O INFERNO EXISTE?
Fernando Silva

A Igreja Cat�lica passou 2000 anos descrevendo o inferno como um lugar cheio de fogo e tortura. Os protestantes ainda se apegam a essa id�ia e � assim que ele foi mostrado aos pastores de F�tima durante uma das supostas apari��es da Virgem. Agora a Igreja diz que o sofrimento � apenas a aus�ncia de Deus, o arrependimento por se ter escolhido a op��o errada. N�o uma condena��o, mas uma escolha individual.

Se s� ao chegar l� os pecadores v�o realmente entender que estavam errados, como afirmar que a escolha foi consciente e informada? Pelo contr�rio, em Lucas 16:19-31 conta-se a par�bola do rico no inferno que pede que seus irm�os ainda vivos sejam sejam avisados do que lhe aconteceu para que n�o acabem como ele, o que lhe � negado. A explica��o, rid�cula, � a de que, se n�o acreditaram em Abra�o e nos profetas, tamb�m n�o v�o acreditar se os mortos lhes aparecerem (por que n�o?!). Conclui-se que seus irm�os n�o sabiam do risco que corriam (mesmo porque, para os judeus, a no��o de c�u e inferno era um tanto confusa). E n�o � permitido ajud�-los. Deixem que se danem.

Note-se que o condenado tinha bom cora��o. Ele poderia perfeitamente desejar que seus irm�os sofressem tamb�m. Outro absurdo � que L�zaro, o pobre, foi para o c�u ap�s uma vida de sofrimento enquanto que o rico foi para o inferno ap�s uma vida de prazeres. Em outras palavras, por um instante de sofrimento, uma eternidade no c�u e, por um instante de prazer, uma eternidade no inferno. Uma puni��o infinitamente desproporcional por uma falta cometida por quem n�o tinha total consci�ncia de seus atos. E uma recompensa tamb�m desproporcional por uma vida de sofrimentos n�o necessariamente escolhida pelo sofredor e sim imposta a ele.

O castigo eterno � uma puni��o grande demais para faltas t�o pequenas. Como podem leis absolutas ser aplicadas a seres finitos, limitados e nem um pouco absolutos como n�s? Se L�cifer, um ser de luz, um puro esp�rito, face a face com Deus, p�de errar, por que simples criaturas materiais devem ser tratadas do mesmo modo que ele? Onde est� nosso livre arb�trio se nosso esp�rito est� aprisionado nesta carca�a de carne, numa luta constante contra o apodrecimento? Se nossa vis�o das coisas � limitada pelos nossos sentidos limitados e nossos instintos animais? Se uma decis�o inabal�vel pode ser destru�da por uma enxaqueca ou uma diarr�ia?

O mundo que a Igreja descreve � como uma arena onde somos jogados para lutar contra os le�es, mas com armas limitadas e contra a nossa vontade. Obrigados a participar de um jogo mortal, com regras injustas, obscuras e mut�veis e que nos foram impostas. E ainda temos que louvar o promotor do jogo. Kafka n�o faria melhor.

Um livre arb�trio bem entendido deveria come�ar pela escolha entre nascer ou n�o, receber este "presente" do "amor" de Deus ou escapar dele, de uma vida de sofrimentos que talvez seja seguida de uma tortura eterna que n�s "escolhemos por vontade pr�pria".

Em que medida uma crian�a � respons�vel pela educa��o que recebe e pelo meio social e familiar em que � criada, o que vai determinar que tipo de adulto ser� mais tarde? Que grau de responsabilidade tem ela por estes fatores que n�o est�o sob seu controle? Mesmo que lhe falem de c�u e inferno, ser� que ela est� em condi��es de entender, qualquer que tenha sido sua educa��o? Ser� que lhe apresentam provas t�o convincentes que ela n�o possa alegar que n�o viu motivos para crer?

O livre arb�trio �, na verdade, a possibilidade que Deus nos deu de irmos para o Inferno. Um pai que realmente ama seus filhos n�o apenas os alerta sobre o perigo mas tamb�m acaba com ele. Um pai amoroso n�o cria novos perigos propositalmente.

Suponhamos que o inferno exista. Uma pessoa s� pode ir para l� se decidir, de livre e expont�nea vontade, cometer atos que ela sabe, de plena consci�ncia, que v�o lev�-la ao castigo eterno. Quem tomaria tal decis�o, sabendo de todas as consequ�ncias de seus atos? Mesmo que algu�m afirme: "Eu quero ir para o inferno!", n�o podemos acreditar em que esta pessoa saiba do que est� falando. Para que sua escolha fosse v�lida, ela teria que ser levada ao inferno, ver e sentir o que significa ir para l� e s� ent�o decidir. Entretando, tudo o que temos s�o lendas para assustar os cr�dulos.

