Madri
-
Será um prazer. Não se preocupe, eu encontro.
Pousou
o telefone levemente no gancho. Todo o quarto estava envolto por uma
nuvem de fumaça de cigarro. Ele levantou-se do sofá de dois lugares
bege, escuro devido à sujeira de poeira e com uma das molas saltando
para fora do estofado, que se encontrava num canto do quarto ao lado
de uma banqueta, onde estava o telefone. Rodeou a cama e abaixou-se,
puxando uma maleta preta debaixo dela. Maleta que era a única coisa
que brilhava naquele escuro quarto. As paredes haviam sido encobertas
por uma grossa poeira, formando marcas inteligíveis. Uma lâmpada fraca
iluminava aquele aposento do apartamento, que tinha uma porta em direção
ao minúsculo banheiro e à cozinha, quase tão pequena quanto, e outra
porta de saída.
Miguel
Carrère colocou a maleta em cima de uma penteadeira que tinha sobre
si um espelho partido pela metade, uma rosa murcha, e um porta-retratos.
Fixou o olhar na foto, e se foi a abrir a janela, espalhando um pouco
da fumaça. Observou os prédios ao lado, fechou uma pesada cortina azul
marinho e voltou sua atenção novamente para a maleta. Ao abri-la, um
sorriso tênue percorreu seus lábios. Acendeu outro cigarro, o quinto
do terceiro maço do dia, e tirou a H&K SGM-90¹ da caixa. Pegou
uma flanela, lustrou as armas calmamente e depois as carregou. Só então
fitou novamente a fotografia, que tinha a imagem de um maestro de fraque
e cabelos grisalhos, com um grande e viçoso cavanhaque, e começou a
conversar com ela:
-
Pai, novamente irei cumprir minha promessa. Eu vou matar a todos, todos
eles. Sabe, eu lembro do dia que você voltou da apresentação para os
homens da gravadora. Eu não entendia como eles não gostaram de sua música
e você disse sobre os zumbis. Malditos zumbis! Eles estão por toda parte,
por todos os lados, quase todo mundo está virando zumbi. Mas eu não
vou deixar, vou matá-los todos, todos, todos.
Foi
até uma vitrola antiga e colocou um disco no volume mais alto que conseguiu.
Uma música orquestrada invadiu as caixas de som.
-
Sua bela obra-prima, pai: A Balada de Madri.
Miguel
começou a cantar, acompanhando as notas enquanto rodopiava pelo quarto,
mirando com o fuzil empunhado.
O
NOVO ALVORECER
A Balada de Madri
Juan
e Enrique fizeram uma viagem tranqüila. O garoto ainda apresentava sinais
de cansaço, e dormiu o vôo inteiro. Enrique preferia assim, pois ele
não faria nenhuma pergunta inoportuna, perto de tantas pessoas. Chegaram
em torno das 18:00h no aeroporto de Madri e pegaram um táxi. Não tiveram
tempo sequer de olhar para uma tv que já divulgava amplamente que a
cidade de Santa Cecília passava por um período conturbado: depois das
três trágicas mortes e do estranho acidente nos armazéns da cidade,
agora o detetive responsável pelas investigações encontra-se morto numa
estranha batida em que dois veículos capotaram e pegaram fogo logo após.
O corpo do policial fora encontrado carbonizado e foi parcialmente reconhecido
devido ao carro e aos pertences no local do acidente, porém ainda aguardava-se
a perícia e a necropsia. Mas os fatos estranhos não paravam por aí,
enfatizava o jornalista, levando-se em conta que o condutor do outro
carro estava desaparecido. A polícia continua procurando por pistas
tendo como principal hipótese que ele havia escapado do acidente e fugido
do local.
Enrique
estava empolgado com o passeio que agora faziam. Pedira ao taxista que
os deixasse na praça "Puerta Del Sol" e agora caminhavam por ela. Viram
a estátua de El Rey Carlos III e depois pararam em frente a uma fonte.
Esta era circular e tinha um chafariz que espichava água e era rodeado
por lindas flores vermelhas. Juan observou a fonte e depois percebeu
que Enrique tinha os olhos perdidos, como se uma lembrança triste o
invadisse. Nesse momento sentiu um aperto em seu peito e uma ânsia.
Por mais que tentasse, não conseguia afastar Anne de seus pensamentos.
