Moral e �tica sem Religi�o
Fernando Silva

Dizem que sem religi�o n�o haveria moralidade e tudo seria permitido. Mas a B�blia permite a poligamia, a escravid�o, o genoc�dio, a intoler�ncia religiosa, o estupro e o abuso de crian�as, logo estas devem ser pr�ticas moralmente aceit�veis. Entretanto, pro�be o consumo de carne de porco e frutos do mar. E as outras religi�es pregam coisas igualmente idiotas. Isto � moral? Como um ateu poderia ser pior do que isto? Al�m do mais, a hist�ria das religi�es � uma longa hist�ria de viol�ncia e barb�rie, das quais as Cruzadas e a Inquisi��o s�o apenas dois exemplos. Se n�s hoje rejeitamos tudo isto, pelo menos na superf�cie, � porque aprendemos a pensar com nossas pr�prias cabe�as, n�o porque as religi�es nos tornaram melhores. Pelo contr�rio, fomos n�s que for�amos as religi�es a se tornarem mais humanas e tolerantes. Por que os 10 Mandamentos pro�bem cobi�ar a propriedade alheia mas n�o a escravid�o? Qualquer ateu bem intencionado conceberia uma lista melhor do que a de Mois�s, que trata basicamente de como os homens devem se prostrar diante de um deus egoman�aco.

O que pode ser dito a favor das religi�es � que elas imp�em um "pacote" de valores aos fi�is com conceitos b�sicos de moral e �tica e que, na falta de melhor, em alguns casos, realmente ajuda a orientar as pessoas. Mas apresentam uma falha b�sica, ou seja, elas afirmam que � preciso ser bom e justo porque Deus assim o quer. Se fizermos a vontade dele seremos eternamente recompensados, caso contr�rio sofreremos um castigo eterno. A verdadeira virtude se baseia no exerc�cio da raz�o, n�o na esperan�a de uma recompensa ou no medo de um castigo, o que em nada difere dos m�todos usados por domadores de animais.

Se n�s entendemos por que � preciso fazer isto ou n�o podemos fazer aquilo, nossa �tica ser� muito mais forte do que a imposta por dogmas. Pelo contr�rio, como disse Feuerbach, "quando a moral se baseia na teologia, quando o direito depende da autoridade divina, as coisas mais imorais e injustas podem ser justificadas e impostas".

A lei b�sica da �tica e da moral foi estabelecida s�culos antes de Cristo. Uma de suas vers�es � a "Lei de ouro" (Conf�cio, 500 a.C.): "Fa�am aos outros o que gostariam que lhes fizessem. N�o fa�am aos outros o que n�o gostariam que lhes fizessem. Voc�s s� precisam desta lei. � a base de todo o resto". Outro modo de dizer isto �: n�o h� pecado, n�o h� um deus que premie ou castigue, h� consequ�ncias. Cada um deve suportar as consequ�ncias do que faz.

Se uma crian�a de 2 anos bate em outra, a outra vai bater nela tamb�m. E a crian�a aprender� que n�o conv�m bater nos outros. Esta � uma regra moral b�sica - e nenhum conhecimento religioso foi necess�rio para que a crian�a se desse conta dela. Da mesma forma, lobos e le�es n�o devoram uns aos outros, ou j� estariam extintos. S�o regras de conv�vio aprendidas por tentativa e erro. A elas chamamos moral. A maioria das crian�as j� tem seus fundamentos morais estabelecidos por volta dos 6 anos, pela experi�ncia adquirida ao testar seus limites e por imita��o dos adultos. S� mais tarde conceitos como C�u e Inferno come�am realmente a entrar em suas cabe�as - e distorcem tudo. A moralidade garante nossa sobreviv�ncia e tamb�m torna a vida mais agrad�vel. Ela � sua pr�pria recompensa na maioria dos casos. N�o precisamos de livros "sagrados" para entender isto, muito menos daqueles cheios de viol�ncia e �dio, como a B�blia e o Alcor�o. N�o � um livro sagrado que deve nos dizer o que � certo, somos n�s que devemos julgar se o livro sagrado e o deus que ele descreve s�o bons.

A B�blia diz que Deus afogou toda a humanidade, exceto por um velho b�bado e alguns poucos de seus parentes, embora, como ser omnipotente, tivesse op��es menos radicais. Reservou um territ�rio para um povo e o ajudou a exterminar os habitantes originais, inclusive crian�as de peito ou ainda no ventre da m�e. Permitiu que seus protegidos estuprassem as mulheres dos vencidos. Se estes, e muitos outros epis�dios semelhantes, s�o exemplos do conceito de moral e �tica divinas, como afirmar que um mundo ateu mergulharia na desordem e no crime?

