a usar tal processo com todos os nossos pacientes cardíacos. Temos tido resultados surpreendentemente bons, e o utilizamos também em nossos transplantes [cardíacos].” Adicionou: “Temos um contrato com as Testemunhas de Jeová, de não dar transfusões sob nenhuma circunstância. Os pacientes assumem o risco, pois nem sequer reservamos sangue para eles.”99

Quais têm sido os resultados a longo prazo da ‘cirurgia cardíaca sem sangue’ feita em adultos e crianças? Escreveu o Dr. Jerome H. Kay, da Califórnia, EUA: “Já temos feito aproximadamente 6.000 operações a coração aberto no Hospital S. Vicente em Los Angeles. Desde que não temos usado sangue para a maioria dos pacientes, é nossa impressão de que os pacientes passam melhor.”100 Certo estudo canadense fornecia pormenores específicos, revelando que, quando fluidos isentos de sangue, tais como a dextrana e a solução de Ringer, foram usados, ao invés de sangue, “o número de mortes baixou de 11 por cento para 3,8”.101 Este tipo de cirurgia também tem sido realizado com êxito em Testemunhas de Jeová e em crianças na Noruega, na Austrália, na África do Sul, em França, na Inglaterra e no Japão.

Cirurgiões experimentados estão cônscios, porém, que os pacientes de cirurgia geral são responsáveis por maior parte do sangue usado do que os que sofrem operações mais dramáticas, tais como a cirurgia a coração aberto. O que tem ocorrido com as Testemunhas de Jeová que requerem operações mais comuns, em que normalmente se usam quantidades substanciais de sangue?

Sob o título de “Grande Cirurgia Feita em Testemunhas de Jeová”, um grupo de médicos de Nova Iorque relatou vários casos que envolviam extensiva cirurgia, tais como a remoção total de órgãos cancerosos, e explicou que, por empregarem técnicas cirúrgicas precisas, tais processos podem ser realizados sem sangue.102 Outros processos realizados com êxito sem se transfundir sangue incluem operações radicais na cabeça e no pescoço, extensiva cirurgia abdominal e hemipelvectomias (amputação de perna e quadril).103 Depois de remover grande aneurisma cerebral de uma Testemunha, o Dr. J. Posnikoff questionou a “opinião corrente da maioria dos neurocirurgiões, de que a transfusão de sangue é absolutamente essencial” para tal cirurgia cerebral. Instou com outros cirurgiões que “não negassem rotineiramente uma grande cirurgia aos que talvez precisassem dela desesperadamente, mas que não podiam aceitar moralmente uma transfusão de sangue”.104

A conclusão a que chegou o Dr. Philip R. Roen em “Extensiva Cirurgia Urológica sem Transfusão de Sangue” era:

“Nossas experiências com as Testemunhas de Jeová que exigiam processos operatórios demonstraram que as transfusões de sangue não são necessariamente essenciais, mesmo quando os níveis de hemoglobina são baixos — chegando até a 5 g por 100 ml. . . . A posição das Testemunhas de Jeová, ao recusarem a transfusão de sangue durante grandes e extensivos processos operatórios necessários, representa considerável problema e desafio para o urologista. Tais pacientes não podem e não devem ser abandonados por causa de suas crenças religiosas. Nós não temos hesitado em realizar todo e qualquer processo cirúrgico indicado em face da proscrita reposição de sangue.”105

O QUE FARÁ?

Ao considerar a posição das Testemunhas de Jeová sobre o sangue, temos dado atenção a certos aspectos importantes. Temos examinado a base de sua recusa do sangue, e temos visto que o fazem por motivos religiosos baseados na Bíblia. Também recapitulamos a ética envolvida, mostrando que toda pessoa tem o direito de determinar o que será feito com seu próprio corpo e de decidir quanto ao tratamento médico para si mesmo e seus filhos. Ao analisar o papel do médico, temos visto que tratar o indivíduo de acordo com as crenças do paciente é coerente com os princípios fundamentais da classe médica. E, ao discutir os aspectos médicos da transfusão de sangue, demonstramos que a posição das Testemunhas de Jeová pode merecer uma adequação, em sentido médico. Os casos médicos provam que, na maioria das ocorrências, médicos peritos e corajosos podem tratar com êxito de pacientes que são Testemunhas sem empregarem sangue.