A imagem dela agonizando em sua frente, depois sua pele gélida no necrotério,
a face serena que repousava em um sono sem volta. Tantos momentos bons,
perdidos no vazio de uma escuridão latente em suas essências. Um vazio
imenso cravado em sua alma, ou o que sobrara dela, pois parte havia
morrido com Anne. Em todo seu íntimo desejava abrir os olhos, e olhar
para a água a sua frente - ela está agitada, a queda do chafariz faz
com que ela se movimente, revolta. Juan ouve as pessoas que passeiam,
mas concentra-se em passos que se dirigem para ele. Sente duas mãos
leves pousarem em seus ombros. Um doce e inebriante perfume acaricia-o,
enquanto aquele corpo roda e abraça o seu, e sente seus lábios se unindo.
Anne. Ficaria assim para sempre. Nada mais, nenhum desejo, nenhuma vontade,
somente os dois, para sempre.
Abriu
os olhos e novamente viu a fonte. De seus olhos brotavam lágrimas tristes,
doloridas. Enrique tocou gentilmente nas costas de Juan, ensaiou um
sorriso e disse que ele era um garoto de sorte, pois Enrique o levaria
até a Chocolatería de San Ginés e lhe pagaria um dos famosos churros
de chocolate de lá. Juan tentou retribuir o sorriso e deixou-se conduzir.
Eles
provaram daquela iguaria e depois seguiram pela Calle Mayor. Juan havia
espairecido um pouco e agora Enrique falava animadamente sobre a cidade.
Contava-lhe que houveram muitas batalhas pela sua conquista entre cristãos
e mouros, até 1083, quando o rei Alfonso VI finalmente reconquistou
Madri. Mas, por muito tempo, aquela fora uma vila quase sem importância,
até que em 1561 o rei Felipe II estabeleceu ali a corte real, e a cidade
se expandiu e se tornou a capital da Espanha. Enrique começou a falar-lhe
sobre a invasão de Napoleão em 02 de Maio de 1808, mas essa história
Juan já conhecia de suas aulas de história no colégio:
-
No centro da cidade - continuou Enrique - havia uma fortificação construída
pelos mouros, chamada Mayrit. Apesar de, após a conquista, o rei mandar
destruir todas as construções árabes, o nome permaneceu e foi-se adaptando
até chegar a Madri. E esse nome continua até hoje.
A
dupla seguiu passeando e conhecendo a cidade até chegarem à Plaza Major,
uma praça retangular cercada por belíssimas construções de três andares,
mais o térreo e o sótão, que juntos formavam a belíssima arquitetura
do lugar. A Plaza fora inaugurada em 1620 mas, após três incêndios,
só ficaria pronta definitivamente em 1853, quando seus quatro lados
foram unidos, tendo desde então sido palco de execuções públicas, cerimônias
de coroação, festas da realeza, touradas, autos de fé, paradas militares
e tribunais da Santa Inquisição.
Juan
estava boquiaberto. Já havia visto aquele lugar por fotos mas, àquela
hora da noite, uma movimentação de gente tomava a praça e as luzes dos
bares espalhavam um desenho maravilhoso naquele quadrilátero fantástico.
A maioria das muitas janelas que rodeavam o local tinham sacadas que
se voltavam direto para o centro da praça, onde artistas e vendedores
se somavam às pessoas que passeavam e distribuíam-se entre bares, cafés
e lanchonetes. Juan olhou para uma estátua, uma figura montada num cavalo,
e dirigiu-se para Enrique num tom de indagação. Enrique fez uma reverência
à estátua e, com um sorriso, respondeu:
-
Vossa Majestade, Felipe III. O rei que inaugurou esse primoroso recanto.
Ambos
estavam embebedados pela euforia contida que aquele lugar espargia e
que contagiava a todos que ali se achegavam. Uma festa para os olhos
e para a alma. Foram até um dos desenhistas da Plaza e Enrique pediu-lhe
que desenhasse seu retrato. Juan deslumbrava-se com as mãos hábeis e
rápidas do rapaz que desenhava a figura em preto, fazendo traços finos
de nanquim com uma caneta bico-de-pena e preenchendo o vazio da folha
branca com a expressão zombeteira de Enrique, que esforçava-se em permanecer
parado e servir de bom modelo. Quando o artista terminou, Enrique pagou-o
enquanto apreciava o desenho:
-
Tem uma grande sorte em poder me desenhar. Conheço centenas de artistas
que pagariam fortunas pela honra de uma pincelada de meu rosto. E mulheres
que pagariam dezenas de vezes mais só para ter minha foto! - Enrique
soltou uma gargalhada, rindo do próprio gracejo, que também fez o rapaz
rir.
