Roma, Península Itálica - 195 a.C.
As
reuniões semanais na casa de Methos eram mais animadas do que os irmãos
esperavam, com convidados das mais variadas ocupações sociais e sempre
dispostos a divertir-se.
-
Ave, amigos, sede bem-vindos à minha humilde morada! - saudou o anfitrião,
recebendo no átrio o casal que vinha pela primeira vez visitá-lo - Ficai
à vontade, mandarei trazer-vos bebidas!
-
Ave, Methos Remus! - Eksamat entregou-lhe um pequeno escrínio em marfim
lavrado, contendo um par de alfinetes em ouro e enfeitados com pérolas
- Eis uma pequena lembrança em nome de nossa estima!
-
Mas são maravilhosos, amigos! - vendo de relance que Aka e Eksamat traziam
ao pescoço os pingentes de prata, Methos entregou sua taça de vinho
ao menino escravo, que seguia-o como uma sombra, e fez menção de trocar
os broches que prendiam seu manto pelos alfinetes, a fim de homenageá-los
também - Quero exibi-los imediatamente, são dignos de um cônsul!
Sem
pensar, Aka avançou para ajudá-lo, só percebendo a ousadia do gesto
quando o menino deu dois passos para colocar-se entre ela e o amo, numa
atitude protetora. Vendo-a constrangida, Methos puxou o pequeno escravo
pelos cabelos, afastando-o do caminho sem sequer dignar-se a olhá-lo,
e ofereceu os alfinetes para que Aka os arrumasse em seus ombros. Corada
até a alma pela situação inesperada, Aka ajeitou as jóias sem dizer
uma palavra, consciente dos olhares que Methos cravava em seu rosto.
Eksamat fingia a custo não notar o que se passava, ao mesmo tempo em
que gostaria de ter dado uns beliscões na irmã. Se depois daquilo ela
negasse que estava interessada em Methos, Eksamat seria capaz de ter
um ataque!
De
repente, Methos segurou uma das mãos dela, observando-lhe intensamente
o anel de ametista. Aka não conseguiu encarar Methos como gostaria,
para analisar-lhe a reação diante do símbolo do anel - a proximidade
dele e o gesto ousado de agarrar-lhe a mão, logo após a cena que ela
própria provocara, deixaram-na mais perturbada do que esperava.
-
Perdão pelo atrevimento! - riu Methos por fim, caindo em si e soltando-a
- Fui indelicado, confesso! Mas o fato de ver neste anel o mesmo símbolo
de que falamos despertou-me imensa curiosidade, pareceu-me já ter visto
este desenho antes! E não refiro-me aos presentes que vos dei...
-
Ganhei-o de um capitão de navio! - Aka dizia a verdade, porém de forma
distorcida, e evitou encarar Methos ou o irmão - Foi há muito tempo,
só recordei-me dele após nosso jantar... Achei que gostarias de vê-lo!
Methos
disfarçou um sorriso, satisfeito por ela ter pensado nele, e calculou
que Aka provavelmente tivera outros amantes além do tal "irmão", por
isso ela evitara enfrentar o olhar de Eksamat ao confessar sobre o anel.
Talvez esse amante tenha sido o capitão que salvou-os da escravidão
após o naufrágio... Eksamat parecia por dentro do assunto, mas não demonstrava
ciúmes. "Ele deve confiar muito nela, ou então não se importa... Talvez
já não a queira mais!", imaginou Methos maliciosamente. Incapaz de confiar
em alguém, Methos via fantasmas atrás de cada palavra, afastando-se
cada vez mais da verdade.
Um
escravo aproximou-se com uma bandeja e Methos aproveitou para pedir
que os recém-chegados passassem para o tablinum, onde outros convivas
conversavam. Eksamat apresentou-se a todos como dono de vinhedos e logo
atraiu o interesse de dois comerciantes de bebidas, que desejavam saber
detalhes sobre sua produção de vinhos. Sendo a única mulher presente,
além de sua inseparável criada, Aka estava isolada da conversa masculina
pelas convenções sociais. Methos aproveitou a oportunidade e sentou-se
ao lado dela, chamando um escravo para que trouxesse-lhes bebidas.
-
Infelizmente minha casa não é muito frequentada por damas da sociedade!
- comentou ele, assumindo um ar enlevado - Por isso tua presença hoje
aqui me traz tanta satisfação... Pareces uma flor rara que brotou em
meio aos espinhos deste deserto!
-
Agradeço os elogios! - Aka começou a rir - Bem se vê que não estás acostumado
a receber damas...
Methos
fingiu amuar-se, rindo também em seguida. "Ela é esperta! Será mais
difícil do que imaginei!".
