"Bem, Lokheed,
vamos lá!
Eu
vou contar tudo da forma que lembro. Não vou explicar os motivos das
ações de outros, nem imaginar o que passava na cabeça deles quando aconteceu...
Vou contar o que vi, o que passei, o que senti. Mas é melhor me apresentar.
Eu sou Lancelot Logan Larsen. O mais novo de três irmãos. Bem, na verdade,
não éramos irmãos. Fomos criados como irmãos. Confuso? Foi assim. Lancelot
du Lac, filho do Rei Ban com Viviane, a Senhora do Lago, e nossa mãe,
era o mais velho. Um ano mais tarde, ficou aos seus cuidados Lancelot
Logan du Lac, o nome que ela deu ao irmão do meio. E, mais um ano depois,
eu fui deixado aos seus cuidados. Lancelot Logan Larsen du Lac. Os nomes
foram propositalmente iguais, a fim de criar uma conexão maior entre
nós três. É claro que só descobri isso depois da minha primeira "morte".
Tô divagando de novo. Tem muita coisa acontecendo atualmente. Acabei
de passar em Gotham, voltei pra Curitiba, e daqui a pouco já vou pra
Inglaterra, conversar com Dane. Ele precisa aprender um pouco mais de
seu antepassado, o Perci. Grande Cavaleiro. Fiel a Arthur, e adorava
o Lance. Falando em Lance, outra parada foi a diferenciação nos nomes.
Já que éramos três Lancelots, acabaram nos diferenciando por apelidos.
O mais velho era Lance. O do meio era Logan. Eu era o Lan. Isso deve
responder a questão de porque eu não apareço na lenda. Como uma brincadeira
de criança, a história foi contada de geração em geração. Tantos Lancelots,
as pessoas se confundiam, até chegarem a um único Lancelot. E naquela
época, não queria que me associassem à Lenda. Estranho pensar nela como
uma lenda. Lendas, teoricamente, não aconteceram ou existiram. Significa
que eu fiz um bom trabalho, convencendo Troyes, Mallory, Monmouth, e
outros, de que era apenas mais uma história. Não tinha ouvido aquele
sábio provérbio: "o melhor lugar para esconder algo é à vista", que
Connor e eu colocamos em prática em 1985. Por que vou contar o que sei,
Lockheed? Acho que enfim entendi a razão de ser dos Sentinelas. Como
fujo deles há séculos, e depois dos problemas que Duncan teve com eles,
e a discussão que tive com Dawson sobre isso, eles têm medo de mim.
Ou eu preciso contar pra alguém, pra poder lembrar como foi. Depois
de tantos anos, está cada vez mais difícil lembrar detalhes. Existem
momentos que quero contar o que passei há 500 anos, outras, o que aconteceu
há 15 minutos. E você pode ser meu sentinela. Bem, é claro que eles
não vão aceitar um pequeno dragão como sentinela, mas acho que é isso
que contar representa pra mim. A necessidade de compartilhar isso fez
com que Connor fizesse a primeira história. Ele curtiu brincar de ator,
e fez questão de encenar o filme. Pedi que ele não me incluísse. Diferente
dele, que troca de nomes de tempo em tempo, eu mantenho o meu, e não
gostaria que as pessoas viessem procurar alguma coisa sobre a minha
vida. Na verdade, essa era minha opinião naquela época. Isso está mudando
agora. Acho que cansei de ficar escondido. De não poder voar por aí,
de ter que ficar escondido. Mas penso nas conseqüências. Isso foi algo
que eu e o Connor discutimos na época da primeira história. E se os
humanos descobrissem a verdade, como seria? Infelizmente, nós sabíamos.
Suicídios em massa. Banhos de sangue. Guerra de Imortais. Caos. O filme
foi arriscado, mas funcionou. Ora, pessoas que passam a ser imortais
após morte violenta, e que precisam se decapitar uns aos outros! Só
podia ser coisa de Hollywood. Connor estava certo. Funcionou. Droga!
Divaguei de novo. Bem, vamos começar:
Avalon
-
Logan, por favor, fique!
-
Não enche, Lan! Aqui não é mais o meu lugar. Você e o Lance sempre quiseram
servir a um rei. Eu não quero isso pra mim. Não quero ter que me submeter
aos caprichos de uma pessoa. Livre, como os animais.
-
Pois então vá! - Lance sai do templo, onde estava com a Senhora.
A
discussão prosseguiu. Lance e Logan nunca se deram muito bem. Brigavam
muito. Eternas discussões. E no dia em que eu e Lance entramos para
corte, Logan foi embora. Pode parecer confuso, ou errado, mas a verdade
é que não foi Lance que enfrentou Arthur, na travessia, e sim Pellinore,
o Rei Peles, que mais tarde seria o sogro do Lance. Lance foi chamado
à Corte do rei Ban, na Bretanha Gaulesa, pois ele e o Rei Bors, tio
do Lance, guerreavam com o Rei Claudas pela posse de um castelo. Nós
lutávamos, mas era cada vez mais difícil. Foi quando a proposta chegou.
