Roma e Bedriacum - Península Itálica - 179 a 176 a.C.
Enquanto
Methos se instalava em Bedriacum, Eksamat permaneceu com ele o tempo
todo, apesar do desejo de voltar logo para o lado da irmã. Methos precisava
de alguém de confiança, além de Lívius, para testemunhar por ele e garantir
seu novo disfarce. Por ironia, esse alguém era justamente o ex-cunhado
que antagonizara por tantos anos e, mesmo sem confessar isso abertamente,
Methos foi obrigado a reconhecer o quanto tinha sido injusto com Eksamat.
A
fim de evitar um possível reconhecimento pelo censor Valerius e depois
pelo novo censor do patriciado, Marcus Aemilius (1), Methos preferiu
mudar de nome e passar-se por ex-escravo. Assumiu assim o status secundário
de plebeu e conseguiu enganar o censor da plebe, Marcus Fulvius (2),
com maestria. Para escapar a qualquer dúvida que ainda pudesse surgir
sobre sua morte, Methos pediu que Lívius transferisse suas propriedades
primeiro para Eksamat e, só após um ano, com o cabelo crescido, retomou
posse de tudo. Lívius, que a esta altura já tinha algum capital próprio,
acabou tornando-se sócio do ex-patrão em vários negócios.
Em
Roma, Aka herdou a casa onde morava com Methos e tudo o que lhe pertencia
na cidade, já que Eksamat enviara relatos fantasiosos de que os supostos
parentes do cunhado ainda não tinham sido encontrados. A herança não
era grande, afinal Methos tinha se desfeito de quase tudo enquanto planejava
fugir, mas ela também não precisava daquilo - ainda tinha sua própria
fortuna, gerenciada pelo irmão, e pretendia devolver o dinheiro a Methos
na primeira oportunidade. Assim que vendeu a casa e os móveis e libertou
os escravos, que lhe tinham sido sempre dedicados, Aka voltou a morar
no palacete de Eksamat, levando consigo apenas a grande arca de cedro
que servira de cofre ao ex-marido. Titus Marconus e Peter Gaicus revezavam-se
em viagens rápidas ao norte, para dar apoio a Methos, ou aos vinhedos
de Aka e Eksamat ao sul, certificando-se de que tudo corria bem. Dos
dois amigos, o mais chegado a Aka era Marconus. Era ele quem geralmente
ficava em Roma, visitando-a com frequência para transmitir ou receber
notícias de Bedriacum e para ajudá-la no que fosse preciso.
Quando
Eksamat conseguiu enfim regressar, tendo deixado Methos bem estabelecido
no norte, Marconus voltou a ser seu companheiro constante e acabou indo
morar definitivamente com os irmãos. Os dois homens por vezes varavam
noites conversando, enquanto Aka ocupava-se bordando ou tecendo, ouvindo-os
divagar. Gaicus em geral evitava tais conversas porque achava-as entediantes
e acabava dormindo no meio do assunto. Por isso, cada vez mais amiúde
ele viajava para Bedriacum, onde caía na farra com Methos, como nos
velhos tempos, até que enfim mudou-se para lá, no intuito de também
gerar uma nova identidade e voltar a Roma depois de algumas décadas.
Com
o passar dos anos, Eksamat notou que Marconus estava interessando-se
por Aka, apesar de nunca tocar no assunto e de ela aparentemente não
lhe dedicar nada além de uma grande amizade. Ainda assim, Marconus de
vez em quando distraía-se observando-a trabalhar em silêncio num canto
do tablinum, e sempre tentava chamá-la à conversa perguntando sua opinião
sobre este ou aquele tema. Eksamat não sabia se aquilo já vinha desde
a época de Methos ou se tinha surgido agora que Aka estava novamente,
para todos os efeitos, disponível. Ainda sofrendo no íntimo com a deserção
de Methos, Aka permaneceu vários meses um tanto afastada do mundo, preferindo
sair pouco de casa, e Eksamat duvidava que ela pudesse interessar-se
por outro homem tão cedo. Contudo, apreciava a companhia de Titus e
adoraria se acaso ele estivesse disposto a conquistar sua irmã.
Mesmo
ainda evitando revelar seu passado distante, os irmãos contavam a Marconus
detalhes que nunca confessaram a Methos, que sempre os manteve na defensiva
com seus próprios segredos. Ao contrário dele, Marconus não fazia muitas
perguntas e revelava praticamente tudo de si, parecendo, como os irmãos,
apreciar a possibilidade de abrir a alma para outros de sua espécie.
