Publicado no Jornal Folha de São
Paulo em 24/11/98
Caio Fábio, que procurou a oposição
para avisar da existência de dossiê, ameaça
iniciar uma greve de fome
O reverendo evangélico Caio Fábio
d'Araújo Filho, 43, que intermediou a negociação
do suposto dossiê contra a cúpula tucana com a
oposição, concedeu entrevista à Folha em
uma cafeteria de Boca Raton (75 km ao norte de Miami, Flórida,
EUA).
Ele ameaça fazer uma greve de fome
para que o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro José
Serra (Saúde) e o governador Mário Covas (SP)
abram seus sigilos bancários no Brasil e em paraísos
fiscais.
Pela primeira vez, diz que caiu em uma
arapuca e admite que pode ter sido manipulado no episódio
do dossiê Caribe, o conjunto de fotocópias não-autenticadas
que indicam uma suposta associação de FHC, Serra,
Covas e do ministro Sérgio Motta (morto em abril) em negócios
no Caribe.
Foi o reverendo (denominação
dada aos ministros da Igreja Presbiteriana) quem procurou a
frente de esquerda (Lula-Brizola) e o candidato do PPS à
Presidência, Ciro Gomes, para falar dos papéis.
Ele disse que foi informado sobre a
papelada por um amigo, cujo nome não revela. O reverendo
afirma que, em princípio, não sabia que seria
necessário pagar pelos papéis _US$ 1,5 milhão
foi o preço pedido a Ciro Gomes.
Abatido, Caio Fábio está
pesando 90 kg, 12 kg a menos do que há dez dias. Nascido
em Manaus, o reverendo tem ascendência indígena,
por parte de mãe, e francesa, pela linhagem paterna.
Na chegada ao Brasil, sem data prevista,
ele irá depor à Polícia Federal. À
Folha, negou que quisesse ajudar o ex-presidente Fernando Collor
e o candidato derrotado do PPB ao governo de São Paulo,
Paulo Maluf. Os dois se esforçaram para divulgar os papéis
no Brasil.
''Só quero saber da verdade'',
afirmou Caio Fábio. ''Estou com a consciência
tranquila."
*
Folha - O presidente FHC tem relatado a
amigos ter recebido a informação de que Fernando
Collor teria pago ao sr. US$ 4,5 milhões para organizar a
montagem dos papéis do dossiê Caribe.
Caio Fábio d'Araújo Filho - É
mentira. Eu ofereço a quebra de todo e qualquer sigilo
bancário que eu possa ter no Brasil e no exterior para
que se demonstre onde eu movimentei US$ 4,5 milhões.
Quero levar até as últimas consequências
diante de Deus, pagar até com a vida, se algum dia
participei da montagem de qualquer coisa falsa a respeito de
quem quer que seja.
Folha - Qual era o seu interesse ao
procurar políticos de oposição para
divulgar os papéis?
Caio Fábio - Recebi informações,
me interessei pela verdade. Montagem não é o meu
negócio, tudo o que me interessou nisso foi descobrir a
verdade. Se montaram alguma coisa em algum lugar, eu quero que
seja investigado. Jamais cheguei a ver qualquer documento.
Folha - O que o sr. quer dizer com ''pagar
com a vida''?
Caio Fábio - Não vou deixar
o meu nome ser destruído por falsificações,
chantagens, armações. Pela escolha mais fácil
de covardes que pegam nessa história aquele que
aparentemente é o lado mais frágil e tentam
colocar em cima dessa pessoa a culpa de interesses que todos
eles tinham. Quando tentarem me colocar nessa história
como alguém que armou isso tudo, eu vou ter que ir aonde
eu não quero ir, porque depois disso quem não quer
viver mais sou eu.
Folha - O que pretende fazer?
Caio Fábio - Se tentarem me colocar
nessa situação, vou fazer uma greve de fome que
pode me levar à morte. A condição para eu
parar essa greve é que o presidente e os que estão
sendo acusados façam a mesma coisa para o que eu estou me
oferecendo: assinar meus banks releases (autorização
para informação sobre contas em paraísos
fiscais, expediente inócuo, segundo especialistas),
porque eu sei que eu não tenho nada a esconder em
qualquer lugar do mundo.
Se quiserem me transformar nisso, prefiro
morrer como alguém que acreditou na verdade ainda que
tenha sido idiota, estúpido.
