Montanhas
Próximas a Loch Shiel - Terras Altas da Escócia - 1715 d.C.
O
vento soprava suave por entre as árvores do bosque de Loch Shiel. O
frio, impiedoso, entrava por entre as roupas como uma navalha. Ao redor,
tudo era floresta e neblina. Muita neblina. O chão estava, como sempre,
forrado de folhas secas das árvores, formando um denso tapete barulhento
para quem se aventurasse a caminhar pelo bosque. O frio, a umidade,
o denso aroma de relva virgem, a quietude do ambiente formava um clima
de paz e tranquilidade quase inabalável. Quase inquebrável.
Quase.
"Eu
avisei que você nunca se esconderia de mim, MacLeod! Não importa onde
você se esconda, eu o encontro, e dessa vez, você vai morrer!" o homem
coberto em grossas peles animais empunhava uma espada diante de si.
Seu rosto era negro, cabelos presos em dreadlocks, estranhas manchas
brancas e vermelhas pelo rosto, difíceis de saber se pintadas ou tatuadas.
À sua frente, poucos metros adiante, Connor MacLeod o observava, olhos
semi-abertos, como que incrédulo do que via. Sua espada permanecia na
bainha.
"Fugir?
FUGIR?!" Connor apoiou-se com o braço em uma árvore para gargalhar do
que o homem dizia. O negro permanecia imóvel, estático, o mesmo olhar
de fúria nos olhos. O escocês voltou a olhar para ele e prosseguiu:
"Fugir
de você? Até agora eu mal me lembrava de você, Akim! Eu decido tirar
algum tempo de descanso aqui nos bosques, onde ninguém vai me reconhecer
e reacender fogueiras para me queimar, e dou de cara com você? Garoto,
está atrás do homem errado, eu não me lembro de o que você acha que
eu te fiz, mas se tivesse feito, me lembraria!" Connor tentava de qualquer
maneira despachar o homem dali. Fisicamente, Akim era mais forte, mas
o Highlander parecia confiante em si, parecia conhecer as capacidades
do seu adversário.
"Você
sabe o que fez, Connor MacLeod! Você me deu a Imortalidade que eu não
queria! Você me amaldiçoou de uma forma que eu não poderia reverter!
Fui banido de minha tribo, linchado como um demônio, deserdado e renegado
por meu próprio pai!"
"Bem-vindo
ao clube, rapaz. Olhe, agora eu me lembro. Eu não queria te matar, já
disse! Nem sabia que você tinha a Imortalidade dentro de si! Eu fugia
de uma diligência e você apareceu na frente da minha carruagem! Foi
um acidente! Como eu ia desviar? Essas coisas acontecem, sabe?" Connor
já encostava as costas na base de uma das árvores, para continuar conversando.
Akim parecia nervoso com essas atitudes, cada vez mais nervoso.
"Isso
não importa. Eu agora vou ter seu poder, seus conhecimentos, sua força!
Sua morte chegou, MacLeod, e dessa vez você não vai acordar em alguns
minutos..." Akim preparava sua espada. "Morra, Connor MacLeod!", Connor
sequer se movia, apenas olhava sorridente e desdenhoso para o jovem
imortal. Nem precisaria de sua espada para derrubá-lo.
"Está
bem, Akim, vamos acabar com iss... UNGH!" a frase do escocês foi abruptamente
interrompida por uma flecha, que surgiu da neblina em um vôo que terminou
em seu peito. Outra seguiu-se, e mais outra. Connor caía ao chão, finalmente
entendendo. Akim não veio sozinho, e agora ele corria sério risco de
vida. Sentiu o sangue subir por sua garganta, Connor tombou para um
lado, tentando alcançar sua espada. Mas a dor era muito grande, ele
iria morrer, e sabia que Akim estava certo. Dessa vez ele não acordaria.
"Maldição...
Idiota..." Por um último segundo, Connor praguejou contra sua prepotência
e arrogência, que o levavam para a morte, tudo por subestimar um oponente.
Sua vista escureceu, e tudo ficou frio. Connor sentiu o gélido abraço
da morte e entregou-se ao silêncio. Era o fim, afinal.
*************
O
silêncio finalmente quebrou-se com o ruído de folhas quebrando, e a
escuridão deu lugar à fraca luz da lua e das estrelas. O frio continuava
o mesmo, mas agora era úmido e trazia novamente o cheiro da vegetação.
