A Guerra do Açu
Brasil Indígena - 500 anos de Resistência
Ao que tudo indica, os paulistas não atenderam aos apelos do governador da Bahia, pois os conflitos continuaram. Registro de 1686 revela nova revolta liderada pelos Janduí do sertão do Rio Grande do Norte, que ficou conhecida como Guerra do Açu ou Guerra dos Bárbaros.

No início de 1687, partiu do litoral de Pernambuco um exército de 3 mil homens comandados por Antônio Albuquerque para pôr fim a essa guerra. Chegando ao Rio Grande do Norte, foram surpreendidos por um ataque dos Janduí e dos povos aliados, que obrigaram os soldados a refugiar-se na Fortaleza de Açu.
 

desenho de Albert Eckhout
"Retrato de índio tapuia"
No ano seguinte, diante dessa derrota, o governador concebeu uma nova estratégia: levar uma luta em três frentes, sob o comando único de Manoel Soares, um sertanista de oitenta anos.

A primeira frente seria a desse velho capitão, auxiliado por duzentos soldados, cem negros do terço (batalhão militar) dos Henriques e quatrocentos índios do terço de Camarão; a segunda frente seria comandada por Matias Cardoso, bandeirante paulista, que se tornara fazendeiro na Bahia, e que seria ajudado pelos índios Potiguara do Rio Grande do Norte; a terceira frente seria dirigida por Domingos Jorge Velho, que, antes de atacar Palmares, deveria dar sua contribuição à guerra.

O plano não funcionou. Matias Cardoso não concordou com o baixo pagamento e o velho Manoel Soares não teve pulso forte para controlar seu batalhão, que desertou quase todo. Apenas Jorge Velho partiu para o ataque, com seiscentos índios e mamelucos. No final de julho de 1688, enfrentou os Janduí, numa batalha que durou quatro dias. Sem munição, o bandeirante foi obrigado a se retirar para a Fortaleza do Açu.

Por dois anos a guerra se alastrou pelos vales dos rios Piranha, Açu, Piancó e Jaguaribe. Sem enfrentar forças significativas, os Janduí, Paiacu e Iço mantiveram o controle da situação.

A guerra teve altos e baixos para ambos os lados. Em 1690, Matias Cardoso aceitou entrar na guerra, assumindo o comando geral das operações, e Domingos Jorge Velho partiu para Alagoas, onde arrasou o Quilombo de Palmares. Nesse ano os janduí fizeram uma grande investida contra o batalhão de Cardoso. Quase aniquilado e com pouca munição, ele teve de refugiar-se no Ceará. Refeito, voltou com sua gente para Natal, que estava sendo atacada por outros grupos indígenas do sertão.

Novamente Antônio de Albuquerque foi chamado para assumir o comando da guerra. Chegou com trezentos cavaleiros e muita munição. A partir daí a guerra começou a virar. Os Janduí tiveram muitas perdas, e numa só batalha morreram 230 guerreiros.
No final de 1691, numa luta sangrenta, caiu preso o grande cacique Canindé, um dos principais chefes Janduí.

Cansados de tanto sofrimento, os indígenas propuseram um acordo "para solicitar uma paz perpétua para que sua nação e os portugueses pudessem viver em paz". Embora desconfiando da promessa dos Janduí, o governador Câmara Coutinho aceitou os termos do tratado, esperando que os 14 mil Janduí, das 22 aldeias da região, se tornassem cristãos e leais súditos de Sua Majestade.

A 10 de abril de 1692, na presença de dois caciques, setenta líderes indígenas e outras autoridades portuguesas, foi assinado um tratado de paz "entre o muy poderoso Senhor Dom Pedro I, por mercê de Deus, rei de Portugal e Algarves, e Canindé, rei dos Janduí".

Canindé prometeu que ele e seus descendentes seriam "humildes vassalos de Sua Majestade", aceitariam o batismo cristão e cederiam 5 mil guerreiros para o serviço dos portugueses. Em troca receberiam dez léguas em quadra ao redor de suas aldeias e a promessa de ser protegidos pelos portugueses, em caso de ataque dos paulistas ou de outros indígenas.

Esse tratado durou pouco. Em 1694, o novo governador, rompendo a aliança, ordenou expedições de extermínio. Três anos depois, Bernardo Vieira escrevia ao rei que havia reduzido "com tão bom êxito todos os pagãos à paz universal". À paz de cemitério, evidentemente.

A guerra ainda não havia terminado. Em 1715, o governador de Pernambuco determinava a sua continuação com fervor, "para que assim ou se extingam estes bárbaros ou se afugentem de nós tanto que vos fique livre o uso da terra (...)". Depois de 1720 não houve mais registro de sublevação.

Líderes da Guerra do Açu

Janduí e Caracará - Caciques nas regiões entre os rios Curimatá e Trairi e líderes na fase inicial da guerra.

Canindé - Cacique dos Janduí, lídder na fase final da guerra.

Esikeri - Cacique Kariri morto por Domingos Jorrge Velho na aldeia Guararu, dos padres jesuítas, onde se refugiara.
 



Brasil Indígena: 500 anos de resistência / Benedito Prezia, Eduardo Hoomaert. - São Paulo: FTD, 2000.


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