Roma - Península Itálica - 150 a.C.
Após
trinta anos da morte pública de Methos em Roma, os cinco Imortais começaram
quase ao mesmo tempo um movimento de retorno à capital da República
- a grande cidade representava um ímã a cuja atração eles não poderiam
resistir por muito tempo, enquanto vivessem na região.
Ainda
sempre trocando cartas entre si, todos informaram-se sobre os próximos
passos que pretendiam tomar. No ano anterior, após a morte do fiel Lívius,
que continuou a seu lado até o fim da vida, Methos voltara a Roma fingindo
ser seu sobrinho perdido, Methos Adamantinus Remus, e reassumindo o
status de patrício com a ajuda de papéis falsos. Há vários anos desaparecido
da capital, Peter Gaicus planejava passar ainda algum tempo em Bedriacum
antes de ressurgir como primo mais novo e herdeiro de si mesmo. Eksamat,
seguindo o exemplo dos amigos, providenciou documentos para retornar
como seu próprio filho, Primus Eksamus, nascido de uma esposa imaginária
em Sinuessa. Marconus conseguiu papéis para também passar-se por seu
próprio filho e Aka, usando uma tintura oriental para escurecer os cabelos,
decidiu que reapareceria com o mesmo nome mas como filha do antigo Eksamat,
portanto irmã de Primus Eksamus na "nova geração". Para manter as aparências
e enganar os censores, Aka também decidiu formalizar seu relacionamento
com Titus Marconus e, após mais de duas décadas morando com ele, finalmente
aceitou seu pedido de casamento.
Todos
contariam com o testemunho uns dos outros para acobertar-se, como se
os supostos descendentes tivessem se encontrado e reatado os laços de
amizade dos parentes mais velhos. E apesar de terem traçado um roteiro
cuidadoso de suas novas histórias, os cinco ainda precisavam enfrentar
o teste de ressurgirem juntos publicamente em Roma para saber se os
disfarces eram mesmo convincentes.
O
reencontro frente a frente com Methos foi menos constrangedor do que
Aka e Marconus imaginaram. Ela chegou a pensar que o ex-marido a evitaria,
enquanto Titus sofria ao fantasiar uma possível recaída da esposa. Contudo
Aka já não sentia mais nada por Methos, afinal não o via há trinta anos,
e seu amor por Titus era sincero. Foi quase um alívio quando os três
se cruzaram por acaso em pleno mercado, dois dias depois que o casal
chegou à cidade.
-
Titus, é Methos! - comentou Aka num sussurro, apertando o braço do novo
esposo e procurando de onde vinha a vibração.
-
Vamos lá, ou ele pensará que estamos evitando-o! - Marconus preferia
ter fugido, mas não quis demonstrar o ciúme e avançou decididamente
para onde ela apontara - Ave, Methos Adamantinus Remus, saudações!
-
Ora, que maravilha! - Methos sorriu com sinceridade e afastou-se de
um grupo de mercadores para abraçar o amigo - Ave, Titus Praevius Marconus,
que os deuses cubram a casa de tua família com glórias! Esta então é
tua jovem esposa?
-
Sim, minha querida Aka Eksamia Marconia, irmã de Primus Eksamus e filha
do cunhado de teu tio! - Marconus respirou aliviado ao perceber que
Methos agia com desenvoltura e continuou o teatro - Acho que isso faz
de vós quase parentes, não?
-
Somos praticamente primos, mas nunca nos encontramos! - a cara deslavada
de Methos era impagável - E onde está Eksamus? Perdi contato com a família
de meu tio há tanto tempo que ainda estou descobrindo os parentes...
-
Meu irmão está a verificar os papéis das propriedades que herdamos!
- comentou Aka, esforçando-se para não gargalhar - Soubeste que meu
pai faleceu?
-
Sim, recebi a triste notícia por amigos quando cheguei à cidade, cara
prima, sinto muito... - Methos fez uma leve mesura - E nossa tia, continua
muito doente? Ouvi dizer que ela viajou para os vinhedos da família
ao sul...
-
Ah, então ainda não sabes? - Aka fez sua melhor encenação de constrangimento
- Titia Aka não aguentou a viagem, penosa demais para alguém na idade
dela, e faleceu dias depois de chegar ao destino... Pobrezinha, sua
saúde estava muito frágil!
O
encontro estava sendo uma diversão surpreendente. Marconus sorria de
orelha a orelha por ter Aka pendurada firmemente em seu braço o tempo
todo, e por Methos não tentar nenhuma indireta maliciosa. E Aka, por
seu lado, estava orgulhosa da representação que faziam e da segurança
que sentia diante de Methos. As brincadeiras de teatro em Tarracina
afinal tinham servido para alguma coisa.