Titus Marconus era um homem honesto, leal aos amigos, responsável, inteligente,
divertido, culto e ponderado. Como Imortal, já tinha cortado várias
cabeças no passado, mas preferia a convivência pacífica e também tivera
alguns discípulos de boa índole. Não era uma criatura de grandes ambições
como Imhotep, que fez questão de deixar sua marca no mundo, e nem era
um santo como Emrys, que vivia para salvar e amar o próximo, porém era
um Imortal com um passado de que poderia se orgulhar e que sem dúvida
teria um excelente futuro. Na opinião de Eksamat, Marconus seria um
companheiro ideal para Aka, ainda mais depois do que ela passara recentemente,
mas preferiu deixar que os fatos seguissem seu curso normal. Ainda estava
arrependido pelo que fizera à irmã e a Methos, praticamente forçando-os
a casar sem ao menos conhecerem-se direito, e decidiu não interferir
mais na vida de ninguém, mesmo porque não tinha certeza do que ia no
coração do amigo. O que quer que Marconus sentisse, pelo jeito resolvera
guardar apenas para si.
*************
Roma e Tarracina - Península Itálica - 176 a 174 a.C.
Mesmo
morando sempre de favor na casa dos outros em Roma, Marconus tinha seus
próprios negócios e algumas propriedades espalhadas pela península,
além de uma grande e rentável olaria na Sicília, gerenciada por um filho
adotivo já idoso, que sabia de sua Imortalidade. Se Marconus não morava
sozinho, era por pura preguiça. E quando ele sugeriu a Eksamat que comprasse
uma casa de veraneio vizinha à sua em Tarracina (3), como uma forma
de investimento, não imaginava que acabaria depois mudando-se para lá.
Tarracina
era uma pequena cidade costeira normal, com seus armazéns, barcos de
pesca e o fluxo constante de mercadores, mas também lucrava durante
o verão, quando muitos patrícios abastados afluíam às suas praias, e
Marconus fizera bons negócios antes, alugando sua propriedade aos turistas.
Aka adorou as casas, a região, o cheiro de mar, a tranquilidade e, acima
de tudo, a possibilidade de ausentar-se da capital. Antes, Methos sempre
inventava desculpas para não levá-la junto nas viagens. Agora, ela tinha
novamente liberdade para ir aonde quisesse, e Tarracina era o refúgio
ideal para fugir da sujeira e do barulho de uma Roma que não parava
de crescer.
Juntos,
os três Imortais começaram a passar semanas e depois meses seguidos
por lá, mesmo fora da temporada de maior movimento, distraindo-se em
passeios, velejando junto à costa em barcos de recreio, nadando e até
pescando. Quando anoitecia ou chovia, os três permaneciam dentro de
casa lendo uns para os outros em voz alta, conversando ou inventando
brincadeiras. Eksamat às vezes tocava lira ou alaúde para que Marconus
e Aka cantassem, meio desafinados é verdade, ou então os três encenavam
trechos de conhecidas peças de teatro, que invariavelmente acabavam
em piadas e risos. Aka exigia ausentar-se de Roma com uma frequência
cada vez maior, até que finalmente eles mudaram-se definitivamente para
suas casas em Tarracina.
E
Marconus estava mesmo interessado em Aka, apesar de fazer de tudo para
não demonstrá-lo. Tinha se apaixonado sem querer, durante a confusão
da fuga de Methos - ficara admirado com a força e a lealdade dela ao
ajudar o ex-marido, e reconheceu que ali havia uma mulher interessante
que nunca tivera chance de conhecer direito. Durante o ano em que Eksamat
permanecera no norte, Marconus estreitou os laços de amizade com Aka
e, quando foi morar na mesma casa que ela, acabou definitivamente enamorado.
Mesmo sabendo que Aka ainda sofria por Methos, imaginava que, quando
o trauma passasse, talvez ela lhe desse uma chance, e resolvera esperar
pacientemente a hora certa.
Quando
ainda moravam na capital, com a intenção de atrair a atenção da amada,
Marconus treinava técnicas de combate com Eksamat, convidando Aka a
juntar-se a eles sempre que possível. Os rapazes duelavam como gladiadores
e Aka adorava vê-los engalfinhando-se pelos jardins, alegres, porém
tinha medo do que os escravos poderiam falar e só participava dos treinos
em Tarracina, quando podia ficar sozinha com eles na praia ou em algum
bosque afastado da cidade. E Aka duelava de igual para igual com os
dois, surpreendendo Marconus com sua rapidez e agilidade.
Conhecendo
a capacidade da irmã, Eksamat ria do espanto do amigo, que dizia nunca
ter enfrentado uma mulher Imortal antes e tinha certos pudores em atacar
Aka. Ela enfurecia-se ao perceber que ele a poupava e provocava-o até
vê-lo reagir com vontade. O fato de Marconus usar algumas técnicas mais
brutais, típicas das arenas romanas, estimulava-a a aprender seus golpes
e a defender-se deles a despeito de seu tamanho e sua força inferiores.
O combate a três também era ótimo para Aka, já que desde a morte de
Imhotep ela só podia treinar para valer com Eksamat. Contra os dois
ela nem sempre levava a melhor, mas desenvolveu rapidamente suas habilidades
com novas armas, como machados, correntes e maças. Mesmo tendo de início
algum preconceito, Marconus aprendeu a respeitá-la como oponente e isso
só serviu para aumentar a atração que sentia por ela.
