Pelo menos 60 grupos ainda resistem ao contato com os "brancos"

Quase cinco séculos depois da chegada de Pedro Álvares Cabral às praias do que é agora a Bahia, pelo menos 60 grupos indígenas ainda resistem ao contato direto com os brancos. Só esse fato é o bastante para distinguir o Brasil como um dos mais ricos, senão o mais rico, país de todo o mundo em diversidade cultural. A existência dos isolados se explica pelo padrão histórico de conquista e ocupação das terras.

Primeiro as litorâneas, depois as interiores. Sob o impacto do avanço constante das frentes de conquista, centenas de povos desapareceram. Investigações etnológicas estimam em 1.175 o número de línguas faladas no Brasil à época do descobrimento. Hoje, elas se reduzem a 170, distribuídas entre 206 sociedades, não incluindo os isolados. As populações, de acordo com estimativas, devem ter somado cinco milhões de indígenas, no fim do século 15.

Os dados atuais variam entre 270 mil, segundo o banco de dados do Instituto Socioambiental (ISA) e 325 mil da Funai. Esse desencontro de dados, na verdade, menos que um problema metodológico, revela o conhecimento ainda insuficiente da diversidade cultural. Para o sertanista Sidney Possuelo, diretor do Departamento de Índios Isolados (DII) da Funai, os arredios, como também costumam ser chamados, são "uma gente quase desconhecida, de quem se tem pouca ou nenhuma informação".

Esses isolados, diz Possuelo, "se mantiveram à parte, em relativo estado original, desde o descobrimento, vivendo da caça, pesca, coleta e agricultura de subsistência". Uma das características dos índios isolados é não manter relações sociais nem mesmo com outros grupos indígenas que possam habitar nas suas proximidades. É o caso, por exemplo, dos piriutitis, arredios que vivem em terras dos vaimiris-atroaris.

Eles resistem com violência à invasão dos seus domínios e, segundo Possuelo, "quando não podem mais sustentar o enfrentamento, recuam para pontos mais inacessíveis. Dessa forma, enfrentando os invasores ou recuando ao avanço deles, conseguiram manter o isolamento ao longo de sucessivos ciclos de expansão de fronteiras econômico-sociais. Mas essa postura de isolamento tem custos. Duas das conseqüências importantes dessa atitude, explica Possuelo, são a perda de população e o nomadismo.

No primeiro caso, avalia ele, perseguições violentas e sistemáticas ou contaminações infecto- contagiosas que essas populações não podiam combater reduziram o que podem ter sido nações inteiras a pequenos grupos sobreviventes. Desenraizados de suas terras originais e numericamente inferiores, analisa Possuelo, "fizeram desse sistema de vida errante uma luta diária pela sobrevivência". Os índios, e isso é válido especialmente para os isolados, têm na terra uma referência primordial. Dela dependem tanto para a produção e coleta de alimentos quanto para a manutenção do complexo sistema de crenças. Com esses valores, elaboram suas mitologias e constroem suas próprias cosmologias.

Assim, interpreta Possuelo, com a experiência de quase 30 anos de indigenismo, para o índio "a terra é um repositório de saber onde cada detalhe da geografia associa-se a seres míticos, antepassados, heróis culturais e espíritos". A partir daí, eles "explicam suas origens e realimentam suas existências".

Equívoco antropológico - Ao contrário do que comumente se considera, a política indigenista não defende a eternização desse estágio cultural. A incompreensão desse princípio é ainda um foco gerador de desentendimentos em questões básicas envolvendo os povos indígenas. É o caso da extensão das terras, quase sempre julgada exagerada. O equívoco, neste caso, é pensar que as sociedades indígenas exploram os recursos naturais da mesma forma que os métodos típicos das sociedades ocidentais, com raízes européias.

O que o Departamento de Índios Isolados se propõe a fazer, diz Possuelo, é "desenvolver um trabalho no qual a inserção dessas sociedades no contexto cultural nacional, possa ser preparada, dando-lhes tempo necessário para a assimilação dessas relações, sem ruptura violenta de seus valores.