Os crit�rios morais de Deus n�o requerem explica��o. Est� certo porque ele assim o definiu. Ateus s�o humanos e, como tal, imperfeitos, mas ao menos estabelecem regras de conduta com base na intera��o pac�fica com o pr�ximo, no m�tuo benef�cio e na compaix�o e n�o simplesmente "porque eu assim o quis". Entre ateus, a teoria est� sujeita �s necessidades pr�ticas. Deus n�o tem tais limites. O que impede que ele decida dar a Terra a uma ra�a extraterrestre e a ajude a nos derrotar e devorar? Se tudo o que Deus faz � bom por defini��o, nossas defini��es de bem e mal n�o se aplicam a ele e teremos que aceitar seus atos ainda que nos pare�am absurdos e injustos. Se Deus � bom porque seus atos est�o de acordo com um padr�o externo e absoluto de bem e mal, ateus n�o depender�o dele para fazer o que � certo. Se os crit�rios morais de Deus s�o, por defini��o, incompreens�veis, ent�o eles s�o arbitr�rios do nosso ponto de vista. E n�o temos como julgar se s�o bons.

Quando Deus faz algo de que gostamos, dizemos que ele � bom e justo. Quando ele faz o oposto, dizemos que � a vontade de Deus e que n�o nos cabe question�-lo. Se ele sempre faz o que quer, nossos conceitos de bondade e justi�a n�o se aplicam a ele. � apenas por acaso que seus atos �s vezes nos agradam. N�o conhecemos seus motivos e nem se ele tem algum padr�o de �tica e moral. N�o temos como qualific�-lo. Como tom�-lo como modelo se n�o o entendemos e nem mesmo conseguimos prever o que far�?

Os crentes responderiam que Deus � complexo demais para ser entendido pela raz�o humana e assim devemos aceitar sua vontade sem discutir, ainda que nos pare�a �s vezes injusta e contradit�ria. Ora, a raz�o humana � a �nica ferramenta que temos para julgar as coisas. � atrav�s dela que escolhemos um entre os milhares de deuses e seitas existentes como a �nica verdade. Ou decidimos que os deuses n�o existem. Se Deus � complexo demais para que possamos julgar seus atos, ent�o n�o temos como saber se s�o aceit�veis. Podemos at� concluir que ele existe mas isto n�o implica em que ele � bom ou justo. Ou que ele saiba o que est� fazendo. Talvez Deus exista (ou tenha existido) mas quem nos garante que � perfeito? Mesmo que ele nos apare�a e assim o diga, por que devemos acreditar nele? S� porque � poderoso? S� porque procura nos convencer com promessas e amea�as? � lament�vel que a humanidade se consuma em guerras em nome do que teriam dito deuses que ningu�m jamais viu e dos quais tudo o que temos s�o lendas contradit�rias criadas por gente como n�s.

O ate�smo n�o destr�i a �tica, a felicidade e o amor. O que o ate�smo combate, na verdade, � a id�ia de que a moral s� � poss�vel atrav�s de Deus, � a id�ia de que amor e felicidade s� podem ser conseguidos em um outro mundo.

Sem religi�o, as sociedades mais cedo ou mais tarde se dar�o conta de que �tica e moral se justificam por si mesmas e n�o devido a vagas cren�as em coisas n�o comprovadas. Seus valores ser�o baseados na raz�o e, portanto, muito mais s�lidos. Pelo contr�rio, cren�as religiosas nos permitem atribuir aos des�gnios de uma entidade abstrata e omnipotente os problemas que afligem o mundo e nos tiram assim a responsabilidade de resolv�-los. At� mesmo grupos de chimpanz�s e gorilas t�m suas leis; sua intelig�ncia, ainda que limitada, lhes permite reconhecer que, sem elas, a conviv�ncia n�o seria poss�vel e o grupo se auto-destruiria.

Alguns podem se perguntar como ser�amos hoje sem ter tido a religi�o ao longo dos s�culos. Uma coisa � certa: milh�es de pessoas n�o teriam morrido na fogueira ou torturadas. Civiliza��es e suas culturas n�o teriam sido arrasadas por serem pag�s. A ci�ncia n�o teria se estagnado por tanto tempo (e mesmo regredido) por medo da fogueira. As mulheres n�o teriam sido afastadas de uma participa��o ativa ao lado dos homens nem tratadas como simples reprodutoras, o "vaso imperfeito que recebe o s�men perfeito do marido".

Aquilo que nos parecem ser as contribui��es da religi�o para o bem-estar e o progresso da sociedade foi, na verdade, obra de indiv�duos e organiza��es bem-intencionados mais do que o resultado de uma cren�a religiosa. Somando-se tudo, � poss�vel que o resultado ainda seja mais negativo que positivo

Fernando Silva ([email protected])

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