Folha - Essa ameaça não é
mera retórica?
Caio Fábio - Espero não ter
que viver para provar que estou falando sério. Não
me importa como isso começou, mas como vai terminar. Não
vou sair disso como um mercenário de segunda, ou como
alguém cujos interesses fossem menores do que, Deus sabe,
aqueles que existiam no meu coração.
Folha - O sr. falou em falsificações.
Quais são elas?
Caio Fábio - Hoje tenho por certo
que pelo menos vítima de uma montagem eu fui: fui chamado
a ir ao hotel para encontrar uma pessoa que supostamente me
mostraria esses documentos. Seria a primeira vez que eu os
veria.
Quando cheguei lá essa pessoa tinha
acabado de desligar o telefone celular, dizendo que não
iria mostrar nada porque teria conversado com pessoas no Brasil,
que as pessoas supostamente interessadas não iriam pagar
nada, e ele estava exigindo receber para mostrar.
Folha - Ele disse que se chamava Jamil
Degan?
Caio Fábio - Não. Liguei na
hora para o doutor Nilo Batista (ex-governador do Rio, advogado
do reverendo e de Leonel Brizola), que me disse: ''Acabou de
ligar aqui para mim um cara com sotaque, nitidamente um bilíngue
falando um português muito bom, dizendo que iria mostrar
isso a você aí se nós pagássemos.
Como eu disse a ele que nós não iríamos
pagar, ele disse que não vai mostrar nada. Saia daí
agora''. Posteriormente, o nome desse sr. apareceu, porque ele
se identificara como Jamil Degan ao doutor Nilo Batista.
Folha - E quando o suposto verdadeiro
Degan apareceu?
Caio Fábio - Levei um susto alguns
dias atrás ao receber uma visita de alguém que
veio ao meu encontro, me mostrou a sua identidade e perguntou de
onde eu o conhecia. Respondi que jamais o vira antes, e ele
provou pela documentação que era Jamil Degan.
Para mim, ficou claro o seguinte: eu fui
levado para uma arapuca.
Folha - Por quem?
Caio Fábio - Não acredito
que foi pela pessoa que dirigiu o carro para mim, que é o
amigo que me falou sobre os papéis, mas por aquele que
ligou para ele mandando que fôssemos para lá.
Folha - Era brasileiro?
Caio Fábio - Meu amigo não
fez nenhum comentário.
Folha - A Folha publicou uma fotocópia
do dossiê Caribe em que aparece o nome da consultoria
Overland Advisory Services, de Miami. O papel mostra o
fluxograma de uma suposta movimentação de
dinheiro. O proprietário da empresa é Oscar de
Barros. Qual a sua relação com ele?
Caio Fábio - Há um ano, eu
solicitei um serviço do Oscar de Barros na busca de
investidores para projetos como o da TV Vinde, no Brasil. Todas
as conversas que eu tive com ele sobre esse assunto (fotocópias
do dossiê) ocorreram após o assunto chegar à
imprensa.
Folha - Se o papel for verdadeiro, a
Overland participou do esquema do alto tucanato no Caribe.
Caio Fábio- Sob hipótese
nenhuma. Comecei a achar que se estava divulgando documentação
falsa quando eu vi no jornal o documento da Overland. Esses dois
episódios, o personagem falsificado Jamil Degan no hotel
e o papel da Overland, me deram a certeza de que o que está
sendo divulgado é extremamente questionável.
Folha - Qual a sua relação
com Paulo Sérgio Rosa, empresário brasileiro
radicado em Miami?
Caio Fábio - Ele é meu amigo
há seis anos. Eu o conheci em São Paulo. Depois
que meus filhos vieram estudar na Flórida, o reencontrei
aqui. Ele está fazendo serviços de consultoria em
marketing.
Folha - O sr. foi ao jantar em que ele
homenageou Fernando Collor?
Caio Fábio - Eu soube de um jantar
que ele organizou e para o qual me convidou. Disse que também
havia convidado o Fernando Collor, que compareceu com a mulher.
Eu não pude ir, a minha mulher foi. Até onde eu
sabia, não era um jantar de homenagem.
Folha - O sr. acha que foi usado?
Caio Fábio - Por quem?
Folha - Por quem produziu papéis
falsos ou recolheu papéis verdadeiros.
