Mediterrâneo - 2264 a.C.
Os
irmãos deram os primeiros passos de seu plano na manhã seguinte, discretamente.
Akh acordou quando o sol já ia alto, com Heka arrumando-se para sair.
As olheiras marcavam profundamente o rosto do Imortal, sinal visível
de seu abatimento. Nos jardins, as poças da chuva secavam rapidamente.
Correndo a arrumar-se em seu quarto antes que Nurit percebesse que ela
não havia passado a noite lá, Akh desceu em seguida para um breve desjejum.
Pouco depois, os irmãos chegavam ao depósito e eram saudados respeitosamente
pelos guardas.
Ao
finalmente conhecer Caulos, Akh entendeu por que seu irmão tinha tanto
ciúmes do rapaz. Alto e forte, com cabelos negros encaracolados, olhos
de um tom castanho-esverdeado brilhante e ligeiras sardas no nariz arrebitado,
Caulos era provavelmente um dos homens mais bonitos de Mileto. "Nurit
teve sorte em conquistá-lo!", pensou Akh. Por seu lado, Caulos olhava
para ela com uma curiosidade crescente. Tinha entendido que Akh era
um mercador sócio de Heka, porém pensara tratar-se de um homem mais
velho, como supunha que Heka deveria ser. Vendo-a agora, entretanto,
calculava tratar-se apenas de um rapazola, talvez mal saído da adolescência,
visto que nem barba tinha. Como poderia um homem poderoso como Heka
ser sócio de um garoto cheirando a leite como este à sua frente? Porém
as palavras dela contradiziam o que ele via, pois eram cheias de experiência,
e Caulos foi ficando a cada dia mais confuso.
Sem
que o pobre rapaz soubesse, Heka tramava uma forma de deixar-lhe apenas
uma pequena parcela de seus negócios, o suficiente para que ele pudesse
administrar a herança de Nurit. Caulos era competente o bastante para
fazer aquilo tudo render, quanto a isso Heka não tinha dúvidas.
-
Criarei uma rede comercial paralela, mas menor, em que ele possa atuar
sem perigo de nos reencontrarmos nas próximas décadas! - Heka esmiuçava
o plano com Akh - Mesmo sem ter um navio, ele receberá minha estrutura
comercial, que é suficientemente sólida aqui na região, e poderá arranjar
outros fornecedores. Eu manterei as operações em Katsambas e procuraremos
outra cidade asiática para substituir Mileto, sem prejuízo dos negócios
principais. O Mediterrâneo é fértil em boas oportunidades e novos portos
abrem-se a cada ano por todos os lados, tu vais ver!
Heka
costumava fazer seus relatórios comerciais e de viagens em diversas
línguas ao mesmo tempo, às vezes até usando o alfabeto de um idioma
e o vocabulário de outra. Alguns daqueles dialetos já nem existiam mais
ou tinham mudado muito com os séculos, porém foi fácil para Akh decifrar
aquela confusão - só ela conhecia tantos idiomas antigos quanto ele.
Segundo Heka, aquilo era para impedir que alguém descobrisse sobre sua
Imortalidade e sobre seus contratos secretos, caso os relatórios caíssem
em mãos estranhas, e Akh sabia que o termo "estranhos" incluía o próprio
Caulos. Agora, contudo, teriam que deixar alguns documentos traduzidos
para o rapaz, a fim de que ele pudesse trabalhar sozinho, e nisso Akh
ajudou bastante, recopiando incansavelmente diversos relatórios para
omitir alguns trechos e mudar detalhes comprometedores. Os documentos
originais foram aos poucos lacrados em baús, para que Heka pudesse transferi-los
em segredo para Katsambas ou outro lugar seguro já na próxima viagem.
Mesmo se depois tentasse, Caulos nunca conseguiria encontrar todos os
contatos de Heka, nem saberia os trajetos de suas viagens ou o montante
de sua fortuna original. As pistas estavam sendo criteriosamente apagadas,
adulteradas, retraçadas.