-
Tem a virilidade da Monalisa! - Juan analisou, desdenhando e caçoando
da figura - As mulheres pagariam para poder rasgar sua cara feia.
Mais
risadas foram ouvidas. Os três se despediram. Enrique e Juan andaram
mais um pouco, visitando as barracas dos vendedores do lugar, e depois
foram até um dos barzinhos. Era um lugar aconchegante e os dois escolheram
uma das mesas ao ar livre, que tinham guarda-sóis, agora fechados, e
de onde podiam continuar a vislumbrar o movimento de pessoas. Admitiram
que fora ótimo sentar e relaxar as costas, deixando as mochilas imensas
repousando no chão, enquanto experimentavam várias copas², vinhos
e comiam deliciosos tapas³. Quando Juan começou a ficar levemente
ébrio, resultado dos drinques, algumas moças sentaram-se em uma mesa
ao lado e Enrique começou a flertar e a fazer piadas, ao que elas se
mostraram receptivas. Depois de um tempo, Juan começou a azucriná-lo,
dizendo que queria ver a estátua mais de perto. Enrique pagou a conta
e colocou novamente a mochila nas costas, mas antes de sair mirou o
retrato, que agora se encontrava enrolado em forma de canudo em sua
mão, e foi-se até a mesa das garotas. Fez uma mesura e entregou a pintura
a uma morena belíssima, que havia lhe dispensado alguns olhares, dizendo
que, se levasse o retrato consigo, acabaria por amassá-lo. A morena
ficou um pouco ruborizada diante dos risinhos abafados das outras colegas
da mesa, mas aceitou o presente com um belo sorriso. Enrique ouviu algo
de Juan, fazendo chacota que ele próprio não teria coragem de fazer
aquela cena, mas não lhe deu atenção, já que o garoto saiu trotando
em direção a estátua, enquanto ele seguia lentamente de longe.
*************
Miguel
andava pela rua num passo curto e apressado. Vestia um grande casaco,
folgado para seu corpo esguio, e a maleta caía-lhe na mão esquerda.
Seus olhos castanhos escuros, quase negros, corriam por todas as direções
e volta e meia ele se virava, acompanhando também aqueles que vinham
de trás, o que fazia o vento bater mais forte em seu cabelo ralo e calvo
na altura da testa. Tinha um bigode fino e cortado cuidadosamente em
forma triangular, ao contrário do resto da barba que estava por fazer.
A mão direita permanecia no bolso do casaco, segurando um papel que
há pouco recebera.
Ele
não gostava de encontrar-se com aquele homem. Sentia calafrios. Mas,
apesar de tudo, sabia que estava fazendo uma boa ação. Ao sair da sarjeta
e atravessar a rua, a chave, que também recebera há pouco, tilintou
no bolso de sua calça. Mirava o olhar nas pessoas que passavam. Todos,
todos eles, poderiam ser. Malditos. Estão nos infectando. Ou não, não
eram. Mas se fossem? Zumbis. Bonecos controlados pelos generais malditos.
Párias. Reprimem sentimentos, a arte, a vivência. Miguel sentia as pessoas
fixando profundos olhares em direção a ele. Todos sentiam de longe sua
aura de pureza e todos os olhos magneticamente voltavam-se para ele.
E todos, todos, todos o olhavam demoradamente por todos, todos os lados.
Ele podia sentir. Tinha certeza. Sussurravam comentando sobre ele. Quase
podia ouvir. Via que todos eles sentiam. Via que todos eles ouviam.
Sentia a si mesmo misturando-se com o cheiro odioso daquela cidade.
Cidade infectada e mergulhada em todo o tipo de devassidão. E que só
ele podia purificar.
Miguel
viu a Plaza Major a sua frente. O cheiro podre só aumentava. Tirou as
chaves de seu bolso e seguiu adentrando em uma das construções que circundavam
a Plaza. Subiu penosamente até a porta, que abriu com um barulho metálico
de protesto à chave e depois se fechou com o mesmo ruído. Miguel vislumbrou
rapidamente o aposento e foi para a janela, abrindo-a e ficando a admirar
na sacada, enquanto acendia um cigarro. Estava próximo ao chão, o aposento
ficava no 1º andar. Abaixo dele um bar, com uma grande movimentação,
figurava entre os mais agitados da Plaza. Entrou novamente, colocou
a maleta em uma mesa e retirou dela seu conteúdo: o rifle e um binóculo.
