O Estado de São Paulo, 20 de março
de 2001-03-21
Denúncias de que entidade remunera
seus diretores leva INSS a fazer auditoria
BRASÍLIA - A Legião da Boa
Vontade (LBV) deve perder o certificado de filantropia, que lhe
permite não recolher a contribuição
patronal à Previdência Social. O presidente em
exercício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS),
Valdir Simão, pediu ao Conselho Nacional de Assistência
Social (Cnas) que aguarde o resultado da fiscalização
realizada na entidade.
Se ficar comprovado que a LBV descumpre a
legislação, como por exemplo remunerando mesmo que
indiretamente seus diretores, o INSS pedirá formalmente
que o Cnas casse seu certificado. O certificado de filantropia
da LBV, vencido em dezembro, está em fase de análise
para renovação.
Segundo Simão, o INSS deve concluir
a auditoria na entidade até o fim do mês. Os
fiscais já comprovaram que a LBV não repassou,
entre agosto de 2000 e fevereiro de 2001, as contribuições
retidas dos salários dos funcionários, o que
constitui apropriação indébita, crime
punido com até 8 anos de prisão, de acordo com a
nova lei de crimes contra a Previdência Social. Segundo o
levantamento dos fiscais, as contribuições
descontadas dos empregados e não repassadas ao INSS somam
R$ 2,6 milhões.
"Vamos denunciar a LBV ao Ministério
Público em São Paulo", disse Simão.
Para fazer a denúncia, ele só
espera que os fiscais entreguem o relatório final. De
acordo com Simão, mesmo que a entidade pague o débito,
não ficará livre da ação.
Com base em denúncias de mordomias
para seus diretores, o INSS iniciou nova apuração.
O jornal O Globo publicou reportagem no domingo afirmando que o
diretor-presidente da LBV, José de Paiva Netto, tem casas
de luxo e despesas pagas pela entidade. A LBV é a segunda
instituição com o maior número de voluntários
no País e atende 4,5 milhões de crianças e
jovens por mês.
LBV nega desvio do dinheiro de doações
O Estado de São Paulo, 20 de março
de 2001
No fim de semana surgiram denúncias
de que o presidente, Paiva Netto, estaria usando verba de doações
para comprar mansões e até um jatinho. Legião
diz que o dinheiro era dele mesmo
A Legião da Boa Vontade (LBV) negou
ontem que seu diretor-presidente, José de Paiva Netto,
desvie verbas da instituição. No domingo, o jornal
O Globo publicou reportagem de três páginas
mostrando que a legião arrecada R$ 215 milhões por
ano, mas que parte deste dinheiro iria para a compra de mansões
e até de um jatinho para Paiva Netto.
De acordo com O Globo, o presidente da
instituição usaria seis casas, sendo que duas estão
em seu nome e as outras pertenceriam à LBV e à
Religião de Deus - igreja fundada por Paiva Netto. As
mansões estão em São Paulo, Rio de Janeiro,
Brasília e até no Rio Grande do Sul.
Mas o assessor da presidência da
entidade, Paulo Alziro, explica que as duas residências de
Paiva Netto foram compradas por ele com o dinheiro que recebe da
sua aposentadoria como jornalista, com os direitos autorais de
seus livros e composições e com o salário
de R$ 13 mil que recebe mensalmente da Religião de Deus. "E
seus imóveis estão todos declarados no Imposto de
Renda." Paiva Netto está em Buenos Aires,
organizando a expansão da LBV.
As outras casas, afirma Alziro, pertencem à
igreja ou à legião. "A LBV tem vários
imóveis e não apenas estes. Eles são
alugados e mantidos como uma reserva. Em caso de
dificuldade,temos um patrimônio para vender." Quanto à
mansão gaúcha, Alziro diz que é uma unidade
usada para fins institucionais.
