Creta - 2264 a.C.
Como
Heka previu, a viagem até Katsambas foi rápida e tranquila. Mantiveram-se
sempre com a orla de Creta à vista, ao lado esquerdo do barco, evitando
o mar aberto e os piratas. A chegada foi alegre, pois boa parte da tripulação
era da cidade e vários marinheiros foram recebidos por familiares e
amigos com festas. Heka logo mandou desembarcar a carga e enviou tudo
para seu depósito particular, um prédio quadrado e sem atrativos, perto
da casa onde morava.
-
Desse depósito - explicou a Akh - despacharei para os comerciantes o
que já foi encomendado, cobrando pelo transporte. O que eu trouxe por
minha conta, tratarei de negociar nos próximos dias. Trocarei quase
tudo por mercadorias para levar ao Egito, e de lá partiremos para Mileto,
onde tenho outros negócios encaminhados.
Akh
impressionava-se com a prosperidade do irmão. Heka não tinha ficado
extremamente rico, mas não podia negar que estava fazendo fortuna depressa.
Com a ajuda de Rukhai, Akh levou as coisas pessoais de Heka para a casa
dele, um lugar lindo e sossegado no alto de uma elevação próxima ao
porto. Foram recebidas por um criado idoso, Menoren, que Heka explicou
ser um viúvo sem filhos, homem de sua confiança. Com um sorriso simpático
e agradável, Menoren indicou-lhes onde colocar o que iam trazendo. Vendo
como elas estavam curiosas com a casa, ofereceu-lhes um refresco de
frutas quando chegaram com os últimos pacotes.
-
Venham comigo, meninos! - pediu, com um gesto de cumplicidade - Assim
poderão descansar um pouquinho e conhecer os jardins!
Dando
voltas um tanto desnecessárias, Menoren levou-as por toda a casa, não
muito grande, porém ampla e fresca, com paredes pintadas de branco e
enfeitadas por belos mosaicos. A mobília era simples e prática, bem
ao gosto de Heka, mas também colorida, à moda cretense. Alguns tapetes,
que Akh julgou ser bem caros, ornavam os cômodos principais. Os jardins
eram vistosos e alegres como os que conheceu em Éfeso, e Menoren mostrou-lhes
com orgulho um pequeno tanque onde criava peixes.
-
Isso deve ter custado uma fortuna! - exclamou Akh com um gesto amplo,
olhando ao redor - Manter uma casa como esta não é para qualquer um!
-
Ah, mas nosso mestre Heka é um homem inteligente! - disse Menoren -
Ele sabe fazer os melhores negócios, nunca falha com os compromissos
assumidos, é generoso e todos na cidade aprenderam a respeitá-lo! Se
continuarem a trabalhar para ele, entenderão o que digo!
Akh
suspeitou que o termo "aprender a respeitar", em se tratando de Heka,
deveria ter envolvido alguma boa briga. Rukhai divertia-se catando uvas,
indiferente. Pouco depois Heka juntou-se a eles, descontraído, abraçando
Menoren com carinho e presenteando-o com uma vasilha de faiança, ricamente
trabalhada. Akh reconheceu a peça imediatamente como sendo egípcia e
bastante valiosa. Menoren quase foi às lágrimas, sem palavras para agradecer.
Heka explicou que seus dois "aprendizes" iriam morar com ele a partir
de agora, e Menoren correu a arrumar os quartos para os hóspedes.
-
Não achas que deves contar-lhe quem somos? - perguntou Akh ao irmão,
assim que viu Menoren desaparecer dentro da casa - Se vamos morar com
ele, logo descobrirá! Tu disseste que confia nele...
-
Contarei, com certeza! - Heka afirmou, esparramando-se numa espreguiçadeira
junto ao tanque e saboreando o suco que Menoren havia servido - Estou
apenas dando a ti uma chance de ver como podes tapear mais do que alguns
marinheiros... Menoren perceberá logo, pois sei que é um homem inteligente
e vivido demais para ser iludido por muito tempo. Só quis testar a primeira
reação dele ao ver-te, e creio que conseguiste enganá-lo!
