Os povos indigenas no Brasil
Riqueza de Culturas:
No Brasil tem 200 povos indígenas em diferentes graus de contato com segmentos da sociedade brasileira. Cada povo mantém sua identidade se afirmando como grupos étnicos diferenciados mesmo com o intercâmbio e a apropriação de elementos da sociedade externa. É comum encontrar pessoas que têm uma idéia abstrata de índio, classificam índios como puros e não puros, autênticos ou não.
Índio, porém, é aquele que se identifica como membro de um povo indígena e que é reconhecido pelos membros de sua comunidade como um de seus. Povos Indígenas se diferenciam etnicamente dos demais e tem raízes em populações precolombianos mesmo com todas as mudanças ao longo dos séculos.
Aliás, para entender bem um povo ou grupo indígena hoje é necessário aprofundar tanto a sua cultura e língua quanto a sua história e contato com a sociedade externa. Hoje alguns povos perderam sua língua original e só conhecem o português. Alguns incorporaram no seu cotidiano bens e produtos industrializados. Outros ainda se mantêm afastados do convívio com os não-índios. Estima-se que hoje 53 grupos de populações indígenas ainda vivem isolados, isto é, longe de contato permanente ou regular com os não-índios. Parte destes grupos nem tiveram o primeiro contato com os não-índios.
TERRAS INDÍGENAS:
A terra, na cosmovisão indígena, é mais que um pedaço de chão. Não é apenas base de sustento, mas o lugar territorial onde jazem os ancestrais, onde se reproduz a cultura, a identidade e a organização social própria. "Não é a terra que pertence ao homem, é o homem que pertence à terra. O que acontece à terra acontece aos filhos da terra" (cacique Seathle). Por tudo isso não é possível imaginar um povo indígena sem a terra que, por todas estas razões, não pode ser agredida por quaisquer medidas de ocupação capitalista e neocolonial (usurpação dos recursos naturais, depredação do meio ambiente, ecoturismo, biopirataria...).
As terras indígenas, já faz 500 anos, sofrem investidas de grandes e pequenos para se apoderarem tanto das terras como das riquezas nelas contidas. Hoje as terras indígenas reconhecidas representam aproximadamente 11% do território nacional. 98,25% delas estão no Norte e Centro-Oeste (mata e cerrado), onde moram 60% dos povos indígenas. No outro 1,25% das terras, no Sul, Leste e Nordeste, fica 40% da população indígena no Brasil.
POPULAÇÃO:
Os aproximadamente 326.000 indígenas são distribuídos em 240 povos da seguinte forma:
Menos de 100 pessoas .................. 72
Entre 100 e 1000 pessoas ........... 112
Entre 1.000 e 10.000 pessoas ....... 48
Entre 10.000 e 20.000 pessoas ....... 6
Mais de 20.000 pessoas ....................2
A categoria "índio" abrange populações muito diferentes seja do ponto de vista lingüístico, seja do ponto de vista dos costumes. Para tornar inteligível tal diversidade, á preciso ordená-la através de classificações. Entre elas o esquema lingüístico talvez seja o mais característico.
Alguns desses grupos lingüísticos se distribuem por faixas geográficas de ocupação exclusiva. Este fato contribui para a identificação entre língua e cultura.
É o caso dos Tupi que ocuparam, no tempo da "descoberta" do Brasil, o litoral de sul ao norte, em contraste com os Jê do interior que ainda hoje dominam extensas áreas dos Estados do Maranhão, Goiás, Pará e norte de Mato Grosso praticamente sem a intrusão de outros grupos.
Uma simples comparação em linhas gerais entre povos que compõem a família Tupi e os da família Macro-Jê ajudará entender a diversidade entre os povos. Ainda neste número veremos um pouco de outras famílias, especialmente Aruak e Karib.
DOIS MUNDOS DIFERENTES: OS POVOS DE LÍNGUAS JÊ e TUPI
OS TUPI
Dentro dos povos Tupi a família Tupi-Guarani se destaca pela grande extensão territorial sobre o qual estão distribuídos os falantes de suas línguas.
No século XVI se encontram em todo o litoral atlântico do Brasil e na bacia do Rio Paraná.
Hoje as línguas Tupi-Guarani são faladas no Maranhão, no Pará, Amapá, em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul.
Ao todo são 21 línguas vivas, faladas por cerca de 40.000 pessoas. Os povos com maior número de falantes no Brasil são os Kaiowá (Mato Grosso do Sul) e os Tenetehara (Guajajara e Tembé – Maranhão).
Fora do Brasil línguas Tupi-Guarani são faladas na Guiana Francesa, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina.
