Roma - Península Itálica - 149 a.C.
Do
tombadilho do barco, Emrys contemplou Roma com admiração. Apesar de
ter pego alguns dias de chuva, sua viagem tinha sido tranquila e chegava
à cidade no dia esperado, portanto Methos provavelmente estaria aguardando
no porto. Será que ele o reconheceria? Emrys mantivera-se a maior parte
do tempo enfurnado na cabine e só saíra à noite ou envolto num manto
com capuz, para ocultar a mudança de aspecto - estava usando mais uma
mistura de ervas para escurecer os cabelos, agora bem curtos, até que
os fios tingidos de branco finalmente desaparecessem, e já no primeiro
dia a bordo raspara a barba completamente. Queria desembarcar em Roma
com outra aparência e inclusive trazia na bagagem roupas totalmente
diferentes das que costumava usar no papel de Aristeu, o velho bibliotecário
de Alexandria.
Vistoriando
o porto com o olhar, em busca do amigo, Emrys concentrou-se e encolheu
propositalmente a amplitude de sua vibração. Sabia que poderia ser captado
de longe por Imortais mais sensíveis e era melhor ter cuidado, para
o caso de haver inimigos em Roma. Emrys há muito tempo sabia diminuir
ou ampliar a própria vibração, porém não usava o truque com frequência
porque exigia grande esforço e concentração permanente, além de prejudicar
sua sensibilidade. Só estava fazendo isso agora pela segurança de Methos,
não pela sua. Se mantivesse sua vibração usual, chamaria a atenção de
Imortais na cidade inteira, e Methos poderia ser atacado por engano.
Caso ele dissesse que não havia perigo, então Emrys relaxaria e deixaria
sua energia espalhar-se normalmente.
Na
verdade Emrys evitava mas não temia os duelos com outros Imortais, simplesmente
porque não tinha medo de morrer definitivamente. Estava há tanto tempo
vagando pelo mundo que era até insano pensar a respeito, e acordava
todas as manhãs por puro hábito de viver, nem raciocinando sobre a possibilidade
de um dia não poder mais abrir os olhos para o sol. Talvez isso acabasse
acontecendo, mas a hipótese não lhe parecia realmente assustadora. Sinceramente
nem questionava-se mais sobre sua existência, nem filosofava a respeito
das misteriosas razões dos deuses, como os seres humanos comuns. Os
milênios de convivência consigo mesmo e com outras criaturas ensinaram-no
a aceitar o que encontrasse, e sempre haveria algo a encontrar. Aprendera
a viver para o momento e o lugar, e mesmo o futuro não lhe era um estranho,
pois suas premonições forneciam-lhe frequentes vislumbres do que estava
por vir. Pode ser que um dia pressentisse seu próprio fim e isso então
o apavorasse, ou pode ser que morresse num instante, sem nem ter tempo
de ficar com medo. Pode ser até que um dia algum Poder Superior lembrasse
que ainda havia uma criatura esquisita chamada Emrys pela face da Terra
e resolvesse evaporá-lo, para que parasse de desafiar as leis da natureza...
Quem sabe? Nas raras vezes em que ainda pensava sobre o assunto, Emrys
sempre encontrava uma possibilidade engraçada, que o fazia rir sozinho
por dias.
E
foi sorrindo que Emrys desembarcou procurando por Methos, com a agradável
sensação de que algo bom ia acontecer, mas encontrou apenas um grupo
de criados aguardando-o. Por um instante até pensou que o amigo estivesse
atrasado, porém um dos escravos, depois de perguntar aqui e ali, aproximou-se
humildemente:
-
Mestre Aristeu? Venho em nome do patrício Methos Adamantinus Remus,
estamos aqui para indicar o caminho até a casa de meu patrão!
Emrys
logo viu que não era apenas para indicar o caminho que os escravos o
esperavam - duas ricas quádrigas com cocheiros estavam paradas pouco
adiante e os rapazes, acomodando sua bagagem em uma delas, fizeram-lhe
sinal para subir na outra, enquanto eles iriam correndo à pé, ao lado
e atrás dos carros, como escolta. Franzindo a testa diante de tamanha
cerimônia, que seria exagerada para receber um simples bibliotecário,
Emrys desconfiou que havia algo estranho. O fato de estar ainda concentrado
em encolher sua vibração não lhe permitia vasculhar a mente em busca
de premonições, porém seus instintos lhe garantiam que não havia nenhum
perigo iminente, por isso deixou-se levar.