Caio Fábio - Detesto a palavra
''usado''. Ela dá a impressão de que você
está se oferecendo como vítima, e eu não
sou vítima de nada. Sou adulto, maior de idade. Entrei
nisso como brasileiro, como cidadão. O episódio
Jamil Degan evidenciou que havia uma grande armação
querendo me botar no centro. Há oportunismo de políticos
que têm costas quentes, que têm os seus esquemas
montados para se safarem de qualquer coisa e que ficam querendo
me jogar nisso.
Folha - Quem seriam?
Caio Fábio - Todos esses que
apareceram nessa história de maneira mal-intencionada e
agora desapareceram. Prefiro não mencionar nomes.
Folha - O sr. entrou nesse caso como otário
ou como esperto?
Caio Fábio - Nem como otário
nem como esperto. Pensei que fosse importante para o Brasil
saber se isso é verdade ou mentira.
Se tudo isso foi uma grande armação,
e eu fui sendo puxado para o meio desse negócio, quero
dizer que só fiquei no meio desse negócio na mídia.
Eu tenho plena convicção de que eu era a
periferia.
Folha - Por que o sr. não revela o
nome do seu amigo? Se ele é seu amigo, por que ele não
revela?
Caio Fábio - Essa é uma
pergunta que teria de ser feita a ele.
Folha - O sr. fez?
Caio Fábio - Já conversei
com ele a respeito. Quando entrei nisso, entrei sabendo que
teria de proteger essa pessoa por esse segredo de aconselhamento
pastoral. Eu não vou sair disso como um frouxo, um
debilitado que na hora em que as coisas apertaram jogou tudo
para o alto só para salvar a própria pele. Se
estou do lado da verdade e Deus está comigo, como creio,
a minha única resposta é dizer: se Deus é
por nós, quem será contra nós? Apareçam
os candidatos.
Folha - O sr. pode ter sido manipulado por
esse amigo?
Caio Fábio - Até hoje a
minha convicção é de que esse amigo não
estava tentando me usar, tentando me colocar no meio desse furacão.
Eventualmente ele pode ter sido usado. Só
que eu tenho condição de chegar e estar aqui, com
o peito aberto, escancarado, falando tudo o que eu estou
falando. O que ele me diz é o seguinte: ''O sr.
eventualmente vai conseguir viver depois disso. Eu, se aparecer,
estou acabado, porque não tenho estrutura familiar,
psicológica e profissional para saber como a minha vida
vai prosseguir".
Folha - O sr. tem casa em Niterói e
em Boca Raton. Qual a origem dos seus proventos?
Caio Fábio - Vivo de direitos
autorais dos meus livros. Tenho mais de cem livros publicados no
Brasil e uns 15 no exterior. Vivo de proventos pastorais que
recebo de três igrejas no Brasil: Igreja Presbiteriana Betânia,
a Igreja Presbiteriana Central de Manaus, do meu pai, e a
Catedral Presbiteriana do Rio. Como conferencista, não
cobro para falar, mas com alguma regularidade, após as
conferências, recebo algum tipo de oferta, como se chama
no meio cristão.
Folha - Quanto o sr. ganha por mês?
Caio Fábio - Alguma coisa em torno
de R$ 20 mil, R$ 23 mil.
Folha - O sr. votou em Lula. Qual a sua
opinião sobre Collor?
Caio Fábio - Eu não tenho
opinião profundamente definida. Quando olho para o que
aconteceu no Brasil durante o governo dele, eu vejo que algumas
das coisas cujos benefícios a gente colhe hoje foram
coisas que ele iniciou. Exemplo: toda abertura econômica,
o processo de globalização. Acho entretanto, que
ele era, no mínimo, inadequado para a Presidência.
Folha - O sr. costuma vê-lo?
Caio Fábio - Encontramo-nos uma vez
em Brasília, numa cerimônia de pastores evangélicos,
seis meses antes do processo de impeachment. Em Miami, uma vez,
num shopping center.
Folha - Se o presidente fosse Lula, o sr.
teria a mesma iniciativa em relação aos papéis?
Caio Fábio - Nessa história
não existe absolutamente nada de pessoal. Se o meu melhor
amigo estivesse governando o Brasil e alguém viesse me
dizer que ele estava tendo contas desse tipo, com recursos vindo
de negócios favorecidos pelo Estado, a angústia, a
perplexidade e a vontade de encontrar a verdade seriam as
mesmas.