O
sucesso foi idêntico dias depois, quando Methos topou com Eksamus no
forum, resolvendo os problemas de suas heranças. Ambos comportaram-se
com tanta veracidade que seria impossível imaginar que os diálogos que
travavam não passavam de improvisação teatral, e mesmo os antigos conhecidos
foram ludibriados. Todos os Imortais pareciam diferentes de alguma forma,
fosse pelas roupas da moda ou pelos novos cortes de cabelo - apenas
Eksamus não abriu mão das longas madeixas que o acompanhavam há milênios.
Obviamente surgiram comentários de que eles eram parecidíssimos com
os "parentes", mas tudo era levado em tom de brincadeira, como se fosse
saudosismo de velhos relembrando os bons tempos do passado. Ninguém,
em sã consciência, atreveria-se a dizer que eles eram as mesmas pessoas
que moraram em Roma três décadas antes.
*************
Roma
- Península Itálica - 149 a.C.
Após
mais um ano afastado, Peter Gaicus enfim reuniu-se aos amigos na capital,
sob o nome também sugestivo de Peter Pridianus Gaicus (1). O grupo estava
novamente completo, mas ao mesmo tempo bem diferente - Aka não estava
mais casada com Methos e sim com Marconus, e ambos moravam com Eksamus,
enquanto Gaicus era quem agora dividia uma casa com Methos, como hóspede.
Às vezes todos se reuniam para rir das ironias do destino, provando
que não havia mágoas, e inventavam novos detalhes para suas histórias
atuais, usando e abusando da criatividade conjunta. Em geral tais encontros
descambavam para bebedeiras e debates acalorados sobre história e geografia,
muitas vezes recheados de diálogos aparentemente sem nexo, que estendiam-se
noite adentro.
-
Quero dizer que estive enfiado em Alexandria (2) e vou dizer, oras!
- resmungava Methos, já bem alto de vinho. Muitos andavam questionando
por que ele havia permanecido tanto tempo desaparecido, sem contato
com a família do "tio", com quem era tão parecido, e era preciso inventar
uma desculpa mais detalhada para seu passado - Fui criado desde pequeno
por um tutor, o que há de mal nisso? Se eu disser que meu tutor trabalhava
no Museu, e portanto me trancava lá com ele (3), tenho aí um motivo
para ter perdido o contato com a família e ainda justifico minha nova
profissão de importador de textos (4)!
-
De textos eu sei que entendes! - Gaicus não reprimiu um arroto - Tens
tantos em Bedriacum que matarias o faraó Filométor de inveja (5)! Como
se não bastasse o que escreves, teu amigo Aristeu ainda envia-te tantos
rolos que poderiam acusá-lo de estar saqueando Alexandria aos poucos!
-
Desgraçado, andaste fuçando pela casa depois que vim embora? - Methos
fez uma cara feia, mas depois riu alto - São só cartas, Aristeu não
perde a mania de escrever-me! Ele me fornecerá os textos que vou importar,
por isso dou-lhe tanta atenção!
-
Eu conheci um Aristeu em Alexandria antes de vir para Roma! - comentou
Marconus - Foi um dos sábios da biblioteca na época do Filadelfo, era
até amigo do faraó (6)!
-
Ah, mas esse aí já deve ter morrido! - zombou Gaicus, com a boca cheia
de uvas - O próprio Filadelfo já virou múmia faz tempo!
-
Não, Aristeu era Imortal! - Marconus retrucou - Ele passou um tempo
em Atenas antes de ir para Alexandria... Depois infelizmente perdemos
contato e ele nem deve estar mais por lá! Já contei-te isso, não, Aka?
Ela
assentiu com um gesto distraído e Methos de repente ficou pensativo.
-
Então ele era amigo de Demétrio Falereu? - sugeriu Eksamus, apanhando
um pêssego - Demétrio foi aluno de Aristóteles antes de governar Atenas
por dez anos, depois fugiu para Alexandria quando as coisas ficaram
ruins para ele...
-
Não, Aristeu contou-me que chegou a Alexandria antes da época do faraó
Sóter e só conheceu Demétrio depois, quando eu já estava com ele, na
corte do Filadelfo! - explicou Marconus - Lembro que Demétrio enfiou
na cabeça do Filadelfo a idéia de ampliar a biblioteca comprando os
manuscritos originais de Aristóteles, afinal Alexandre Magno também
foi aluno do grande filósofo, mas Aristeu preferia que traduzissem os
textos sagrados dos hebreus e deixassem Aristóteles em paz!