E
seu susto foi sem tamanho quando, ao virar numa rua de belas casas no
Monte Palatino, Emrys sentiu o choque da presença de não um, mas CINCO
Imortais ao mesmo tempo! Poderia aceitar até dois ou três, caso Methos
estivesse com alunos, mas cinco lhe pareceu um exagero, e sem querer
deixou sua vibração escapar ao controle. Provavelmente aquilo alvoroçou
os outros, pois Emrys notou um aumento na intensidade da energia de
alguns deles. Estavam todos tão próximos entre si que era-lhe difícil
distingui-los. Pelo jeito três ali eram bastante velhos e Methos deveria
ser um deles, mas e os outros dois? Parecia tratar-se de um casal, será
que eram quem imaginava? Confuso e com o coração aos pulos, Emrys achou
por bem concentrar-se e recolher a vibração mais uma vez, até descobrir
o que estava acontecendo.
Foi
então que, da casa que já tinha focado como centro daquelas energias,
Emrys viu assomar à porta um grupo de rostos sorridentes que nunca teria
esquecido - Methos, Aka, Eksamat e até Titus Marconus! Havia ainda outro
rapaz desconhecido com eles, mas o coitado estava tão assustado que
não oferecia perigo. Emrys não sabia o que pensar, vendo quatro de seus
ex-alunos ali juntos, visivelmente felizes à sua espera! Esquecendo-se
completamente de continuar encolhendo sua vibração, Emrys pulou da quádriga
ainda em movimento e correu até os amigos, parando de repente diante
deles, com medo de tocá-los e descobrir que eram uma miragem.
A
primeira a aproximar-se foi Aka, que pulou em seu pescoço chorando.
Em seguida foi Eksamus, que abraçou Emrys e a irmã ao mesmo tempo, exclamando
frases emocionadas de boas-vindas. Emrys beijou-os como se fossem filhos
queridos, depois foi abraçado por Marconus, que também chorava. Peter
Gaicus apresentou-se com formalidade, pálido e deslocado em meio àquela
emoção. Por último Emrys encarou Methos, que tinha permanecido parado,
lutando contra as lágrimas. Bastou um sorriso do velho mestre para que
ele também se atirasse em seus braços.
Parados
a uma distância respeitosa, aguardando instruções, os escravos olhavam
para a cena com intensa curiosidade. Sem saber como proceder, Gaicus
começou a dar ordens aos gritos, para que levassem a bagagem de Emrys
para dentro, arrumassem o quarto para o hóspede e preparassem o banquete,
e logo os criados disparavam em todas as direções. Eksamus conseguiu
fazer os outros Imortais entrarem, antes que o povo na rua também parasse
para espiar, e conduziu o grupo para o tablinum. Emrys reparou na luxuosa
decoração da casa, reconhecendo peças antigas e raras espalhadas casualmente
pelos cantos, e sorriu. Ele próprio muitas vezes tinha que brigar consigo
mesmo para desfazer-se de objetos que colecionava através dos anos,
por motivos sentimentais ou meramente por hábito.
-
Ainda não entendo! - falou finalmente - O que aconteceu para reunir-vos
aqui? Percebo que fui trazido para cá de propósito...
-
Estamos juntos há décadas! - explicou Marconus, fazendo o mestre sentar-se
a seu lado - Logo que deixei-te em Alexandria, vim para estas bandas
e travei amizade com Gaicus. Mais tarde conheci Methos, depois Aka e
Eksamus, mas só há pouco eu soube que eras o Emrys de quem tanto falavam!
Acabamos descobrindo teu paradeiro e então resolvemos chamar-te para
ficar conosco também!
-
E qual de vós percebeu que eu e Aristeu éramos a mesma pessoa? - perguntou
Emrys - Que eu me lembre tu nunca soubeste meu verdadeiro nome, Titus!
Não por falta de confiança em ti, entendas, mas porque adotei o nome
Aristeu há séculos, e pretendo continuar ainda algum tempo com ele...