OS JÊ
Eduardo Galvão, no seu estudo sobre áreas culturais indígenas do Brasil, coloca a Região do Tocantins-Xingu como uma região característica. Nesta região são localizadas a maior parte dos grupos de língua Jê.
Esta área pode ser dividida em três núcleos:
a) Oriental: Timbira: Canela, Apinajê, Krahô, Parakatejê, Krikati.
b) Central: Akwên: Xerente, Xavante, Suyá.
c) Ocidental: Kayapó: Gorotire, Kikretum, Kubenkrãkein, Kokraymoro, A’ukre, Mekrãnotire, Xikrin, Txukarramãe.
Esta população é estimada em aproximadamente 15.000 pessoas.
Ao fazer a comparação entre Jê e Tupi, os dados são genéricos, pois mesmo entre povos do mesmo tronco lingüístico existem muitas diferentes. Esta diversidade é mais evidente entre os povos Tupi talvez pela dispersão geográfica e pela história do contato com não-índios que se deu em épocas muito diferentes. A diversidade do meio ambiente e de influências culturais externas, inclusive de outros povos indígenas provocou respostas diversas que marcaram cada cultura.
VARIEDADE DOS TUPI
De fato, dentre todos estes povos que falam línguas tão próximas, encontramos desde bandos de caçadores nômades (Guajá, Xeta) até as gigantescas aldeias históricas dos Tupinambá, tecnologicamente avançadas com uma economia sofisticada. Desde grupos que se organizam em grupos familiares quase independentes, à sociedades estruturadas em clãs (Surui, Wayãpi), ou nas duas metades (Tapirapé, Parintintin).
Também variam, entre os povos Tupi, o estilo das aldeias e as formas das casas, as terminologias de parentesco, as estruturas cerimoniais, a atitude face à guerra, a importância do xamanismo.
É por tudo isso que ao falar dos Tupi, nem tudo que dissermos se aplica a todos os grupos.
Aldeia Jê – Na sociedade Jê tudo é marcado pelo território. As casas são dispostas em círculos, ao redor do "centro" da aldeia que é uma grande praça.
O lugar é muito importante para o mundo Jê. O centro da aldeia é o lugar dos homens, a periferia, a casa, o da mulher. A casa de alguém não é colocada ao acaso: cada um tem seu lugar certo. Os rapazes solteiros, entre os Xikrin, por exemplo, moram numa casa logo fora da aldeia.
O índio Jê não saberia sobreviver sem o seu povo, a sua aldeia e o seu lugar dentro dela.
Se conta que um índio Kayapó ficou sozinho com sua família quando todos os parentes foram mortos. Longe da aldeia teve que construir a casa para se abrigar. Ele limpou o terreno e marcou o lugar de todas as casas da aldeia circular. Só depois construiu a casa dele no lugar certo. O índio Jê, sem a referência territorial está perdido, não sabe se situar no mundo. Por isso as aldeias dos Jê são sempre bem organizadas e estruturadas.
Tupi: Os Tupi não dependem exclusivamente do território grupo. O Tupi leva o seu mundo "dentro" de si. Vai para São Paulo, arruma a casa onde encontra lugar e lá reproduz o seu mundo. As aldeias Tupi geralmente se apresentam aparentemente desordenadas.
Jê – A pintura é também uma maneira para colocar-se dentro da sociedade. A mulher Kayapó depois do parto pega a criança e vai para o rio, lava a criança e logo em seguida a pinta. Só depois da pintura que a criança é Kayapó. A pintura indica o sexo, a faixa etária, a condição social e até determinadas épocas (fim do resguardo da mulher, nomeação, etc. ...).
Tupi – Os Tupi usam também a pintura, principalmente nas festas. Na vida normal podem muito bem ficar sem ela.
Os Tupi e os Jê se organizam tanto do ponto de vista sociológico, como do cronológico de maneira diversa.
Jê – Nos Jê a organização é o plano dominante da sociedade. Todo aspecto da sociedade é marcado exteriormente. Tudo é visível.
Tupi – A cultura Tupi, com ressalvas, se organiza na dimensão religiosa, de forma invisível. Tudo é discreto. Os Tupi levam o seu mundo dentro de si e por isso, são muito mais impenetráveis do que os Jê.
Jê – Todos os grupos têm uma visão do universo e da sociedade que chamaremos dualista: o todo é a união de opostos:
– sol x lua
– terra x água
– vermelho x preto
– homens x natureza
– centro x periferia
O centro da aldeia é lugar dos homens, da cultura, do ser, do pensamento. Lá os homens se reúnem todos os dias para tomar decisões.
A periferia da aldeia, onde ficam as casas, é lugar das mulheres, da vida, da reprodução, dos indivíduos.
Na cultura Jê a mulher é a transição entre os homens e a natureza.