-
Que eu saiba, Aristóteles foi mestre de Alexandre, Teofrasto, Neleu
e Demétrio... - recitou Methos quase para si mesmo, puxando pela memória
- Com a ajuda de Demétrio no governo, Teofrasto sucedeu Aristóteles
na diretoria do Liceu de Atenas e herdou sua biblioteca, depois deixou
seus textos e os de Aristóteles em testamento para Neleu... Só que Demétrio
perdeu o poder e Neleu não foi escolhido para a diretoria do Liceu,
e sim um tal Estratão, ex-aluno de Teofrasto e ex-professor do faraó
Filadelfo. Daí Neleu ficou com raiva, mudou-se para a cidade de Scepsi
com os manuscritos herdados e o Liceu ficou desfalcado de suas obras
principais... Confuso, não?
-
Esses textos não sumiram nas mãos dos descendentes desse Neleu (7)?
- perguntou Aka, circulando entre os divãs para servir mais vinho a
todos, pois já tinham dispensado os criados horas antes - Hoje só devem
existir por aí algumas falsificações ou obras feitas de memória por
alunos!
-
Na época em que estive com Aristeu, Demétrio tanto insistiu que o Filadelfo
mandou emissários atrás de Neleu, mas ele enganou todo mundo e só vendeu
ao faraó textos sem importância que Aristóteles e Teofrasto tinham guardado,
não os que eles escreveram! - Marconus gargalhou - Aristeu ficou furioso
com todo aquele monte de lixo... Ele encontrou até um papiro seu no
meio daquilo e jogou fora, imaginem! Uma velharia inútil, uma lista
de plantas medicinais que ele escreveu para Sócrates em Atenas!
As
últimas palavras fizeram Eksamus pôr-se em pé num pulo enquanto Aka
empalidecia, trocando olhares com o irmão. Methos fitou-os com desconfiança,
enquanto Gaicus quase rolava do divã de tanto rir ao imaginar a peça
que Neleu pregou no faraó. Marconus percebeu a agitação dos amigos e
calou-se.
-
Nós vivemos em Atenas na época de Sócrates e não havia nenhum Imortal
chamado Aristeu por lá! - falou Aka sombriamente, voltando-se para encarar
Methos - O único na cidade além de nós era Emrys, que incentivou os
estudos de Sócrates... E tu deves saber que Emrys realmente conhecia
ervas medicinais!
-
Não pode ser! - Methos sentou-se aprumado no divã, olhando angustiado
para os irmãos - Então Emrys foi mestre de Sócrates, que foi mestre
de Platão, que por sua vez foi mestre de Aristóteles... E eles foram
passando suas bibliotecas completas uns para os outros! Se ainda havia
até um bilhete cretino dele para Sócrates entre as coisas que Neleu
herdou, poderia haver material muito mais perigoso entre os rolos principais
de Aristóteles! Isso é loucura!
-
Emrys sumiu de Atenas depois da guerra contra Esparta e perdemos contato!
- Eksamus caminhava pela sala a passos largos, excitado - Ele pode muito
bem ter ido parar em Alexandria, por que não?
-
Então Aristeu e Emrys são a mesma pessoa? - murmurou Marconus - Nunca
associei os dois porque ele jamais contou-me que conheceu outros Imortais
em Atenas!
Gaicus,
muito bêbado, não conseguiu acompanhar o raciocínio e permaneceu olhando
para o vazio, arrotando novamente. Methos começou a caminhar de um lado
para outro no mesmo passo de Eksamus, cruzando com ele várias vezes
através da sala:
-
Emrys sempre teve mania de escrever, ele poderia ter até um diário ou
coisa parecida... Se parte desse diário ou manuscritos dele para Sócrates
fossem passados aos alunos na íntegra, geração após geração, e isso
fosse parar em Alexandria, hoje cópias estariam espalhadas pelo mundo
todo! Emrys jamais aceitaria isso, seria um perigo até para nós se lá
houvesse algo sobre os Imortais! Oh, céus...
-
Mas Aristeu não queria que comprassem os textos de Neleu! - afirmou
Marconus com veemência - Acho que ele sabia que havia lá material dele
da época de Atenas! E talvez Demétrio até desconfiasse que havia algo
muito importante naqueles velhos rolos, por isso os cobiçava tanto...
Foi por isso que Aristeu inventou a história de traduzir os textos sagrados
dos hebreus, ele queria distrair Demétrio para outros assuntos!
-
Será que Neleu sabia o que tinha consigo, por isso não vendeu tudo?
- sugeriu Eksamus - Se nossas suposições são verdadeiras, devemos agradecer
aos deuses pelo sumiço desses textos!
-
Já viste pessoalmente esse Aristeu com quem te correspondes hoje, Methos?
- perguntou Aka, voltando a sentar-se - Poderia ser o mesmo que Titus
conheceu?