-
Posso tomar um banho? - perguntou Rukhai, trepando numa figueira sem
a menor cerimônia - E poderei usar roupas de mulher? Há tempos não tenho
um vestido...
-
Podes, Rukhai, podes! - Heka divertia-se com o jeito travesso dela -
Mas não saias na rua, ou algum de meus homens pode reconhecer-te! Perto
deles, agora terás que ser sempre um menino!
-
Heka, isto aqui é quase um palácio! - Akh continuava espantada com a
casa - Como conseguiste tanta coisa? Duvido que tenha sido só com teu
trabalho, em tão pouco tempo!
Fazendo
um sinal para que a irmã chegasse mais perto e falando em egípcio, a
fim de evitar os ouvidos curiosos de Rukhai, Heka confessou:
-
Herdei muito dinheiro de minhas esposas! Fiz alguns negócios bem sucedidos
também, antes de lançar-me ao mar. Quando aprendi o suficiente navegando,
comprei meu barco e multipliquei o investimento! Tu devias ter visto
a cara que fez meu antigo patrão... De empregado, virei seu maior concorrente!
Tenho contado com a sorte, é claro, pois nunca perdi uma carga!
-
E Menoren, ele sabe que tu és... - Akh fez um sinal significativo -
Tu já contaste algo a ele?
-
Sim e não... - Heka agarrou no ar um figo que Rukhai atirou, rindo -
Ele já viu o suficiente, mas é discreto demais para fazer perguntas!
Eu o trouxe de Kydonia, uma outra vila ao norte da ilha. Ele já está
comigo há décadas, trabalhamos juntos antes de eu comprar meu barco.
Convidei-o para trabalhar para mim e, desde que a esposa dele faleceu,
comprei esta casa e trouxe-o para morar comigo. Agora ele está idoso
mas, quando o conheci, era praticamente um menino...
-
E ele nunca perguntou por que tu não envelheceste?
-
Não, e adoro-o por isto! - Heka ficou triste de repente - Sei que ele
não é como nós, um dia terei que vê-lo partir, e sofro com a idéia.
Mas Menoren é um grande e fiel amigo... Às vezes penso no assunto e
creio que teremos poucas oportunidades de conviver com outras pessoas
assim...
Akh
assentiu com a cabeça, em silêncio. Não podiam dar-se ao luxo de criar
raízes por muito tempo em lugar nenhum, ou logo as pessoas perceberiam
que eles não envelheciam, como ocorreu com ela em Éfeso. Ou então virariam
lenda, como tinha acontecido nos séculos que perambularam pelos desertos.
Na época ainda podiam contar com as superstições de povos ignorantes,
mas numa cidade a situação era mais difícil. No máximo poderiam desfrutar
algumas décadas de convivência. Depois, era preciso sumir, viajar para
algum lugar onde ninguém sabia quem eram, e recomeçar de novo.
Menoren
apareceu à porta avisando que os quartos estavam prontos e indicou-lhes
o caminho. Akh ficou com o quarto mais próximo do de Heka e encantou-se
com a vista do mar. Quando Menoren voltou com a água para os banhos
e deixou-as a sós, Heka puxou-o a um canto e contou-lhe a verdade sobre
os novos hóspedes. Menoren a princípio ficou assustado, temendo ter
cometido alguma indiscrição. Heka tranquilizou-o, rindo, e logo Menoren
dava gargalhadas quando ouviu as traquinagens que as duas haviam aprontado
durante a viagem.
A
pedido de Heka, Menoren comprou um vestido e sandálias novas para Rukhai
e buscou um vestido especial para Akh no depósito pessoal do patrão.
Espalhando o aviso de que não receberia visitas naquela noite, como
costumava fazer sempre que chegava de viagem, Heka revirou seus cofres
e separou jóias para a irmã, bem como alguns anéis para agradar Rukhai.