-
Pareci falso, não? Prometo dedicar-me mais à poesia antes de nosso próximo
encontro! - disse, servindo-lhe pessoalmente o vinho que o escravo trazia
- Sinto muito, nunca fui muito bom em cortejar damas que merecessem
uma maior dedicação da minha parte ao mundo das letras, se é que compreendes!
-
Sim, estás acostumado às conquistas fáceis e às mulheres mais fáceis
ainda! - Aka gostava do humor dele e resolveu provocá-lo - Não te entedia
a falta de desafios à tua altura?
-
Como um dia um amigo me disse, na horizontal a diferença de altura desaparece!
- Methos deu uma piscadinha maliciosa - E o que parece fácil pela manhã
muitas vezes pode dar um trabalho danado à noite...
Aka
engasgou com o vinho, sem conseguir conter a gargalhada, e a criada
acudiu com um guardanapo. Fazendo um gesto para que ela se afastasse,
Aka esforçou-se por manter a compostura, pois seu irmão já lhe lançava
olhares desconfiados. Vendo-a procurar Eksamat com os olhos, Methos
suspirou, mudando de assunto para disfarçar a contrariedade:
-
É uma pena que não possas conhecer meus amigos, Titus Marconus e Peter
Gaicus! Esta tarde recebi notícias de que eles enfim chegaram às suas
propriedades, porém talvez tardem ainda algum tempo para regressar!
-
E vós costumais fazer algo mais em Roma do que visitar-vos uns aos outros?
- Aka sorriu - Algo além de eliminar diferenças de altura, quero dizer!
Methos
divertiu-se com a malícia dela, descrevendo-lhe os outros eventos que
a cidade proporcionava e convidando-a para acompanhá-lo quando desejasse.
Aka não teve tempo de responder, pois Eksamat enfim livrou-se dos comerciantes
e voltou para seu lado. Pensando que talvez estivesse provocando ciúmes,
Methos afastou-se pouco depois para dar atenção a outros convidados,
evitando aproximar-se de Aka quando Eksamat estava por perto. Logo dois
militares e um vendedor de tecidos rodearam os irmãos, distraíndo-os
pelo resto da noite.
*************
Os
três Imortais começaram a frequentar juntos as festas populares, as
cerimônias religiosas, as competições esportivas e, obviamente, o mercado
e o forum (1). Methos tinha que reconhecer que sentia uma estranha e
conflitante atração em relação aos outros dois, gostando imensamente
deles mas também suspeitando de sua inteligência e ironia.
Como
ele, ambos demonstravam dar pouca ou nenhuma importância à religião
ou às leis, obedecendo os costumes e a moda apenas por necessidade de
adaptação ao ambiente, como um camaleão que muda de cor para sobreviver.
Porém Aka e Eksamat pouco ou nada comentavam sobre seu passado remoto,
portanto era impossível dizer de onde eles vinham, quantos anos tinham,
o que já haviam feito na vida ou o que ainda esperavam dela. Aka era
quase tão loira quanto os Keltoi, as belicosas tribos Celtas do norte,
mas há tempos a miscigenação tinha gerado gente clara como ela em todo
o continente. Já Eksamat era moreno como os povos do norte da África
e do Oriente Próximo, mas poderia ter nascido em qualquer lugar da costa
do Mediterâneo. Até o suave e indefinível sotaque deles, que Methos
considerara a princípio uma possível chave para descobrir as misteriosas
origens do casal, mudava ligeiramente quando eles falavam com outros
estrangeiros - eles assumiam o sotaque de seus interlocutores sem perceber,
vício que só alguém acostumado a outras línguas poderia ter. Ambos preferiam
conversar em latim ou no máximo em grego, fingindo não entender outros
idiomas, porém Methos tinha certeza de que a dupla era tão poliglota
quanto ele.
Era
curioso conviver com os dois, que pareciam entender-se de uma forma
inédita para Methos, acostumado a viver exclusivamente por si e para
si, mesmo em companhia de outros Imortais. Os olhares e sorrisos que
ambos trocavam com frequência e os tons de voz cheios de significado
demonstravam que a cumplicidade entre o casal era enorme e Methos, ao
mesmo tempo em que os admirava, também os invejava quase ao ponto da
mágoa. Talvez fosse por isso que pensava em tirar Aka de Eksamat - nunca
conhecera alguém em quem confiasse totalmente, alguém que soubesse por
seus mínimos gestos o que se passava em seu interior, como via acontecer
com eles. Obviamente Methos reconhecia que isso era culpa única e exclusivamente
sua, pois sua eterna luta pela sobrevivência e seus muitos traumas jamais
permitiram-lhe demonstrar tamanha confiança em qualquer outro ser humano,
mesmo quando em seu íntimo o que ele mais desejava e precisava era poder
confiar em alguém. Será que Aka poderia ser com ele como ela era com
Eksamat?