Não conseguia dizer se ainda estava na floresta ou no outro mundo. Começou
a tossir, tremendo e engasgando. Sim, estava ressuscitando, não havia
morrido. Mas... Como?
De
repente, sentiu a presença de outro Imortal, e isso o acordou de vez.
Agora podia perceber que, do lado oposto ao que estava virado no chão,
havia fogo aceso. Virou-se, vagarosamente. Não sentia medo, quem quer
que estivesse ali, não queria matá-lo, ou do contrário já o teria feito.
Olhou e viu um homem de costas para ele, sentado no chão sobre algumas
peles, assando carne no fogo. Seus longos cabelos castanhos emaranhavam-se
pelas costas, parecia um homem forte. E parecia ainda não ter notado
que Connor acordara. Duas estacas estavam fincadas ao chão, distantes
do fogo, mas bem visíveis. Na ponta de cada uma, estava a cabeça empalada
de um homem. A cabeça da direita era de Akim, a da esquerda provavelmente
do arqueiro. Connor continuou observando por mais algum tempo, ainda
estavam dentro do bosque, no mesmo lugar, e próximas ao estranho estavam
sua mochila e espada. Não havia outra alternativa a não ser falar com
ele.
"A
minha bem passada, por favor!" disse MacLeod, levantando-se. O estranho
virou-se em sua direção. Seus olhos eram azuis e seu rosto obviamente
escocês, com feições quase poligonais, de aparência forte e robusta.
Sorriu e respondeu:
"Então
você finalmente acordou? Muito bem, você morreu. Bem-vindo ao Inferno,
eu sou Satan. Lúcifer e Belzebu foram buscar mais mantimentos, mas não
devem demorar..." Connor riu e aproximou-se vagarosamente da fogueira,
enquanto o outro Imortal pegava sua espada do lado, rapidamente.
"Ei,
calma, já estou morto, lembra? Só quero me aquecer um pouco no fogo
do Inferno!" Connor seguiu com a brincadeira, o humor Celta era famoso
por suas ironias difíceis de distinguir de conversas sérias. O homem
de olhos azuis apontou a lâmina para ele e retrucou:
"Aaah,
mas existem coisas na vida piores que a morte, meu caro. Qual é a sua
graça, alma penada?"
"Eu
sou Connor MacLeod, do Clã MacLeod. E você, quem seria, além é claro,
do diabo?"
O
Imortal caiu na gargalhada, soltando a espada no chão e deixando Connor
com cara de bobo olhando para ele. Sentou-se e pegou uma carne do pote
de madeira lixada próximo à fogueira, começando a assá-la no fogo. O
outro levantou-se de sua gargalhada pelo chão e disse, ainda engasgando
um riso ou outro: "CONNOR MACLEOD, DO CLÃ MACLEOD! E eu que pensava
que EU era bom em me fingir de morto por séculos...". Connor sequer
olhava para ele, não estava entendendo a piada, e detestava quando isso
acontecia. O homem virou-se para ele, estendendo-lhe a mão, e disse,
em um tom sério e dessa vez livre de ironias:
"Muito
prazer, Connor MacLeod. Eu sou William Wallace, que a Escócia já chamou
de BraveHeart..."
Connor
parou de assar a carne e virou a cabeça em sua direção. Olhos arregalados,
boquiaberto, deixando a carne cair em meio às brasas da fogueira. Teria
ouvido direito?
"William...
Wallace?"
*************
Os
pássaros sobrevoavam a paisagem da manhã nas Highlands. Enquanto o Sol
nascia, seus raios dourados refletiam e difundiam-se nas névoas da manhã,
provocando um maravilhoso reflexo multicolorido no horizonte. A grama
era de um verde tão sereno que só podia ser contrastado pelo pálido
e esbranquiçado azul dos céus escoceses. Uma fina garoa caía sobre toda
a terra e, ao longe, uma pequena lagoa e um rebanho de ovelhas guiadas
por um pastor a cavalo e um cão completavam a paisagem. A sensação de
tranquilidade voltava a assumir o ambiente, e o silêncio dos sons que
não vinham da natureza era tão denso que quase podia-se ouvir as vozes
dos espíritos das highlands.
No
meio caminho entre o bosque e a lagoa, Connor MacLeod e William Wallace
caminhavam lado a lado, conversando em gaélico, com a fluência perfeita
dos nativos.
