A rebelião dos Manau e
A morte de Ajuricaba
Brasil Indígena - 500 anos de Resistência

 

 

À esquerda, homem Munduruku
com coifa de pena na cabeça;
À direita, homem Mawé.

Ilustrações de Spix e Martius, "Viagem pelo Brasil (1817-1820)".

Um grupo importante que controlava a região do rio Negro foi o dos Manau. Por ser um povo guerreiro, dominava outros menores. Durante um tempo trocaram indígenas cativos por ferramentas, armas e tecidos. Até que um de seus líderes, Huiuebene, foi morto pelos portugueses, em decorrência de um desacordo sobre o preço dos indígenas.

Seu filho, Ajuricaba, que não aceitava esse tipo de comércio e vivia longe da aldeia, ao saber da morte do pai, resolveu voltar e vingá-lo.
Assim, a partir de 1723, sob forma de guerrilha, muitos ataques foram desencadeados contra os portugueses naquela região. Com armas fornecidas pelos holandeses, Ajuricaba representava um grande perigo para os portugueses que acreditavam ter o domínio de toda a região.
Em princípio tentou-se um acordo de paz, por intermédio dos jesuítas. Mas Ajuricaba, não acreditando nas promessas, voltou a atacar os destacamentos portugueses.

Irritado com essas ações, o rei de Portugal exigiu a interferência militar, e grandes recursos foram movimentados, inclusive artilharia. Um navio bem equipado seguiu de Lisboa para o rio Negro. Entrando a embarcação no rio, as aldeias ribeirinhas foram bombardeadas.

Os Manau compreenderam que os europeus eram capazes de sacrificar milhares de vidas humanas para não perder seu poder sobre aquele rio.
Derrotados, Ajuricaba e mais de duzentos guerreiros foram presos e levados para Belém. No caminho, Ajuricaba conseguiu escapar, atirando-se nas águas do Amazonas e desaparecendo para sempre.
Desta maneira mostrou que era melhor morrer do que ser preso e torturado. Até hoje seu nome é um símbolo da resistência indígena na Amazônia.

Sua morte é um exemplo, entre muitos, de que os indígenas não se submeteram passivamente aos invasores, mas que resistiram, muitas vezes à custa da própria vida, na defesa de sua liberdade e de suas terras.
 

A morte de Ajuricaba

Neste texto que é um documento oficial da época, podemos conhecer os últimos momentos do herói indígena Ajuricaba.

Nossa gente o localizou em sua aldeia, mas ele organizou uma defesa antes de se completar o cerco. Depois de tiros de uma peça de artilharia, ele decidiu abandonar a aldeia e escapar seguido de alguns outros maiorais. Nossos homens o perseguiram e o procuraram nos dias precedentes pelas aldeias de seus aliados. O bárbaro e infiel Ajuricaba e mais seis ou sete chefes menores, seus aliados, foram finalmente capturados e mais duzentos ou trezentos prisioneiros foram trazidos junto com ele, quarenta destes serão tomados em pagamento pelas despesas feitas por V. Majestade nessa guerra, e trinta outros para o fundo da taxa real.

Preso, devia ser levado para Belém, onde seria julgado. Mas a viagem para ele terminou antes, como continua o relato:

Quando Ajuricaba estava vindo como prisioneiro para a cidade de Belém, e ainda estava navegando no rio, ele e outros homens levantaram-se na canoa onde estavam sendo conduzidos agrilhoados e tentaram matar os soldados. Estes sacaram de suas armas e feriram alguns deles e mataram outros. Então, Ajuricaba saltou para a água com outro chefe e jamais reapareceu vivo ou morto. Deixando de lado o sentimento pela perdição de sua alma, ele nos fez uma grande gentileza, libertando-nos dos temores de sermos obrigados a guardá-lo.

Ajuricaba não morreu. Ao atirar-se nas águas do rio Negro, entrou para a história, tornando-se uma das figuras mais importantes da resistência indígena da Amazônia e do Brasil.

SOUZA, Márcio de. A guerra popular de Ajuricaba. Porantim, julho, 1979. p.9.
 
 


Brasil Indígena: 500 anos de resistência / Benedito Prezia, Eduardo Hoomaert. - São Paulo: FTD, 2000.
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