Depois pegou o papel em seu bolso e ficou a decorar a imagem por um
tempo, enquanto terminava o cigarro. Ritualmente, Miguel deitou-se na
sacada e colocou o rifle a seu lado. Com o binóculo, começou a esquadrinhar
lentamente todo aquele antro, com olhos perspicazes e astutos.
Todas,
todas aquelas pessoas, aos pouco se infectando e mal percebem. Todos
com os olhos vendados, alimentados como cobras criadas. Potencialmente
uma ameaça. Mas ele as iria ajudar. Eliminando, destruindo, acabando
com todos os zumbis. Malditos.
Miguel
continuou observando a praça por alguns minutos até que, de repente,
sua nuca se eriçou e ele apertou mais forte o binóculo contra os olhos.
Os dois malditos zumbis estavam bem embaixo dele, contagiando o ar ao
redor. Miguel largou o binóculo e pegou o rifle, enquanto expirava profundamente.
Inspirou e quase imperceptivelmente começou a cantar a música que seu
pai deixara para a eternidade. Seu pé direito batia levemente no chão
em que ele ainda se encontrava deitado, marcando o ritmo da música.
Um dos zumbis correu na frente em direção ao centro da praça. Seria
a última vez que correria. Seus olhos se ajeitaram na mira da arma e
todo seu corpo se preparou. Todos, todos eles, nunca mais correriam.
*************
Juan
sentia-se um pouco aliviado. A semana parecia-lhe ter demorado anos
para passar e ele tinha o peso de cada um desses anos forçando-lhe as
costas, mas essas últimas horas foram reconfortantes. Parecia que seu
coração se afastava e desapertava um pouco seu peito. Mas a tristeza
ainda era latejante em si. Mesmo assim gostara da companhia de Enrique.
Percebia o quanto ele media as palavras antes de lhe dizer qualquer
coisa, e isso deixava Juan absorto em pensamentos dúbios. Estaria Enrique
medindo conseqüências para que não dissesse nada que Juan não deveria
saber ou simplesmente tentando ser amigável, poupando palavras ásperas?
Não tinha certeza de nada. Preferiu limpar todos os pensamentos da mente.
Estava curioso para ver a estátua e deixou que isso o ocupasse por inteiro.
Havia corrido e deixara Enrique para trás. Aliás, não sabia sequer se
ele o havia acompanhado. Voltou-se para procurá-lo.
Ao
virar-se, Juan sentiu uma enorme pontada no ombro esquerdo. Sua visão
escureceu momentaneamente e ouviu-se soltando um grito agudo, enquanto
rodava e caía de costas no chão, sentindo a pancada ao cair sobre a
mochila e rodar apoiando no ombro direito. Automaticamente, levou a
mão ao ombro e deu-se conta do que havia ocorrido. Um tiro fizera um
buraco acima de seu peito. Pelo menos era isso que lhe parecia, enquanto
sentia o sangue escorrer.
Enrique
havia visto a cena que parecia ocorrer em câmera lenta, enquanto o garoto
rodopiava e caía de costas. Só se dera conta do acontecido quando ouviu
uma voz feminina gritando "tiro". A partir daí, um efeito dominó ocorreu
e em alguns segundos toda a praça encontrava-se em um enorme tumulto.
Pessoas corriam de todos os lados, gritando, perdidas e desesperadas.
Enrique instintivamente olhou na direção contrária de Juan, procurando
o autor do disparo. Não foi difícil, logo deparou-se com uma pessoa
levantando-se na sacada do 1º andar e sua arma refletindo as luzes do
lugar. Ao ver a figura, soltou a mochila no chão e como um relâmpago
correu em direção ao bar que ficava embaixo da sacada. Se não fosse
tamanha a algazarra e alguém estivesse prestando atenção, provavelmente
ficaria impressionado com a velocidade com que ele correu, pulou sobre
a mesa do bar e puxou um dos guarda-sóis que permaneciam fechados. Saltou
em outras duas mesas, aproveitou o impulso e, espantosamente, pulou
até a sacada, agarrando e se apoiando com a mão esquerda, enquanto a
outra permanecia segurando o guarda-sol.