O
que Methos não percebia era como ela lutava por atrair sua atenção,
nem como Eksamat baixava aos poucos a guarda e começava a ver nele um
amigo. A carinhosa convivência com Emrys na Grécia tinha despertado
nos irmãos as lembranças dos bons tempos com Imhotep no Egito, levando-os
à conclusão de que ter amigos Imortais era a maior felicidade a que
poderiam aspirar - apenas outros Imortais sabiam o que era o dilema
de ver o tempo passar e o mundo mudar constantemente diante de seus
olhos, sem que eles pudessem fazer nada. Só com outros de sua espécie
eles podiam abrir-se completamente e tratar com franqueza de assuntos
que os mortais comuns nem poderiam sonhar em descobrir. Por isso, para
eles, a amizade de Methos Remus era algo mais do que desejado - era
uma necessidade da alma, um alívio para a pesada carga de milênios de
história que não podiam dividir com mais ninguém.
Ainda
assim, percebendo o quanto Methos era reservado, os irmãos viam-se na
difícil situação de continuar ocultando seus verdadeiros sentimentos.
Methos não dava-lhes muito espaço para perguntas sobre seu passado e
por vezes assumia uma expressão indefinível ao observá-los, demonstrando
que registrava tudo o que diziam, porém evidenciando que não retribuiria
com a mesma confiança. Ele era adorável, engraçado, espirituoso e inteligentíssimo,
mas ao mesmo tempo enigmático como a própria Esfinge, como tinha uma
vez dito Aka, enervada com o fato de Methos não corresponder abertamente
às suas insinuações amorosas. Quem quer que Methos fosse, esse era um
segredo que ele provavelmente jamais revelaria.
*************
-
Por favor, o que te custa fazer ao menos uma de minhas vontades? - choramingava
Aka, perseguindo Eksamat pela casa - Tu sabes como é entediante para
mim ficar presa aqui!
-
Já disse que vou pensar no assunto!
Meia
hora antes os dois tinham recebido um convite de Methos Remus para uma
festa no dia seguinte, em homenagem a seus amigos Imortais, Titus Marconus
e Peter Gaicus, que acabavam de chegar de viagem. Imediatamente Aka
entusiasmou-se, mas Eksamat não sabia se seria conveniente que ela fosse.
Há
três meses os irmãos frequentavam as reuniões de Methos com regularidade,
e inclusive tinham descoberto que ele também mandara consagrar o terreno
da casa, coisa que o próprio Methos confessara, numa noite em que estava
meio alto pela bebida. Os três também saíam quase diariamente para passeios
e visitas a pessoas ilustres de Roma, porém raramente outras mulheres
além de Aka compareciam às tais reuniões de Methos, e na maioria eram
amantes de alguns patrícios presentes, o que de certa forma era constrangedor
para ela.
Aka
já não escondia do irmão sua paixão por Methos, que também parecia extremamente
interessado nela. Eksamat esperava apenas que ele tomasse alguma iniciativa
para dar sua aprovação formal ao romance, entretanto Methos continuava
jogando apenas com indiretas. Cismado, Eksamat sondara por conta própria,
descobrindo que Methos tinha brigado com a última amante há mais de
um mês e continuava sozinho, o que era outro sinal de seu interesse
por Aka, a quem ele até andara enviando pequenos presentes secretos.
Obviamente, sem desconfiar das idéias erradas que Methos fazia, Aka
corria a mostrar os presentes ao irmão. Quando os três saíam juntos,
porém, Methos jamais oferecia-lhe o braço ou arriscava comentários românticos
quando Eksamat estava por perto, o que muito a contrariava.
Eksamat
não queria intimar Methos para uma conversa, temendo espantá-lo, coisa
que Aka jamais lhe perdoaria. Ela dizia que pouco ligava para o fato
de ser uma das únicas mulheres nas festas de Methos, nem que as outras
na maioria fossem adúlteras, prostitutas de luxo ou amantes dos convidados,
porém Eksamat receava que alguém tomasse liberdades excessivas com sua
irmã, como uma vez acontecera com um soldado bêbado, que chegara a ofendê-la
com propostas pouco decentes. Aka soubera dispensá-lo com firmeza e
altivez, e o próprio Methos, furioso, mandara que levassem o indiscreto
convidado embora antes que ele causasse novos inconvenientes, mas nada
garantia que o fato não voltaria a se repetir. Era justamente por isso
que Eksamat não queria que a irmã fosse à próxima festa.
-
Lá é Solo Sagrado, não há o que temer! - insistiu Aka, não dando trégua
ao irmão - E Methos não deixaria que algo acontecesse em sua própria
casa, com aquele monte de gente!