-
Foi pura coincidência! - explicou Eksamus - Methos contou-nos que iria
comprar textos de um tal Aristeu de Alexandria, então Titus falou que
havia um Imortal chamado Aristeu por lá, alguém que teria conhecido
Sócrates em Atenas. Aka e eu sabíamos que tu eras o único Imortal além
de nós que coheceu Sócrates, então foi só juntar os detalhes!
Emrys
lançou um olhar de esguelha a Methos, que empalideceu. Methos também
conhecera Sócrates, mas por meios tortuosos e razões que nenhum Imortal
deveria conhecer. Seus contatos secretos com o filósofo tinham sido
em geral por carta e Sócrates jamais mencionou os nomes de Aka, Eksamus
ou Emrys em seus relatórios. Só depois, em Roma, foi que Methos descobriu
que os três Imortais passaram décadas com Sócrates em Atenas. Methos
logo sentira-se traído pelo filósofo, e tinha seus motivos. Quando deduziram
recentemente a complexa conexão entre Sócrates e a biblioteca de Alexandria,
seu medo tinha sido que suas próprias cartas estivessem entre os papéis
cobiçados por Demétrio Falereu, mas disfarçara inventando sobre o diário
de Emrys. E agora percebia que o mestre descobrira sua ligação com Sócrates,
e poderia até saber a natureza dessa relação! Teria sido por influência
dele que o filósofo nunca falou-lhe sobre os Imortais de Atenas? Como
Emrys descobriu? Teria sido Sócrates um traidor ainda maior do que Methos
imaginara?
-
Eu contei a eles sobre a lista de ervas que tu encontraste entre os
papiros que Neleu vendeu ao faraó, lembras? - Marconus começou a rir,
sem perceber a sutil troca de olhares entre Methos e Emrys - Tu ficaste
tão furioso com aquilo... Eu jamais poderia esquecer como praguejaste
contra Demétrio Falereu por ter insistido na compra daqueles velhos
textos, tu andavas pelos cantos da biblioteca resmungando desaforos
hilários! Tu o chamavas de besta loura e dizias que o excesso de água
oxigenada lhe fervera os miolos (1)!
Emrys
gargalhou com as lembranças e alisou com ternura os cabelos escurecidos
de Aka, ajoelhada a seus pés como uma menina. Ela aprendera o truque
de mudar de aparência, e a satisfação do velho mestre aumentou ao perceber
que os outros também mostravam-se bem adaptados aos costumes romanos.
Para um Imortal, evoluir com o tempo e adaptar-se a novos ambientes
era uma necessidade constante, e os que não conseguiam fazê-lo através
dos séculos um dia perderiam a luta contra as mudanças implacáveis da
humanidade.
-
Tu conheces todas as ervas, e recordo-me que uma vez passaste uma tarde
inteira explicando a receita de um xarope a Sócrates! - disse Aka, também
sem notar a breve distração de Emrys - Ele te admirava muito, deve ter
guardado a lista como lembrança tua e sem querer isso foi passando entre
seus herdeiros, de geração em geração... Se o Aristeu que Titus conheceu
foi o mesmo Imortal que deu uma lista de ervas a Sócrates, então esse
Aristeu só poderia ser tu!
-
Daí percebemos que poderias ainda estar em Alexandria e ser o tal bibliotecário
com quem Methos estava se correspondendo! - concluiu Eksamus - Por isso
decidimos chamar-te aqui para fazer-te uma surpresa!
-
Uma bela surpresa, realmente! - Emrys fez um gesto amplo, admirando
a decoração do tablinum espaçoso, que servia de escritório, sala de
estar e de refeições ao mesmo tempo - De quem é esta maravilhosa casa?
Será que eu poderia recolher-me por alguns instantes para um banho,
antes do jantar?
Methos
levantou-se de um salto, pedindo que Emrys o acompanhasse a fim de conhecer
os aposentos onde ficaria hospedado, e os outros Imortais logo abriram
espaço para que o mestre pudesse retirar-se. No quarto que lhe estava
destinado, Emrys viu de relance uma banheira com água quente emanando
vapores perfumados a um canto e sua bagagem aos pés da cama, e ficou
enternecido ao perceber que a decoração e os móveis eram novos, provavelmente
tendo sido trocados recentemente apenas para recebê-lo.
-
Não sabes como me sinto em ver-te outra vez! - sussurrou Methos da porta
- Há séculos ando à tua procura... Estiveste bastante tempo na Grécia
e sabias que eu conhecia Sócrates, mas me evitaste de propósito!
