Publicado no Jornal O Globo em 18 de março
de 2001
O império da boa vontade
RIO e SÃO PAULO. Comovidos com os
apelos de solidariedade a crianças pobres e idosos
desamparados, dois milhões de brasileiros depositaram, só
no ano passado, R$ 215 milhões nos cofres da Legião
da Boa Vontade (LBV), a maior entidade não-governamental
do país. Sem saber, essa legião de doadores de boa
vontade não contribui apenas para "a construção
de um mundo no qual as pessoas vivam em paz", como prega a
instituição. Seu dinheiro serve também para
erguer um mundo particular cercado de conforto, luxo e segurança
para o diretor-presidente da LBV, José de Paiva Netto.
Casas de luxo no Rio, em São Paulo
e em Brasília, um chalé no Rio Grande do Sul, pelo
menos quatro carros de primeira linha, jatos fretados, salário
de R$ 13 mil, despesas pagas, motoristas e seguranças à
disposição: tudo vai para a conta da LBV e para a
igreja Religião de Deus, da qual Paiva Netto é "presidente
vitalício e em caráter irrevogável".
Ele usa seis casas, sendo que apenas duas estão em seu
nome. As outras estão registradas em nome da LBV e da
Religião de Deus.
- As casas foram adquiridas para atender às
necessidades do presidente - afirma Francisco Periotto, assessor
especial de Paiva Netto.
Pagamento por produtividade
Dirigindo a LBV desde 1980, após a
morte do seu fundador, Alziro Zarur, Paiva Netto transformou a
entidade numa das maiores do mundo adotando um esquema
empresarial. Os cobradores recebem percentuais sobre as doações
e centenas de operadores de telemarketing buscam o dinheiro
direto na fonte, o dia todo telefonando em busca de doadores. Anúncios
com a participação de artistas e cantores
populares aumentaram o faturamento da LBV em 80.000%, segundo a
propaganda da entidade.
A LBV diz estar entre as seis maiores ONGs
do mundo "em eficiência" (leia-se doações),
comparável ao Greenpeace. Segundo o assessor de comunicação
da LBV, Paulo Alziro Schnor, mais de 80% das doações
são feitas por brasileiros das classes C, D e E. Mas o
certificado de entidade filantrópica da entidade vem
sendo revalidado por liminares na Justiça, já que
a LBV deve R$ 8,4 milhões ao INSS.
Na esteira do sucesso da organização,
Paiva Netto trocou uma casa de fundos no subúrbio de
Guadalupe, no Rio, onde passou uma infância pobre, pelo
império da filantropia. Ele vive entre três casas
luxuosas: uma no Rio, com piscina e vista para a Lagoa Rodrigo
de Freitas, uma em São Paulo, no Pacaembu, e outra no
setor das mansões Park Way Sul, em Brasília.
Locais de retiros espirituais
Paiva Netto recorre a outros três
lugares para seus retiros espirituais, em que escreve livros ou
compõe músicas. Em Portugal, fica na Região
Serrana de Lugar de Lages. Na Serra da Cantareira, São
Paulo, aluga uma casa que já foi dele e hoje está
no nome da ex-mulher, Maria das Graças. E no Rio Grande
do Sul, seu refúgio é uma casa de três
andares, numa área da LBV de um milhão de metros
quadrados na cidade de Glorinha, com quadra de tênis,
futebol de salão, piscina térmica e um estúdio,
onde ele grava mensagens para programas de rádio e TV.
Para que Paiva Netto circule, a LBV montou
uma estrutura especial. Dono de um Opala Comodoro e um Landau
velhos, ele prefere dispensá-los e usa quatro carros de
primeira linha: um Honda Civic em São Paulo, um Accord no
Rio Grande do Sul, outro Civic no Rio e um Vectra em Brasília,
todos adquiridos pela LBV.
Em pelo menos duas ocasiões, de São
Paulo para Belo Horizonte, no fim de 2000, e de São Paulo
para o Rio Grande do Sul, em 96, Paiva Netto mandou fretar um
jatinho para viajar com oito assessores.