Se os reis, Ban e Bors, ajudassem o Rei Arthur contra Lot e os outros
cinco reis, ele nos ajudaria contra o Rei Claudas. E assim foi. Que
guerras! As espadas brandiam, e cada vez mais, Lance, eu e Gawain nos
destacávamos! Quando estávamos juntos, éramos imbatíveis! Éramos os
melhores. Os mais preparados e os mais fortes. E tínhamos entre 18 e
20 anos! Era fantástico! Esperar o amanhecer. O comando para atacar.
Os desafios! As vitórias! Derrotamos os homens de Lot, e esse jurou
fidelidade a Arthur. Depois, foi a vez de Claudas. A guerra foi fantástica,
e extremamente simples de resolver, com a presença do Rei e seu exército.
Infelizmente a paz foi passageira. Lot sempre tramou contra o Rei. E
Claudas, após algum tempo, retomou as investidas, mas nunca obteve muito
sucesso. Mas, de qualquer forma, havíamos vencido. Depois das festividades
no castelo do rei Ban, o Rei Arthur nos convocou.
-
Nós vamos para corte! - Exclamei, empolgado.
-
Melhor, nós vamos fazer parte da Távola Redonda! - Sorria Lance.
E
assim chegamos à corte. Estranho como essa história foi alterada durante
os anos. Acredito que os trovadores não queriam acreditar que o grande
Lancelot teria aparecido do nada na corte. Mas foi assim. Não houve
disputa por uma ponte. Simplesmente, Lance era filho de um rei súdito
de Arthur, e eu era o irmão dele. Fomos para a corte. O castelo, ainda
Caerleon. A construção de Camelot já havia sido iniciada, mas ainda
tinha muito pela frente. Chegando lá, fomos apresentados aos outros
Cavaleiros. Kay, o Senescal, como sempre, quis nos fazer de bobos. A
amargura do irmão de leite do Rei era grande, visível nos seus olhos.
Apesar de fiel ao irmão, acredito que ele sentia um pouco de inveja,
por não ter sido ele o filho de sir Hector que retirou a espada da pedra.
A espada. Excalibur. Eu já a havia visto em Avalon. Tentei tocá-la,
e levei a primeira grande bronca da minha vida. Vi os olhos da Senhora
faiscarem de raiva, e senti muito medo. Foi a primeira vez que senti
medo real. Depois, ela me contou que a espada estava destinada ao Grande
Rei, que traria paz a toda Bretanha. O Rei ainda estava lutando para
isso. Precisávamos expulsar os Saxões, e acabar com aqueles que ainda
duvidavam que Arthur era o filho de Uther Pendragon. Mas uma pessoa
me chamou a atenção na corte. Aquele que aconselhava o Rei. A sua fama
o precedia. As lendas sobre ele, também eram fantásticas. Quando mais
novo, em Avalon, me arrisquei nas artes místicas. Mas sem muito sucesso.
Era a minha chance. Após as apresentações, e a definição de nossos lugares,
quando fiquei a direita de Lance, e dos brindes em comemoração à nossa
chegada, pedi para me retirar e fui conversar com Merlin:
-
Sr. Taliesin? Podemos conversar?
-
Seja breve, rapaz! Não tenho tempo para crianças.
-
Sim, Senhor! Desculpe incomodá-lo!
-
Fale, rapaz! - sua voz aparentava estar irritada.
-
S-sua fama, na área das artes místicas, o precede. E-eu já me aventurei
nesta área, mas não obtive muito sucesso. Gostaria de saber se o senhor
não precisa de um aprendiz.
-
O que me levaria a aceitar um garoto como você? Você iria me atrapalhar,
trazer problemas! Suma-se, garoto!
Meu
sangue ferveu! Tinha vontade de cortá-lo ao meio, de arrancar a sua
cabeça! Mas ele me surpreendeu.
-
Pensando melhor, acho que você pode ser necessário. Deverá me obedecer,
sem restrições. E estudará! Sabe ler e escrever?
-
A-a-aprendi em Avalon, Senhor.
-
Ótimo, agora venha! Vamos começar.
E
assim, o tempo passou. Enquanto Lance se aventurava no mundo, eu aprendia
com Merlin. Quando o Rei precisava de nós, lutávamos, o que retardou
meus ensinos nos dois primeiros anos. Quando os saxões foram expulsos,
e a Bretanha unida, o Rei decidiu se casar. Quando coroado Rei, no reino
de Leodegrance, ele conheceu uma jovem. Então Leodegrance, que havia
dado de presente a Távola Redonda, prometeu a mão de sua filha quando
o Rei instaurasse a paz. Quando esta foi conquistada, veio uma missão
especial:
-
Lan, Lance, vocês são os meus melhores homens. Eu os considero irmãos.