-
Não é pelos outros Imortais, Aka, é por ti! - Eksamat estava no limite,
nunca fora capaz de recusar por muito tempo os apelos da irmã - Methos
prometeu uma recepção animada, e tu sabes o que isso significa! Haverá
malabaristas, dançarinas, prostitutas... Queres que te confundam com
uma qualquer?
-
Eles já pensam que eu sou... - Aka arrependeu-se do que tinha começado
a dizer, mas o olhar duro do irmão a fez prosseguir - Eles pensam que
eu tenho um amante... Que sou tua amante!
-
O QUÊ? - o rosto de Eksamat variou por todas as cores e expressões possíveis,
da palidez do choque à vermelhidão da cólera, terminando por fim numa
gargalhada histérica e falsa - Estás brincando, não é possível! Tu,
minha irmã, és minha amante? Essa é ótima, que ridículo!
Aka
permaneceu em silêncio, evitando encará-lo. Vendo que ela falava sério,
Eksamat engoliu a risada e fechou a cara, corando novamente. Estava
indignado com a idéia e exigiu explicações. Aka confessou que descobrira
isso há uma semana, pela amante de um velho mercador. Indiscreta, a
jovem reclamou que o comerciante andava avarento e quis saber se Eksamat
lhe dava muitos presentes. Aka a princípio não compreendeu a pergunta,
só caindo em si quando a moça disse francamente que ela tivera sorte
ao conquistar os favores de um homem jovem, bonito e rico como Eksamat.
Chocada, Aka tentou desfazer o mal entendido, porém a jovem insistira,
com ar de cumplicidade, que todos já sabiam do "segredo", e que inclusive
muitos invejavam Eksamat, mas não atreviam-se a roubar-lhe a amante
por causa de sua amizade com Methos. Completamente passada com a revelação,
Aka não conseguiu sequer responder, e não teve coragem de contar nada
ao irmão. Preferiu acreditar que a jovem estava enganada mas, pensando
depois detidamente no assunto, Aka deu-lhe razão, afinal poderia ser
esse o motivo por que Methos continuava na reserva, apesar de todas
as insinuações.
Após
ouvi-la contar sombriamente o que tinha acontecido, Eksamat ficou arrasado.
Jamais, em quase três mil anos, olhara para Aka sem ser como irmão,
mesmo durante os séculos em que vagaram pelo deserto ou quando tentaram
driblar os rígidos costumes gregos, fingindo que eram casados. Para
ele, apesar de saber desde o início que ambos eram órfãos sem ligação
de sangue, ela seria sempre sua irmãzinha, sua menina dourada, que vira
crescer e ajudara a criar (2). Nada lhe parecia mais absurdo do que
a idéia de ter um caso com ela! Preferia que o mundo tivesse acabado
do que enfrentar tal situação em Roma. Fingir que eram casados era uma
coisa, mas serem apontados maldosamente pelas costas como amantes, que
ainda por cima mentiam para disfarçar seu romance, era outra bem diferente.
Para Eksamat, descobrir que tais rumores circulavam a seu respeito era
nojento (3).
-
E agora, com que cara ficamos? - sussurrou ele, trincando os dentes
- Não tenho coragem sequer de sair na rua novamente! Estamos sendo ridicularizados
por toda a cidade! Que humilhação... Bando de chacais fofoqueiros, abutres,
caluniadores!
Os
dois tiveram uma forte discussão. Por mais que Aka dissesse não se importar
com a maledicência, Eksamat sabia muito bem o quanto isso a magoava.
Só o fato de ela ter-lhe ocultado que sabia dos comentários era prova
de sua vergonha. Por causa dessas fofocas infundadas, sua irmã estava
sendo vista como indigna pela sociedade local, e Eksamat não sabia como
desfazer o estrago. Ofendido no mais puro de seus sentimentos, ele não
viu outra alternativa senão mandar um recado lacônico à casa de Methos
dizendo que não compareceriam à festa nem o veriam nos próximos dias.
Aka chorou trancada no quarto por um tempo, arrependida por ter deixado
escapar tamanha indiscrição, mas seu irmão estava irredutível, chegando
até a gritar-lhe, através da porta fechada, que deveriam partir logo
de Roma, o que significaria afastar-se de Methos.
Para
surpresa de ambos, em menos de meia hora o próprio Methos Remus apareceu.
Ao receber a recusa dos irmãos, Methos interpelara o criado que fora
levar-lhe o inesperado recado, que mais parecia uma despedida. Ao descobrir
que ocorrera uma briga terrível entre Eksamat e Aka, e que ambos provavelmente
partiriam de Roma em breve, imediatamente Methos mandou que arrumassem
sua liteira, para ver pessoalmente o que estava acontecendo. "Ele deve
desconfiar de algo! Deve ter descoberto meus presentes!", pensava, gritando
com os carregadores para que andassem mais depressa, apesar do trânsito.