QUEM SÃO OS CITADOS
Ciro Gomes - Candidato derrotado à
Presidência pelo PPS, foi procurado pelo pastor para falar
sobre o dossiê; papéis lhe foram oferecidos por US$
1,5 mi
Paulo Maluf - Pepebista derrotado ao
governo de SP, sabia do dossiê antes do 1º turno, mas
nega envolvimento; diz que suas filhas falaram com o PT sem ele
saber
Nilo Batista - Advogado de Caio Fábio,
o ex-governador do Rio montou um sistema com Leonel Brizola para
verificar a autenticidade dos papéis
FHC - Presidente, tomou posse em 95 e
assume o novo mandato em 1º de janeiro de 99. Segundo o
dossiê de autenticidade não comprovada, tem uma
empresa e uma conta de US$ 368 mi nas Ilhas Cayman com tucanos
Sérgio Motta - Ministro das
Comunicações, morto em abril, é apontado,
junto de FHC, como um dos sócios da CH, J & T,
empresa criada em 19 de janeiro 94, revelada pelos papéis
de autenticidade não comprovada
José Serra - Ministro da Saúde,
recebeu vários fac-símiles com mensagens cifradas
citando a suposta conta no paraíso fiscal. Pelos papéis
do dossiê, é apontado como um dos donos da empresa
e da conta corrente
Mário Covas - Governador reeleito
do Estado de São Paulo, também é apontado
como um dos supostos donos da empresa e da conta corrente no
Caribe; também recebeu uma carta informando sobre o dossiê
Collor teria pago, por intermédio
de amigos, US$ 4,5 milhões para que o pastor Caio Fábio
organizasse a montagem da papelada no submundo financeiro de
Miami (EUA).
Entenda o caso
A denúncia
Sem documentos comprovando a
autenticidade, há um suposto dossiê dando conta de
supostas empresa e conta conjunta no exterior, com saldo de US$
368 milhões. Os sócios seriam Fernando Henrique
Cardoso, José Serra, Mário Covas e Sérgio
Motta. A Polícia Federal investiga o caso e deve fazer a
acareação das pessoas que tiveram conhecimento
sobre os papéis do suposto dossiê. A empresa que
consta no suposto dossiê, CH, J & T, existe, mas seus
donos são desconhecidos
Personagens envolvidos na denúncia
. Caio Fábio
O pastor evangélico disse ter se
reunido com um cidadão britânico chamado James
Degan, três semanas antes do primeiro turno das eleições.
Segundo o pastor, Degan é a pessoa que montou o suposto
dossiê. Diz nunca ter visto os papéis. Afirma que
conversou sobre o caso com a senadora Benedita da Silva, com o líder
petista Luiz Inácio Lula da Silva, com o também
ex-candidato à Presidência Ciro Gomes (PPS)
. James/Jamil Degan
O suposto britânico pode ser James
Degan, sobre quem pouco se sabe, ou o brasileiro naturalizado
norte-americano Jamil Degan, que se apresentaria com James.
Apontado como ex-doleiro de Curitiba,
Jamil degan estaria há mais de 20 anos morando em Nova
York. Ele teria pedido US$ 1,5 milhão pelo suposto dossiê
. Paulo Sérgio Rosa
Consultor de marketing. Evangélico,
mora em Miami. Segundo Caio Fábio, organizou um jantar,
do qual participou o ex-presidente Fernando Collor de Mello
. Autor da confissão
É a pessoa, segundo o pastor Caio Fábio,
que teria lhe contado, em sigilo, sobre a existência do
suposto dossiê. Segundo o pastor, esse seu amigo trabalha
no mercado financeiro e tampouco viu os papéis. Saberia
apenas como entrar em contato com o "dono" do suposto
dossiê
. Paulo Maluf
Petistas dizem que o candidato derrotado
ao governo de São Paulo pelo PPB, Paulo Maluf, procurou
Luiz Inácio Lula da Silva, querendo que ele divulgase o
dossiê. Maluf teria mandado como emissário Lafaiete
Coutinho. Maluf nega ter tido qualquer envolvimento com o caso
. Lafaiete Coutinho
Ele é apontado por petistas como o
emissário de Maluf para tentar convencer o PT a divulgar
os papéis. O ex-presidente do BB no governo Collor e pai
de uma das noras de Maluf nega ter passado cópias dos papéis,
mas confirma o encontro com Lula
. Gilberto Miranda
É apontado como um dos envolvidos
na divulgação do dossiê. Amigo de Maluf, o
senador pelo Amazonas se diz perseguido pela Receita Federal.