As suas espadas nos deram muitas vitórias. Preciso que vocês façam um
favor a mim, não como Rei, mas como um irmão. Tragam minha rainha.
Eu
e Lance trocamos olhares. Lance sintetizou nossa opinião:
-
Sentimo-nos honrados, nosso Senhor e Rei! É com honra e alegria que
aceitamos esta tarefa. Partiremos amanhã, para o reino de Leodegrance,
e traremos sua rainha.
Após
isso, conversei com Merlin, que sempre me liberou para qualquer tarefa
para o Rei. Mas ele falou algo quando saí que me assustou, e só fui
compreender anos mais tarde:
-
Aquele tolo. Sua luxúria será sua destruição. Se pelo menos tivesse
me escutado naquela noite...
Assim,
partimos. Estávamos a cinco dias do reino de Leodegrance. Foi quando
passamos por grandes aventuras. Lembro-me de que Gaheris, irmão de Gawain,
estava sumido. E nesta viagem, descobrimos porquê. Ao passar por um
vilarejo, ficamos sabendo de um cavaleiro rude, que havia derrotado
vários cavaleiros, e feito-lhes prisioneiros, à procura de um grande
desafio. De alguém capaz de derrotá-lo. Enquanto não conseguisse isso,
mataria e faria prisioneiro os cavaleiros que por ali passassem. Chegamos
então, no ponto falado. Havia um feudo fortificado, cercado de fossos.
Mais à esquerda, havia no fosso um vau. Nesse vau crescia uma árvore,
onde estavam pendurados vários escudos, e uma bacia de cobre e bronze.
Lance bateu com a ponta de sua lança três vezes na bacia. No castelo,
próximo à árvore, a ponte é baixada. Dela saiu um cavaleiro, montado
em um cavalo negro. Sua aparência lembrava um demônio, como os padres
contavam para nós, na corte. A sua voz não era diferente:
-
Quem ousa me desafiar?
Eu
e Lance tínhamos um acordo. Revezávamos os desafios. E esta foi a vez
dele.
-
Eu, Lancelot du Lac, da Corte do Rei Arthur! E o desafio, em nome de
meus companheiros!
A
justa começou. As lanças se chocam, e se quebram. Puxam as espadas.
O combate é acirrado. O cavaleiro adversário é bom. A luta é bela, e
Lance toma vantagem ao derrubar o cavaleiro ao chão. Lance desce, e
continua o combate. O cavaleiro ataca furiosamente. Quase derruba Lance,
mas ele se recupera, e continua o ataque. As espadas se cruzam no centro.
Eles se olham. E Lance gira, acertando o braço esquerdo do cavaleiro,
arrebentando o escudo. O cavaleiro se abala, e Lance aproveita. Trespassa-o,
atravessando o peito. O adversário cai, morto.
-
Vamos, temos que libertar nossos amigos.
Libertamos
os cavaleiros presos, restabelecemos a paz na região, e comemoramos.
Mas não podíamos ficar. Nosso Rei havia nos conferido uma missão, e
retomamos nosso caminho. O resto da viagem foi tranqüila. Chegamos ao
reino de Leodegrance, e fomos recebidos com festa. Crianças vinham em
nosso encontro. O povo nos aplaudia. E eu adorava tudo aquilo. E não
sabia que estava levando o fim daquilo para o reino. Após conversarmos
com o rei e brindarmos, descansamos e nos preparamos para escoltar a
futura rainha. Foi quando a conhecemos. Devo dizer, até eu me senti
abalado por aquela beleza. Aqueles belos cabelos negros cacheados, os
olhos azuis, a pele branca, como o mais belo marfim. Mas eu sabia que
ela era a mulher do Rei. Mas quando meu irmão a olhou, percebi um problema.
Os olhos dele brilhavam. Eu consegui ler neles o que ele sentia, e sabia
que havia sido arrebatador. Um arrepio seguiu minha espinha. Mas me
distraí, quando vi uma das damas da rainha. Os olhos azuis, os cabelos
castanhos, lisos. A pele, levemente morena. Linda. Seu nome era Karoline.
Cumprimentamos nossa futura rainha, e partimos. As damas de companhia,
apaixonadas por meu irmão. Durante a cavalgada, a rainha se aproximou:
-
Elas querem saber quais delas mais chamam sua atenção. - perguntou a
rainha a meu irmão.
-
Todas são belíssimas, rainha, mas a única que reside meu coração já
possui o destino traçado. Logo, servirei a ela, para sempre.