A demora em chegar serviu apenas para inflamar-lhe as emoções contraditórias.
Antes mesmo de chegar ao palacete, Methos pulou da liteira e correu
pelo resto do caminho, sabendo que a essa altura os dois Imortais já
teriam sentido sua chegada e mandariam que o deixassem entrar. Por sorte
um criado atendeu-o logo, ou Methos teria começado a esmurrar o portão.
-
O que está acontecendo? - perguntou furiosamente a Eksamat, mal o viu
pela porta do vestíbulo - Se tu a maltrataste, vais ver-te comigo!
-
Ave, Methos Remus! - respondeu Eksamat, fechando a cara - De que estais
falando?
-
Onde está Aka? O que tu fizeste a ela?
-
Minha irmã recolheu-se, estava indisposta, mas o que tens a ver com
isso? - Eksamat colocou-se no caminho, impedindo que Methos entrasse
- Onde estão teus modos? Já não te mandei dizer que não iremos à tua
festa nem receberemos visitas?
-
Estás com ciúme, é isso? - num gesto súbito, Methos puxou Eksamat pela
gola da túnica - Por que a prendes, se não a queres mais?
-
Aqui é Solo Sagrado, esqueceste? - Eksamat soltou-se com um safanão
e empurrou Methos de volta para a porta, os olhos flamejando de indignação
- E tu também és um dos malditos que compartilham dessa sujeira, não
és? Tu também andas comentando sobre Aka, inventando absurdos!
-
Ah, meu amigo, não mintas! - Methos usou seu tom mais mordaz, sem importar-se
com os criados que acorriam para ver a cena - Há tempos notei que o
vosso romance já não deve ter mais o mínimo encanto para Aka... Por
que não a deixas para mim?
-
Estás louco! - Eksamat não arredou o pé do caminho - Tu e teu bando
de amigos linguarudos lançaram lama sobre nossos nomes e ainda achas
que podes vir aqui ofender-nos? És muito presunçoso!
-
Ela não te quer, deixa-a ir! - sibilou Methos, vendo que Aka assomava
por trás de Eksamat - Tu vens comigo, Aka! Cansei desse jogo!
-
Mas que discussão é essa, estão todos a olhar! - Aka colocou-se entre
Methos e Eksamat - Não irei a lugar nenhum contigo desse jeito, Methos!
Como te atreves a insultar meu irmão em nossa própria casa?
-
Se ele não te agrada, abandona esse infeliz! - Methos aproximou-se e
tomou-lhe a mão - A partir de hoje vais viver comigo!
-
Abandonar Eksamat? - Aka forçou uma risada - Foi ele quem me viu crescer
e quem sempre me protegeu, Methos, confio minha vida a ele como jamais
confiaria a qualquer outra criatura! Estás delirando? Pensei que tu
gostavas de meu irmão como de um amigo!
-
Então zombaste de mim até agora! - Methos pulou para trás, vermelho
de raiva, vendo que tinha feito papel de tolo - Deste-me falsas esperanças,
brincaste com meu sentimento! Decerto foste instruída por ele!
Eksamat,
apesar da indignação, permanecera calado desde a chegada da irmã, tentando
entender o que estava acontecendo na cabeça de Methos. Se fosse em outros
tempos, teria pulado ao pescoço dele depois de tamanha afronta. Contudo,
os anos passados ao lado de Emrys tinham-no tornado, se não menos inflamável,
decerto mais controlado. Eksamat via que Methos era um dos que pensavam
que Aka era sua amante, e aparentemente roía-se de ciúmes. Parecia também
que Methos julgava Aka vítima de algum tipo de tortura ou má influência,
por isso acorrera para defendê-la. Mas agora estavam dando um espetáculo
para os criados, era preciso colocar logo um ponto final naquilo - Roma
definitivamente não era um bom lugar para escândalos.
-
Aka é e sempre será minha irmã, Methos, fomos adotados e criados pelos
mesmos pais desde que éramos crianças! - Eksamat falou baixo e em grego
para que ninguém mais ouvisse - Nunca fomos amantes, jamais passou-nos
pela cabeça tal crime! Acalma-te e deixa de cenas! Conversaremos a sós
e resolveremos esse mal entendido!
Eksamat
atravessou o átrio sem esperar resposta e passou para o tablinum, fechando
as cortinas atrás de si. Aka seguiu-o, limitando-se a fazer sinais a
Methos para que entrasse também. Vendo que os criados esperavam sua
próxima atitude e que até alguns vizinhos tentavam espiar pelo portão
ainda entreaberto, Methos caiu em si e resolveu entrar, confiando na
proteção do Solo Sagrado.