-
Sim, também andei à tua procura, e na verdade fui à Grécia justamente
para ver-te! - confessou Emrys, tomando uma das mãos de Methos nas suas
- Só que por acaso encontrei primeiro estes que hoje são teus amigos,
e Sócrates estava com eles, então preferi manter-vos afastados para
não atrapalhar tua nova vida...
-
Então sabes também sobre os...
-
Claro, há muito tempo! - Emrys sorriu - Tanto que inverti teu jogo e,
guardando teus segredos, vigiei-te à distância até o dia em que sumiste
novamente. Não é uma ironia que agora estejamos todos juntos?
-
És um malandro! E os textos de Neleu?
-
Não te preocupes, eram só documentos inúteis! - Emrys baixou a voz e
fez-lhe sinal pedindo discrição - Não havia nada perigoso neles e, se
houvesse, eu mesmo os teria destruído ou alterado!
Methos
sorriu, os olhos cheios de carinho, e puxou o mestre para um abraço
apertado.
-
Não façamos dramas... Deixa-me tomar meu banho, que ainda estou cheirando
a peixe! - Emrys afastou-se a custo de Methos e caminhou para sua bagagem,
tentando disfarçar a emoção - Teus amigos te esperam e não quero atrasar
o jantar!
Feliz,
Methos avançou rapidamente e sapecou um beijo no rosto do mestre antes
de deixar o quarto correndo. Assim que viu-se a sós, Emrys arrancou
as roupas de viagem e mergulhou na água morna com uma exclamação de
prazer.
*************
-
Ele não é velho como pensei! - comentava Gaicus em voz baixa aos amigos
quando Methos voltou ao tablinum - Pelo que ouvi, imaginei uma criatura
enrugada, corcunda, falando baixo e andando apoiada num bastão, mas
ele é jovem e saudável como qualquer um de nós, talvez até mais!
-
Esqueceste que ele é Imortal? - Methos teve que fazer força para ocultar
um sorriso - Ele não envelhece!
-
Sim, porém todos falavam que ele era um sacerdote, um bibliotecário
ancião, então me veio à mente essa imagem venerável!
-
Quando o conheci em Alexandria ele tinha os cabelos bem brancos, apesar
de não ter rugas! - exclamou Marconus - Hoje ele parece décadas mais
jovem, é impressionante!
-
Em Atenas ele usava barba e cabelos compridos, também parecia mais velho
do que agora! - Aka recostou a cabeça no ombro do marido - É tão estranho
saber que ele está aqui conosco outra vez... A presença dele me acalma,
sinto-me criança de novo!
-
E quem não se sentiria? - riu Eksamus - Emrys age mesmo como o pai de
todo mundo, e até os mais velhos de nós ainda são jovens comparados
a ele!
Quase
uma hora depois o mais antigo dos Imortais apareceu para o jantar, desta
vez trajando suas novas roupas em estilo romano. Os outros elogiaram
sua elegância, fazendo-o ruborizar.
-
Devias manter-te sempre assim, ao invés de te esconderes com aquela
barba de antes! - Aka comentou em grego - Aposto que muitas mulheres
em Roma esticarão olhos cobiçosos quando passares!
-
Como podes estar com os cabelos tão negros agora? - cismou Marconus
- Estás usando alguma tinta?
-
Eu usava quando me conheceste, para que ficassem brancos... Mas não
era água oxigenada! - explicou Emrys também em grego, rindo, porém sem
deixar de notar que havia um criado empertigado ao lado de seu divã,
que correu para ajeitar suas almofadas e servir-lhe vinho - Um pequeno
truque antigo que depois vos ensinarei. Agora só estou aplicando umas
ervas até que voltem à cor normal... É preciso mesmo que este senhor
fique junto a mim como uma sombra?
Methos
assegurou que o homem não entendia nada de grego, assim como os outros
empregados da casa, portanto poderiam conversar sem problemas. Há várias
décadas, desde que soubera que tinha sido traído pelos empregados, que
delataram suas atitudes suspeitas a Aka, Methos fazia questão de tratar
bem todos os escravos, porém exigia que nenhum tivesse a mínima idéia
sequer de grego. Sempre que percebia que algum deles estava começando
a entender as primeiras palavras, talvez por força da convivência ou
mesmo na tentativa de agradá-lo, Methos vendia o escravo e comprava
outro. Gaicus por vezes reclamava que nunca sabia se o criado que servira
o desjejum seria o mesmo que lhe traria o jantar, mas Methos preferia
prevenir-se e inventava uma desculpa qualquer para justificar a troca
constante de serviçais.