A destinação de imóveis
para moradia de um diretor contraria o estatuto da LBV, que em
seu artigo 27, item g, diz: "Não pode haver imóveis
da LBV na condição de ociosos, isto é, sem
lhe serem úteis". O uso de imóveis também
não pode ser forma de pagamento a Paiva Netto, porque lei
federal proíbe remuneração de diretores de
entidades filantrópicas. O estatuto da LBV ressalta que o
exercício dos cargos de diretoria é gratuito.
A casa de São Paulo foi comprada
pela LBV e doada para a igreja Religião de Deus, o braço
religioso da LBV. Seu conjunto é composto por uma casa
principal, anexo e um sobrado em construção,
ligando a Rua Itassucê à Manoel Maria Tourinho. A
casa fica a 50 metros da Avenida Pacaembu. A casa principal tem
cinco suítes e biblioteca com 70 mil livros. Seguranças
e câmaras vigiam as três entradas. O imóvel
na Rua Itassucê é indicado como endereço
residencial de Paiva Netto em pelo menos duas escrituras
registradas em cartórios de São Paulo e Mairiporã.
R$ 200 mil ou R$ 1,5 milhão?
Uma corretora que faz negócios no
bairro disse que somente a construção principal e
seu anexo valem R$ 1,5 milhão. A LBV diz que a casa vale
R$ 200 mil. Mas só o valor venal declarado pela entidade à
época da aquisição foi de R$ 327.924, em
valores atualizados pelo Conselho Regional de Contabilidade. Uma
casa vizinha, menor, foi vendida em agosto do ano passado por R$
600 mil.
Segundo a escritura registrada no 2º
Cartório de Imóveis de São Paulo, a
propriedade principal tem 300 metros quadrados de área
construída e um terreno de 881 metros quadrados. O padrão
de construção é D; o mais alto na escala é
o E.
Na Grande São Paulo, Paiva Netto
dispõe de outro imóvel para morar. Adquirido por
ele e pela ex-mulher, Maria das Graças Paulote de Paiva,
está em nome dela. Mas o diretor-presidente da LBV é
inquilino, embora o valor do aluguel não seja revelado.
Um aluguel extravagante, porque a própria assessoria de
Paiva Netto diz que há mais de um ano ele não
aparece na casa.
A casa da Serra da Cantareira tem 523
metros quadrados de área construída e terreno de
780 metros quadrados, com quatro dormitórios distribuídos
em três andares e garagem subterrânea para 15
carros. A segurança é garantida por um posto da PM
a 1.500 metros.
Paraíso a 30km de São
Paulo
Bugios, quatis e até jaguatiricas
freqüentam a mata da serra, a 1.200 metros de altitude. É
um pequeno paraíso a menos de 30km do Centro de São
Paulo. A cem metros da casa é possível se ver, ao
longe, a Avenida Paulista.
- Uma casa dessas não sai por menos
de R$ 350 mil. A serra está muito valorizada - disse o
corretor José Moreira, da Cantareira Imóveis, que
trabalha a cem metros da casa.
Com dois imóveis à disposição
em São Paulo, Paiva Netto dificilmente pode alegar que não
tem lugar para viver, e que por isso aceita ocupar um imóvel
cedido pela Religião de Deus e alugar uma casa na Serra
da Cantareira. Em São Paulo, é dono do apartamento
74 do Edifício Central Point, na Alameda Eduardo Prado,
um prédio a poucas quadras da sede mundial da LBV.
Oficialmente, a residência de Paiva
Netto fica no Rio, num dos lugares mais valorizados da cidade,
cercada por uma mata e com vista para a Lagoa Rodrigo de
Freitas. Comprada em 1982, a casa na Rua Joaquim Campos Porto
520, no Jardim Botânico, teria sido presente de voluntários
ao seu presidente, segundo o assessor Periotto.
LBV repassa recursos para a Religião
de Deus
Autores: Chico Otavio e Rubens Valente
RIO e SÃO PAULO. Cerca de R$ 400
mil mensais que serviriam para projetos de assistência
social da Legião da Boa Vontade (LBV) acabam indo para a
igreja da instituição, a Religião de Deus.