"Então
as histórias que ouvi sobre você eram verdadeiras... Connor MacLeod,
do Clã MacLeod, mais um Imortal das Highlands... Bem, até onde eu sei,
somos os únicos!" Wallace sorria e Connor seguia caminhando. Nenhum
dos dois parecia ter rumo certo, apenas andavam e conversavam.
"Três
na verdade. Há um outro MacLeod, um parente meu. Seu nome é Duncan MacLeod.
No começo do Século XVII eu o encontrei ressuscitando. Não era sua primeira
morte, ele já havia morrido antes, defendendo o Clã de um Imortal Nórdico,
uma lenda local chamada Kanwulf. Eu decidi adotá-lo como aprendiz e
ensinei-lhe o que sabe." as lembranças de Duncan vinham à tona sempre
que falava de seu ex-aluno. Havia ensinado tudo a ele, a Imortalidade,
o Jogo, lutas com espadas, moral, honra, lutar por um ideal. Já não
via Duncan há alguns anos, talvez o procurasse em breve para comentar
sobre a descoberta de William Wallace.
"E
ele está na Escócia?" Wallace retirou duas maçãs da mochila e mordeu
uma, oferecendo a outra a Connor, que aceitou e disse que não.
"Ele
teve o mesmo destino que eu. Foi chamado pelo Clã de demônio, deserdado
por seu pai, enfim, toda aquela história que se segue quando uma comunidade
vê o filho de alguém importante voltar da morte. A história é muito
imprecisa sobre isso, mas eu imagino que com você não tenha sido diferente..."
"Na
verdade, foi sim... O que sabe sobre mim, MacLeod?" Wallace olhou no
fundo dos olhos de Connor e este respondeu mais que rapidamente. "Sei
que você foi estudado na Europa e quando voltou à Escócia, viu o país
nas mãos da Inglaterra. Então liderou camponeses em ataques muito bem
sucedidos, até que foi traído por alguém e capturado. O que li foi pouco,
mas se não me engano você não deveria estar aqui, já que os relatos
sobre sua punição falam claramente sobre sua decapitação após alguma
tortura..."
Eles
se aproximavam da lagoa nessa hora. William permaneceu em silêncio por
algum tempo, e MacLeod também não disse nada. Andaram até uma margem
e sentaram-se, olhando para o horizonte, forrado de montanhas e colinas
verdes, salpicadas de rebanhos e árvores. Muito ao longe, uma pequena
aldeia podia ser avistada.
"Já
viu no mundo lugar mais bonito, Connor MacLeod?" William parecia enfeitiçado
pelo ambiente. Connor não parecia diferente. Há muito tempo ambos não
pisavam em terras escocesas, e a saudade das Highlands apertava o coração
cada vez que, em um pub ou outro da Europa, sentiam o sabor do whisky
escocês legítimo. "Nunca," respondeu Connor "nem mesmo nos montes da
China, nem nas praias da Itália. Nem no auge de Roma."
"Não
foi só pelo povo que eu lutei, meu amigo, foi por essa terra. Foi por
essas paisagens principalmente que eu ergui espadas e levantei exércitos,
transformando agricultores em soldados." Ele jogou uma pedra nas águas
imóveis e inertes da lagoa, criando dezenas de anéis de água, atravessando
e distorcendo o reflexo do céu. "Eu vou lhe contar, meu bom amigo, o
que aconteceu comigo."
*************
"Em
1280, uma emboscada matou meus pais e parentes. Não vou me detalhar
nessa parte, não darei explicações sobre o que moveu meus atos. Vou
contar a verdade, o que aconteceu lá, a história que os ingleses distorceram.
Enfim, como eu dizia, estava no enterro dos meus pais, eu era nada além
de uma criança..."
FLASHBACK
- Escócia - 1280
No
funeral, os últimos respeitos e cerimônias são prestados aos mortos.
Um William pequeno, de não mais de 8 anos, observa a tudo, em silêncio,
atônito. Quando os rituais de enterro são encerrados, um homem velho,
porém de aparência forte e saudável, vestindo belas roupas de cavaleiro,
aproxima-se do pequeno William. É impossível não notar a enorme espada
que pende de sua cintura.
"Você
é William Wallace, não? Eu sou seu tio, irmão de seu pai. E até onde
sei, sou a última pessoa que lhe restou na vida. Você virá comigo, garoto,
vou cuidar de você. Não terá o mesmo fim que seu pai, definitivamente
não...". O homem diz pesadamente, embora em tom terno, enquanto William
olha indisfarçadamente para a espada. Ao notar, o homem coloca um dedo
sobre a cabeça do garoto, e diz.