Naquela
noite, Gaicus mal reparou nos criados e não conseguia disfarçar a admiração
por Emrys. A idéia de um Imortal tão velho e ainda assim com aparência
tão jovial era-lhe desnorteante. Mesmo sabendo que Methos era bem antigo
e Aka e Eksamus talvez o fossem também, Gaicus no fundo imaginava que
um dia até os Imortais começariam a apresentar pequenos sinais de idade
ou cansaço, porém o máximo que podia notar em Emrys eram algumas leves
rugas de expressão na testa, ao redor dos olhos e nos cantos da boca,
e que só apareciam quando ele sorria ou franzia as sobrancelhas. As
novas roupas também evidenciavam seu tórax musculoso, seus braços e
pernas fortes. Os movimentos elásticos, apesar de serenos como tudo
mais em Emrys, denunciavam um homem afeito aos exercícios saudáveis
- não eram como os gestos por vezes pesados de um soldado ou a grosseria
muscular de um simples gladiador, e sim feitos com a vigorosa fluidez
de um atleta maduro, no auge da força física. Para um mortal, ele aparentaria
ter cerca de quarenta anos - talvez entre trinta e cinco e quarenta
e poucos anos, nunca mais que isso. Ainda assim, todos os outros o tratavam
como um pai, e Emrys não se incomodava, até gostava! A situação era
desconcertante.
Gaicus
também tinha esperado algo sobrenatural no velho Imortal, uma aura de
mistério e magia, e o primeiro choque da possante vibração de Emrys
quase o deixou sem fôlego. E seu susto foi ainda maior quando de repente
aquela energia retrocedeu, parecendo uma gigantesca onda de mar revolto
que encolhe para depois avançar com redobrada violência, arrasando tudo
em sua estrondosa passagem. Gaicus nunca fora dado à religião, mas por
um instante ficou apavorado, imaginando que algum deus olímpico furioso
tinha assumido forma humana e viesse trazer a hecatombe para sua vida.
Na hora abandonara a imagem de velho ancião e substituíra-a pela de
um gigantesco Netuno armado de tridente, prestes a arrombar as portas
da casa para esmagá-lo. E ver que a criatura que emanava tamanha força
era um homem absolutamente normal, em trajes comuns, sorrindo e abraçando
seus amigos naturalmente - aquilo tinha sido demais. Emrys não parecia
ser ninguém especial, e era esse o problema. Onde estava a divindade
que estremeceria as montanhas com sua voz? Onde estavam os olhos dardejando
os raios de Júpiter, que o fulminariam num instante?
A
mente de Gaicus fervilhava com tantas dúvidas que nem sabia por onde
começar a perguntar, e permaneceu calado, observando os demais.
-
Eu já vivi muito, mas é a primeira vez que vejo tantos de nós assim
reunidos, em paz, por vontade própria! - Emrys falava, emocionado -
Dois ou três é até normal, porém aqui somos seis! Há outros ainda na
cidade?
-
Havia um, mas não era amistoso e já desapareceu há algum tempo! - disse
Eksamus, corrigindo-se em seguida com um sorriso - Quero dizer, ele
foi embora sozinho, ninguém o molestou!
-
Às vezes sentimos outros que passam por perto, porém nem sabemos quem
são... - acrescentou Aka, fazendo sinal aos criados para que trouxessem
as próximas iguarias do banquete - Creio que o fato de estarmos juntos
faz todos fugirem correndo!
Apesar
dos amigos disputarem sua atenção, Emrys via o espanto que causava em
Peter Gaicus e teve um pouco de pena dele. Durante o jantar e pelo resto
da noite fez de tudo para incluí-lo na conversa, contudo o rapaz ainda
estava impressionado demais com sua presença e acabava caindo novamente
em silêncio, constrangido. Mentalmente, Emrys anotou que depois precisaria
conversar com Gaicus a sós, a fim de tentar vencer essa barreira que
havia entre eles.