Enquanto
isso, Heka despachou cartas a diversos contatos secretos, prevenindo-os
das futuras mudanças e alertando-os para vigiar o que Caulos fizesse,
para que pudessem controlá-lo nas sombras por um tempo, depois que partissem
de Mileto. Akh fazia o possível para ajudar Heka no trabalho, sabendo
o quanto era difícil para ele levar adiante sua decisão. Ele também
buscava o consolo e os conselhos da irmã quando as coisas pareciam-lhe
dolorosas ou complicadas demais. Em duas semanas, Akh e o irmão finalmente
embarcaram para dar continuidade a seu plano longe dali, deixando Caulos
com documentos, ouro e mercadorias suficientes para trabalhar sossegado
por vários meses até que eles voltassem.
A
partida ocorreu sem incidentes e o tempo colaborou para uma viagem sossegada.
Heka ficou bastante deprimido nos primeiros dias no mar e Akh não conseguiu
impedir o irmão de tomar um porre logo na primeira noite, mas pelo menos
manteve-o trancado em segurança na cabine, onde ninguém ousou perturbá-los.
Os marinheiros estavam acostumados às excentricidades do capitão e a
bebedeira até que não lhes pareceu grande coisa, na noite seguinte já
nem tocavam mais no assunto.
Heka
só voltou a animar-se quando estavam perto de Katsambas. Assim que o
navio aproximou-se da cidade, ao final da tarde, várias pessoas acorreram
para saudar sua chegada e Rukhai foi ao porto esperá-los. Heka acompanhou
o desembarque da carga e Akh foi com a amiga para casa, levando sua
bagagem e a do irmão. Menoren recebeu-a como uma filha, abraçando-a
carinhosamente. Talvez pela primeira vez na vida Akh sentiu-se como
se realmente estivesse de volta ao lar. O Egito, sua terra, estava tão
diferente com seus novos deuses e pirâmides sendo construídas por todo
lado, que já não sentia-se mais parte daquilo. Sua casa agora era em
Katsambas ao lado do irmão, de Menoren e de Rukhai.
Heka
não demorou a aparecer, trazendo um vestido bordado para Rukhai e um
baú em cedro entalhado para Menoren. O clima era de festa, com muitas
novidades para contar, e Heka mais uma vez espalhou recados pela cidade,
avisando que só receberia convidados para jantar na noite seguinte.
Tinha forçado os marinheiros a navegar o mais depressa possível, conseguindo
chegar um dia antes do esperado, mas estava cansado e logo iria escurecer.
Seu humor também não estava dos melhores, preferia ficar em paz pelo
menos uma noite antes de encarar as terríveis politicagens de negócios.
Durante
todo o jantar Akh e Rukhai tagarelaram como só duas mulheres sabem fazer,
e Menoren forneceu um relatório de tudo o que tinha ocorrido durante
as últimas semanas. Heka precisou contar seus planos ao ancião, alegando
apenas que tivera contratempos em Mileto e precisaria abandonar seus
negócios por lá. Acostumado às decisões misteriosas do amigo e patrão,
e discreto demais para questioná-lo, Menoren acatou todas as instruções
sem fazer perguntas.
No
dia seguinte repetiu-se o ritual do jantar com os comerciantes. A casa
de Heka encheu-se de homens de negócios acompanhados de seus serviçais,
todos ricamente trajados. Como da outra vez, não havia nenhuma mulher
presente, ao menos aparentemente - Akh e Rukhai trabalharam vestidas
como rapazes. Heka havia trazido ótimos produtos e os comerciantes conversavam
em voz alta, entusiasmados. Heka esforçou-se por parecer animado, circulando
com a taça de vinho na mão, fazendo gracejos e falando sobre amenidades.
Quando
o último convidado partiu, acompanhado do filho e de dois criados, Heka
voltou a xingar e reclamar, mas não podia negar que estava satisfeito.
Mais sossegados, os quatro finalmente jantaram juntos, comentando maldosamente
o comportamento de um ou outro conviva e comemorando o sucesso da festa.
Nesta noite, porém, não fizeram nenhuma cantoria regada a vinho, indo
dormir logo e deixando a casa para ser arrumada no dia seguinte.