As pessoas se dividem em duas metades cerimoniais, em classes de idade. Na organização política há dois chefes: o das chuvas e o das secas.
Quanto ao nome, os homens o recebem do tio paterno e as mulheres da tia materna.
Cada um tem seu amigo formal. Entre os amigos formais há obrigações mútuas e autoridade recíproca: nunca ninguém recusa um pedido de seu amigo formal. Ao mesmo tempo os dois não podem conversar, nem cruzar o mesmo caminho.
Tupi – Tem-se a impressão que o Tupi desenvolve de maneira mais acentuada os valores religiosos.
O que marca as aldeias Tupi é a presença do Pajé e das cerimônias.
Nos Guarani é a Palavra que tem mais força. Dizem que o mundo foi criado pela Palavra.
No pensamento Tupi existe uma identificação muito forte com o inimigo. Por isso usam a guerra como valor fundamental, ela tem sentido religioso. A unidade da sociedade é como se fosse nós e o inimigo.
A sociedade não é algo de definitivo como nos Jê, aliás para os Guarani a vida na terra é algo de mal.
O ponto central é o encontro do humano com os espíritos que se dá definitivamente depois da morte ou então através do pajé.
Para o Tupi o invisível é mais importante do que o visível.
MORTE
Jê – A vida é o bom, é o paraíso, é algo definitivo. O morto é um inimigo. Os mortos formam a anti-sociedade dos vivos.
Tupi – A vida na terra é algo mal ou pelo menos a pessoa ainda não está realizada. O bom ainda não veio. A sociedade presente é passageira e imperfeita.
Os Guarani procuram constantemente a "Terra sem Males".
Os Tupi acreditam que, após a morte a parte celeste da alma, se reúne às divindades e se torna como elas. Acreditam também que o mundo presente está para acabar.
No encontro com a sociedade branca os tupi, ao contrário dos Jê, dão uma impressão de "fraqueza", de fácil assimilação, de mais proximidade com o mundo do branco. Parecem não ter defesa, deixam com facilidade características externas culturais para assumir as do mundo que os rodeia.
Por causa disso, alguns estudiosos previam a assimilação rápida destes grupos e o seu desaparecimento num curto período de tempo. Ao contrário, os reencontramos bem vivos depois de cinco séculos e nas mais diferentes condições de ambiente e de contato.
Esta chamada "fraqueza" na realidade é a maior força deste povo, pois é por ela que ele é capaz de "absorver" traços culturais prevalecentes na região, de reorganizá-los dentro de seu próprio mundo sem renunciar a ele.
O Tupi-Guarani pode se conservar como tal numa grande metrópole como São Paulo. Você passa perto, fala com ele, não repara diferença, mas ele, o índio Tupi-Guarani traz consigo todo o seu mundo, é "o outro", "o diferente".
Alguns antropólogos acham que a raiz desta força esteja no plano transcendental, na mitologia e cosmologia.
Como dissemos a variedade entre os Tupi não nos permite dar uma única interpretação.
O Pajé ou Xamã é um elemento importantíssimo na vida de um povo Tupi. Ser pajé não é um cargo, é uma qualidade, um atributo. O pajé é aquele que consegue entrar em contato com o além e controlar as forças em benefício da comunidade.
Por esta qualidade ele é muito considerado e respeitado, mas ao mesmo tempo responsabilizado pelas desgraças e as vezes morto por isso.
Os Guarani desenvolveram uma figura muito importante: a do Profeta. O profeta é uma espécie de divindade encarnada.
O profeta não pertence a alguma aldeia em particular. No passado o profeta morava fora da aldeia e ia de comunidade em comunidade levando a mensagem do paraíso.
Cada aldeia tem dois chefes. Cada um dos chefes dirige uma turma de homens casados e solteiros. Essas "turmas" têm funções predominantemente econômicas, mas não é ausente a tarefa de liderança nas lutas inter-tribais e hoje em dia nas escaramuças contra os invasores brancos.
As atribuições dos chefes variam de tribo para tribo. Geralmente eles conduzem os índios à guerra. Velam pela conservação das tradições do povo. Indicam as atividades que devem ser desenvolvidas cada dia. Regulam as relações entre os índios e o homem civilizado. Tem parte importante nos diversos rituais. Velam pela paz e a ordem dentro da aldeia.
Os caciques permitem uma certa estabilidade política sendo que um controla e fiscaliza automaticamente o outro.
Entre os Xavantes, no entanto, o chefe é sempre o líder que tiver mais partidários ou que for bastante habilidoso para aproveitar em seu favor a rivalidade entre as várias facções.
Os Krahô têm um só cacique que porém escolhe dois "prefeitos" para orientar as atividades da aldeia durante a estação seca ou chuvosa.