Assim
como no primeiro dia de reencontro, os próximos que vieram a seguir
foram de extrema alegria para o grupo, num clima de festa permanente.
Sempre que possível Emrys ficava horas conversando em particular com
cada um de seus ex-alunos, querendo saber o que haviam feito desde que
tinham se separado dele e contando-lhes suas próprias aventuras. Tinha
ouvido consternado a história do casamento fracassado entre Aka e Methos,
mas riu muito ao saber como tudo acabou, e até Aka e Methos riram junto,
sabendo como algumas de suas atitudes na época tinham sido egoístas.
-
Meu casamento com Methos foi um erro... Os segredos dele me atraíam
e eu queria forçá-lo a abrir-se comigo mas, se eu mesma não me entreguei
inteira, como poderia exigir isso dele? - comentou Aka mais tarde a
sós com o mestre.
-
E hoje? - perguntou Emrys seriamente - Como te sentes, casada com Titus
e ainda convivendo tanto com teu ex-marido?
-
Às vezes fico sem jeito com certos assuntos, é claro, afinal Methos
e eu fomos casados por quinze anos! - confessou Aka - Só que nunca tivemos
confiança um no outro, não o suficiente para um casamento... Eu imaginava
que deveria pagar as suspeitas dele com mais mistérios, e ele fazia
o mesmo. Se eu tivesse sido franca desde o começo, talvez pudéssemos
ter sido felizes!
-
E acaso não estás feliz com Titus?
-
Claro que estou! - Aka sorriu abertamente, os olhos faiscando - Titus
não tem medos que me assustem nem segredos que me coloquem na defensiva!
É algo mais tranquilo, mais completo do que com Methos, e com certeza
sinto-me feliz! Titus me adora como sou e eu o adoro demais também!
-
Ah, eu sempre fico feliz em comprovar que, por mais que o tempo passe,
a natureza humana continua a mesma em nós! - Emrys suspirou, divagando
- A paixão é tão bela... Nunca seremos velhos demais para amar!
-
Só fico triste por saber que fiz Methos sofrer tentando transformá-lo
em algo que ele jamais poderia ser, e isso quase custou nossa amizade!
-
Tiveste sorte por ele ter preferido deixar-te livre e até alegrar-se
por estares hoje com o amigo dele! - Emrys sorriu com um ar condescendente
- Isso demonstra que Methos gosta mesmo de ti, apesar de não amar-te
da forma como esperavas. Outro Imortal poderia ter sido mais radical...
-
Queres dizer que eu poderia ter morrido? - Aka fez um leve aceno com
a cabeça - Eu sei, pensei nisso várias vezes quando brigávamos, sempre
tive medo de que um dia perdêssemos mesmo a paciência e... Bom, acho
que nunca é fácil apaixonar-se por outro de nossa espécie! Mas agora
estamos em paz novamente, e Methos tornou-se um grande amigo!
-
E que essa amizade seja eterna como nós, minha filha! - exclamou Emrys,
satisfeito.
*************
Espantado
com Roma, da qual até então só tinha ouvido falar, o vetusto Imortal
logo tratou de adaptar-se à nova vida de patrício latino, como aliás
sempre adaptou-se a tudo. Muitas situações o desagradavam, principalmente
a impossibilidade de conviver diretamente com o povo, como fizera em
Atenas e Alexandria, e também o excesso de promiscuidade. Em Roma tudo
era demasiado público - não só os banhos eram um evento social, nas
luxuosas termas forradas em mármore e ouro, mas até as necessidades
fisiológicas eram feitas em coletividade, em salões onde patrícios sentavam-se
lado a lado em vasos sanitários e conversavam como se estivessem em
suas próprias salas! Na primeira vez em que encontrou-se numa situação
dessas, Emrys teve que esforçar-se para manter a naturalidade. Não que
tivesse preconceitos - que preconceito sobreviveria após tantos milênios?
- o fato foi que achara aquilo tão escatológico que por pouco não irrompera
em gargalhadas desenfreadas. Por sorte seus amigos Imortais mantinham
banheiros domésticos muito decentes e reservados, preservando o decoro
graças a costumes antigos demais para ser abandonados por influência
do ambiente... Mas Emrys não tardou a perceber que nunca conseguiria
espaço para suas idéias e ideais em Roma.