Documentos obtidos pelo GLOBO mostram que os limites entre a LBV
(uma instituição de caridade) e a igreja (uma
entidade religiosa) confundem-se com freqüência ao
lidarem com os recursos financeiros. Em comum, têm a
presidência nas mãos de José de Paiva Netto
e os mesmos diretores e seguidores em cargos de decisão.
A igreja é sustentada por uma operação
financeira a título de pagamento de royalties, o que
legaliza o envio de dinheiro de uma entidade a outra. O
pagamento é feito sob o argumento de que a LBV utiliza
meios, nome e marca da Religião de Deus e os pregadores
nos cultos ecumênicos em favor da Legião.
Os gastos da igreja que usa os templos da
LBV são pequenos perto desses repasses, restringindo-se à
folha de pagamento, de aproximadamente R$ 65 mil, que mantêm
70 funcionários com salário médio mensal de
R$ 700.
Salário de diretor é de
R$ 13 mil
Como a LBV é proibida por lei, como
entidade filantrópica, de remunerar os funcionários
que ocupam cargos de diretoria, a Religião de Deus
assumiu esse compromisso em relação aos principais
diretores da Legião. Hoje, três diretores da LBV
recebem salários da igreja, entre os quais o
diretor-presidente, José de Paiva Netto, de R$ 13 mil
mensais.
Segundo o assessor da presidência da
LBV, Francisco de Assis Periotto, e o advogado da entidade, Márcio
Pollet, apenas entre os anos de 95 e 96 a entidade deixou de
repassar os royalties à igreja. A justificativa para
manter esse tipo de pagamento é que o aparato religioso
possibilitaria à Legião um aumento da sua própria
arrecadação.
Pela estrutura arrecadadora montada,
haveria talões de recolhimento específicos para o
doador que quer ajudar a igreja e talões apenas para os
apoiadores da Legião.
As pessoas que freqüentam os espaços
ecumênicos, segundo os representantes da LBV, deixam todos
os meses R$ 1 milhão em doações.
A LBV decidiu investir também em
outro campo que não o da filantropia. Com as doações
arrecadadas adquiriu 25 imóveis residenciais em prédios
de São Paulo ao longo das décadas de 80 e 90,
segundo levantamento feito pelo GLOBO em 18 cartórios de
imóveis na cidade de São Paulo.
Doações recolhidas de
casa em casa
A LBV aluga as residências "a
valores de mercado", normalmente para os próprios
funcionários da instituição. Pelo menos 12
apartamentos do maior prédio ao lado da sede mundial da
entidade, na Avenida Rudge, no Bom Retiro, são de
propriedade da LBV, cada um avaliado em R$ 50 mil.
A arrecadação recorde da LBV
deve-se em boa parte a investimentos nas áreas de
telemarketing e de cobradores, chamados de samaritanos. O
trabalho deles é recolher os cheques das doações
diretamente na casa dos doadores.
A operadora de telemarketing da LBV Irene
de França, que trabalhou na sede mundial da LBV em São
Paulo de 1º de agosto de 2000 até ser demitida em 20
de fevereiro de 2001, contou que era orientada pelos seus
superiores a dizer inverdades para obter, a todo custo, qualquer
tipo de doação.
- Infelizmente eu tinha que dizer até
mentiras. Por exemplo: que há 50 velhinhos sendo
atendidos no Lar dos Idosos de Mogi das Cruzes (interior de São
Paulo), quando na verdade esse número era de 18, a
maioria parentes de funcionários da Legião - disse
Irene.
Outro artifício que as operadores
usam, segundo Irene, é aumentar o valor de materiais de
consumo de creches e lares de idosos. O preço de um
pacote de fraldas geriátricas, por exemplo, variava de R$
5 a R$ 20, dependendo do apetite de convencimento da operadora
de telemarketing.
Segundo a operadora, as mais de 300
colegas de prédio trabalhavam com ela até 12 horas
por dia para atingir a meta de R$ 1.800 em doações,
estabelecida pela entidade. A tabela de gratificações
pagas pela entidade às operadoras começa a valer a
partir desse valor. Daí para baixo, há um salário
fixo de R$ 357. A comissão paga sobre os R$ 1.800 é
de 18%, ou R$ 324. Sobre o valor de R$ 2 mil, o índice é
de 16%. Acima disso, o porcentagem cai para 15%.