Estava apegado à menina, gostava do jeito expansivo e divertido como
ela se comportava, e decidiu presenteá-la por isso.
Quando
as duas apareceram para jantar, Heka deslumbrou-se. Akh surgiu em toda
sua feminilidade madura, linda como nos bons tempos em Mênfis, e Rukhai
revelou a beleza adolescente que ocultava debaixo das roupas sujas de
menino. Menoren não conseguiu ser discreto o suficiente, olhando-as
boquiaberto, sem acreditar que aquelas beldades eram os mesmos carregadores
fedendo a peixe que passaram pela porta horas antes. Rukhai parecia
constrangida em aparecer vestida como mulher, e ficou ainda mais sem
graça diante dos olhares dos outros três. Até Akh estava surpresa ao
vê-la com os cachos negros brilhantes, o vestido colorido, o rosto limpo
e usando os brincos de prata que guardava como última lembrança da família.
Heka presenteou-as com as jóias, deixando ambas estupefatas.
-
Mas... Isso é caríssimo! - Akh não conseguia crer no colar de ouro e
pedras que o irmão colocava em seu pescoço - Heka, é maravilhoso!
Mais
encantada ainda estava Rukhai com os novos anéis, tirando e pondo todos
sem parar. Menoren serviu o jantar com cerimônia, como se estivessem
em uma festa, e Heka praticamente teve que obrigá-lo a sentar-se para
comer com eles. Rukhai logo desandou a rir sem parar, embriagada com
o vinho doce, enquanto Heka não escondia o orgulho de poder oferecer
um jantar como aquele. Desde os tempos da corte do rei não via a irmã
tão ricamente trajada. Sabia que ela merecia muito mais, e desta vez
estava em condições de proporcionar-lhe isso. Era o mínimo que poderia
fazer.
Menoren
desfiou histórias engraçadas ocorridas na cidade durante a ausência
do patrão e Heka contou algumas aventuras da viagem, esticando o jantar
por horas agradáveis. Rukhai foi a primeira a recolher-se, tropeçando.
Menoren foi dormir em seguida, após certificar-se de que não precisavam
mais de seus serviços, e os irmãos ficaram finalmente a sós.
-
Rukhai é tão bonita! - comentou Akh - Não imaginava como ela seria sem
aquelas roupas. Já é uma mulher! Às vezes penso se ela não gostaria
de voltar a viver assim, como uma moça da idade dela deveria fazer,
e arrumar um namorado...
Heka
puxou a irmã para o colo, abraçando-a, e olhou-a profundamente nos olhos.
-
E tu, minha irmã? - perguntou num sussuro - Não pensas em encontrar
um novo amor?
Akh
encarou-o sem responder, enrolando uma das longas madeixas dele entre
os dedos. As lágrimas brilharam em seus olhos, mas lutou para contê-las.
-
Não sei se um dia conseguirei amar de novo... - respondeu com um suspiro
- No começo eu não acreditava que um dia pudesse me casar. Passei tanto
tempo esperando por alguém especial, e esse alguém foi Imhotep! Ainda
não o esqueci, talvez nunca esqueça! Para mim ainda é cedo para pensar
sobre isso. Estou bem aqui contigo, saber que tu estás vivo e prosperando
é suficiente! Um dia, quem sabe?
-
E pretendes contar algo a Rukhai sobre nós? - Heka gostaria de ter a
menina mais tempo por perto, porém não sabia se seria conveniente -
Queres levá-la conosco ou preferes deixá-la aqui? Menoren pode tomar
conta dela, providenciar-lhe uma boa educação...
-
Veremos como ela reage a tudo isso primeiro - Akh decidiu - e deixemos
que ela mesma resolva que vida quer levar. Estranhei quando ela pediu
um vestido, e no fim achei-a linda! Apesar de tudo, Rukhai é vaidosa...