Documentos Durante a manhã de
ontem, funcionários da LBV receberam a reportagem do JT
com documentos em mãos. Além de todos os dados
financeiros da instituição, havia até um
informe respondendo às acusações levantadas
pela imprensa. "Fizemos um pedido de resposta para O Globo,
mas eles publicaram uma nota pequena, que nem se compara às
acusações", diz Alziro.
Segundo ele, antes mesmo da exigência
por lei, a LBV resolveu começar a fazer auditorias
anuais. "Há oito anos, a Walter Heuer Auditores e
Consultores Independentes começou as auditorias e nunca
constatou erros."
Para Alziro, em nenhum momento o jornal
carioca consegue provar o desvio de verbas.
Ele explica que a LBV é filantrópica,
sim. "Uma organização pode ser considerada
filantrópica se gastar 20% da sua arrecadação
com atividades sociais", diz. "A LBV gasta 75% do que
recebe com programas sociais, educacionais e culturais. Os
outros 25% são para manutenção e as
despesas administrativas."
Já a dívida de R$ 8,4 milhões
ao INSS, citada nas matérias, é confirmada pela
LBV. "Devemos sim, mas a renegociação foi
feita e até já começamos a pagá-la."
A LBV tem 552 unidades espalhadas pelo País, sendo 191
apenas no Estado de São Paulo. No ano passado, a arrecadação
foi de R$ 215 milhões. A maioria das doações
é feita por cidadãos. "Não temos muita
doação de empresas. "
Daniela Tófoli
José de Paiva Netto se defende
das acusações
Publicado no Jornal O Estado de São
Paulo, 20 de março de 2001
Em entrevista exclusiva ao `Jornal da
Tarde', diretor presidente da LBV explica origem de seus imóveis
e diz que só faz filantropia
De Buenos Aires, José de Paiva
Netto, diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV),
contestou, ontem à noite as acusações
feitas contra ele no jornal O Globo:
Quanto a LBV arrecada anualmente e quanto
desse valor é empregado em obras beneméritas?
Paiva Netto - A LBV arrecadou no ano
passado R$ 215 milhões, e esse valor foi integralmente
aplicado nas obras beneméritas da instituição.
Sendo, 75% em serviço social e educacional, divulgação
cultural, aquisições e construções
de escolas e obras sociais, informática, veículos,
móveis e equipamentos, e 25% em manutenção
e despesas administrativas.
É verdade que mesmo tendo como
pagar, a LBV tem um grande dívida com o INSS?
Não. A Legião da Boa Vontade
apenas contraiu esta dívida por extrema impossibilidade
de quitá-la, devido às inconstâncias econômicas
que toda organização passou nestes últimos
anos no Brasil. A dívida está legalmente
declarada, e sendo regularizada com o INSS através do
Refis. É importante que fique claro que, em nenhum
momento a LBV sonegou. Ela declarou que pretende honrar sua dívida.
Quantas casas o sr. possui? O sr. usa as
casas da LBV em benefício próprio?
Possuo três imóveis, sendo
uma casa no Rio de Janeiro a qual me foi doada pelos adeptos da
Religião de Deus no ano de 1982. Outra em Brasília,
que adquiri em meados da década de 80, que foi edificada
ao longo de 14 anos em terreno adquirido então na área
rural de Brasília. O terceiro imóvel é um
apartamento de cerca de 50 metros quadrados, com 1 quarto,
banheiro, sala, cozinha e área de serviços,
localizado em Campos Elíseos, um bairro de classe média
de São Paulo. Todos estes imóveis são
declarados anualmente no meu imposto de renda. As casas da LBV são
escritórios de trabalho e representação
desta obra. Portanto, não as utilizo em meu benefício.
Sempre as freqüento, acompanhado de meus assessores e da
diretoria das organizações que presido.
É verdade que através da "Religião
de Deus", associada à LBV, o sr. e seus principais
assessores são regiamente remunerados?