Akh
e o irmão acordaram cedo e rumaram para o depósito, onde retomaram a
organização da nova estrutura comercial. Heka fizera questão de espalhar,
na véspera, a notícia de que pretendia vender suas propriedades em Mileto
e mudar-se para outro lugar. Dissera-o casualmente, dando a entender
que a cidade não lhe agradava mais, não lucrava o suficiente, por isso
iria procurar outro porto asiático onde seus negócios pudessem crescer.
Assim, justificava de antemão o corte de contatos com Mileto, prevenindo
futuras especulações. Faltava ainda terminar a tradução de muitos documentos,
tarefa de que Akh encarregou-se de boa vontade, e decidir para onde
transfeririam a nova base.
Apenas
um comerciante veio buscar as mercadorias negociadas na noite anterior,
deixando os irmãos em paz com seus afazeres. Com mapas e relatórios
de viagens espalhados pelo chão do depósito, Heka calculava qual porto
seria mais interessante para seus planos. Queria que fosse um local
de fácil acesso aos produtos do oriente, que tanto sucesso faziam em
Katsambas e em outras cidades sob domínio cretense, mas ao mesmo tempo
precisava garantir que Caulos não o encontraria.
-
Também preciso pensar nos trajetos que faremos entre as cidades por
mar, evitando águas turbulentas! - explicou Heka à irmã, apontando algumas
áreas assinaladas nos mapas - Não tenho medo dos piratas, tu sabes,
mas também não quero arriscar meu navio logo agora!
Após
muito quebrar a cabeça, Heka elegeu algumas cidades promissoras. Precisariam
passar por todas nas próximas viagens para verificar se continuavam
mesmo recebendo grande afluência de mercadorias e se ainda eram amistosas,
afinal os governos naquele lado do Mediterrâneo estavam sempre em conflito
e, de uma hora para outra, um reino engolia o território do vizinho.
Os
dias seguintes foram agitados com o entra e sai de carregadores no depósito,
levando ou trazendo mercadorias. Heka irritou-se quando um temporal
de dois dias atrasou sua partida, forçando-o a ficar em casa, andando
de um lado para outro como um gato engaiolado. Só quando o tempo melhorou
foi que puderam zarpar em segurança, deixando novamente Rukhai aos cuidados
de Menoren - a menina estava estudando sobre diversos assuntos com o
ancião e não tinha o mínimo interesse em viajar tão cedo. Heka avisou
que desta vez demoraria mais do que costumava, pois faria um passeio
por vários portos, coletando as informações de que precisava.
Com
o navio menos carregado, Heka pôde viajar depressa rumo a Saís, no Egito,
onde encheu o porão com mercadorias e logo zarpou de volta com a irmã
para o Mediterrâneo. Seguindo junto à costa, pararam em Tiro e depois
em Biblos, ambas interessantes. Entretanto, subindo até Ugarit, então
sob domínio ágade, encontraram-na ainda maior e mais promissora, e Heka
resolveu que o melhor era estabelecer-se ali. Gostava da cidade, ela
trazia-lhe boas lembranças de sua última esposa, e Akh também recordava-se
do tempo em que viveu lá com Imhotep.
Decidido,
Heka pesquisou freneticamente até encontrar uma casa à venda, não muito
longe do porto, praticamente isolada no alto de uma ladeira sinuosa.
A construção era antiga e precisaria de algumas reformas, mas dela tinha-se
uma excelente vista do mar. Uma escadaria nos fundos da propriedade
dava acesso a um depósito exclusivo na área do cais, perto de outros
armazéns e estaleiros abandonados. Todo o conjunto de imóveis tinha
pertencido a um rico armador, falecido há um ano, e desde então os prédios
estavam vazios, à espera de compradores. Com a aprovação de Akh, Heka
ofereceu pagamento à vista pela casa e pelo depósito, e recebeu de brinde
parte da mobília e dois casais de criados do antigo dono, que estavam
desempregados.
Akh
achou melhor passarem uma curta temporada na cidade, para comprar logo
os móveis que faltavam e verificar o comportamento dos criados, certificando-se
de que poderiam deixá-los encarregados da propriedade em sua ausência.
