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Huxley
Sobe o Morro e Desce ao Inferno Artur Cesar Isaia
Por
meio da cruz e do sacrifício eucarístico, os bispos marcavam
um princípio de uti possidetis sobre a realidade nacional,
demarcando claramente as fronteiras do "ser brasileiro". Projetava-se
instituir uma identidade, na noção revelada por Bourdieu,
isto é, nomeando-se a realidade, conferindo-lhe uma essência
social, capaz de impor um "direito de ser que é também um
dever de ser" (Bourdieu, 1996: 100). Logicamente que todas as representações
da realidade capazes de ameaçar a imagem de um Brasil definido
pelo ser católico passavam a ser execradas como perigosas
subversões, como flagrantes aberrações. Reforçava-se,
nessas representações, a obviedade de um Brasil católico,
civilizado pela cruz. É esse Brasil, representado como formado
historicamente pelo esforço evangelizador da Igreja, que deveria
ser preservado ante a proliferação da umbanda e dos demais
"cultos mediúnicos". "É
triste averiguar que a marcha do nosso 'progresso' espirutual e cultural
é no sentido da 'senzala' para o 'salão'... A macumba
é um dos maiores atentados contra a fé, contra a moral,
contra nossos foros de educação, contra a higiene e contra
a segurança" (Motta, 1953: 302). Maffesoli,
mostrando como as constelações imaginárias do sagrado
emprestam sua legitimação ao exercício do poder totalitário,
aponta para uma "sideração ambígua", capaz de revelar
"sempre uma fascinação de dupla face", calcada na oposição
Deus bom-Deus mau; criador-destruidor; claridade-sombra; Deus-Satã
(Maffesoli, 1981: 196-7). Nas representações elaboradas
pela hierarquia católica no período em estudo, o que genericamente
se denomina umbanda aparece sempre com um aspecto antitético ao
bem e a verdade, apelando-se às imagens "negras" do inimigo. Este
aparece identificado sempre com o que de pior existe na sociedade (as
camadas pobres, cujo comportamento na esfera pública, em plena
vigência de uma democracia populista, ainda nutre os medos
de uma elite, à disposição da qual continuam a colocar-se
"aspectos moleculares tipicamente fascistas", conforme notou Lenharo referindo-se
a anos bem mais recentes) (Lenharo, 1986: 12). É justamente essa
"lógica da exclusão", capaz de apelar reincidentemente para
expurgos sociais, capazes de depurar o corpo social, que aparece em diferentes
momentos no discurso da hierarquia católica (Isaia, 1996; idem, 26(113): 359-69). Maçons, liberais, anarquistas, comunistas,
entre outros, foram alvos da inconformidade do catolicismo pré-conciliar
diante do aprofundamento de uma situação pluralista(5).
Essa inconformidade católica vinha da constatação
de que perdera uma situação de comodidade como produtora
de bens simbólicos. Uma situação pluralista define-se
pela lógica de mercado, isto é, os bens simbólicos
que em uma situação de monopólio podiam ser impostos
às populações passam a ter que ser "vendidos" a uma
clientela que não está mais obrigada a "comprá-los".
Os ex-monopólios religiosos, portanto, não podem mais contar
com a submissão das populações, imposta pela autoridade.
Segundo Berger, em uma situação pluralista, "a submissão
é voluntária e, assim, por definição, não
é segura" (Berger, 1985: 149). No afã de recobrar uma posição
de comodidade no mercado religioso, o discurso católico dos anos
1950 voltava-se contra a umbanda, religião que se mostrava como
essencialmente subvertora da representação de um Brasil
católico, ao projetar a imagem de uma religião tipicamente
nacional: "...
para o candomblé, a África conota a idéia de uma
terra Mãe, significando o retorno nostálgico a um passado
negro. Sob este ponto de vista, a umbanda difere radicalmente dos cultos
afro-brasileiros, ela tem consciência de sua brasilidade, ela se
quer brasileira. A umbanda aparece desta forma como uma religião
nacional que se opõe às religiões de importação:
protestantismo, catolicismo e Kardecismo" (Ortiz, 1978: 14). "O
final do século XIX é marcado no Brasil por um grande balanço
social devido à libertação dos escravos e à
instauração da República (uma forma mais justa de
governo), que iniciava a sua peregrinação no Brasil. A Corrente
Astral da Umbanda aproveita esta reviravolta social e, por volta de 1889,
lança o vocábulo umbanda em vários pontos do país.
A essa altura o mediunismo já invadira os cultos deturpados e miscigenados
entre indígenas e os escravos africanos" (Trindade, 1991: 53,4;
o grifo é nosso). "afirmação da umbanda como um valor novo na sociedade brasileira da primeira metade do nosso século, e sua luta por identificar-se como religião e como nacional, integra-a ao quadro maior da circulação dos significados sociais. Assim, se por um lado apresenta-se guardando uma relação de oposição a algumas matrizes discursivas, será com elas que a umbanda estabelecerá nexos de inteligibilidade e partilha de significados"(Isaia, 27(115): 102). (5)
Girardet estuda a riqueza mítica da idéia do complô,
recorrendo à noção soreliana de mito mobilizador,
capaz de emprestar ao poder a força necessária para legitimar
as exclusões, os expurgos sociais (Girardet, 1987- 145). |