Irene disse que começou muito bem,
sendo elogiada no primeiro mês ao atingir R$ 900 em doações.
Contudo, conta ela, seu sentimento sobre a LBV começou a
mudar depois que entendeu que a estratégia da entidade
era arrecadar o quanto pudesse.
- Meu trabalho era induzir, tirar dinheiro
de uma pessoa que às vezes era igualmente pobre e
necessitava desse dinheiro do mesmo jeito. A orientação
sobre isso vinha das coordenadoras - disse Irene, que hoje está
fora da instituição.
O serviço de captação
de doações por telemarketing é uma das
principais portas de entrada de recursos na LBV. No Rio, o
trabalho é feito por cerca de 200 funcionários
divididos em 13 equipes. Cada um recebe salário de R$ 283
mensais, mais uma comissão se o operador conseguir doações
mensais acima de R$ 2 mil (18% do valor).
Campanhas para arrecadar mais
Para estimular as contribuições,
todo mês a entidade lança uma campanha de apelo
social. Em janeiro, o apelo concentrou-se no kit escolar das
crianças assistidas pela instituição. O
operador tem um script pronto para as abordagens e realiza de 90
a cem ligações por dia.
As doações são feitas
através da conta de telefone e repassadas pela empresa de
telefonia, a Telemar, à LBV. O Sindicato dos
Trabalhadores em Entidades Assistenciais informou que, no ano
passado, a LBV ficou três meses sem pagar os seus
operadores. Alegou que a companhia telefônica estava
atrasada no repasse de recursos arrecadados pela entidade através
do telemarketing. Quinze funcionários foram ao sindicato
para pedir ajuda e acabaram sendo demitidos.
A Telemar informou que todos os repasses
estão em dia. Foram feitos nos meses de novembro,
dezembro e janeiro. São pelo menos dois por mês. No
mês de dezembro, porém, a Telemar reconhece que
houve um atraso na emissão de algumas contas telefônicas
e, conseqüentemente, um pequeno atraso em um dos repasses
para a LBV. A situação, entretanto, foi
regularizada antes do fim do mês.
Um batalhão de arrecadadores
O fluxo de demissões e contratações
de operadores de telemarketing e cobradores na LBV é
impressionante. Somente em setembro de 99 foram admitidas 123
pessoas, das quais 57 eram operadores de telemarketing e 48 eram
cobradores. Nesse mesmo período foram contratados apenas
três auxiliares de agente social e nenhum assistente
social.
No mês seguinte, dos 133 funcionários
admitidos, 93 eram operadores de telemarketing e 25 eram
cobradores. Apenas um assistente social foi contratado no mesmo
período.
Segundo balanço da Walter &
Heuer, empresa de auditoria contratada pela própria LBV,
a entidade apresentou um superávit de R$ 16 milhões
no período 96/97/98.
Um aspecto fundamental da LBV é seu
poder de propaganda. Segundo a auditoria, a entidade gastou R$
39,4 milhões em "comunicação e divulgação
cultural" no período 97/98. Isso equivale a cerca de
40% de tudo o que foi gasto com serviço social e
educacional no ano de 1998.
Gregori diz que vai
analisar caso da LBV
O Globo, 19 de março de 2001
Vanice Cioccari/Germano Oliveira
SÃO PAULO, 19 (O Globo On Line) - O
ministro da Justiça, José Gregori, disse agora há
pouco na TV Bandeirantes, onde participa do lançamento da
Band News, um canal de TV a cabo com notícias 24 horas no
ar, que vai analisar o caso dos desvios de finalidade filantrópica
da LBV, com o patrocínio das mordomias de seu diretor,
José de Paiva Neto. O ministro diz ter ficado surpreso
com as denúncias publicadas no GLOBO, pois sempre
considerou a LBV uma entidade filantrópica com
credibilidade. Na solenidade na TV Bandeirantes estão
presentes ainda o ministro chefe da Secretaria de Comunicação
da Presidência, Andrea Matarazzo, o governador Geraldo
Alckmin e a prefeita Marta Suplicy.