Sobre a divisão em "metades" típica da família Jê (aldeia dividida em duas partes), não há certeza por parte dos antropólogos se é estabelecida a partir do parentesco ou do fato de pertencer aos mesmos grupos cerimoniais.
Esta região compreende as três Guianas, Venezuela (leste do rio Orinoco) e o Brasil (norte do rio Amazonas, da costa atlântica até o oeste de Roraima). Há também, povos da família Karib ao sul do rio Amazonas situados principalmente ao longo do rio Xingu. Em outras expressões culturais, os diversos grupos Karib se diferenciam bastante de acordo com seu meio ambiente, o tempo e freqüência de contato com outros povos indígenas e com a sociedade dos brancos.
A organização social e política é baseada no parentesco. Preferem-se casamentos de primos cruzados e residência matrilocal. Agrupam-se em aldeias pequenas mas perto o bastante para cooperar no trabalho de roça e casas, trocar alimentos e fazer a pesca e caça coletiva.
Dentro da casa dos hóspedes na maruana, roda de madeira colocada no teto onde estão representadas as Auruke, lagartas mitológicas. À direita Geraldo Lod, Cacique Galibe (Amapá) na fundação do Mensageiro.
Nos Apalaí é no pátio central da aldeia (pyroro) que se desenvolve a vida pública, tanto em tempos cotidianos como durante os rituais. Neste terreiro, um pouco à esquerda, tem o fogo-da-aldeia (uapot pata), centro da aldeia e do universo social indígena. Este fogo aceso ao alvorecer e ao entardecer, é mantido pelos jovens e adolescentes. Em torno dele os homens da aldeia congregam para se aquecer após o banho matinal e durante o frio noturno. Enquanto conversam, ensinam mitos ou discutem as decisões importantes para a comunidade. Neste local executam manufaturas, sobretudo cestarias, e tomam suas refeições comunitárias.
No período de chuva ou quando faz muito calor, estas atividades são feitas na tukussipan que é uma casa de acolhimento. A tukussipan com sua maruana, tem lugar de destaque na aldeia e serve de abrigo para visitantes. Na época de festas, além de abrigar os convidados, torna-se um dos centros das celebrações. Solteiros podem residir na tukussipan se o desejarem. A presença das mulheres é permitida na tukussipan, mas elas demoram pouco lá.
UM MITO DO CÉU
Contam os Bakairi que antigamente os seus antepassados moravam no céu. O céu porém não ficava lá no alto, mas ao lado da terra e era fácil passar de um lado para outro e vice-versa. Um dia na região do céu começou a morrer muita gente. Os habitantes do céu resolveram então passar para a terra e assim foi. O céu então ficou leve, leve e começou a subir lá para cima e ficou onde está até hoje.
Os povos da família Aruak tradicionalmente ocupam a mesma região que os Karib, a região guianesa e algumas ilhas antilhanas.
Quando os europeus iniciaram sua colonização na região, os Aruak aí dividiam e disputavam o mesmo espaço com os Karib.
Ainda hoje os povos da família Aruak se encontram na ampla região guianesa mas estendem além para o oeste até as cabeceiras dos afluentes esquerdos do rio Orinoco e para o sudoeste onde se encontram no rio Negro e seus afluentes mais setentrionais, especialmente no Içana. Existem Aruak no Peru e Bolívia como também no oeste de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e no alto Xingu do Brasil Central.

Diz-se dos Aruak da região do rio Negro no século passado que eles eram portadores de uma das culturas mais elaboradas da floresta tropical. Haviam alcançado alto desenvolvimento na cerâmica, na lavoura, na construção de canoas e de soberbas habitações coletivas, na tecelagem de redes. Contavam como elementos de guerra que garantiam sua superioridade sobre outros povos: sarabatanas, dardos envenenados com curare e escudos trançados. Exerceram profunda influência sobre outros povos chegando mesmo a "aruaquizar" alguns deles. Sendo, porém, os mais acessíveis – pois viviam nas margens dos rios navegáveis – foram os primeiros atingidos pelos conquistadores, avassalados e dizimados.
Antigamente os Aruak se organizavam em clãs que foram agrupados em metades. Cada metade tinha seu cemitério próprio. Os nomes dos clãs se referiram a nomes de animais, plantas ou fenômenos naturais, por exemplo, lagarta, abacaxi, acapu, sol – nomes de clãs Palikur. Ainda hoje entre os Aruak a pessoa pertence ao clã de seu pai e não pode casar com membros de seu próprio clã.
Tantos os povos Aruak no norte como os no sul do Brasil tem adotado usos e costumes de seus vizinhos indígenas e não indígenas com exceção dos Eneuenê Nauê que têm poucos anos de contato com a sociedade envolvente e ainda mantém expressões culturais mais características.