Pagando parte dos salários e impostos antecipadamente, Heka rumou após
três semanas com a irmã de volta a Mileto.
*************
Mediterrâneo
- 2263 a.C.
Como
sempre, Nurit e o marido foram avisados da chegada de Heka assim que
o navio apareceu na entrada do porto. Caulos correu a receber o patrão,
ansioso por saber por que ele havia demorado tanto. Temia que ele tivesse
adoecido ou sofrido algum acidente, e ficou aliviado quando viu o perfil
de Heka Ma'At no convés, acenando para os outros barcos por que passava.
O desembarque da carga foi demorado por causa do volume de mercadorias
e Heka deixou o rapaz acompanhar o serviço, preferindo ir logo para
casa com Akh. Seu humor estava péssimo novamente, pois a primeira pessoa
que encontrou à sua espera era justamente quem mais queria evitar -
o belo Caulos, seu inocente rival.
Nurit
recebeu-o como de costume, servindo vinho, porém sua barriga estava
enorme e a jovem exibia-a com orgulho, sem poder ver a expressão dolorosa
no rosto do patrão. Heka evitava ao máximo pousar os olhos nela, e por
sorte Pyion logo apareceu para distraí-lo, correndo a abraçar os recém-chegados.
Heka deu-lhe de presente um brinquedo de madeira que comprou em Biblos
e o menino saiu pulando pela casa, feliz da vida. Akh percebeu o brilho
furtivo de lágrimas no olhar do irmão assim que Pyion saiu da sala.
Seria muito duro para ele separar-se do menino e de Nurit, mas Akh nem
atrevia-se a tocar no assunto. Heka tinha traçado seu plano e nada o
faria voltar atrás agora - ela mesma o impediria, se ele tentasse.
Após
tomarem banho, os irmãos desceram para jantar. Caulos chegou para dar
satisfações do serviço, alegre e simpático como sempre. Cansada da longa
viagem e dos assuntos comerciais, Akh deixou os dois homens conversando
após o jantar e retirou-se cedo, mas não trancou a porta do quarto,
sabendo que provavelmente Heka viria procurá-la assim que Caulos e Nurit
fossem dormir. Com efeito, não demorou muito para que ele aparecesse,
calado e cabisbaixo. Akh nem precisou perguntar, sabia muito bem o que
o afligia. Ela via agora o irmão como ele realmente era, com todos os
sofrimentos e remorsos, todas as dúvidas e medos que ele enfrentara
longe dela, e orgulhava-se por ele ter sobrevivido a tanta coisa.
Sempre
que conseguia ficar à sós com a irmã, Heka revelava-lhe todos os seus
segredos comerciais, os acordos que tinha com os piratas e a vida que
levou ao lado das esposas, enfim tudo o que pudesse explicar o quebra-cabeças
emocional em que ele havia se transformado. Akh também contava-lhe tudo
o que havia passado, dividindo com ele sua solidão. Talvez só pelo fato
de poder voltar a abrir-se totalmente, com alguém de confiança, Heka
começou a sentir-se melhor nos últimos meses. Menoren, apesar de estar
a seu lado há décadas e suspeitar de seus segredos, nunca soube a verdade
e também nunca fez perguntas. Nurit sempre manteve uma barreira intransponível
que mantinha-o inapelavelmente distante. Caulos, obviamente, nunca poderia
ter sido seu amigo, apesar do rapaz pensar o contrário. O que faltava
a Heka Ma'At era o amor incondicional da irmã, ou a fiel amizade de
outro Imortal como Imhotep, que tanto lhe ensinara.
Nesta
noite, sem palavras para expressar o transtorno que sentia por conviver
com Caulos e Nurit novamente, e ainda tendo que suportar a alegria dos
dois pela gravidez da moça, Heka apagou as lamparinas e enfiou-se na
cama da irmã, carente e silencioso. Compreensiva, Akh abraçou-o e embalou-o
até que ambos adormeceram.
Somente
ao acordar, na manhã seguinte, foi que Heka dispôs-se a falar.