Ao passo que tudo isso pode acontecer, não devemos considerar o assunto como simples discussão abstrata de uma questão interessante. Cada um de nós talvez tenha de utilizar estas informações para decidir o que fará, pessoalmente.

O que dizer do médico?

À luz de tudo que consideramos, um médico deve avaliar que as Testemunhas de Jeová não são fanáticos religiosos “suicidas” que se opõem a todos os cuidados médicos. Antes, são pessoas razoáveis, dotadas de senso moral, que estão ansiosas de continuar vivas; amam a vida e a boa saúde, razão pela qual procuram assistência médica qualificada. O médico, porém, deve entender também que as Testemunhas de Jeová refletiram seriamente sobre suas crenças religiosas e estão cabalmente convencidas de que elas e suas famílias não devem aceitar sangue. Assim, quando confrontadas com esta recusa de aceitar sangue, o pessoal do setor médico não deve encará-la como algum capricho emocional que possa ser ignorado. Trata-se de importante convicção religiosa que deve ser respeitada e honrada.

O que significa isso, na prática?

Significa que, a fim de mostrar respeito pelos princípios milenares, não se deve impor o sangue a uma das Testemunhas de Jeová. Na verdade, para que haja uma adequação, da parte do médico, da convicção religiosa delas, talvez será necessário que ajuste sua terapia costumeira. Mas, considerando os assuntos numa base de longo alcance, não é melhor que o tratamento médico seja um tanto circunscrito pelas convicções religiosas do que permitir que as crenças religiosas fundamentais sejam ditadas ou sejam denegadas pela prática médica atual? A consideração equilibrada prova que isso é verdadeiro. Por cooperar com uma das Testemunhas de Jeová, um médico pode mostrar seu genuíno compromisso de apoiar os direitos humanos e seu respeito pelo livre exercício da consciência religiosa. Ao mesmo tempo, estará tratando o “homem inteiro”, usando os tratamentos que servem para curar o paciente em sentido físico, ao passo que não o prejudicam emocional ou espiritualmente. Isto será nos interesses duradouros do paciente e dignificará a ética básica que o médico se dedica a seguir.

Que dizer das Testemunhas de Jeová ou de outros que estão preocupados em aplicar a Palavra de Deus em sua vida?

Nossa análise da questão do sangue deve aumentar ainda mais o respeito da pessoa pelas injunções da Bíblia contrárias a que se sustente a vida por meio do sangue.

Cada cristão faz corretamente a determinação de continuar firme em sua fé. Ao lidar com pessoal médico, o cristão deve demonstrar razoabilidade e um espírito cooperador, ao mesmo tempo deixando claro que qualquer tratamento médico que lhe seja oferecido deve ser coerente com suas crenças religiosas, tais como sua recusa de aceitar sangue. Se for necessária a cirurgia, será importante que, com antecedência, se considere com os médicos a posição cristã no que tange ao sangue, de modo a obter a garantia deles de que sob nenhuma circunstância se transfundirá sangue antes, durante ou depois da operação. E, se determinado médico não achar que possa realizar a cirurgia sem recorrer ao sangue, o cristão, por saber isso de antemão, poderá recorrer aos serviços de outro médico.

Ao empenhar-se em apoiar a lei de Deus sobre o sangue, as Testemunhas de Jeová manifestam seu apreço pelo fato de que sua vida procede e depende do Criador e Dador da Vida. Ele afirma, na Bíblia que a felicidade e vida contínua do cristão, no futuro, baseiam-se em sua fé e obediência. (1 João 2:3-6) Por essa razão, os cristãos primitivos preferiam arriscar sua vida presente a agir de forma contrária às suas crenças religiosas. As Testemunhas de Jeová, hoje em dia, estão igualmente determinadas a manter sua boa relação com Deus. Assim, continuarão a obedecer à ordem da Bíblia de ‘abster-se do sangue’. — Atos 15:29.

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