Seu irmão Egberto Batista foi secretário de
Desenvolvimento Regional do governo Collor. Nega ter participado
da montagem e divulgação dos papéis
. Fernando Collor de Mello
Segundo o senador Djalma Falcão
(PMDB-AL), o ex-presidente o procurou para pedir que ele fizesse
um discurso no Senado denunciando a suposta empresa no exterior.
Collor confirma a conversa, mas nega ter tido acesso aos
documentos
Quem mais se envolveu no caso
. Luiz Inácio Lula da Silva
Foi procurado por Caio Fábio e por
Paulo Maluf, sobre os documentos. Pediu que o advogado Márcio
Thomaz Bastos fizesse uma análise dos papéis
. Márcio Thomaz Bastos
O advogado petista viu as cópias e
disse não ser possível comprovar a sua
autenticidade. Aconselhou Lula a não entrar no caso
. Marta Suplicy
No dia 24 de outubro, véspera do
segundo turno, foi procurada por duas filhas e uma nora de
Maluf, que lhe ofereciam o suposto dossiê. Ela também
consultou Márcio Thomaz Bastos e avisou José Serra
. Leonel Brizola
O ex-governador do Rio Leonel Brizola
disse que foi procurado pelo pastor Caio Fábio na véspera
do primeiro turno da eleição. O pastor teria dito
que o grupo que detinha o dossiê estaria interessado em
vender os papéis
. Ciro Gomes
O candidato derrotado à Presidência
Ciro Gomes (PPS) disse que alguns dias antes do primeiro turno
foi procurado por pessoa de sua confiança, que lhe
ofereceu os documentos do dossiê por US$ 1,5 milhão
Os personagens
. Fernando Henrique Cardoso
É apontado em suposto dossiê
como sócio de empresa secreta nas Bahamas (Caribe)
. José Serra
O ministro da Saúde seria um dos sócios
de FHC na empresa
. Mário Covas
A empresa, com saldo de US$ 368 milhões,
teria o governador Mário Covas como um dos sócios
. Sérgio Motta
O quarto sócio da empresa secreta
seria o ministro Sérgio Motta (Comunicações),
morto em abril
As novas vozes da oposição
Ex-secretário da Fazenda de Minas
Gerais, no governo Hélio Garcia, responsável por
uma gestão das contas públicas fartamente elogiada
na época, o deputado federal Roberto Brandt é a
primeira voz influente a externar o que hoje em dia é um
sentimento majoritário da bancada tucana: a insatisfação
com a gestão FHC na economia, que Brandt reputa de
irresponsável.
Brandt não economiza adjetivos para
criticar o atual estilo FHC. Diz que a economia é um
barco à deriva, que as contas públicas estão
em situação precária não apenas em
razão das políticas de câmbio e juros, mas
devido à falta de responsabilidade com que têm sido
geridas.
Pior, não sente que o presidente
tenha mudado seu estilo nem após a ida ao FMI. A gota d'água
foi o anúncio da criação de um novo imposto
sobre a gasolina, apenas para financiar a criação
de dois novos ministérios _o do Saneamento e o do
Desenvolvimento Urbano_, pensados para atender às conveniências
políticas de FHC. "É um despropósito
que, em meio a um enorme esforço para se fazer um ajuste
fiscal, que vai custar caro à nação, o
presidente apareça com essa idéia", explode
Brandt, que garante que o Congresso não deixará a
medida prosperar.
Brandt me procurou a propósito de
coluna escrita dias atrás, na qual se mencionava a falta
de inapetência gerencial do governo como um todo. "A
luta para equilibrar os déficits interno e de conta
corrente tem que ser diária", diz ele. "Cada
dia tem que se conferir cada item de despesa, frete, juros,
royalties, contas públicas, flutuante e tomar medidas de
ajuste. É um desafio de gerenciamento, de suar a camisa,
ingrato porque não permite ao sujeito brilhar, mas
indispensável para a economia dar certo."
Em lugar disso, Brandt tem detectado
aumentos constantes de despesas. Só o item Investimento,
da conta Outras Contas de Custeios e Capital, dobrou de R$ 5
bilhões para R$ 10 bilhões nos últimos
tempos.