Methos
encontrou Eksamat em pé junto a uma das grandes janelas que davam para
o jardim, com Aka a seu lado, imóvel e silenciosa. Eksamat fez-lhe um
gesto para que sentasse, mas Methos permaneceu à distância, encarando-os
com desconfiança. Concentrando-se para não soar grosseiro, Eksamat repetiu-lhe
em grego o que já havia dito há pouco, concluindo:
-
Não sei o que levou-te a pensar que Aka e eu estivéssemos ocultando
algo sobre nossa relação, e agora exijo que expliques tuas intenções
para com ela. Há tempos sei que há algo mais entre vós, porém nunca
imaginei que tu tivesses uma atitude tão infame quanto esta de vir aqui
desse modo!
-
Esse negócio de "irmãos" para mim era um disfarce! - confessou Methos,
sem abandonar a altivez - Nunca ouvi falar de dois Imortais criados
juntos pela mesma família, que querias que eu imaginasse? Em Roma não
falta quem dê nomes diversos aos amores secretos de que esta cidade
anda cheia, e para mim tu estavas usando de subterfúgios para ocultar
a verdade! Aliás, todos os que vos conhecem suspeitam do mesmo, dada
a diferença física entre vós! Ninguém em sã consciência afirmaria que
sois mesmo irmãos, muito menos eu, que sei que tal coisa é impossível!
-
E mesmo acreditando que éramos amantes, te atreveste a insinuar-te para
Aka, pretendendo afastá-la de mim? - acusou Eksamat, com o semblante
carregado - Que belo amigo me saíste, Methos Remus! Cometeste ao mesmo
tempo dois crimes, desconfiando de minha honra e tentando trair-me!
Aka
ouvia a discussão de cabeça baixa, torcendo as mãos. Sua mente dava
voltas, pensando mil coisas que pudesse dizer para acalmá-los e rejeitando-as
em seguida. Nunca pensou que Methos tivesse sido um dos primeiros a
tomá-la por leviana, e contudo não conseguia desprezá-lo por isso. Apesar
das idéias tortas, ele arriscara a cabeça vindo buscá-la! Obviamente
ela não admitiria que ele confrontasse seu irmão, caso contrário ela
própria avançaria contra Methos, porém tal atitude da parte dele só
servia para provar seu interesse por ela.
Por
seu lado, Methos revoltou-se intimamente por Aka não reagir. Preferia
que ela o rejeitasse de uma vez e o expulsasse, apoiando logo o irmão,
ou então que o defendesse e mandasse Eksamat às favas. Eksamat calara-se
ao ver que Methos não respondia, encarando Aka com um brilho no olhar.
Ela nem percebia, nervosa com a situação.
-
Methos, estou esperando tuas explicações! - recomeçou Eksamat devagar
- Por mais que tenhas imaginado coisas absurdas a nosso respeito, não
tinhas o direito de vir até aqui afrontar-nos. Já não basta o que comentam
por nossas costas, tinhas que acrescentar mais esta mancha à nossa reputação?
O que não falarão de minha irmã agora, quando souberem que vieste disputá-la
comigo?
Aka
arriscou um olhar de soslaio para o irmão, depois para Methos, que continuava
calado e não despregava os olhos dela. Methos estremeceu, reconhecendo
que estava apaixonado por aquela mulher, mesmo contra a vontade. Não
a queria mais apenas como uma amante eventual, como no princípio, ao
imaginar que talvez ela abandonasse Eksamat para viver com ele. Aka
não era desse tipo. Tinha feito julgamentos precipitados e agora provavelmente
não teria mais chances de conquistá-la...
Eksamat
notou que Aka estava com os olhos cheios de lágrimas, parecendo pronta
a correr para Methos, e espantou-se. Por mais que ele tivesse sido infame,
ela já o tinha perdoado. Com dor no coração, Eksamat capitulou. A única
coisa que lhe restava era tentar salvar a situação, para o bem de Aka.
-
Tu estás mesmo apaixonado por minha irmã, como deste a entender com
teus presentes e insinuações? - exigiu Eksamat, cruzando os braços e
fingindo ignorar o alarme no rosto de Aka - Eu sempre soube de tudo
e nunca me opus a que a cortejasses, foi apenas teu preconceito que
te impediu de ver tal fato! Então, essa paixão é sincera ou não passou
de uma disputa entre homens, para provar teu poder de sedução?
Methos
franziu os olhos e encarou-o com incredulidade, depois sacudiu a cabeça
e riu com ironia, visivelmente indignado. Cruzando também os braços,
abaixou os olhos para o tapete por um instante, o sorriso congelado
em seus lábios. Depois, dando de ombros, concordou por fim:
-
Eu gosto dela, mais do que imaginava até agora! O que queres que eu
diga? Desabalei-me da minha casa até aqui e fiz essa cena toda por quê?