O Globo, 19-03-01
LBV na lista negra do INSS
Chico Otavio e Rubens Valente
RIO e SÃO PAULO
Fiscalização extraordinária
do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) encontrou
irregularidades em 350 das 400 unidades da Legião da Boa
Vontade (LBV) no país, segundo o diretor de Arrecadação
do órgão, Valdyr Simão. Em fase de conclusão,
a fiscalização apurou R$ 2 milhões de dívidas
não pagas no exercício do ano passado. Segundo o
diretor, ainda que a LBV pague tudo será feita uma
representação criminal contra a entidade por crime
de apropriação indébita previdenciária.
A fiscalização foi iniciada
no início do mês, com a participação
de cinco fiscais. Os débitos referem-se às
contribuições previdenciárias dos funcionários
da LBV (a isenção garantida às entidades
filantrópicas só atinge a contribuição
patronal). Além desse valor, a LBV deve outros R$ 8,4
milhões ao INSS, referentes a períodos anteriores
ao ano de 2000, e R$ 4,5 milhões pelo não
recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
(FGTS) dos seus 5.450 empregados.
- É importante começar a
expor à sociedade esse tipo de coisa, porque ela sabe
quem está pagando a conta. É preciso discutir se é
justo ou não - afirmou Simão.
Desde julho de 2000, deixar de recolher
contribuições previdenciárias é
crime previsto no Código Penal. A pena varia de dois a
cinco anos de reclusão e multa. A Lei 9.983, de 14 de
julho de 2000, foi sancionada pelo presidente Fernando Henrique
e introduziu um novo artigo no Código Penal, o 168-A.
Segundo o novo artigo, é crime "deixar de repassar à
Previdência Social as contribuições
recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou
convencional".
O diretor de Arrecadação
disse ainda que pedirá aos fiscais do INSS que façam
um levantamento sobre a situação funcional de
diretores da LBV, que estão impedidos por lei de ocupar
cargos remunerados, mas são contratados pela igreja
Religião de Deus, o braço religioso da entidade.
INSS vai investigar salário de
dirigente
Conforme o GLOBO revelou ontem, o
diretor-presidente da LBV, José de Paiva Netto, recebe
salário mensal de R$ 13 mil da igreja, da qual é
também presidente vitalício e ministro-pregador. A
Religião de Deus recebe da LBV em torno de R$ 400 mil
mensais em royalties pelo uso do "ideário religioso"
da igreja. Lei federal veda a remuneração de
diretores de entidades filantrópicas. O salário
mensal de Paiva Netto e de outros dois diretores da Legião,
pela Religião de Deus, foi confirmado pelo assessor da
presidência da LBV, Francisco de Assis Periotto.
Valdyr Simão disse que desconhece
pedido de adesão da LBV ao Refis (Programa de Recuperação
Fiscal), mas adiantou que nenhum pleito nesse sentido foi
homologado até o momento pelo Conselho Gestor do Refis. O
não recolhimento de contribuições
correntes, como ocorre com a LBV, pode impedir que a instituição
receba o benefício de parcelar as suas dívidas
previdenciárias pelas regras do programa. Segundo o
advogado da entidade, Márcio Pollet, a LBV já
aderiu ao Refis e, desde janeiro, tem feito depósitos
equivalentes a 0,8% de sua receita.
- O atraso do pagamento da contribuição
é motivo de recusa ao pedido de adesão. Vamos
pedir isso ao Conselho - disse Simão.
O diretor do INSS afirmou que, devido ao não
pagamento das contribuições do ano passado, será
usada contra a LBV a nova lei contra crimes previdenciários.
- Mesmo que eles paguem (a dívida
previdenciária), a nova lei de crimes da Previdência
não considera extinta a punibilidade - explicou Valdyr
Simão.
Além das dívidas previdenciárias
e do FGTS, a LBV deve mais R$ 240,5 mil (valor atualizado até
28 de dezembro de 98) à Receita Federal pelo não
pagamento de rendimentos de aluguéis e royalties, de
trabalho assalariado e de trabalho sem vínculo empregatício.