Brandt aponta FHC o principal responsável
pelo que considera uma administração fiscalmente
irresponsável. "Pedro Malan não tem vocação
para o gerenciamento diário", diz ele. "O
pessoal do Banco Central, em vez de analisar diariamente os
principais furos das contas externas e preparar estratégias
para contê- los, se contenta com formulações
genéricas sobre juros e câmbio." Por outro
lado, a falta de definição da parte de FHC faz com
que nenhum outro ministério se sinta responsável
pelo equilíbrio das contas, nem Planejamento nem a
Secretaria do Tesouro.
No fundo, Brandt exterioriza, pela
primeira vez, as reclamações de pessoas que
passaram pelo governo e se sentiram impotentes para agir, em razão
do estilo FHC de não definir atribuições e
responsabilidades e de ceder constantemente, subordinando as
metas de controle fiscal às conveniências políticas.
"De que adianta ter uma maioria, ao preço de um
descalabro nas contas públicas?'', indaga Brandt.
O bom pastor
A não ser que os evangélicos
e os colegas se curvem a dogmas de fé, não há
como engolir a versão do pastor Caio Fábio, sobre
sua participação no episódio do dossiê
da falsa conta de Grand Cayman. O pastor teria sabido do dossiê
em confissão de um fiel, preocupado com os destinos do país.
E teria procurado revistas e políticos oferecendo o dossiê,
pela módica quantia de US$ 4 milhões _não
para ele, mas para o dono do dossiê_ pensando
exclusivamente no bem do país.
No Congresso, ontem, a versão do
pastor era tema de chacota geral dos partidos de oposição.
Um deputado petista contava diálogo entre o pastor e
Lula. O pastor pedia ajuda para Lula, para não passar uma
imagem de achacador. E Lula: "Vai ser difícil, Caio".
Depois, o pastor mencionou o tal inglês
que teria telefonado a Leonel Brizola. O comandante comentou com
o deputado Miro Teixeira: "Miro, o único inglês
que conheço é o príncipe Charles, com quem
não converso há cinco anos".
Saiba quem é Caio Fábio
A história do dossiê não
é a única polêmica a envolver o pastor evangélico
Caio Fábio d'Araujo, 43.
Presidente da Associação
Evangélica Brasileira, ele está à frente da
Fábrica da Esperança, entidade que proporciona
cursos profissionalizantes e creches para a comunidade carente
em Acari (zona norte do Rio).
A mesma Fábrica da Esperança
onde policiais militares encontraram trouxinhas de maconha e
papelotes de cocaína em novembro de 1995 _a PM voltaria a
encontrar drogas no local seis meses mais tarde.
Caio Fábio recebeu solidariedade de
expoentes da sociedade civil, como o sociólogo Herbert de
Souza, o Betinho, morto em agosto de 1997.
Conhecido por suas posições
progressistas e ligações com partidos de esquerda,
o presbiteriano Caio Fábio preside a organização
não-governamental Visão Nacional de Evangelização.
Ele se opõe à ação
da Igreja Universal do Reino de Deus, que já definiu
certa vez como ''uma máquina de arrancar dinheiro''.
Caio Fábio foi quem orientou o
estudo da Bíblia do futuro governador do Rio, o pedetista
Anthony Garotinho.
Pastor tentou intermediar venda de
dossiê
O ex-governador do Rio Leonel Brizola
confirmou ontem que o pastor evangélico Caio Fábio
intermediou a negociação do dossiê usado na
suposta chantagem contra o presidente Fernando Henrique Cardoso
e outros políticos tucanos. A informação
havia sido dada anteontem pelo próprio pastor.
Brizola disse que foi procurado pelo
pastor na véspera do primeiro turno da eleição.
Caio Fábio teria informado que o grupo que detinha o
dossiê estaria interessado em vender os documentos.
O dossiê estaria sendo negociado por
cerca de R$ 1,5 milhão. O advogado criminalista Nilo
Batista, ex-governador do Rio, foi indicado pelo PDT para apurar
o caso e avaliar os documentos _os quais, segundo o advogado,
nunca chegaram às suas mãos.
Segundo Brizola, o PDT não se
dispunha a pagar pelas informações e pleiteou que
elas fossem entregues gratuitamente.