Eu gosto dela, sinto pena em saber o quanto já sofreu. Não me atrevo
a deixá-la sozinha novamente!
Heka
puxou a irmã de encontro ao peito. Permaneceram em silêncio por um longo
tempo, pensando em milhares de coisas. Akh finalmente decidiu que era
hora de descansar e os dois separaram-se com dezenas de beijos. Minutos
depois, contudo, Heka ouviu ruídos e sorriu quando sentiu a irmã enfiando-se
sob suas cobertas. Adormeceram abraçados, lembrando de quando eram crianças
em Abtu.
*************
Akh
acordou com o irmão saindo para o depósito a fim de despachar as cargas.
Rukhai levantou-se pouco depois, com uma ligeira ressaca. Akh descobriu
que Menoren havia aprendido muito sobre ervas com Heka e passaram um
longo tempo discutindo os efeitos de este ou aquele remédio. Quando
ele foi preparar o almoço com a ajuda de Akh, Rukhai ficou gravitando
em torno dos tachos pretextando que queria aprender alguma coisa, e
aproveitou para beliscar a comida antes da hora. Heka voltou para almoçar,
avisando que naquela noite precisaria receber alguns convidados para
o jantar.
-
São comerciantes e homens importantes com quem tenho muitos negócios!
- explicou - Costumo oferecer um jantar a todos sempre que retorno à
cidade, a fim de comunicar sobre a carga que tenho disponível. Ontem
consegui mantê-los afastados, porém hoje preciso dar continuidade ao
ritual... Não seria de bom tom deixá-los esperando!
Akh
sentiu-se triste em ter que voltar a usar roupas de homem. Heka deu
algumas peças de ouro e prata a Menoren para que comprasse tudo o que
fosse necessário para o jantar, bem como algumas roupas adequadas para
as duas - roupas de homem, bem entendido. Era necessário manter a farsa
o máximo possível. Menoren não demorou muito a voltar do mercado, acompanhado
por um carregador para trazer tudo o que havia comprado. Distribuiu
as roupas novas - e finas - entre Akh e Rukhai, que puderam até escolher
o que lhes ficava melhor, e rumou decidido para a cozinha, a fim de
preparar o jantar.
Heka
voltou pouco antes do horário combinado, para tomar banho e fazer a
barba. Alguns convidados chegaram quase em seguida, outros viriam depois.
Esperta, Rukhai agiu como se fosse um copeiro, servindo vinho aos recém-chegados
com a maior naturalidade e mantendo-os entretidos enquanto Heka terminava
de arrumar-se. Seguindo o exemplo de Rukhai, Akh falava pouco e sorria
discretamente, oferecendo travessas com aperitivos. Percebia que Heka
vigiava-as pelo rabo dos olhos, certificando-se de que tudo corria bem,
mas os convidados nem sequer deram atenção às duas, mergulhando a atenção
nas conversas sobre negócios, leis locais e culturas estrangeiras.
Enquanto
os homens jantavam na sala, Akh e Rukhai comeram às pressas na cozinha
com Menoren. O velho estava satisfeito e explicou que Heka certamente
fecharia bons negócios naquela noite, tendo por base apenas a presença
de tantos comerciantes.
-
Meu mestre é esperto, - comentou Menoren com orgulho - ele sabe o que
eles querem e traz sempre as melhores mercadorias! Nunca o vi ter prejuízos,
e acho que tê-los deixado esperando por uma noite só aumentou a curiosidade
de todos!
-
E o negócio é tão lucrativo assim? - Akh estava impressionada com as
jóias e roupas de alguns convidados - Todos parecem ricos demais!
-
Nem todos são tão ricos! - Menoren permitiu-se uma risadinha maliciosa
- Às vezes é mais importante parecer do que realmente ser... Faz parte
do negócio mostrar-se próspero! Alguns deles têm apenas estas jóias
que tu vês hoje aqui, enquanto outros possuem cofres cheios delas...
E quem os vir e não os conhecer julgará que são todos igualmente ricos!