Miguel
havia xingado entre dentes quando de repente, no último segundo, aquela
criatura maldita virou-se e ele errou o tiro. Para completar seu infortúnio,
ou maldito azar, como ele dizia, perceberam rapidamente o que estava
acontecendo e uma confusão se generalizou. Os policiais não demorariam
a chegar, então empertigou-se para dentro, buscando sua maleta para
sair logo de lá. Mas fora obrigado a se virar quando ouviu um barulho
que vinha da sacada.
Viu,
totalmente atônito, Enrique erguendo-se e endireitando-se enquanto passava
o pé direito pela grade, deixando livre a própria mão. Sem pestanejar,
nem ao menos para raciocinar, Miguel empunhou a H&K e firmou-se, pronto
a atirar. Nesse momento, Enrique abriu o guarda-sol e pulou sobre a
grade, equilibrando-se de cócoras nela e escondendo seu corpo inteiro
atrás do guarda-sol, fazendo o atirador perder toda a noção de onde
disparar. Depois adentrou a sacada e fechou parcialmente o guarda-sol,
para que passasse na porta, e deu uma pancada nas mãos de Miguel, fazendo-o
soltar a arma. Antes, Enrique recebera um tiro de raspão na altura das
costelas, mas ignorou a dor e continuou atacando-o.
Enrique
desferiu mais dois golpes, dos quais seu oponente agilmente se esquivou.
Quando deu o terceiro soco, aquela hábil figura conseguiu segurar o
guarda-sol e chutou-o na parte central, rachando a arma improvisada
e fazendo com que Enrique a largasse, devido à força do golpe. Os dois
se encararam, agora ambos com as mãos livres, e começaram outra seqüência
de golpes.
Juan
respirou profundamente algumas vezes e tomou coragem para sentar-se,
fazendo o ferimento latejar. Ele praguejou, acompanhando o buraco da
bala se fechando, e só então começou a olhar à sua volta. Viu quase
imediatamente a mochila de Enrique no chão, e depois foi fácil achar
a luta, que a essa altura estava sendo travada na sacada - alguém segurava
no pescoço de Enrique e tentava forçá-lo a cair. Juan largou sua mochila
próxima à de Enrique e correu para lá, chutando a primeira mesa que
viu para servir de plataforma, ajudando-o a subir. Enrique tentava a
todo custo apoiar-se para não ser derrubado, até que colocou o pé direito
sob o peito de seu atacante e, usando-o como alavanca, afastou-o, livrando-se
dos braços em seu pescoço. Depois avançou ferozmente e, com mais dois
socos, trouxe a luta outra vez para dentro do apartamento. Seu adversário
atacou novamente, mas Enrique bloqueou o soco e fez o braço de Miguel
girar, abrindo-lhe a guarda, enquanto cravava-lhe um chute no estômago,
fazendo aquele corpo franzino dobrar-se.
Miguel
sentira profundamente o último golpe. Tossiu levemente enquanto olhava
aquele maldito parado em posição de luta, preparando-se para atacar
novamente. Suas mãos correram para dentro da jaqueta e tirou uma pistola
automática com silenciador, atirando em Enrique antes que este pudesse
esboçar qualquer reação. Ouvia os estampidos surdos e taciturnos, que
zuniam saindo de sua arma, enquanto essa fazia pular o corpo morto no
chão. Não parou até ouvir um pequeno barulho metálico, indicando que
sua munição acabara. Jogou a arma no chão e limpou um pequeno fiapo
de sangue que escorria de seu nariz.
-
Vai demorar pra um zumbi me vencer. Maldito!
Miguel
escutou um grito vindo em sua direção. Juan arqueou seu corpo para a
frente e, com os braços cruzados em cima da cabeça, acertou o estômago
de Miguel e empurrou-o, fazendo-o bater contra a parede e segurando-o
lá. Miguel logo revidou e começou a socar a lateral de Juan, acertando
vários golpes na altura dos rins. Como os golpes surtiam pouco efeito,
acertou então uma joelhada no rosto de Juan, obrigando-o a sair daquela
posição que mantinha-o encurralado. Juan esboçou mais alguns socos mas,
mesmo contra parede, aquela estranha figura se esquivou. Quando Juan
tentou socar novamente, seu alvo se abaixou e ele golpeou a mão contra
a parede, soltando um urro de dor.
Aquele
grito foi o suficiente para que o contra-ataque de Miguel começasse.