"Primeiro,
eu o ensinarei a usar ISSO," cutucando a cabeça do menino "e só depois
o ensinarei a usar isso...", apontando para a espada.
*************
"E
você viajou com seu tio pela Europa?" Connor indagou.
"Por
quase vinte anos. Viajamos por toda parte que você possa imaginar. Da
Dinamarca à Grécia. Ele me ensinou a lutar com a espada, mas só depois
que eu já dominava o latim. Me ensinou a cavalgar, tão logo eu demonstrei
plena habilidade com a matemática. E quando eu já havia aprendido bastante
do que havia para se aprender, ele me ensinou a maior lição de todas...
Imortalidade."
"Eu
imaginava que ele fosse mesmo um Imortal. Então você morreu, despertou,
e ele ensinou-lhe tudo o que há para se saber sobre o Jogo?" Connor
deitava-se na grama molhada. Nenhum dos dois parecia se importar com
o castigante frio que fazia.
"Não
há muito o que saber sobre o Jogo. É uma idéia idiota, da qual nenhum
de nós pode escapar. Mesmo que você, como eu, não cace a cabeça de ninguém,
muitos vão caçar a sua... Ele me ensinou apenas regras simples como
Solo Sagrado, Luta Justa e Quickening."
"E
então você voltou para a Escócia e encontrou seu país nas garras dos
ingleses?"
"Sim.
E aquilo me revoltou. Eles exploravam e humilhavam o povo a pontos desumanos.
Edward I foi um demônio sem alma, a Escócia para ele era simplesmente
um campo de onde poderia tirar dinheiro e mercadorias. Alguém precisava
colocar um fim naquilo tudo. As guarnições inglesas eram ridiculamente
fracas! Se algum daqueles idiotas tivesse visto um forte Romano, morreria
de vergonha! O povo tinha força para derrubar aquela estrutura, mas
não acreditava ter. Alguém precisava liderá-los, e eu estava lá."
"E
fez tudo isso por ideologia e amor à paisagem das highlands?" Connor
esboçou um suave sorriso irônico.
"Não.
Nem eu seria tão pavio-curto de começar o que comecei só por idealismo.
Mas quando um oficial inglês mata a mulher que você ama simplesmente
porque ela não quis dormir com ele... Bem, isso de certa forma lhe dá
forças para enfrentar a Inglaterra sozinho se preciso.
Connor
por um segundo lembrou-se da imagem de sua mãe, Caiolin MacLeod, queimando
na fogueira em Glennfinnan. Fechou os olhos rapidamente, em um movimento
de dor psicológica, olhando para o céu.
"É,
eu conheço essa sensação..."
"Foi
ela quem me liderou, Connor. E com ela eu liderei soldados rumo a fortes
armados ingleses. Assassinos foram assassinados, ladrões foram roubados,
e usurpadores foram destronados. Um a um, nós tomamos forte atrás de
forte, acampamento atrás de acampamento, um exército por vez. Quando
Edward soube de nossa investida, mandou um exército maior, e nós o vencemos.
Foi quando mandou outro exército, após dois anos de derrotas, que ele
finalmente venceu nossa milícia. Eram camponeses, MacLeod, criadores
de ovelhas, agricultores, e venceram exércitos a cavalo!"
"E
o que aconteceu com você?" Connor parecia mais interessado em saber
como Wallace estava ali. Até ali, essa era a história que ele ouvira
e lera. Queria saber o que os livros não contavam, ou melhor, contavam
errado ao julgar que Wallace é oficialmente morto desde o começo do
século XIV. William suspirou e prosseguiu.
"Eu
me escondi. A Escócia é um ótimo lugar para isso, principalmente com
as florestas forradas de neblina. Os nobres ainda simpatizavam comigo,
e acobertaram minha presença, dizendo a todos que eu era desaparecido
e que provavelmente nem em território Escocês estava mais. Eu me preparava
para reunir outro exército e derrubar de vez o poder de Edward na Escócia,
quando, em 1304, Edward finalmente aprovou a indicação de um novo Rei
da Escócia. Anistia foi dada aos camponeses e nobres que apoiaram minha
investida contra o poder inglês, nenhum deles foi acusado de traição
ou qualquer outro crime."
"E
você?" Connor já sabia a resposta para aquela pergunta.
"Não
poderia haver perdão para aquele que desafiou a soberania dos ingleses.