-
Nunca o vi, apenas sei que ele trabalha na biblioteca... Há cinco anos
encomendei uns rolos de Alexandria e esse Aristeu tomou a iniciativa
de escrever-me, pedindo maiores detalhes. Pensei que fosse um velho
copista, nunca imaginei que pudesse ser um de nós! Ficamos amigos à
distância, ele manda-me cartas enormes mesmo quando não respondo as
dele... - Methos parou, branco como cera, e encarou Eksamus do outro
lado da sala - Ele me chama de FILHO! EMRYS SEMPRE ME CHAMOU DE FILHO!
Desta
vez Gaicus caiu mesmo do divã, tamanho o susto que levou com os gritos
de Methos.
-
Emrys também chamava-nos assim! - murmurou Aka.
-
A mim também! - afirmou Marconus.
-
Ele deve ter desconfiado quando viu meu nome na encomenda de textos...
- o estômago de Methos dava voltas - Por isso começou a escrever-me
sem parar, tentando fazer amizade! Eu sentia pena lendo as cartas atenciosas
dele, imaginando um velho solitário e carente, perdido no meio de milhares
de estantes empoeiradas... Maldito sejas, Emrys! Se soubesses há quantos
séculos ando à tua procura, não me pregarias tal peça!
-
Vamos escrever-lhe imediatamente! - propôs Eksamus - Chama-o para Roma,
Methos, inventa qualquer desculpa! Não digas que estamos todos aqui,
afinal podemos estar enganados, mas se ele vier teremos certeza!
-
Eu pago os custos da viagem, pago qualquer despesa para trazê-lo! -
ofereceu Marconus com os olhos brilhantes - E se ele não vier, iremos
até lá! Mal posso esperar para revê-lo...
-
Alguém quer me explicar afinal quem é esse tal Emrys e por que o desgraçado
do Aristeu trancou-o em Alexandria? - exclamou Gaicus com raiva, meio
vesgo da bebida, ainda ajoelhado atrás do divã - Tudo isso é por causa
de Aristóteles? Oras, juro por todo o Olimpo grego que nunca lerei sequer
uma linha do que esse idiota escreveu, senão vão querer meter-me numa
biblioteca também...
-
Cala a boca, Gaicus! - gargalhou Eksamus, levantando imediatamente um
brinde - A Aristóteles e seus benditos manuscritos perdidos!
-
A Aristóteles! - exclamaram os outros em coro.
*************
Alexandria
- Egito - 149 a.C.
Cumprimentando
os porteiros com familiaridade, Emrys emergiu para o entardecer na grande
Via Canópica (8). Sair da friagem recendendo a bolor, velas e papiros
velhos do antigo museu para o ar quente e abafado da cidade era como
chocar-se contra uma densa muralha, e o Imortal aspirou com prazer o
cheiro de maresia. Dos depósitos em frente ao Museu surgiam alegres
grupos de carregadores, liberados do expediente nas docas junto ao Heptastádion
(9). Sorrindo, Emrys seguiu para leste pela impressionante avenida pavimentada
e mal relanceou os olhos pelo grande edifício de pedra da biblioteca,
praticamente anexo ao Museu. Estava mais preocupado em deliciar-se com
o perfume das flores exóticas que regurgitavam pelas praças, fontes
e chafarizes em todas as esquinas. Era final de primavera e o nível
das águas do Nilo já recomeçara a subir. No porto, a duas ou três quadras
dali, dezenas de navios chegavam todos os dias à espera dos longos barcos
que desciam a correnteza do magnífico rio, carregados com os cobiçados
produtos do interior do Egito.
Emrys
estava feliz por ter saído mais cedo do trabalho. Em dias normais, a
esta hora ainda estaria entretido na biblioteca, traduzindo manuscritos
importados dos confins do mundo, ou no museu, ensinando um grupo de
jovens a fazer caprichadas cópias de velhos tratados filosóficos. Hoje
não. Naquela noite Emrys prometera a si mesmo um jantar decente e depois
pretendia trancar-se no pequeno quarto de sua casinha simples, para
um enfadonho ritual secreto que realizava rigorosamente toda semana
- descolorir a barba e os cabelos. Em Alexandria, há 35 anos Emrys era
o grego Aristeu, um respeitável "diaskeuastés" (10) da Academia Real,
e para todos os efeitos seus cabelos tinham ficado grisalhos a serviço
do Faraó Ptolomeu VI Filométor. Na verdade, o Imortal usava há tempos
uma complicada tintura de ervas para esbranquiçar os cabelos naturalmente
negros e manter a aparência de um venerável ancião, caso contrário não
poderia ter ficado tanto tempo seguido na cidade.