Só assim, assumindo suas próprias decisões, eles poderão definir os rumos que lhes convém, com suas características de culturas autônomas. O reconhecimento dessa realidade, incorporando avanços na antropologia cultural, está assegurado na Constituição de 88. A decisão de fazer o contato com os isolados, no entanto, é um "último recurso", diz Possuelo. Ela só é tomada quando esses grupos correm risco de extermínio ou são ameaçados por invasores de seus territórios.

Algumas experiências passadas de contatos apressados, sob pressão para construção de estradas ou hidrelétricas, deixaram marcas traumáticas nessas sociedades. Ou, simplesmente, fizeram com que elas resultassem extintas. O processo de ocupação da Amazônia motivado, de um lado pela geopolítica do pós-guerra, de outro por um padrão histórico de ocupação que não preserva os recursos naturais, afeta diretamente os índios isolados.

Sob pressão constante, fugindo para áreas mais inacessíveis, onde pensavam estar seguros, sempre acabaram alcançados. Essa situação, de acordo com Possuelo, movimentou um grupo de indigenistas, no interior da Funai, a dedicar-lhes uma atenção especial "para possibilitar, ao longo do tempo, o estabelecimento de relações amistosas e minimizando, ao máximo, os efeitos perversos do contato que fatalmente irá ocorrer".

Assim, surgiu o Departamento de Índios Isolados (DII), que Possuelo dirige. O departamento estrutura-se - na sede, em Brasília - com recursos básicos e, em campo, com unidades estaduais. No Amazonas existem a Frente de Contato Rio Purus e a Frente de Contato do Vale do Javari; no Pará, o Posto Indígena de Contato Cuminapanema; no Acre, a Frente de Contato Rio Envira; no Mato Grosso, a Frente de Contato Rio Madeirinha; em Rondônia, a Frente de Contato Rio Guaporé e, em Goiás, a Frente de Contato Avá-Canoeiro.

Essas frentes de contato são chefiadas por profissionais especializados e conhecedores da selva. Eles estão equipados com instrumentos e meios adequados às operações na selva ou nos rios, com apoio logístico de barcos e aviões. O trabalho do departamento implica riscos para o pessoal envolvido. As operações quase sempre são demoradas e com custos elevados.

Segundo Possuelo, essas características inviabilizam a criação de novas frentes para investigar informações capazes de confirmar ou não a existência de outros grupos isolados. As investigações para a confirmação de grupos arredios é feita em etapas e começa com o mapeamento da área a ser investigada. Nessa fase, buscam-se os vestígios e evidências de deslocamento do grupo.

O objetivo é dimensionar o território que eles ocupam. Esse trabalho permite uma avaliação da compressão territorial, dos choques e riscos em relação às frentes pioneiras de ocupação dessas áreas, caso de madeireiras. Confirmada a existência de um grupo arredio, estabelece-se uma vigilância territorial, preservação ambiental e monitoramento do grupo ou a instalação de uma frente.

Numa última fase, esse trabalho fornece subsídios à política oficial de ocupação dos espaços amazônicos, evitando conflitos entre os novos ocupantes e os últimos grupos indígenas isolados. Mas, na prática, esse organograma de trabalho nem sempre funciona tão bem. Na região do Vale do Javari, por exemplo, onde em 15 de outubro passado foram contatados os índios corubos, a truculência de políticos e empresários é um obstáculo.

Em 1975, o sertanista Valmir Torres chegou a ter um breve contato com esse grupo. Mas ele foi frustrado por um ataque dos índios, quando morreu, a bordunadas, ao lado de Torres, o sertanista Jaime Pimentel. O ataque resultou de traumas de choques anteriores com invasores. Agora, antes do contato de Possuelo, as placas de identificação do território indígena local foram retiradas por ordem do prefeito de Benjamin Constant.

A cidade, como outras na Amazônia, tem sua economia baseada no extrativismo, sem preocupação com a auto-sustentação. No raciocínio imediatista do poder político-econômico local, a proteção não só dos grupos indígenas arredios, mas dos próprios recursos, visando à sua preservação e exploração a longo prazo, é interpretada como barreiras ao progresso. O resultado desse imediatismo é uma desolação crescente.

Ela se apossa das cidades e das áreas por onde se espalha: pobreza paisagística, desconforto e feiúra urbana, materializados numa pobreza barulhenta e malcheirosa.



Copyright 1996 - jornal O Estado de S. Paulo - Todos os direitos reservados

[ voltar para menu ]


1