Presidente da ONG Visão Nacional de
Evangelização, o pastor Caio Fábio negou
durante a semana ter servido de ponte entre os detentores do
dossiê e políticos eventualmente dispostos a
comprar os supostos documentos.
Anteontem, porém, ele afirmou aos
jornais "O Globo'' e "O Estado de S. Paulo'' que
intermediou a negociação dos dossiês.
Segundo o pastor, um amigo lhe teria feito
as revelações sobre os documentos durante uma
confissão pastoral em Miami.
Anteontem à noite, o mesmo Nilo
Batista, indicado por Brizola para apurar o caso, foi contratado
como advogado por Caio Fábio. Ontem, Batista confirmou
que o pastor intermediou a negociação do dossiê.
O advogado afirmou, porém, que ainda não tivera
tempo de conversar sobre mais detalhes do assunto com o pastor.
A Folha procurou ontem o pastor Caio Fábio,
mas não o encontrou em nenhum de seus telefones, fixos ou
celulares, nem por meio da organização Visão
Nacional de Evangelização.
Ciro
Ciro Gomes (PPS-CE), candidato derrotado à
eleição presidencial, confirmou ontem que, alguns
dias antes do primeiro turno, foi procurado por uma pessoa de
sua confiança que lhe ofereceu os documentos do ''dossiê
Caribe'' por US$ 1,5 milhão.
Ciro não quis falar o nome da
pessoa, mas o deputado estadual Oman Carneiro (PPS), amigo de
infância do ex-ministro e um dos coordenadores financeiros
da campanha, revelou tratar-se do pastor Caio Fábio.
''Não houve interesse do PPS em ter
os documentos porque a condição era pagar. Isso é
máfia'', disse o ex-ministro da Fazenda.
A pessoa teria dito a Ciro que os
documentos estavam no exterior, com uma pessoa que queria US$
500 mil para mostrar as cópias e, depois, US$ 1 milhão
para entregar os originais.
Segundo Ciro, seu interlocutor disse que
os documentos evidenciariam a movimentação ilegal
de dinheiro no exterior por importantes autoridades do governo.
O contato com seu interlocutor teria sido
feito por telefone celular, numa passagem de Ciro pelo Rio, "uma
semana, quinze dias antes do início do primeiro turno".
Quem atendeu o celular do candidato foi o
deputado Carneiro, que o acompanhava na campanha. Coube a
Carneiro dar a resposta ao pastor, no dia seguinte.
Segundo relato do próprio Ciro,
feito ontem ao chegar à reunião do Diretório
Nacional do PPS, no hotel Torre, em Brasília, a oferta
foi rejeitada por ele após consulta ao presidente do PPS,
senador Roberto Freire (PPS-PE).
Se for chamado a depor, afirmou, irá
à PF (Polícia Federal) porque "é dever
de todo o brasileiro".
Hipótese
Ciro Gomes levantou suspeitas de que o
governo federal tomou a iniciativa de ''vazar'' as denúncias
por meios de papéis falsos, para ''desqualificar'' o
caso.
''Essa é uma hipótese. A
minha presunção é de inocência. Mas
na vida pública, principalmente um governo arrogante como
esse, tem a obrigação de esclarecer. Só há
dois caminhos: negar com veemência ou entregar-se à
investigação'', afirmou Ciro.
O ex-ministro disse que o presidente
Fernando Henrique Cardoso ''não foi categórico''
ao negar as denúncias. A reação de
''indignação'' manifestada sexta por FHC, segundo
ele, foi a ''destempo''.
Ele criticou também o presidente
por não ter sido ''contundente'' ao negar que Sérgio
Motta, ministro das Comunicações morto em abril,
tivesse conta no exterior.
''Um amigo que morreu merece uma defesa
emocional mais contundente do que a própria defesa.
Quando o presidente diz que tem duas contas no exterior e que não
sabe se Motta tinha alguma, permite interpretação
dúbia'', disse.
Chantagem
Ciro rejeitou a tese da chantagem. Segundo
ele, se houvesse chantagista, o governo teria como rastrear
telefonemas e chegar à origem da ligação
para pegar o culpado. ''Para haver chantagem, é preciso
que a denúncia seja verdadeira'', disse.
Na sua opinião, o caso deveria ter
sido remetido ao Ministério Público e à polícia
assim que surgiram as primeiras denúncias. ''Se não
é verdade a existência da conta, o governo tem de
processar quem está por trás das denúncias."