E nem todos são comerciantes, alguns deles são governantes, militares,
criadores de gado. Eles aparecem para comprar uma ou outra carga especial,
obras de arte, jóias, ou simplesmente negociar o transporte de animais,
a entrega de correspondências importantes... E há os que vêm só para
aparecer, ouvir as novidades, passar o tempo...
Akh
viu uma lógica enviesada em tudo aquilo, sentindo que ainda tinha muito
o que aprender. Quando comerciava nos desertos, ou mesmo quando teve
sua loja, jamais imaginou que os grandes negócios envolvessem tanta
política. Parecia simples ser comerciante - vendia-se o que os outros
precisavam e recebia-se em troca algo que se precisava. Mas Heka estava
num patamar muito acima disso, lidando com grandes quantidades de produtos
trazidas de lugares distantes, mercadorias finas e caras que nem todos
poderiam comprar. Não era como vender punhados de ervas numa lojinha
em Éfeso!
Assim
que terminou de comer, Akh voltou a circular por entre os convidados.
Agora que sabia a verdade, podia perceber quais eram os homens realmente
influentes naquela reunião, os donos do poder e da riqueza. Estes estavam
quase sempre com algum criado finamente trajado grudado à sua sombra,
enquanto os mercadores menos ricos agrupavam-se em volta deles, rindo
de suas piadas. Os poderosos eram, em certas ocasiões, menos polidos
com os que os circundavam, pois decerto sabiam que estavam sendo bajulados.
Heka era a única exceção, tratando todos com amabilidade. Mesmo
os mais ricos davam um jeito de aproximar-se dele com sorrisos nos lábios,
para cochichar a seu ouvido. Dependendo da resposta de Heka, alguns
afastavam-se visivelmente satisfeitos, enquanto outros pareciam um tanto
desconcertados. Akh não sabia sobre o que conversavam, desconfiava apenas
que estavam fazendo propostas de negócios que Heka ora aceitava, ora
recusava, daí as reações diferentes de cada mercador.
O
que a deixava espantada era a desenvoltura com que o irmão, antes tão
incapaz de ceder a qualquer jogo de interesses, agora circulava entre
aqueles gananciosos comerciantes como se tivesse crescido entre eles.
Definitivamente aquele não era o Heka Ma'At que ela conhecia - o sacerdote
orgulhoso de Abtu, o curandeiro nômade de olhar sério e ouvidos atentos,
o administrador criativo porém brigão de Saqqara. Esse Heka de Katsambas,
vestido como um príncipe e trocando cochichos com políticos e mercadores,
sorrindo falsamente, Akh não sabia quem era.
*************
Já
era tarde quando o derradeiro grupo de convidados partiu. Assim que
viu o último deles desaparecer pela calçada que descia a colina, Heka
desabou sobre um divã adamascado perto da porta e, arrancando as sandálias,
desandou a praguejar em idiomas que só Akh conseguiu entender. Provavelmente
acostumado com outras cenas iguais, Menoren acudiu com uma taça de vinho
temperado com ervas e mel, enquanto Rukhai encolheu-se assustada atrás
de uma coluna.
-
Malditos abutres! Chacais! - xingou Heka, voltando ao idioma local -
Ah, o que preciso aturar para manter meu negócio! Juro que, se eu pudesse,
arrancaria suas orelhas a dentadas! Bando de idiotas, saem daqui de
estômago cheio e pensando que fizeram ótimos negócios enganando-me!
Pois sim, veremos!
Akh
sentiu-se mais tranquila ao ouvi-lo nervoso. Aquele sim era o Heka Ma'At
que conhecia!
-
Nada como um dia após o outro! - resmungou Heka, virando o vinho quase
num único gole. Durante todo o jantar bebera muito pouco, preferindo
permanecer atento ao que se passava - Ainda estou para ver quem haverá
de passar-me a perna!
-
As negociações desta noite pelo jeito não foram tão boas... - arriscou
Menoren - Algum problema, senhor?