Fui ridículo, não nego! - Methos exaltou-se de repente. Se estava perdido,
então melhor desabafar de vez - Queres saber? Estou apaixonado por Aka
sim, e daí? O que queres que eu faça, que peça perdão de joelhos por
ter maculado a honra da família?
-
Quero que te cases com Aka como um patrício romano decente faria, para
livrá-la dos falatórios! - com um gesto seco, Eksamat proibiu a irmã
de se intrometer - Que ela te ama eu não duvido, e se tu a amas não
lhe negarás tal favor!
-
Eksamat! - gritou Aka - Eu te proíbo de continuares!
-
Estás louco?! - Methos arregalara os olhos - Casar, EU?
-
Daqui a alguns anos podeis até romper e partir cada qual para seu lado,
mas agora, para calar a boca dos difamadores de Roma, quero que tu a
tornes novamente honrada aos olhos de todos! - insistiu Eksamat, apesar
de Aka começar a esmurrar-lhe os braços furiosamente - Tu gozas de certo
prestígio na cidade e tal atitude vinda de ti, mais do que de qualquer
outro, colocaria um ponto final nessa história sórdida!
Methos
olhava de Aka para Eksamat com a boca aberta, as mãos na cintura, sem
saber o que pensar. Eksamat segurou a irmã com firmeza pelos pulsos,
obrigando-a a parar de bater-lhe, e ela desandou a chorar, envergonhadíssima
pelo que ele a estava fazendo passar. Assim que ele largou-a, Aka passou
correndo por Methos e atravessou o átrio para esconder-se em seus aposentos,
batendo a porta do quarto com força.
Nesse
meio tempo, Methos continuava de boca aberta. Sentia-se no meio de uma
comédia grega da pior espécie, e tinha até medo do que mais estaria
por vir. Já tinha se casado antes e, apesar de gostar de Aka, outra
união permanente não estava nem de longe nos seus planos. Morar com
ela respeitosamente sim, mas CASAR? Com uma Imortal? Methos ficou sem
saber se deveria rir ou chorar. Lançando um olhar furioso a Eksamat,
que permanecia irritantemente inalterável, Methos de repente virou-se
e saiu para o átrio. Eksamat não esboçou sequer um movimento para impedi-lo,
ficando apenas com os ouvidos atentos e pronto a acorrer em socorro
da irmã, caso percebesse algo errado. Já tinha forçado demais a situação,
numa jogada arriscada, e era melhor esperar que os dois se entendessem
sozinhos.
Methos
já conhecia a casa o suficiente para saber quais eram os aposentos de
Aka e foi bater-lhe à porta, implorando para entrar. Após alguns instantes
uma criada deu-lhe passagem, retirando-se silenciosamente em seguida.
Sentada num divã na antecâmara, Aka enxugava o rosto, tentando recobrar
a dignidade e evitando olhá-lo de frente. A despeito de nunca fraquejar
diante das lágrimas de uma mulher, Methos correu até o divã, puxando-a
para si. Aka afastou-o e levantou-se abruptamente, surpreendendo-o.
-
Apesar de tudo o que fizeste, Methos Remus, eu te perdôo! - disse ela,
procurando manter a voz firme - Por isso peço-te que também perdoes
a mim e a meu irmão pelo que acaba de se passar nesta casa! Desde que
chegamos a Roma, temos vivido suspensos num mundo de desconfianças e
mentiras. Pensamos que tu talvez pudesse ser nosso amigo, mas infelizmente
vives num ambiente diferente do nosso. A culpa não é tua, e sim nossa,
que não vimos a perfídia que nos rodeava nessa cidade estranha!
-
Eu tenho culpa nisso, sim! - retorquiu Methos, abaixando a cabeça para
que ela não visse a luta que ele travava em seu interior - Fui um dos
primeiros a caluniar-te por despeito, pois invejava a sorte de Eksamat
sem saber que aquilo que pensei era falso! E também confesso que imaginei
poder tomar-te dele, seduzindo-te com presentes e indiretas! Eu devia
ter percebido que não és desse tipo de mulher, senão já terias entendido
o que eu queria... Quando ouvi falar hoje que brigaste com Eksamat,
e lendo o bilhete frio que ele me enviou, imaginei que ele tivesse descoberto
tudo e quisesse vingar-se...
Sacudindo
a cabeça, ele voltou-se para Aka, fitando-a por alguns instantes antes
de continuar, num fio de voz:
-
Tudo não passou de uma fantasia monstruosa minha, desde o começo! E
Eksamat tem razão, estás difamada em Roma, ainda mais agora depois do
escândalo que aprontei!