Dobrando
à direita na terceira rua após a biblioteca, Emrys deu as costas ao
vento morno que soprava do Grande Porto e ao farol da ilha, eternamente
aceso. Diversos grupos passaram distraidamente pelo Imortal a caminho
do teatro, uma quadra depois da avenida. Emrys sabia qual peça estaria
sendo apresentada logo mais e deu de ombros, já tinha visto aquele espetáculo
dezenas de vezes antes. Na próxima esquina, atravessou a rua e deteve-se
como de costume para contemplar o colossal mausoléu de Alexandre Magno.
Passava por ali sempre que ia para casa, quando não era obrigado a dormir
no Museu, mas nunca deixara de dedicar ao menos um pensamento triste
à memória do grande imperador macedônio - ainda mais que, naquele dia,
completava-se mais um ano da morte de Alexandre (11).
Emrys
conhecera-o pessoalmente quando o macedônio estivera no Egito, séculos
antes, e desde que pusera os olhos nele soube que jamais o esqueceria.
Aos 24 anos Alexandre era belíssimo, atlético, destemido, herdeiro de
um grande rei e já conquistador de um poderoso império - mas ainda não
era Imortal. Emrys sentira de longe a tênue vibração que indicava o
poder latente naquele jovem, e fora isso o que levou-o a seguir Alexandre
desde o templo de Zeus-Amon, no distante oásis de Siva, até aquele ponto
abandonado da costa, onde hoje erguia-se a maior e mais bela cidade
do mundo.
Naquela
época, misturado aos soldados e serviçais da comitiva real, Emrys observou
o rapaz consultar seus generais e alguns mapas, subindo depois sozinho
a algumas rochas para observar o mar, perdido em conjecturas. Emrys
permanecera a uma distância prudente, admirando em silêncio a altiva
silhueta ainda em armadura de combate, capacete esquecido embaixo do
braço, reluzindo ao sol. Percebendo enfim que era observado, Alexandre
voltou-se subitamente e encarou Emrys nas rochas abaixo. Nem por um
momento o rapaz demonstrou sobressalto ou desconfiança, apenas curiosidade.
Alexandre não conhecia o medo ou a derrota, e não seria um simples sacerdote
que colocaria aquele jovem guerreiro na defensiva. Após alguns instantes
de suspense, Alexandre sorriu e fez um gesto a Emrys para que chegasse
mais perto.
-
Subi junto a mim, hebreu! - gritou o rapaz amistosamente - A vista daqui
é mais bela! És hebreu, não? Como te chamas?
-
Sou Emrys, majestade! Estou na comitiva desde o oásis de Siva!
-
Que diabos, com tal nome e essa barba só podias mesmo ser hebreu! -
Alexandre gargalhou com gosto - Mas não imagino o que um hebreu estaria
fazendo num templo egípcio naquela lonjura!
"Chorando
a perda de outro como tu!", Emrys quis responder, porém preferiu calar-se.
A lembrança do jovem aluno Imortal, decapitado durante uma estúpida
batalha contra os persas, ainda era-lhe muito sofrida.
Alexandre
permaneceu encarando-o com a curiosidade franca e quase arrogante dos
que nasceram para ser obedecidos - o nariz reto e afilado, petulante,
contrastava com os límpidos olhos esverdeados cheios de simpatia, enquanto
as sobrancelhas, muito afastadas, formavam um curioso arco que lhe dava
um ar de triste questionamento, de eterna pergunta não respondida. A
beleza infantil, mas de personalidade forte, naquele rosto inteligente
e ao mesmo tempo ingênuo, tocou profundamente o coração do velho Imortal.
Alexandre não fazia idéia de que seu corpo musculoso e inquieto ocultava
o segredo da vida eterna, porém sabia que seu nome já estava definitivamente
escrito na história e ambicionava ainda mais - queria ser o senhor do
mundo, soberano de todas as nações. O próprio oráculo de Zeus-Amon confirmara
a legitimidade de suas pretensões, e aquele rapaz que agora sentava-se
despreocupadamente sobre a rocha nua, colocando o brilhante capacete
de guerra entre as pernas cruzadas, era não só imperador da Grécia,
Trácia, Pérsia, Síria, Fenícia e Palestina, como também o mais novo
faraó do Egito.
No
fundo da alma, Emrys sentiu pena e admiração pelo futuro do jovem conquistador
de três continentes. Não imaginara que Filipe, rei da Macedônia, tinha
adotado aquele menino em segredo como seu primogênito e herdeiro, mas
era inegável que Alexandre suplantara os sonhos do falecido pai e, Emrys
pressentia, aquilo tinha sido apenas o começo.
-
Ora, hebreu, por que olhas-me assim? - Alexandre riu novamente com a
despreocupação dos poderosos, e sacudiu os longos cachos castanhos ao
fazer-lhe sinal com a cabeça para aproximar-se mais - Pareces triste...