A Igreja afirma que a escolha � nossa, que somos n�s que decidimos e n�o Deus; isto � uma ofensa � nossa (ainda que limitada) intelig�ncia. Admitir a exist�ncia do inferno significa admitir que o Deus infinitamente misericordioso � tamb�m infinitamente vingativo.

Algumas cita��es:

"Qual � o prop�sito de um castigo eterno depois do fim do mundo? Se n�o serve para recuperar os pecadores ou como advert�ncia para os demais, trata-se de simples vingan�a e � moralmente incorreto"(1)

"Nosso tempo de vida � limitado e n�s somos limitados, o que limita a quantidade de pecados que podemos cometer. Mas o castigo do inferno � infinito, o que o torna infinitamente injusto" (2)

"Deus diz: "Fa�a o que voc� quiser mas, se escolher errado, voc� ser� torturado no inferno por toda a eternidade". Isto n�o � liberdade de escolha. Equivale a um homem que diz a sua namorada: "Fa�a o que voc� quiser mas, se escolher me deixar, eu vou atr�s de voc� e estouro seus miolos". Quando um homem diz isto, n�s o chamamos de psicopata e exigimos sua pris�o. Quando Deus diz isto, n�s dizemos que ele nos ama e constru�mos igrejas em seu louvor" (3)

"Acredite em Jesus sem provas e evid�ncias ou seja torturado eternamente. Amea�as em lugar de argumentos. Os homens inteligentes s�o os pecadores e os cr�dulos, os santos. O inferno � o lugar para onde os covardes enviam os her�is" (4)

Diz a B�blia: Marcos 16:15-16: "Ent�o Jesus disse-lhes: "V�o pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Not�cia para toda a humanidade. Quem acreditar e for batizado, ser� salvo. Quem n�o acreditar, ser� condenado". Jo�o 15:06: "Quem n�o fica unido a mim ser� jogado fora como um ramo, e secar�. Esses ramos s�o ajuntados, jogados no fogo e queimados." Mensagem: acredite sem questionar ou queime no inferno para sempre. Isto s�o Boas Novas ou o decreto de um tirano?

Se Jesus manda perdoar os inimigos e oferecer a outra face, como ele poderia condenar ao castigo eterno algu�m que honestamente n�o viu motivos para acreditar nele? O que ele responderia se isto lhe fosse perguntado pelo penitente na hora do Ju�zo Final? Ou ele n�o � obrigado a seguir seus pr�prios mandamentos?

Muitos crentes se dizem "salvos" porque "aceitaram Jesus como seu salvador" e acham que n�o precisam fazer mais nada, j� que eles se agarram ao Evangelho segundo Jo�o, que diz que o importante � a f� e n�o as boas obras, que os ateus ir�o para o inferno por mais virtuosos que sejam. Boa parte dos crentes parece considerar o Ju�zo Final como o momento da vingan�a, o momento em que ser�o glorificados diante de todos e ir�o para o c�u enquanto a escumalha, os descrentes, os infi�is, ser�o jogados no inferno. Os cat�licos tamb�m j� foram assim, como se v� por estas duas cita��es:

"Para que os santos possam desfrutar de sua beatitude e da gra�a de Deus mais abundantemente, lhes � permitido ver o sofrimento dos condenados no inferno" (5)

"Ah, que cena magn�fica! Como eu vou rir e ser feliz e exultar quando eu vir esses fil�sofos t�o s�bios, que ensinam que os deuses s�o indiferentes e que os homens n�o tem alma, assando e torrando diante de seus disc�pulos no inferno" (6)

Outros crentes dizem que n�o h� desculpa para quem n�o quer "aceitar Jesus", j� que a B�blia est� ao alcance de todos e as igrejas est�o por toda a parte, de portas abertas. Dizem que t�m pena dos que ser�o condenados mas que � a escolha deles. E que os milh�es de descrentes ter�o uma surpresa muito desagrad�vel no final dos tempos. Por mais que digam o contr�rio, a impress�o que se tem ao ouv�-los � de que est�o esfregando as m�os de felicidade, na expectativa do dia da vingan�a.

Como disse Mark Twain, "as pessoas que me dizem que eu vou para o inferno e que elas v�o para o c�u de certa forma me deixam feliz por n�o estarmos indo para o mesmo lugar".

Fernando Silva ([email protected])


Fontes:
(1) Lord Byron, "Detached Thoughts", no.96 (1821- 22) em "Byron's Letters and Journals", vol. 9, 1979.
(2) Dennis McKinsey, "Biblical Errancy - My two pamphlets".
(3) William C. Easttom II
(4) Lemuel K. Washburn, "Is The Bible Worth Reading And Other Essays"
(5) Tom�s de Aquino, 1225-1274, "Summa Theologica"
(6) Tertuliano, "De Spectaculis"

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