Olhei
para meu irmão, desaprovando sua resposta. A rainha se afastou, e comecei
a entender a frase que Merlin havia dito. Ela correspondia ao olhar
do meu irmão. Mas acabei esquecendo o assunto reparando na companheira
da rainha. Era linda; ela se aproximou, e começamos a conversar. À noite,
quando ficamos a sós eu e Lance conversamos:
-
Lance, o que foi aquilo com a rainha?
-
Eu não lhe devo satisfação de minha vida, Lan.
-
Mas o que você fez pode ser considerado traição.
-
E eu tenho culpa de meu coração amá-la?
-
Não, Lance. Mas você não pode tê-la, e sabe disso. Por favor, Lance,
pense na paz e no reino, antes de cometer um erro.
Chegamos
novamente em Caerleon. O casamento marcava também a inauguração do novo
castelo, em Camelot. A cerimônia foi belíssima. As festas adoráveis.
Depois do casamento, Lance se foi novamente. Quando conversamos, ele
disse que pensou no que falei, e decidiu lutar contra seu amor, e a
forma que escolheu foi se afastando do reino. Meu relacionamento com
Karoline estava bem, mas voltei aos estudos com Merlin, e tive uma surpresa:
-
Lan, essa é minha nova aprendiz. A irmã do Rei, Morgana le Fey.
-
Minha Senhora.
Os
estudos continuavam. Percebi um brilho nos olhos de Merlin, quando esse
ensinava a irmã do Rei. E percebi algo no olhar dele. Ele havia se apaixonado
por ela! Imagino o que o Rei pensava disso. O tempo passa. São tempos
de paz. E Morgana parecia não corresponder à paixão secreta do Mago.
Ela havia se apaixonado por um rapaz, bom no uso da espada, que eu só
havia derrotado pelo melhor preparo e maior experiência. Seu nome era
Accolon. O romance deles era conhecido, e sofria mais insinuações que
o meu. Merlin parecia estar chateado, mas nossos estudos continuaram.
Certo dia, Merlin me pegou de surpresa:
-
Quem é o espírito da Terra?
-
É o Dragão!
-
E o que é o Dragão?
-
É tudo!
-
Muito bem, garoto. Está na hora de aprender mais sobre o Dragão.
E
ele me mostrou as entranhas do Dragão, e me ensinou. Ensinou artes fantásticas,
e a maior delas. A transformação da respiração do Dragão. E me contou
lendas, lendas sobre outros dragões, e seres especiais. O Mago estava
em transe. Contou sobre histórias do passado. E ele contou uma história
que me assustou e maravilhou. Ele contou que há muitos anos, um homem
muito sábio passou pela Bretanha. E foi conversar com os Druidas. E
lhes contou de um Deus, o Deus que havia feito a Terra, e era seu pai.
E eles contaram as histórias dele, e ouviu, e os respeitou. Pois eles
o respeitaram. E Merlin deu um presente ao homem. Um cálice. O Graal.
A
história me pegou de surpresa. Não sabia como reagir. Achei que Merlin
estava louco, pela paixão por Morgana. Como eu era inocente. Acreditava
fielmente na Igreja. Achei aquilo absurdo. Acreditei ser delírio de
um velho.
Mas
chegou o Pentecostes, e o Rei mais uma vez, como ele mesmo havia estipulado,
escuta os problemas dos cidadãos do Reino. Mas este ano, tivemos uma
surpresa. Em certo momento, as festividades foram interrompidas por
dois mensageiros. Um deles começou a mensagem:
-
Sou Castor, centurião da legião Valeria Victrix - disse o homem que
tinha falado. Na Gália, as legiões forma novamente formadas, sob a bandeira
de Lúcio Valério, Imperador de Roma. A mensagem de Lúcio é a seguinte
- que você, Arthur, duque da Bretanha, pode continuar a governar sob
esse nome, desde que mande, dentro de seis semanas, um tributo imperial
constituído de quarenta onças de ouro, duas dúzias de pérolas, e três
carros de ferro, estanho e chumbo do seu país, com cem fardos de lã,
também do país, e mais cem escravos.
Roma
havia decidido retornar à Inglaterra, depois de abandoná-la para os
saxões. Agora que Arthur a havia reerguido, eles a queriam de volta.
A resposta de Arthur foi clara.
Os
combates seguiam há dias, e teríamos o confronto definitivo no dia seguinte.
Estávamos vencendo. Faltava pouco. O ataque começou. Ao chegar no coração
do combate, desci do cavalo e lutei no chão. Gostava de estar perto
do inimigo, ver o desespero em seus olhos. Havia derrubado dez, quinze
homens. O combate estava terminando, e comemorei a vitória. Minha arrogância
foi meu erro. Não percebi o ataque pelas costas. Fui atravessado por
uma lança.
Morri,
pela primeira vez."