-
Nunca tive queixas a respeito da forma como Caulos cuida de meus interesses!
- disse ele à irmã, num tom soturno - Ele é esforçado, honesto e inteligente.
Talvez falte-lhe um pouco mais de malícia, mas isso ele aprenderá com
o tempo. Vou vigiá-lo através de meus contatos, é claro...
-
Por que não esqueces tudo isso de vez? - ralhou Akh - Por que vigiá-lo,
se sabes que ele cuidará bem de tudo? Tens a eternidade à tua frente,
outras mulheres, outras crianças... Esquece essa gente, Heka Ma'At,
e concentra-te em Ugarit, em tudo o que ainda temos que resolver!
Heka
calou-se, arrumando-se para o desjejum. Não tinha como explicar à irmã
seu desejo quase insano de sequestrar Pyion, de levar o menino consigo
e criá-lo a seu modo, de dar-lhe o melhor estudo possível, de ensiná-lo
a velejar e a comerciar... Obviamente, isso estava fora de cogitação
- Caulos e Nurit poderiam mobilizar o mundo para reencontrar o filho
e Heka acabaria encrencado, poderiam até descobrir seus segredos! Heka
não escondia mais da irmã seu desespero por ser pai, ela tinha percebido
sozinha e ele sentia-se aliviado por isso, contudo ela não adivinhava
todas as idéias confusas que de vez em quando o assaltavam. "Se soubesse,
Akh teria fugido horrorizada!", pensou Heka mais de uma vez. E perdê-la
estava além de seus piores pesadelos, nem Pyion valia tanto.
Só
após a longa separação foi que Heka deu-se conta de quanto precisava
dela, de quanto dependia daquela mulherzinha corajosa, de suas opiniões
duras mas sensatas, de sua sinceridade chocante, de sua racionalidade
impossível de abarcar numa simples conversa. Heka sempre adorara a irmã
com paixão, porém decidiu que, quando ela casou-se com Imhotep, tinha-se
tornado um peso extra na vida de Akh. Teve uma certa inveja dela, era
preciso confessar, afinal Akh estava casada com um Imortal, um homem
irrepreensível e a quem Heka teria confiado sua própria vida. Por mais
que os dois o amassem, ele os invejou e quis poder viver um relacionamento
igual ao deles. Foi por isso que fugiu, que aos poucos parou de mandar
notícias - queria provar-lhes alguma coisa, fazer algo de que pudessem
orgulhar-se e ainda trazer-lhes uma esposa maravilhosa, uma quarta pessoa
que completasse aquela felicidade toda. Seu fracasso, mais do que tudo,
foi o que manteve-o longe por tanto tempo, acreditando egoisticamente
que ambos o esperariam regressar, mesmo que isso durasse séculos. Ao
voltar e não conseguir encontrá-los, seu mundo desabou - Akh e Imhotep
não estavam lá para recebê-lo, tinham sumido justamente para procurá-lo!
Heka
nunca sentiu-se mais desamparado do que quando esteve à procura da irmã
e do cunhado. Nem a esposa, que tanto amava, pudera tirá-lo daquele
desespero. E Heka odiou-se ainda mais por isso, percebendo que, apesar
de adorar aquela mulher, ela no fundo era como um troféu que tinha trazido
para Akh e Imhotep. Sem eles ali para recebê-la e amá-la também, algo
estava errado. Fora então que, numa crise de depressão, Heka confessara
à esposa sobre sua Imortalidade, atravessando a mão com a própria adaga
para que ela visse a ferida cicatrizar.
-
É impossível! - gritara a mulher, encarando-o com os olhos arregalados
e cheios de lágrimas, fazendo o peito de Heka encolher-se de dor - Estou
casada com um monstro... Não me toques! Tenho medo de ti!
Passaram-se
meses antes que ela aceitasse o fato e, superando a desconfiança, permitisse
que ele voltasse a dormir com ela. Heka nunca entendeu por que ela não
o abandonou assim que descobriu tudo, e muito menos por que ela permaneceu
a seu lado durante as longas viagens que se seguiram, revirando as cidades
egípcias atrás de Akh e Imhotep. Quando ela morreu em seus braços, Heka
chorou como uma criança - tinha fracassado novamente e desta vez não
havia chances para pedir perdão, aquela mulher não voltaria a si nunca
mais.