A Religião de Deus possui uma
identidade de ideal com a Legião da Boa Vontade. Enquanto
esta cuida de todo o trabalho de promoção humana e
social, aquela proporciona o amparo espiritual tão necessário
em nossos dias. Devo dizer que da LBV nada recebo, e da Religião
de Deus tenho uma remuneração como
presidente-pregador, conforme os termos da Lei. Nos últimos
45 anos de minha vida, tenho dedicado diuturnamente todo o meu
tempo à causa destas instituições.
Quantas unidades a LBV tem no País
e quantas pessoas são favorecidas pelos trabalhos da
entidade?
A LBV possui 552 seções de
atendimento em todo o país. O resultado desta ação
capilarizada é a realização de 4.511.302
atendimentos. Só para ter uma idéia do que isso
significa, são mais de 80 mil refeições
servidas diariamente nas escolas da LBV, conforme os dados
auditados pela Walter Heuer & Associados Auditores
Independentes.
A LBV tem mais operadoras de telemarketing
do que outros tipos de funcionários?
A Legião da Boa Vontade é
uma organização preocupada com a constância
e o crescimento dos serviços que presta à população.
Uma das demonstrações do seu comprometimento na
continuidade dos serviços por ela prestados está
no fato de possuir um quadro de operadoras de telemarketing na
quantidade ideal para garantir a sustentação de
suas realizações em benefício das populações
carentes. Isto se explica pelo fato de que são necessárias
muitas ligações para alcançar o resultado
necessário, e nem sempre é possível nesta área
contar com o trabalho voluntário. Nas atividades de promoção
social e educacional o quadro técnico especializado é
também multiplicador, o que consegue capacitar voluntários,
assim reduzindo a necessidade de outras contratações.
Qual será a atitude da LBV diante
das acusações?
Continuar trabalhando em benefício
do povo, porque enquanto estão nos acusando, milhares de
pessoas estão passando fome. Aproveito para agradecer a
milhares de telefonemas, cartas e e-mails que têm chegado à
LBV, apoiando-a e incentivando-a.
Entrevista a Odir Cunha
Operadoras de telemarketing têm
cartilha ensinando a pedir doações
Rubens Valente
SÃO PAULO. Operadoras de
telemarketing da Legião da Boa Vontade (LBV) entregaram à
advogada Noêmia Vieira Fonseca cópias das orientações
que recebem para pedir doações por telefone. No
texto da Campanha do Idoso, a recomendação é:
"Negocie os valores; Nunca peça o mínimo."
- A LBV ensina as funcionárias a
tirar dinheiro com argumentos que vão contra preceitos éticos
- disse a advogada.
As cerca de 300 operadoras de
telemarketing que trabalham na sede da entidade, em São
Paulo, recebem na tela do computador o número do telefone
a ser discado. As orientações prevêem
argumentos quando a proposta de doação sofre objeção.
A tática para convencer
desempregados é afirmar que há outros na mesma
situação fazendo doações, deixando o
interlocutor em situação desconfortável. "(...)
A verdadeira caridade é feita com muito sacrifício.
Alguns amigos na mesma situação do senhor se
juntaram para proporcionar o material escolar para uma criança,
mas ainda está faltando R$ 10. Com esse valorzinho o
senhor participa também", ensina o texto.
Quando a pessoa diz que sua família
precisa de dinheiro, a operadora deve dizer: "Se está
difícil para o senhor, imagina para as famílias
que não têm o que comer." Acidentados também
devem ser instigados a doar: "Isso que aconteceu com o
senhor é uma grande dor de cabeça. Agora imagine
como é não ter o que comer dentro de casa. (...) É
por isso que estamos contando com mais esse esforço de
sua parte."
Para quem insiste em não doar, a
operadora tem sugestões de frases: "Sabia que no
Brasil morrem cerca de mil crianças por dia devido à
fome e ao frio?". Ou então: "O senhor já
imaginou? É difícil para uma criança
enfrentar a fome, imagine a fome e o frio juntos?"
Há na cartilha duas páginas
com listas de "frases de efeito". Uma é para
pessoas com problemas financeiros. "Não tente
mostrar para Deus o tamanho de seus problemas. Mostre para os
problemas o tamanho de Deus", diz o texto.