Heka
percebeu Rukhai espiando por trás da coluna e resolveu moderar o tom.
-
O de sempre, meu caro amigo, o de sempre! - disse, com um gesto entediado
- Eles tentaram oferecer menos do que vale minha mercadoria... Aquela
ladainha que tu conheces. Se não tivessem todos acorrido em massa a
esta casa, nem estivessem todos tão preocupados em parecer o que não
são, eu teria chegado a duvidar do meu sucesso... Mas bastava ver a
agitação deles para saber que vou lucrar muito com esta última viagem!
Menoren
apressou-se em recolher as travessas e Rukhai aproveitou para escapar
para a cozinha. Vendo-se à sós com o irmão, Akh sentou-se ao lado dele
e massageou-o nos ombros, como costumava fazer sempre que via-o nervoso.
Heka espreguiçou-se como um gato manhoso.
-
Perdão, esses jantares sempre me deixam entediado! - disse ele, num
tom mais relaxado - Se não fossem uma necessidade, decerto que evitaria
tudo isso!
-
Eu bem que estranhei ao ver-te metido em tanta política! - riu Akh,
desfazendo-lhe a trança - Tu nunca foste homem de diplomacia, de meias
palavras...
-
Ah, mas quem disse que nunca enfrentei alguns desses malandros? - Heka
sorriu maliciosamente - Aqui em público é uma coisa, quando fico a sós
com cada um deles é outra muito diferente! Mas eles nunca espalham isso,
para não passar por vencidos... Todos vangloriam-se que obtiveram o
que queriam, enquanto eu é que saio lucrando! Eles podem até falar que
conseguiram me dobrar, mas pagam o que eu peço! Eu enfrento os piratas
e trago as mercadorias mais caras, então eles são obrigados a jogar
pelas minhas regras!
-
Então é por isso que estás tão rico! - Akh parecia deliciada - Tu trazes
coisas que todos querem mas que poucos trazem, e jogas com a ganância
destes homens... Estou orgulhosa de ver! Sempre preferiste rolar pelo
chão aos murros do que sorrir falsamente para conseguires o que queres...
O
tom irônico de Akh não passou desapercebido ao irmão. Mesmo tendo ficado
séculos sem vê-la, conhecia-a bem demais. E ela também o conhecia. Levantando-se
sorrateiramente para verificar se Menoren ou Rukhai não estavam por
perto, Heka voltou ao divã, falando baixinho em egípcio por precaução:
-
Há algo que preciso perguntar-te! Tu também mataste um de nossa espécie...
- percebendo como ela tentou levantar-se para fugir ao assunto, Heka
puxou-a de volta com firmeza - Por favor, escuta-me! Sei que não gostas
de lembrar disso, porém preciso saber o que sentiste, o que houve contigo
depois daquilo!
-
Como, o que houve? - Akh olhou-o sem entender, não disfarçando a impaciência
- Eu o matei! Cortei-lhe a cabeça e ele não levantou-se mais, só isso!
-
Sim, mas o que aconteceu então? - Heka estava disposto a insistir -
O que sentiste, o que viste? Por favor, eu preciso saber...
Akh
suspirou e, vendo que a curiosidade dele era séria, recontou com o maior
número de detalhes possíveis o que ocorreu, ou pelo menos aquilo de
que ainda podia lembrar-se. Falou sobre como o vento moveu-se sozinho
a seu redor, sobre as luzes estranhas que estalavam, as vozes que ouviu
e a horrível sensação de sentir seu próprio corpo ser tomado por uma
força invisível e indomável. Heka acompanhou tudo com atenção.
-
Pensei que eu fosse explodir! - disse Akh - Nada fazia sentido, eu ouvia
e via coisas! Era como se nem fosse eu mesma...
-
É isso! - interrompeu Heka de repente - É isso mesmo o que senti! Parecia
que não era eu, e às vezes ainda acho que não sou!