Daquele
dia em diante, Heka dedicou-se mais do que nunca a reencontrar a irmã
e o cunhado. Precisava saber que estavam bem, que estavam vivos. Se
eles tivessem morrido ao procurá-lo, teria sido o fim de tudo, a culpa
seria demais para que ele pudesse suportar. Talvez fosse por isso que
tinha lançado-se ao mar, pois navegando poderia ir mais rápido de um
lado para outro. Se desconfiasse que eles estivessem perdidos nos confins
da Ásia, Heka teria atravessado o continente à pé até encontrá-los,
porém seu instinto lhe dizia que eles deveriam estar próximos ao Mediterrâneo.
Quando encontrou Akh, mesmo sabendo que Imhotep tinha morrido, Heka
sentiu-se renascer - suas buscas não tinham sido totalmente em vão,
ao menos sua irmã estava viva! E pensar que ela passou tantos anos em
Éfeso e ele nunca sequer sentiu-a, nas poucas vezes em que esteve lá...
Éfeso era tão próxima de Mileto! Akh agora era novamente seu apoio,
sua consciência, sua razão. Só ela poderia tirá-lo do inferno que tinha
criado para si mesmo em Mileto, e só ela seria capaz de fazê-lo abrir
mão de Pyion e Nurit! Heka agora tinha pressa em sair daquela cidade
que tanto mal fizera para sua alma.
De
repente, Heka correu atrás da irmã, que já descia a escada para o desjejum,
e abraçou-a com força, enchendo-a de beijos.
-
Que é isso, Heka?! - gargalhou ela, satisfeita com o carinho mas também
com medo de que alguém visse a cena imprópria - Queres que pensem que
tens um caso comigo? Eu sou teu sócio, lembras?
-
Obrigado por tudo, Akh! - Heka corou e sorriu, apesar de ter estado
a ponto de chorar - Não sei o que seria de mim sem ti... Eu te amo muito,
sabias?
-
Sei, e também te amo demais! Agora aquieta-te e vamos comer! - Akh recompôs
as vestes e recomeçou a descer - Temos muito trabalho hoje e estou com
fome, vamos!
*************
Enquanto
o dia da partida definitiva não chegava, Heka aproveitava para despachar
mensagens a seus contatos avisando de sua futura mudança para Ugarit,
e para calcular o que deixariam nas mãos de Caulos quando partissem.
Não queria esvaziar completamente o depósito quando sumissem, para não
levantar suspeitas, mas também não queria sofrer um prejuízo tão grande.
Levariam o máximo possível em ouro, prata, pedras e jóias, que ocupavam
pouco espaço e seriam mais fáceis de usar como pagamento de suas futuras
despesas. Para Caulos, deixariam grandes quantidades de mercadorias
de boa aceitação, com que o rapaz poderia negociar durante um bom tempo,
até arranjar novos fornecedores.
Os
irmãos resolveram discretamente tudo o que ficara pendente e recolheram
seus últimos pertences de valor. Largariam algumas peças de roupa na
casa, para fingir que tinham intenções de voltar, mas o resto foi carregado
para o navio. Os poucos marinheiros miletianos, a começar pelos mais
idosos, foram dispensados sob os mais variados pretextos e recebendo
generosas gratificações, para garantir-lhes o silêncio. Heka recomendou
os dois últimos a comerciantes conhecidos, para que não ficassem desempregados,
e em quinze dias o navio partiu com os porões carregados. Caulos e Nurit
foram ao porto despedir-se do generoso patrão, sem imaginar os planos
que ele já havia traçado para seu futuro.