Ou tens medo porque sou o faraó? Deixa de bobagem, quero perguntar-te
uma coisa... Posso chamar-te de Aristeu? Pelo menos é parecido com teu
nome e tem um som que consigo pronunciar! Pois bem, Aristeu, vês aquela
ilha ali adiante?
Emrys
sorriu diante da intimidade que o rapaz lhe concedia e olhou para onde
ele apontava. Era a ilha de Pharos.
-
Meus generais disseram-me que lá havia um porto nos tempos dos velhos
faraós - prosseguiu Alexandre - e que essa ilha é o ponto da costa do
Egito que fica mais próximo da minha pátria. Tu achas que é verdade?
-
Sim, majestade, os generais têm razão! - Emrys voltou a encarar o rapaz
- O porto hoje está abandonado e imprestável, como pode-se ver daqui,
mas se for reformado servirá de importante ligação entre ambos os territórios!
-
És esperto, Aristeu, gosto disso! - Alexandre apoiou os dois braços
esticados para trás e espichou as pernas, erguendo o nariz indecentemente
perfeito para farejar a brisa do mar - Pensei em mandar construir aqui
uma grande cidade, a capital deste meu novo reino, e reformarei o porto
para estimular o comércio entre meus súditos!
-
Construir uma cidade inteira a partir do nada demanda muitos anos de
trabalho! - o tom de Emrys foi propositalmente irônico - Estás disposto
a permanecer tanto tempo assim no Egito?
Alexandre
voltou-se para o sacerdote com uma alegre expressão de curiosidade,
parecendo satisfeito com seu novo conhecido.
-
És realmente muito esperto, meu bom Aristeu! Tens razão, ainda tenho
contas a acertar com meus inimigos na Pérsia... Mas o Egito precisa
saber que tem um novo rei, tão empreendedor quanto as múmias que construíram
as tais pirâmides! Pois vou dar-lhes algo com que ocupar-se em minha
ausência, o que achas disso?
-
Acho que já tens a cidade pronta em tua cabeça, meu filho, e mesmo que
eu discordasse de tuas idéias, minha opinião de nada valeria diante
de tua vontade!
-
Ah, Aristeu, és uma jóia! - Alexandre encarou Emrys com um sorriso sem
reservas - Além de esperto, és ousado falando assim comigo! Mas aprecio
muito tua franqueza, prefiro tua reprimenda sincera do que os falsos
aplausos de meus generais bajuladores! A partir de hoje trabalharás
para mim, entre meus conselheiros pessoais. Quero tuas opiniões sobre
a construção de... Alexandria! Gostas desse nome?
Emrys
fez uma careta cômica de desaprovação e Alexandre levantou-se rindo,
entregando sem cerimônias seu capacete ao sacerdote e principiando a
descida das rochas. Ambos voltaram ao acampamento tagarelando como velhos
amigos e Alexandre logo convocou seus generais, berrando para que trouxessem-lhe
algo com que desenhar um grande mapa. Como ninguém encontrasse sequer
um giz, o jovem não se fez de rogado e, perfurando um saco de farinha
com a própria adaga, começou a traçar no chão, com o pó branco, a planta
da futura capital do Egito.
Em
silêncio, Emrys permaneceu observando as expressões de dúvida ou ironia
dos generais e soldados, enquanto Alexandre, a testa franzida de concentração,
traçava um perfeito cruzamento de retas e mais retas delimitadas pelo
que parecia ser o contorno irregular da região. Alguns soldados cochichavam
admirados, outros bocejaram de tédio. Emrys já tinha visto Alexandre
brincando, rolando pelo chão, jogando e bebendo com esses homens, por
isso muitos deles ainda enxergavam no jovem rei uma criança mimada e
voluntariosa - o excesso de intimidade não lhes permitia entender o
astuto e manipulador general que tinham diante de si.
-
Aqui passa o Nilo e aqui é a ilha! - começou Alexandre, pulando sobre
os riscos de farinha para apontar dois traços distantes em seu mapa
- Estas serão as muralhas, e neste ponto abriremos um canal a partir
do rio. Aqui e ali abriremos canais menores que atravessarão a cidade
até o mar, para permitir o abastecimento de água e a passagem de barcos
que vierem pelo Nilo até o porto, que construiremos nesta área. Daquele
lado quero um grande bairro só para estrangeiros, principalmente os
hebreus como meu amigo Aristeu, porque na minha capital virão morar
homens de todas as nações que conquistarei e todos serão tratados como
cidadãos! Neste lado ergueremos os palácios e dependências da corte
real, aqui será o hipódromo...
-
Mestre Aristeu! Mestre Aristeu!
A
sutil vibração de alarme interior arrancou Emrys de suas vívidas lembranças.