-
Tu também? - Akh arrepiou-se - O que sentes? Tu também tens pesadelos?
-
Tenho, mas são coisas estranhas, que sei que nunca vi ou vivi... Ainda
ouço vozes!
-
Então não sou só eu! - Akh parecia ter tirado um peso dos ombros - Pensei
que tivesse enlouquecido! É como se aquele homem horrível me perseguisse
do Reino dos Mortos...
-
Não, eu sinto o mesmo! - Heka abraçou-a - Desde que matei o primeiro,
senti forças novas agindo em mim! Às vezes me vejo fazendo ou pensando
coisas que eu não costumava pensar ou fazer antes, isso incomoda-me!
E quando matei o outro depois, tudo piorou... São como demônios lutando
dentro de mim, e tenho que vencê-los diariamente!
-
Ah, meu irmão, é assim mesmo que sinto! - Akh apertou-se contra ele
- Como se ele estivesse dentro de mim e eu precisasse fazê-lo calar-se!
Será que todos sentimos essas coisas?
-
Não sei... Talvez!
-
Imhotep nunca falou-nos sobre isso!
-
Imhotep nunca matou outro de nossa espécie! Ele nunca soube o que é
decapitar alguém!
Heka
sentiu Akh afastar-se involuntariamente. Sim, Imhotep ensinou-lhes tudo
o que sabia, mas ele nunca soube tudo. Ele fugiu assustado quando seu
mestre decapitou outro Imortal e nunca mais viu o tal mestre. Akh e
Heka eram inexperientes, nunca representaram uma ameaça e confiavam
nele completamente. Quando encontrou seu próximo Imortal, a sorte de
Imhotep tinha acabado e ele não escapou com vida.
-
É por isso que hoje sou capaz de lidar com esses mercadores, - explicou
Heka, mudando o rumo da conversa sem sair do assunto - pois aprendi
de repente a mentir! Aprendi a manipulá-los, a enganar, a representar...
Nós mentíamos quando andamos aquele tempo todo no deserto, porém agora
é pior! Às vezes as palavras saem sem que eu pense realmente sobre o
que estou dizendo. Eu não era assim antes!
Akh
pensou por alguns segundos antes de perguntar:
-
Tu disseste que aquele primeiro Imortal que encontraste tentou enganar-te...
Que mentiu para ti. Achas que essa tua mudança tem algo a ver com ele?
-
Estou quase certo disso! - Heka confessou, sério - Nos primeiros dias
senti tonturas, tive vontade de arrancá-lo de dentro de minha cabeça...
Quase podia ouvi-lo rindo de mim! A primeira coisa que fiz quando encontrei
uma caravana foi desfiar um monte de mentiras tristes sobre como fui
parar sozinho no deserto... Senti-me péssimo, mas as palavras pulavam
de minha boca sem parar! Quase não reconheci minha voz... Tu sabes que
nunca gostei de inventar coisas quando o assunto é sério! E o pior é
que todos acreditaram em mim, tudo fazia sentido para eles! Foi horrível
perceber que eu não tinha controle sobre minhas próprias palavras...
-
E hoje? - Akh notou que ele tremia - Ainda sentes o mesmo?
-
Não como antes! - Heka afastou-a e olhou-a nos olhos - Aos poucos consegui
controlar isso, não é tão forte agora. Porém acostumei-me a criar histórias
complicadas quando preciso ocultar meu passado, quando me pressionam.
Virou um hábito... É como se uma máscara cobrisse meu rosto e minha
mente produzisse detalhes que ninguém seria capaz de dizer que foram
inventados!
Heka
levantou-se e serviu-se do vinho temperado que Menoren havia deixado
num jarro de prata.
-
Na vida que levo, todos querem saber com quem estão lidando, fazem perguntas
para certificar-se de que podem confiar seus negócios a estranhos. Por
onde passei, inventei uma vida diferente. Aqui em Katsambas todos acham
que sou filho único e herdei os negócios de minha família. Só Menoren
sabe parte da verdade! E tu, para quem jamais consegui mentir...