Dando
uma volta proposital para noroeste, Heka aportou na ilha de Milos, de
onde os irmãos despacharam cartas falsas, previamente preparadas, com
notícias de que sua embarcação tinha desaparecido bem mais ao norte,
perto da ilha de Skiros. O mar da região era traiçoeiro, quase todas
as ilhas do Egeu estavam rodeadas por carcaças de navios que naufragavam
em tempestades ou espatifavam-se em rochedos. Heka tinha pessoas de
confiança que espalhariam a notícia nos lugares certos dali a duas semanas,
mas os rumores seriam propositalmente confusos. Alguns diriam que eles
foram pegos num redemoinho ou num temporal longe da costa, outros diriam
que eles afundaram ao bater contra recifes, e terceiros mentiriam que
seu navio foi capturado por piratas. Esses tipos de incidente eram comuns,
ninguém jamais pensaria em procurá-los. Poucos conheciam seus novos
projetos, e estes sabiam que era mais interessante manter o segredo
do que delatá-los.
A
única coisa certa era que Akh e Heka seriam dados como definitivamente
mortos em Mileto e, se algum dia alguém reconhecesse seu navio, pensaria
tratar-se de piratas ou de uma cópia. Até nisso Heka pensou, planejando
deixar o barco alguns dias num dos estaleiros abandonados perto do depósito
de Ugarit para mudar a cor do casco e fazer algumas reformas, que mais
tarde dificultariam o reconhecimento da embarcação.
Aproveitando
a parada em Milos para revirar o mercado local, Akh encantou-se com
uma magnífica adaga curva que viu num metalurgista, e Heka decidiu presenteá-la
com a arma. Ela por um momento esqueceu-se de que estava vestida como
homem e pulou ao pescoço do irmão, enchendo-o de beijos e despertando
olhares maliciosos dos passantes. Heka interessou-se ele mesmo por uma
pesada espada, bem maior que sua velha adaga egípcia, e comprou as duas
armas novas após barganhar um pouco.
Enfim
livre de qualquer ligação com Mileto, Heka sentiu as forças renovadas
e partiu com ânimo para Katsambas. Estava inaugurando com sorte mais
uma das muitas etapas de sua longa vida, e achou que merecia ser feliz.
Por isso, logo ao chegar, promoveu seu tradicional jantar e foi sinceramente
agradável, disposto a aproveitar a noite. Nos dias seguintes ele também
participou de dois jantares na casa de amigos, aos quais Akh não interessou-se
em comparecer. Desta vez Heka percebeu que não tinha do que reclamar
- sua irmã estava novamente a seu lado, Rukhai desabrochava como uma
bela mulher, Menoren continuava saudável apesar da idade, Ugarit prometia
excelentes oportunidades. Por que não desfrutar disso com prazer genuíno?
Cerca
de um mês depois de sua chegada a Katsambas, Heka partiu novamente com
a irmã, deixando Rukhai com Menoren. A menina até quis acompanhá-los
desta vez, para conhecer a nova casa na outra cidade, mas os irmãos
preferiam arrumar tudo primeiro. Levando carga cretense, Heka rumou
desta vez direto para Ugarit. Normalmente suas viagens eram mais ativas,
ele ia e vinha por vários portos, porém suas prioridades agora eram
outras. Seu principal interesse era estabelecer seu novo posto de comércio.
Cheia
de adrenalina pelas perspectivas que o futuro lhes reservava, Akh treinava
com sua nova adaga no convés sempre que o dia estava bom, e Heka admirava-se
de sua velocidade. Quando os dois lutavam juntos ele levava vantagem
pela força e pela altura, pois seus braços longos permitiam-lhe um alcance
maior. Mas Akh, sendo menor e mais leve, pulava e corria como um gato,
por vezes surpreendendo-o num contra-golpe inesperado.
Heka
achava bom treinar com ela porque, diferente de Imhotep, que era um
homem corpulento e quase tão alto quanto ele, portanto lutando com as
mesmas qualidades, Akh era seu oposto, mostrando-lhe que não devia subestimar
um oponente pela aparência frágil. Valendo-se de seu instinto feminino
e de uma aguçada visão periférica, Akh em mais de uma ocasião derrotou-o
vergonhosamente, arrancando gritos e assovios dos outros marinheiros.