Aka
recomeçou a chorar em silêncio, afastando-se em direção à porta. Com
um gesto, indicou-lhe que ele deveria sair, e deu-lhe as costas. Fora
ingênua demais em não perceber o conceito que Methos fazia dela e do
irmão. Se tivesse tido a mínima desconfiança, teria enfurecido-se contra
ele logo no início, mostrando-lhe que não era a mulher vulgar que ele
imaginava. Agora, a discussão à entrada da casa já deveria ter-se espalhado
pela cidade e não lhe restava mesmo outra alternativa a não ser ir embora
de Roma o mais depressa possível com Eksamat.
"Eu
ainda vou me arrepender disso!", pensou Methos para consigo, trincando
os dentes, até que finalmente não resistiu mais e aproximou-se de Aka
a passos largos, perguntando:
-
Tu me amas mesmo como Eksamat falou? É verdade que ele teria apoiado
nosso romance?
Balançando
a cabeça em sinal afirmativo, Aka soluçou. Methos amaldiçoou-se intimamente
em dezenas de línguas por tudo o que já fizera até então e pelo que
sabia que ainda estava por fazer. "Marconus e Gaicus rirão de mim pelo
resto da eternidade!", suspirou, lembrando-se que os amigos a esta altura
deveriam estar imaginando onde ele teria se metido. Com um gesto lento,
Methos forçou-a gentilmente a voltar-se para encará-lo. Ela limpou as
lágrimas, fungando sem parar. Methos tentou beijá-la, mas Aka deu um
passo para trás, virando o rosto.
-
Não tornes tudo mais difícil, gata geniosa! - decidiu-se Methos orgulhosamente,
puxando-a de sopetão e beijando-a com força antes que ela tivesse tempo
de gritar.
Aka
tentou debater-se, porém Methos sabia que aquilo era apenas falso pudor
e não deu-lhe espaço para resistir. Queria muito aquela mulher e não
permitiria que ela o rejeitasse, não depois de todo aquele escândalo!
Com efeito, ela logo estava agarrada a ele, respondendo seus beijos
e carícias com uma paixão que o deixou extasiado. "Talvez não seja tão
ruim assim...", pensou Methos languidamente. Reunindo os fiapos que
sobravam de sua força de vontade, Methos afastou-a e, meio sem fôlego,
proferiu as palavras fatais, sabendo, para sua completa perdição, que
estava sendo verdadeiramente sincero ao dizê-las:
-
Aka, eu te amo! Queres casar comigo?
*************
Notas
explicativas:
1
- O mercado das cidades romanas ocupava de costume as ruas e praças
ao redor das quais erguiam-se os principais templos e prédios do governo,
incluindo o forum, onde julgavam-se processos e também faziam-se serviços
de cartório. Devido ao amor dos romanos pela burocracia, a maior parte
dos assuntos cotidianos acabava passando pelo forum e, como era necessário
que fossem apresentadas testemunhas para tudo, era inevitável que um
romano fosse lá com frequência, resolvendo problemas pessoais ou apoiando
amigos. As audiências eram públicas, para maior transparência da justiça,
por isso o forum era o gerador das principais notícias da cidade, que
o mercado tratava de passar adiante. Como todas as famílias romanas
tinham sempre algum interesse a resolver no mercado ou no forum, não
é de espantar que, com o tempo, ambas as instituições tenham-se tornado
o principal núcleo social de cada cidade, onde os romanos iam diariamente
para encontrar amigos, saber das novidades e fofocas, fazer negócios,
resolver pendengas ou simplesmente passear e distrair-se assistindo
às audiências alheias.
2
- Apesar de alguns historiadores alegarem que no Antigo Egito, quando
Aka e Eksamat foram criados, era comum o casamento entre meio-irmãos,
vale ressaltar que tal prática era exclusiva das famílias reais, pois
acreditava-se que o faraó era divino, e só alguém de sua própria família
seria tão divino quanto ele para merecer a honra de um casamento. Entretanto,
era normal chamar carinhosamente uma pessoa muito amada de irmã/irmão,
mesmo entre marido e mulher, como mostram cartas e poesias da época,
e essa talvez seja a origem da confusão.
3
- Em Roma, a impressão que a sociedade tinha de determinada pessoa era
mais importante do que sua fortuna ou o bom nome de sua família. Um romano
simplesmente não tinha uma consciência individual e via a si mesmo apenas
através dos olhos da sociedade que o rodeava. Até para realizar negócios,
fazer amizades, votar em eleições ou defender seus direitos um cidadão
romano dependia de terceiros que atestassem que ele era quem alegava ser
e tinha o que dizia ter. Um cidadão caluniado, mesmo sendo inocente, se
não tivesse quem o defendesse em público, era imediatamente rebaixado
na escala socio-econômica, perdia a possibilidade de fazer certos negócios
e não era mais admitido em determinados ambientes. Lógico pois que Eksamat,
mesmo não sendo romano, ficasse tão injuriado ao saber o que diziam por
suas costas em Roma.