As
coisas boas que encontrou, contudo, a princípio compensaram suas decepções,
e estar ao lado dos ex-alunos, reunidos e em harmonia, era-lhe a maior
das felicidades. Todos o cobriam de atenção e carinho, parecia haver
sempre algum evento acontecendo na cidade e, em meio àquela balbúrdia,
ninguém deu muita atenção ao desaparecimento de um idoso bibliotecário
recém-chegado de Alexandria, que talvez teria se perdido em algum beco
de Subura em hora errada e caído nas garras de malfeitores. Crimes assim
aconteciam todos os dias, não?
A
estranha ligação do antigo Imortal com os textos desaparecidos dos filósofos
gregos tinha suscitado algumas perguntas dos mais jovens, porém Emrys
habilmente evitara entrar em detalhes sobre o assunto, e Methos obviamente
ajudara. Ainda não era hora de revelar certas coisas que ambos sabiam.
Um dia talvez explicassem tudo, e provavelmente os outros compreenderiam
a razão de tanto mistério, mas por que preocupá-los à toa? Por enquanto
era preferível deixar que a vida seguisse seu curso.
Entratanto,
quando descobriu que Aka e Eksamus ainda não tinham sentido nenhum pré-Imortal
nem acolhido alunos próprios, Emrys ficou assustado.
-
É estranho, pois tenho encontrado muitos em estado latente pelo mundo!
- comentou numa manhã em que passeava a esmo com Eksamus entre as barracas
do mercado - No Egito encontrei vários, e também alguns Imortais recentes
que vagavam por aquelas terras ancestrais na esperança de encontrar
ali seus primeiros mestres... Eu não podia ficar com todos ao mesmo
tempo, e cheguei a mandar alguns para amigos meus que vivem em terras
além do Oriente. Se soubesse teria mandado-os para vós, porque aqui
eles estariam em segurança!
-
Encontrei uma mulher da nossa espécie há algum tempo numa cidade menor,
ao sul, mas ela fugiu e nem sei seu nome! - Eksamus não quis confessar
seu medo de ser responsável por um jovem Imortal - Foi a primeira que
vi além de Aka... Elas são raras?
-
Nem tanto, meu filho! - esperto, Emrys não permitiu que a conversa tomasse
outro rumo - Elas poderiam ser tantas quanto os homens se tivessem o
devido acompanhamento, se encontrassem mestres generosos que aceitassem
protegê-las nos primeiros anos... Tua irmã é uma exceção porque viveu
isolada contigo por séculos nos desertos, e o primeiro Imortal que encontrou
além de ti foi um excelente homem. Se tivesse sido um de má índole,
hoje tanto ela quanto tu estariam mortos! É por isso que precisas dividir
teus conhecimentos com os mais novos, senão eles nem terão uma chance...
Até eu precisei de um mestre!
-
Mas como vou ter alunos se eu nem sequer os encontro? - lamentou-se
Eksamus, impaciente - Os Imortais que conheço já podem virar-se sozinhos,
e os outros que por acaso percebemos andando por aí ou tentam atacar-nos
ou fogem de nós!
-
Reconheço que dificilmente um Imortal estranho entraria em Roma sabendo-vos
aqui reunidos, porém os que ainda estão em estado latente não podem
sentir-vos, e certamente após esse tempo todo deveria haver algum perdido
na região... - Emrys ficou pensativo - Eles nascem por toda parte, em
qualquer época, o difícil é transformarem-se como nós e sobreviverem
aos primeiros anos!
-
Pois nós viajamos com frequência por toda a península de norte a sul,
e até agora não encontramos nenhum! Sei que Methos tem alguns contatos
misteriosos que podem ser outros Imortais, e Titus disse que já teve
alunos, porém eu só vi mesmo aquela mulher, que nem deveria ser tão
nova! E eu queria tanto tê-la conhecido melhor...
-
Sei o que pensas, Heka Ma'At de Abtu, és um malandro! - Emrys de repente
gargalhou - Queres é casar-te com alguém de nossa natureza, como tua
irmã tem feito!
-
Ora, e que mal há nisso? - Eksamus corou, tanto por ter sido pego em
flagrante quanto por ter sido chamado pelo nome original, que hoje só
sua irmã e o mestre sabiam - Aka já está no terceiro casamento com outros
como nós, por que eu não poderia fazer o mesmo?