Heka adorava vê-la vencer - só a ela ele concederia essa glória, mesmo
que isso o desmoralizasse. No fundo, temia que a irmã, pequena e delicada
apesar de tudo, acabasse perdendo para outro Imortal. Ele, como homem,
representava um oponente respeitável e já tinha vencido duas vezes,
porém ela só tivera uma vitória trazida pela sorte. Se ele não estivesse
por perto, ela precisaria defender-se sozinha, mas aparentemente Heka
não tinha com que se preocupar.
A
casa em Ugarit estava como eles a deixaram e os criados festejaram sua
chegada. Uma das primeiras providências dos irmãos foi circular pelo
mercado, pesquisando os produtos mais procurados e os comerciantes bem-sucedidos.
Atulharam o velho armazém ao sopé da encosta com o que tinham de melhor
e, assim que as mudanças no barco ficaram prontas, Heka deixou a irmã
encarregada de providenciar as reformas nos imóveis e rumou sozinho
para os portos do delta do Nilo, em busca de mais mercadorias. Em pouco
mais de um mês ele regressava com o barco carregado de linho, mel, azeite,
cerveja, papiro e faiança. Só então os dois espalharam a notícia de
que pretendiam estabelecer-se na cidade e tinham muita coisa para vender.
A
variedade inusitada de seus produtos chamou a atenção. Alguns mercadores
enviaram-lhes convites para discutir negócios, outros bateram à porta
do armazém, mas a maioria estava mais interessada em sondá-los do que
realmente querendo comprar algo. Cuidadoso em seus primeiros contatos,
Heka mostrou-se mais humilde do que costumava, fingindo-se até de bobo
para ver quem tentaria enganá-lo e em quem poderia confiar. Esperto,
Heka lucrou o suficiente para viajar de novo, desta vez triangulando
entre Mersin e Alashiya (1) para trazer peças em cobre e estanho. Com
isso, os irmãos não precisaram de muito tempo para ganhar respeito na
cidade. Seus preços, obviamente, subiram na medida da procura. Os mercadores
que tentaram enganá-los no começo agora arrancavam os cabelos, pois
todo mundo queria comprar ao menos uma peça dos tais comerciantes novos.
Seus marinheiros eram abordados por outros navegadores em busca de segredos,
mas todos eram fiéis demais ao patrão para cometer uma indiscrição.
Por seu lado, os irmãos não impressionavam-se com o sucesso repentino.
Sabiam que tudo não passava de curiosidade e, se não aproveitassem o
bom momento com inteligência, em poucos meses seriam esquecidos. Os
dois viraram moda em Ugarit, e riam-se disso.
Com
um olhar mais leve e alegre, como há muito tempo não tinha, Heka mergulhou
de cabeça no trabalho, navegando de um lado para outro com a irmã. Em
Ugarit, ela começou a acompanhá-lo a festas e, finalmente, arrumou um
amante disposto a preservar seu segredo. Heka também ganhou o coração
de algumas respeitáveis damas casadas, com quem desfrutou de encontros
secretos bastante interessantes. Em Katsambas, prosseguiam as recepções
e a politicagem de sempre. Longe dali, os dois eram apenas marinheiros
circulando incessantemente do Nilo à Cilícia, de Creta à Tessália, da
Troada à Hebréia (2). Quando corriam risco de cruzar com alguém conhecido,
desviavam a rota ou demoravam-se em algum porto até o perigo passar.
O Mediterrâneo tornou-se pequeno para os dois irmãos.
*************
Notas
explicativas:
1
- Alashiya é o antigo nome da ilha de Chipre.
2 - A Cilícia era, na época, a região da Ásia Menor ao sul dos Montes
Taurus, próxima à Síria, englobando as cidades de Tarso e Mersin. Tessália
era uma grande área de ocupação minóica (cretense) no interior da península
grega, a noroeste do Golfo de Pagaséia, tendo os Montes Pindus a oeste
e o Mar Egeu a leste. Troada, ou Tróade, era a região a noroeste da Ásia
Menor onde desenvolveu-se a cidade de Tróia. A Hebréia era o nome genérico
dado à região ocupada então pelos hebreus, a nordeste da Península do
Sinai, e antigamente chamada de Retenu pelos egípcios.