Edward perdoaria o Diabo, mas não a mim. Eles precisavam de alguém para
culpar, precisavam de um exemplo, algo para mostrar ao povo. Um historiador
inglês escreveu sobre mim, retratando-me como 'Um fugitivo da retidão,
um ladrão, cometedor de sacrilégios, assassino..."
"...mais
cruel que Herodes e mais insano que Nero.' Eu li esse texto." Connor
completou.
"Em
3 de Agosto de 1305, eu fui traído por um homem em quem confiava muito.
Eu estava em Glasgow quando as tropas dos ingleses me surpreenderam.
Não consegui fugir. Fui capturado e levado à Inglaterra. Sabia muito
bem qual seria meu destino. Não vou mentir para você, Connor, aquela
for a primeira vez na vida em que senti medo de verdade. Existem coisas
piores que a morte, e eu descobri isso da pior maneira possível."
"De
acordo com a história, você foi levado a Londres, onde uma corte já
estava previamente instruída para ler seus crimes e condená-lo, sem
que fosse dada chance alguma de defesa ou argumentação..."
"Confere,
exceto em um detalhe. Uma das acusações era de Alta Traição, e eu gritei
sobre ela. Disse que assumia a culpa por todas as acusações, menos pela
de Traição. Eu nunca em vida jurei lealdade a aquele porco inglês, como
poderia tê-lo traído?"
"Faz
sentido. E é assim que chegamos ao ponto principal: Sua punição. O que
aconteceu ali?" Connor não conseguia mais disfarçar a curiosidade. Não
era possível que aquele fosse William Wallace, os relatos ingleses eram
vagos e contraditórios, mas todos concordavam no ponto que dizia respeito
à decapitação. "Quero dizer, eles não cortaram sua cabeça?".
"Edward
e seus homens limitaram a quantidade de pessoas que assistiram à execução,
principalmente a de pessoas que sabiam escrever. Todos foram instruídos
para dizer que eu havia sido misericordiosamente decapitado, de forma
que minha punição fora simples e sem dor..."
"Então
não foi daquele jeito?"
"Longe
do que você ouviu, MacLeod. Tem certeza de que quer ouvir toda essa
história? Não faria bem ao seu almoço..." Wallace caminhou até a lagoa
e encheu as mãos com a água gélida, levando-as ao rosto, esfregando
os olhos e lavando a face. Encheu novamente as mãos e bebeu da água.
"Eu
já vi, ouvi e passei por muita coisa ruim nessa vida, William Wallace.
Além disso, eu ainda não almocei..."
"Eu
fui enforcado até chegar à semi-consciência..."
FLASHBACK
- Pátios do Hospital de St. Bartholomeo - Londres - 23 de Agosto
de 1305
Uma
platéia grita euforicamente enquanto o carrasco se aproxima da forca.
Pendurado pelo pescoço na corda, sem máscara alguma que lhe oculte o
olhar de sofrimento, está William Wallace, balançando como um peixe
fisgado. O carrasco arruma uma mesa com um grande buraco no centro e
diversas algemas e amarras. Um aparato obviamente construído para fins
de tortura e execução dolorosa. Quando Wallace começa a balançar-se
menos, quase parando, o carrasco aproxima-se dele e solta a corda, derrubando-o
no chão, tossindo e respirando em agonia.
Dois
homens carregam seu corpo até a mesa de tortura, onde ele é amarrado
e acorrentado. Enquanto suas calças são baixadas, as mulheres da pequena
platéia desviam seus olhares para os lados, a fim de não ver. O carrasco
se aproxima por detrás de William carregando uma lâmina curva e, em
um movimento rápido, corta-lhe as genitálias, arrancando de Wallace
um urro inumano de dor. Enquanto ele se debate sobre a mesa, incapaz
de mover-se, o carrasco deixa sobre uma bancada a lâmina curva, pegando
uma outra, serrilhada.
Alguns
expectadores não conseguem continuar olhando enquanto o carrasco passa
a lâmina serrilhada pelo buraco na mesa, rasgando ao meio a barriga
de Wallace. O escocês grita mais e mais alto, em uma demonstração insuportável
de dor. Muitos não conseguem acreditar como ele continua acordado ou
mesmo vivo durante aquilo tudo. Os urros continuam enquanto o carrasco
puxa-lhe para fora o estômago, cortando-o com a mesma lâmina que lhe
cortara as partes genitais. Ele puxa para fora seu intestino e, quando
Wallace já quase não tem mais forças para gritar de dor, ele acende
uma tocha deixada sobre a bancada.