Era seu discípulo Filiro, um comprido rapazola de onze anos, que corria
em seu encalço com um rolo de papiro nas mãos. Um dia Filiro também
seria Imortal, se os deuses assim resolvessem, mas por enquanto o menino
era apenas um dos estudantes residentes do Museu que ajudavam Emrys
no serviço de catalogação de textos. Parando de sopetão, Filiro estendeu
o rolo de papiro com uma mesura:
-
É uma carta, mestre! Acabou de chegar, daquele patrício romano, e imaginei
que gostarias de recebê-la ainda hoje!
-
Agradeço tua gentileza, meu filho! - Emrys puxou-o para um abraço carinhoso
- Agora vá, já está na hora do jantar e devem estar esperando-te no
refeitório! E não durmas tarde, hein?
Filiro
disparou de volta ao Museu, enquanto Emrys olhava fixamente para o lacre
do rolo em suas mãos. Reconhecia as iniciais de Methos Adamantinus Remus,
o suposto patrício romano com quem correspondia-se regularmente. Emrys
sabia muito bem de quem se tratava, desconfiara logo que lera o curioso
nome num pedido de cópias que caíra por acaso em suas mãos na biblioteca.
Com o tempo e as cartas trocadas, teve certeza - era o mesmo Methos,
o Imortal que socorrera há milênios no deserto. Methos nunca deixou
escapar nas cartas sua verdadeira identidade, nem tampouco desconfiara
de Aristeu, contudo ao segurar aquele rolo Emrys teve uma de suas premonições
e sentiu que sua vida estava prestes a mudar. Rompendo enfim o lacre
e lendo rapidamente a carta, não pôde deixar de sorrir. Methos dizia
ter encontrado alguns vetustos manuscritos que poderiam ser de Aristóteles,
e solicitava desesperadamente a ida de Aristeu a Roma para confirmar
a autenticidade dos documentos, tendo inclusive providenciado sua passagem
num navio. Enrolando novamente a carta, Emrys voltou-se mais uma vez
para o mausoléu de Alexandre, que sequer viu as primeiras obras de sua
capital, partindo para a Ásia e impedindo o amigo de segui-lo.
-
Preciso de alguém de confiança aqui, Aristeu! - declarara o jovem faraó,
com seu típico autoritarismo e destemida intimidade - Não um de meus
generais, que são homens afeitos às armas, mas sim alguém das letras
e da religião, como tu! Eles não conseguiriam esperar esta cidade ser
construída sabendo que estou longe nas batalhas, nem teriam paciência
para lidar com arquitetos e pedreiros! Gostei de ti desde que conversamos
pela primeira vez e sinto que és sincero, confio mesmo em ti, por isso
não quero arrastar-te para o meio das guerras para as quais nasci...
Fica, Aristeu, e faze oferendas nos templos, para que eu vença meus
inimigos e volte logo para abraçar-te!
Emrys
chorou ao despedir-se de Alexandre, pressentindo que nunca mais o veria.
Com efeito, o imperador praticamente enlouqueceu quando voltava do distante
Oriente, numa perigosíssima e cansativa jornada em que milhares de seus
homens morreram de fome, sede ou doença. Estacionando em Susa, na Mesopotâmia,
Alexandre precisou de meses para recuperar a saúde abalada. Um ano depois,
entretanto, quando começava a sonhar com novas conquistas, o belo macedônio
caiu vítima de uma terrível febre, falecendo onze dias depois. Ironicamente,
não tinha sido uma morte violenta e rápida em batalha, que transformaria-o
finalmente em Imortal, mas uma lenta agonia que aniquilou qualquer possibilidade
de ressurreição. As esposas de Alexandre alegaram ter engravidado dele
pouco antes de sua morte, porém Emrys sabia que as crianças não passavam
de filhos de amantes das princesas e talvez os próprios generais do
rei também o suspeitassem, pois preferiram dividir o império entre si
e ignorar os herdeiros do trono.
Conforme
prometera, Emrys ficou para ver Alexandria ser concluída por Ptolomeu
Sóter e, ainda sob o nome de Aristeu e tido como hebreu, conforme o
macedônio estipulara tão arbitrariamente, foi depois trabalhar na biblioteca
de Ptolomeu Filadelfo. Após muitas décadas usando o truque de esbranquiçar
os cabelos, como agora, forjou a própria morte para poder sair passeando
pelo Egito. Só voltara à cidade por curiosidade, mas já estava na hora
de partir outra vez e o convite de Methos vinha bem a calhar. Filiro
ainda era muito jovem, Emrys sabia que não poderia continuar em Alexandria
para esperá-lo tornar-se Imortal. Era até possível que Filiro morresse
velho e tranquilo entre seus livros, e talvez fosse melhor assim...
Lançando
um olhar de despedida ao mausoléu do famoso amigo, Emrys retomou o caminho
para casa com novo ânimo. Estava com fome e precisava arrumar logo suas
coisas para a viagem a Roma. E que se danassem as malditas tinturas!