Deu vários golpes, afastando-se da parede e forçando o garoto para o
meio do quarto. Quando se encontravam perto da cama, Miguel rodou dando
um chute que acertou no peito de seu oponente, que já estava atordoado,
fazendo-o tropeçar na cabeceira da cama e cair no chão, batendo a nuca.
Juan
estava quase desmaiado, mas o outro não parou de atacar. Levantou-o
pelo cabelo e continuou a esmurrar, deixando Juan à beira de perder
os sentidos. Parou a mão no ar, pronto para dar o último soco:
-
Vá para o inferno, zumbi!
Outro
murro foi desferido em direção à face de Juan, mas foi detido no meio
do caminho - Enrique se levantara e agora segurava a mão de Miguel.
Com uma voz imperiosa, Enrique mandou que soltasse o garoto, sendo prontamente
obedecido, enquanto sentia que as mãos do homem começavam a tremer.
Miguel engasgou algumas palavras, gaguejou outras e só depois conseguiu
dizer, em uma voz baixa e vacilante:
-
Como?
Enrique
acertou-o, fazendo com que se afastasse de Juan. Miguel, ainda trêmulo,
esboçou um soco, mas sentiu seu braço sendo aparado e depois torcido,
enquanto seu corpo girava e suas costas sentiam o impacto de seu corpo
no chão. Ainda tentou se levantar mas, com um chute de Juan, caiu desmaiado.
*************
Enrique
Muñoz queria ter ficado e feito aquela figura falar, mas o bom senso
pesara quando ouviram as sirenes dos carros de polícia que se aproximavam.
Saíram de lá o mais rápido possível, e deram sorte de suas mochilas
ainda estarem no lugar onde as haviam deixado. Mesmo assim, Enrique
se foi absorto em formular hipóteses: Por que aquela figura os chamara
de zumbis? Por que raios ele tinha tentado matar os dois? Aliás, se
fossem pessoas comuns teriam sido realmente mortos. Será que ele sabia
o que eram? Mas se soubesse, porque usou armas de fogo e não utilizou
nenhum golpe visando o pescoço de ambos? Essas e outras perguntas ainda
rodavam na cabeça de Muñoz. O garoto também continuava em silêncio e
era desnecessário falar com ele. Só o faria ficar mais confuso. Queria
começar logo o Caminho de Santiago. Isso faria bem para os dois.
Dormiram
numa pousada pequena e discreta e aguardaram a manhã para que continuassem
a viagem.
*************
Miguel
acordou, mas não se levantou. Arrastou-se e escorou-se na parede, ficando
sentado. Os dois malditos já haviam ido embora e, pela quantidade de
barulho que vinha da praça, os ânimos já haviam sido acalmados. Devia
ter passado um bom tempo. Seu corpo estava doendo, não tinha vontade
de levantar-se, seu orgulho estava ferido e acima de tudo estava confuso:
Como?
Ouviu
um barulho na porta. Seus músculos se retesaram, mas logo relaxaram
quando viu uma figura conhecida. O recém-chegado vestia a mesma roupa
de algumas horas atrás: camisa sem botões, calça social e um blazer
por cima. Estava todo de preto. A única diferença é que agora vestia
luvas que brilhavam bastante. Seus longos cabelos amarrados, também
negros, caíam até a metade das costas. Tinha, numa corrente dourada
no pescoço, um pingente em forma de cruz. A velha face que lhe causava
arrepios continuava impassível.
-
Como? Aqueles zumbis, aqueles malditos, eles... - Miguel começou a balbuciar.
O
outro agachou-se perto dele e colocou o dedo sobre os próprios lábios,
indicando silêncio e confrontando os olhos de Miguel. Levantou-se e
apontou uma arma, atirando logo em seguida no meio da testa de Miguel
Carrerè. Fez um sinal negativo com a cabeça enquanto remexia nos bolsos
do morto. Tirou um papel amassado: uma foto impressa de Juan e Enrique.
Guardou-a consigo e saiu do quarto, fechando a porta cuidadosamente
e trancando-a com a chave. Olhou ao redor e chutou-a até que a fechadura
ficasse destruída. Então saiu calmamente, deixando a porta entreaberta
atrás de si.
*************
Notas
explicativas:
1-
H&K SGM-90 - Sniper Rifle com calibre de 7.62mm, capacidade para 10
tiros. Pode ter um alcance efetivo de até 900m usando esse calibre.
2-
Drinque típico da Espanha.
3-
Sanduíche típico da Espanha.
*************
Agradecimentos:
Aka Draven MacWacko
Thiago Salviatti