-
Casar com Imortais pode ser perigoso! Aka e Methos separaram-se em paz
apesar de tudo, porém isso poderia ter terminado em desgraça... - um
brilho triste passou pelos olhos de Emrys - E qual a vantagem de um
casamento eterno, afinal?
-
É porque há a esperança de amor etern... - só então Eksamus percebeu
o ar repentinamente absorto do mestre - Emrys, estás querendo me dizer
que já foste casado... E com uma Imortal?!
-
Casado exatamente não, mas foi praticamente a mesma coisa! - surpreendido,
Emrys riu diante do assombro do amigo - Então não lembras que teu próprio
pai era sacerdote e foi casado?
-
Sim, eu mesmo fui sacerdote, e bem que tentaram casar-me várias vezes!
-
Pois houve tempos em que éramos realmente obrigados a casar, para gerar
herdeiros com nossos poderes mágicos! Hoje em dia é que andam inventando
essas seitas que pregam a castidade, contrariando a natureza humana...
Claro que eu nunca gerei filhos, seria impossível, mas tive várias esposas,
às vezes uma porção ao mesmo tempo! - por um instante os olhos de Emrys
pareceram fitar algum lugar distante no passado, porém logo ele prosseguiu,
vendo que Eksamus ia perguntar-lhe algo mais - E sim, meu caro, também
vivi belos e complicados romances com Imortais!
-
Mas foste feliz?
-
Feliz? Sim, por um tempo! - Emrys suspirou pesadamente - Mas posso garantir-te
que nem sempre o amor resiste ao primeiro século de convivência, e o
pior é quando se vive numa cultura que não permite a separação! Como
evitar então que um corte a cabeça do outro na hora da raiva, ao invés
de simplesmente quebrar alguns vasos e ir dormir em outro quarto?
-
E precisaste cortar a cabeça de alguma esposa? - Eksamus arregalou os
olhos.
-
Não, mas quase cortaram a minha, e também levei muitos vasos e panelas
aqui! - o Imortal mais velho apontou a própria cabeça - Sabes como são
essas brigas de amor...
-
Concordo, as mulheres são difíceis às vezes... - Eksamus afastou algumas
lembranças tristes com um aceno distraído - Minha irmã é diferente,
conheço-a como ninguém e não vivo sem ela, mas eu bem que gostaria de
arriscar um namoro com outra Imortal!
-
Ah, esses jovens românticos! - exclamou Emrys, revirando os olhos -
Quando eles tomarão jeito?
-
Falar é fácil, tu nem namoradas tens mais... Ou tens?!
-
Que indiscreto que estás me saindo hoje! - Emrys sorriu - Eu ainda sou
homem, se é o que queres saber!
-
Ora vejam só... - após alguns instantes de choque, Eksamus começou a
gargalhar - Então queres dizer que tens mulheres escondidas por aí,
senhor conquistador Imortal?
-
E acaso tenho cara de múmia? - apesar de tentar evitar, o velho Imortal
sentiu que corava de leve - Posso ser quase tão velho quanto o mundo,
mas ainda tenho sangue correndo em minhas veias, meu filho!
-
Emrys, acho que posso viver o resto de meus dias a teu lado e ainda
descobrir coisas novas a teu respeito!
-
Isso é para aprenderes a não alimentar preconceitos! - o velho Imortal
apressou o amigo de volta para casa - Vamos, Titus cismou que devo ter
meus próprios escravos para viver como um patrício decente e fiquei
de acompanhá-lo a um leilão. Odeio isso, aqui em Roma os escravos vivem
colados em nós! Nunca tive servos forçados e provavelmente estragarei
os meus, tratando-os com liberdades excessivas!
-
Nós também não gostamos, mas Titus é generoso com seus próprios escravos
e saberá escolher alguns que possas mimar à vontade sem perder-lhes
o respeito! Agora conta-me direito aquela história dos setenta juízes
hebreus que o faraó Ptolomeu Filadelfo contratou para traduzir os textos
sagrados...
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Notas
explicativas:
1
- Demétrio Falereu realmente usava água oxigenada para clarear os cabelos
desde quando ainda morava em Atenas, e entrou para a História, entre outros
méritos mais dignos, por ter sido o primeiro ateniense a ousar fazê-lo.