Emrys gargalhou, feliz por poder começar mais uma vida nova e ter seus
cabelos negros de volta ao normal.
*************
Notas
explicativas:
1
- Todos os novos nomes dos Imortais homens apresentam um duplo sentido
em latim: Pridianus é um adjetivo que significa "da véspera, do dia
anterior". Adamantinus, adotado por Methos, quer dizer "o mesmo que
o anterior". Primus, de Eksamat, significa "primeiro, número um". E
Praevius (ou Prævius), escolhido por Marconus, significa "prévio" ou
"precursor". Todos, enfim, teriam feito trocadilhos com seus nomes,
indicando que eram as mesmas pessoas de antes.
2
- Alexandria foi projetada por Alexandre Magno da Macedônia em 332 a.C.,
na costa egípcia em frente à ilha de Pharos (ou Faro). Alexandre traçou
o esboço da planta da cidade, depois detalhada pelo arquiteto Dinocrate,
mas jamais voltou ao local. Quando o império foi dividido entre seus
generais devido a disputas sucessórias, Ptolomeu ficou com o Egito,
conseguiu trazer os restos mortais de Alexandre para sepultá-los em
Mênfis e depois autoproclamou-se o próximo faraó em 305 a.C., sob o
nome de Ptolomeu I Sóter (ou Sotero), fundador da dinastia dos lágidas.
Ptolomeu I concluiu as obras de Alexandria, onde mandou construir a
famosa Biblioteca Real e um novo mausoléu para Alexandre.
3
- Ptolomeu II Filadelfo, filho de Ptolomeu I Sóter, fundou o Museu de
Alexandria, uma academia onde os sábios eram hospedados por conta do
faraó para que trabalhassem lecionando ou desenvolvendo trabalhos culturais.
Esses mestres praticamente passavam a vida toda enfurnados nas dependências
do Museu ou da biblioteca, que ampliaram com textos copiados, traduzidos
ou escritos por eles mesmos.
4
- Com o tempo e o incentivo dos faraós lágidas, que importavam textos
e sábios de todas as nações, a biblioteca de Alexandria tornou-se uma
das maiores do mundo na época. As cópias de seu material eram exportadas
para vários lugares e acabou virando moda, entre os governantes ou homens
ricos, manter a própria biblioteca como símbolo de status. Tal costume
também foi adotado pelo patriciado romano.
5
- Ptolomeu VI Filométor, descendente do Filadelfo, foi faraó do Egito
de 181 a 145 a.C. e, portanto, proprietário da biblioteca de Alexandria.
6
- Houve mesmo um bibliotecário de nome Aristeu na corte de Ptolomeu
II Filadelfo. Figura misteriosa e com fortes contatos no antigo bairro
de Brúquion, onde viviam muitos estrangeiros, esse Aristeu seria talvez
um hebreu alexandrino helenizado. Suas cartas a um suposto irmão chamado
Filócrates revelam conversas entre Demétrio Falereu e o faraó e descrevem
a tradução dos textos sagrados hebraicos para o grego, feita por setenta
sábios trazidos da Hebréia. Essa versão, chamada "Septuaginta", depois
serviu de base para o Antigo Testamento bíblico.
7
- Por toda a vida Neleu recusou-se a vender os textos originais dos
mestres para as grandes bibliotecas. Seus herdeiros enterraram os rolos
sob a casa para protegê-los de roubo e os textos, muito danificados,
só foram recuperados no século I a.C., porém voltaram a desaparecer
para sempre décadas depois.
8
- A Via Canópica, atualmente conhecida como Rua Fuad, era uma das duas
avenidas principais de Alexandria, cortando a cidade horizontalmente
e cruzando em ângulo absolutamente reto com a outra grande avenida principal.
Ambas tinham em torno de 70 cúbitos (cada cúbito grego media 45 cm,
o mesmo que o côvado egípcio) ou cerca de 30 metros de largura cada
uma, e eram as avenidas mais largas já vistas até então.
9
- Heptastádion era o dique que unia Alexandria à ilha de Pharos e dividia
o mar em frente à cidade em dois grandes portos. O nome significa literalmente
"de sete estádios", sendo que estádio era uma medida grega equivalente
a cerca de 180 metros quadrados.
10
- Diaskeuastés em grego significa "curador de textos", ou seja, bibliotecário.
11
- Alexandre Magno faleceu na Babilônia em junho de 323 a.C., aos 33 anos,
e esteve no Egito por apenas quatro meses, em 332 a.C., quando foi até
o templo de Zeus-Amon, a oeste do Nilo, para receber a confirmação do
oráculo sobre sua origem supostamente divina e conquistar assim a coroa
de faraó.