Trechos da cartilha
Nas cartilhas distribuídas às
operadoras de telemarketing, há argumentos para enfrentar
diversas situações e tentar convencer pessoas a
contribuir:
COM DESEMPREGADOS: "Ficamos tristes
em saber dessa notícia. Essa situação é
muito mais difícil para aqueles que não têm
o mínimo necessário para uma vida digna e que não
são socorridos pela LBV."
COM ACIDENTADOS: "Isso que aconteceu
com o senhor é uma grande dor de cabeça. Agora,
imagine como é difícil não ter muitas vezes
o que comer dentro de casa."
COM PESSOAS EM DIFICULDADES FINANCEIRAS: "Se
está difícil para o senhor, imagine para estas famílias
que muitas vezes não têm o que comer em casa.
Dificuldades todos nós temos, umas maiores, outras
menores, e para a LBV não poderia ser diferente."
COM APOSENTADOS: "(...) Se todos
fizerem um pouquinho, iremos contornar essa situação.
Senhor Fulano, o pouco com Deus é muito."
COM OS QUE "DEIXAM PARA A PRÓXIMA
VEZ": "Senhor fulano, a fome é diária e
dói muito. Se todas as vezes que viesse até nós
uma pessoa com fome deixássemos para a próxima
vez, muitas pessoas continuariam passando fome".
MP vai investigar desvio na LBV
Autor: Monica Torres Maia
BRASÍLIA. O Ministério Público
Federal vai investigar o desvio de recursos da Legião da
Boa Vontade (LBV) para pagamentos ao diretor José de
Paiva Netto. O procurador-chefe da Procuradoria da República
no Distrito Federal, Luiz Augusto Santos Lima, deverá
designar hoje um procurador para investigar o caso.
O procurador-geral da República,
Geraldo Brindeiro, também está examinando
representações enviadas ontem pelos deputados
Pedro Celso (PT-DF) e Vivaldo Barbosa (PDT-RJ). Os parlamentares
acreditam que há indícios de crimes na atuação
da direção da LBV. O primeiro passo deverá
ser pedir à Receita Federal uma auditoria fiscal.
A LBV tem cem crianças na creche de
Taguatinga, a única que mantém no Distrito
Federal, e emprega 200 pessoas só no Templo da Boa
Vontade, um dos pontos turísticos mais visitados de Brasília.
Há uma casa ao lado do templo, onde são atendidas
mais 50 crianças de 8 a 12 anos.
No departamento de telemarketing, responsável
pela arrecadação de doações, que
funciona no subsolo do templo, trabalham 20 pessoas. Na creche,
são 15.
Não se sabe o número de
moradores do Distrito Federal que contribuem para a obra social.
Voluntários ajudam na ronda noturna de distribuição
de comida a desabrigados.
As cem crianças de 3 a 6 anos que
freqüentam a creche recebem quatro refeições,
são alfabetizadas e dispõem de brinquedoteca,
videoteca, biblioteca, quadra de esportes e parque. A fila de
espera por uma vaga tem três mil nomes. Quando surge uma
vaga, as assistentes sociais visitam de dez a 15 famílias
para checar se os inscritos realmente são pessoas
necessitadas. Além da renda per capita da família,
são levadas em consideração as condições
de moradia.
As instalações da casa são
mais modestas. Ela atende diariamente 25 crianças de manhã
e 25 de tarde. Durante o período em que permanecem, têm
acompanhamento para fazer os deveres de casa, aulas de reforço
e espaço para brincar, com parquinho e campo de futebol.
Pensamento:
"O cético não tem ilusões sobre a
vida, nem uma crença inútil na promessa de
imortalidade. Já que a vida aqui e agora é tudo o
que podemos conhecer, nossa opção mais sensata é
vivê-la ao máximo." Paul Kurtz, "A Tentação
Transcendental" (1986)