Agora
Akh compreendia tudo com mais clareza. Depois de ter decapitado Deasir
ela ouviu-se dando ordens aos homens da caravana, tomando decisões pelo
grupo, carregando caixas enormes. Nunca fora de esconder-se à sombra
de ninguém, tinha até fama de encrenqueira, mas aquilo foi diferente.
Às vezes flagrou-se tendo pensamentos maldosos, calculistas, e ficou
assustada. Em Éfeso esteve em paz por décadas, mas no navio para o Egito
viu-se com raiva da mulher que reclamava do cheiro ruim, planejando
até jogá-la ao mar. Em outros tempos, o máximo que faria seria arrumar
uma bela discussão, quem sabe trocaria uns tabefes com a outra - jamais
teria idéias criminosas. Talvez fosse a energia pesada de Deasir ainda
agindo em sua mente!
Uma
risada de Rukhai na cozinha despertou os irmãos dos pensamentos em que
haviam mergulhado sem perceber. Heka voltou-se da janela junto à qual
tinha permanecido e sorriu olhando para o vinho no fundo da taça.
-
Queres ouvir uma coisa engraçada? - perguntou de repente à irmã, com
uma careta - Aqui em Katsambas não há casas da alegria decentes...
Akh
olhou-o por alguns segundos sem entender. De repente começou a rir alto,
e Heka Ma'At acompanhou-a. Logo estavam às gargalhadas, cantando juntos
uma música obscena que Heka tinha aprendido na primeira noite em que
foi à casa da alegria de Saqqara, com Imhotep. Os dois voltaram completamente
bêbados naquela noite, e foi Akh quem cuidou de ambos. Cantar aquela
música agora era como uma catarse.
Rukhai
e Menoren assomaram à porta com visível curiosidade. Viajado e acostumado
ao palavreado estrangeiro do patrão, Menoren compreendeu algumas frases
em egípcio e tentou tirar Rukhai da sala, mas já era tarde - ela conhecia
uma música parecida e sabia palavrões o suficiente para entender do
que se tratava, rindo até não poder mais. Heka pediu que Menoren trouxesse
mais vinho e, desta vez, Akh decidiu beber também, incentivando todos
a sucessivos brindes. Heka começou a batucar numa banqueta estofada,
desfiando novas canções obscenas e levando todos às gargalhadas. Incentivado
pela bebida, Menoren desenterrou um alaúde e acompanhou-o, enquanto
Akh e Rukhai dançavam e batiam palmas no meio da sala. Heka juntou-se
às duas com a banqueta debaixo do braço, inventando passos estranhos
e quase fazendo Rukhai cair de tanto rir. Akh enchia os copos sem parar
enquanto dançava, bebendo como nunca tinha feito antes.
Perdendo
de vez a compostura e com a voz pastosa dos ébrios, foi a vez de Menoren
cantar músicas tão indecentes quanto as de Heka, relembrando os tempos
em que era um marinheiro e frequentava tabernas suspeitas. Rukhai desabou
rindo num divã e acabou por mergulhar na inconsciência da bebedeira,
sem que os outros sequer dessem por sua falta. Akh dançou com a taça
na mão, acompanhando Heka em uma coreografia caricata, até que ambos
caíram sentados no tapete, rindo um do outro e dos sons ridículos que
Menoren agora tirava do alaúde, completamente grogue.
Vendo
os primeiros raios do sol, Menoren ainda encontrou o caminho para seus
aposentos, enquanto Akh e Heka acabavam com o resto do vinho, largados
pelo chão e falando asneiras. Akh conseguiu subir para um sofá e atirou
almofadas no irmão, quando este tentou puxá-la pelo saiote para terminar
de contar uma piada. Falando e rindo sozinho, Heka agarrou-se às almofadas
e desmaiou no tapete, roncando alto, mas Akh nem percebeu - já estava
adormecida.
*************