Mesmo
os soldados não aguentam olhar enquanto o carrasco queima com a tocha
o intestino de William Wallace. O carrasco declara que é o suficiente,
indicando a espada de decapitação para o capitão da guarda. O oficial,
no entanto, responde com um pesado sinal negativo.
"Ordens
do Rei, não haverá clemência para William Wallace. Ele será amarrado
como está no campo, para ser devorado pelos corvos. A quem quiser saber,
ele foi decapitado e partes de seu corpo serão exibidas em pontes e
postos da guarda de Londres. Isso ficará aqui entre nós, Carrasco. Alguma
objeção a isso?"
"E
me tornar o próximo a deitar nessa mesa? Não, obrigado. Podem levar
o corpo, não vai viver além de mais uma hora, provavelmente menos..."
*************
"Meu
Deus..." exclamou baixo Connor MacLeod. "Você deve ter sofrido por horas..."
"Dias,
MacLeod, dias. E Deus não teve nada a ver com isso."
"E
depois?"
"Alguns
dias e várias mortes depois, as cordas apodreceram e eu me libertei.
O que eu passei foi MUITO pesado, meu amigo, mesmo para um de nós. Me
refugiei nas florestas, encontrei abrigo na casa de um velho amigo,
um ermitão dos bosques que me julgou ser um espírito da floresta ao
me ver vivo. Foram semanas de descanso para me recuperar. E quando me
recuperei, cuidei de deixar a Escócia. O povo estava livre, não havia
mais nada para eu fazer aqui."
Ambos
levantaram-se e caminharam novamente, continuando a conversar. Falaram
sobre a Escócia, sobre o Mundo, o Jogo, o dia da Reunião, e tudo o que
havia para dois Imortais escoceses falarem. Quando não havia mais nada
a dizer, eles aproximavam-se de um vilarejo já distante de Loch Shiel.
Connor olhou para seu compatriota e sorriu, dizendo:
"Eu
sempre acreditei que você fosse uma lenda. Agora confirmei isso, você
é uma lenda, uma lenda viva, meu caro. Foi ótimo conhecer você, William
Wallace. A Escócia deve muito à sua bravura, o povo deve muito ao seu
sacrifício. Gostaria de encontrá-lo novamente algum dia..."
"Talvez
nesse dia eu possa conhecer seu aluno, como é mesmo o nome dele?"
"Duncan,
Duncan MacLeod." Connor sorriu. Sabia que não voltaria a encontrar aquele
homem. Dentro de si entendia que lendas como aquela cruzavam a vida
das pessoas apenas algumas vezes na vida. Quem sabe, talvez, em alguns
séculos, quando as pessoas já não se lembrassem mais da história de
William Wallace, ele poderia encontrá-lo novamente.
"Até
logo, amigo. E obrigado por salvar minha vida!" Connor deu-lhe um forte
abraço, como o tradicional abraço com que velhos amigos se cumprimentavam
na Escócia.
"Pensei
que não fosse agradecer nunca!" Wallace riu, despedindo-se. Deu as costas
e voltou a caminhar na direção contrária. Connor dirigiu-se para o vilarejo.
Precisava comprar mantimentos e um bom cavalo, se quisesse partir logo.
Dali iria para a Espanha, resolver alguns assuntos pendentes e procurar
por Duncan. Sentia falta do garoto. Ademais, havia muita história para
contar.
Quando
olhou para trás pela última vez, viu uma silhueta que caminhava para
o leste desaparecer na neblina. Talvez aquele não fosse verdadeiramente
William Wallace, talvez tivesse inventado toda aquila história. Talvez
fosse um louco, só mais um Imortal, e talvez nem fosse escocês de verdade.
Mas dentro de si, Connor MacLeod sabia que aquele não era um mentiroso.
Sabia que havia conhecido pessoalmente uma lenda, um mito, um nome que
para os ingleses significava "Monstro", mas para o povo da Escócia que
ele defendeu, significava "Herói". William Wallace foi um homem honrado,
que lutava com bravura e seguia seus ideais, não os abandonando nem
mesmo quando os limites de sua resistência foram provados.
E
era isso que o diferenciava de simples homens, simples Imortais. Era
isso que lhe rendera sua alcunha.
William
"Coração Valente" Wallace. Herói.
FIM
*************