Nas ações de execução
fiscal movidas pelo INSS e pela Caixa Econômica Federal na
Justiça Federal de São Paulo, a LBV já
requisitou a suspensão dos processos sob a mesma alegação:
de que aderiu ao Refis. O pedido de suspensão está
sendo avaliado pelos juízes, mas já há
decisão contrária em pelo menos um processo, que
trata de uma dívida com o INSS. Em 24 de janeiro último,
a juíza federal substituta Fabíola Queiroz
indeferiu o pedido de suspensão da ação,
feito pela LBV, "porque não foi juntado aos autos o
comprovante de pagamento da primeira parcela da opção
pelo Refis".
Na mesma ação, a procuradora
do INSS Mônica Itapura de Miranda manifestou-se contrária
à suspensão porque, pela lei que instituiu o Refis
( 9964, de 10 de abril de 2000), a LBV deveria apresentar prova
de que abriu mão de outros processos judiciais que move
contra a União. Além disso, deveria ser
apresentada comprovação de que a dívida
discutida está no Refis.
A principal alegação da LBV
para não recolher as obrigações previdenciárias
é uma crise na arrecadação no ano de 95,
segundo o advogado Márcio Pollet e o assessor da presidência,
Francisco Periotto. No fim de 1999, quando os nomes de José
de Paiva Netto e do procurador da LBV, Mário Bogea
Nogueira da Cruz, estavam prestes a ser enviados ao Cadastro dos
Inadimplentes (Cadin) do governo federal, a entidade ameaçava
"suspender as atividades sociais, assistenciais e
educacionais que promove", conforme afirmou em ação
de execução fiscal por dívida com o FGTS.
Certidão mantém a
entidade filantrópica
Na mesma ação, a procuradora
da Fazenda Nacional Rosa Maria Cavalcanti lembrou que os créditos
do FGTS "resultam em benefícios para toda a
sociedade, direcionados à habitação
popular, ao saneamento básico e à infra-estrutura
urbana".
Amparada por decisão judicial, a
LBV conta com uma certidão positiva de débito com
efeito de negativa, renovada a cada três meses (o prazo de
validade da atual vai até abril). Com esse documento, ela
consegue manter sua condição de entidade filantrópica.
Entidade convoca exército
jovem em Brasília
Monica Torres Maia
BRASÍLIA. A estratégia para
tentar tirar os exemplares do GLOBO de domingo das bancas de
Brasília foi montada ainda no sábado, no
templo-sede da Legião da Boa Vontade na capital. Uma
longa fila de rapazes de 18 anos em média, convocados às
pressas para trabalhar, dava a volta no prédio do templo
na manhã de anteontem. Segundo um ex-funcionário
da LBV, os jovens foram convocados para executar a operação
arrastão: tentar comprar todos os exemplares do GLOBO que
estivessem nas bancas de Brasília.
Eles receberam dinheiro vivo para pôr
o plano em prática e evitar que os leitores da capital
soubessem que o diretor-presidente da entidade, José de
Paiva Netto, estaria utilizando doações para
manter uma série de mordomias.
- Essa foi uma das estratégias de
defesa que eles montaram. Outra foi a elaboração
de uma espécie de manual de argumentos para todos os
colaboradores defenderem a organização das denúncias
publicadas pelo jornal - disse um ex-funcionário da
entidade, que não quis se identificar.
De acordo com ele, a LBV também
ordenou a seus defensores que enviassem mensagens pela internet
ao maior número possível de pessoas, montando uma
espécie de corrente para desmentir a reportagem do GLOBO.
- Sabíamos da história das
mordomias. Os diretores também sabem, mas não
podem fazer nada porque o presidente é vitalício -
revelou um rapaz, que diz ter trabalhado na LBV durante quatro
anos.
Pensamento:
"Faz muita diferença se pensamos em Deus como uma
pessoa ou como uma força. De um jeito você tem o
Cristianismo, do outro você tem Guerra nas Estrelas."
Jayne Kulikauskas