Foi
também por amor que Titus Marconus enfim revelou seu talento para a
pintura, e passou horas agradáveis desenhando os irmãos em casa ou nos
mais diversos cenários de Tarracina. Aka insistiu para que ele depois
copiasse seus belos esboços em enormes afrescos nas paredes das duas
casas, inclusive ajudando-o a preparar as tintas e observando-o trabalhar
com orgulho. Marconus vivia mais na casa dela do que na sua e caprichava
na pintura só para ver a admiração de Aka por seu trabalho. Eksamat
também ajudava-o de vez em quando, mas seu passatempo favorito era sair
de barco sozinho, relembrando seus séculos como capitão de navio. De
vez em quando ele fazia viagens curtas a cidades vizinhas, onde arrumou
amantes, voltando bronzeado e feliz, porém nada levava a crer que Eksamat
voltaria a casar-se.
Raramente
Peter Gaicus aparecia para visitá-los, pois achava a vida deles em Tarracina
muito pacata. Aka evitava ficar por perto quando Gaicus desandava a
contar as aventuras do norte para não ouvir falar de Methos. Não tinha
raiva do ex-marido, afinal o casamento tinha sido um fracasso apesar
da paixão e era óbvio que um dia os dois teriam que afastar-se. O que
ainda deixava-a chateada era que ele nunca mais a procurou, apenas mandava
cartas esporádicas, quase sempre endereçadas a Eksamat, para garantir-lhes
que estava prosperando em Bedriacum e informar-se se ela estava bem.
Nem uma palavra de saudade, nem uma demonstração de sentimentalismo,
apenas formalidade. Essa aparente indiferença de Methos fazia-a sentir-se
como um episódio insignificante na vida dele, e foi necessário um bom
tempo para apagar as lembranças tristes.
Gaicus
nunca se deu conta dessa cisma, porém Marconus reparou e passou anos
imaginando quando ela finalmente se livraria do fantasma de Methos.
Eksamat notava o dilema do amigo e lutava consigo mesmo para não tocar
no assunto. Quando Aka percebia que o irmão estava escondendo-lhe algo,
Eksamat inventava pretextos para sair velejando ou viajava sozinho para
os vinhedos ao sul, a fim de conferir seus negócios. Mesmo sabendo que
Aka não acreditava em suas desculpas e irritava-se com suas fugas, Eksamat
imaginava que assim Marconus acabaria tomando coragem para declarar-se
a Aka e torcia para um dia, ao regressar, finalmente encontrá-los namorando.
Sem
perceber, Aka aos poucos também interessou-se por Marconus. A presença
constante e tranquila dele era-lhe agradável e ela admirava seu talento
como pintor, seu bom-humor, sua inteligência e experiência de luta.
Marconus tinha-lhe passado praticamente despercebido como homem no início
e só convivendo com ele todos os dias foi que descobriu-o como indivíduo
e não um apêndice do ex-marido que sobrara em sua vida. Aka reconhecia
que nunca tivera uma intimidade mental verdadeira com Methos, como tivera
com Imhotep. Obviamente ela e Methos conversavam bastante e concordavam
na maioria dos assuntos, mas eram conversas superficiais, não sobre
seus passados, seus sonhos para o futuro ou suas desilusões com a vida
eterna. Em contrapartida, era fácil para ela abrir-se com Marconus.
Até suas conversas sobre o cotidiano eram profundas e filosóficas,
e Aka mais de uma vez tinha admirado secretamente a bela compleição
física do amigo, vendo-o quase desnudo enquanto lutavam. Mesmo assim,
não passou-lhe pela cabeça tentar alguma coisa, ainda mais porque ele
ainda era muito amigo de Methos - soava-lhe impossível que Titus se
interessasse por ela como mulher, ao menos enquanto a lembrança de seu
ex-marido continuasse pairando sobre eles como uma sombra escura.
Com
o passar dos anos a atração de Aka por Titus Marconus aumentou, só que
ele sempre a respeitava tanto que ela não sabia como tomar qualquer
iniciativa. Mais de uma vez ensaiara uma aproximação, mas tinha receio
de ofendê-lo tomando liberdades exageradas e estragar a amizade. Pedir
ajuda a Eksamat também estava fora de questão - tinha certeza de que
o irmão já sabia o que estava acontecendo, porém ele sempre evitava
falar de Marconus e Aka notou que desta vez teria que levar as coisas
a seu modo. Contudo, já tinha feito insinuações e Marconus permanecera
aparentemente inalterado, no máximo corando um pouco e disfarçando em
seguida, deixando-a sem graça.
E,
se dependesse de Marconus, talvez o romance nunca se efetivaria. Ele
nunca foi do tipo impulsivo com as mulheres, como Gaicus ou Methos,
nem um namorador como Eksamat. Inseguro, às vezes Marconus notava que
Aka estava flertando com ele, mas tinha medo de estar entendendo tudo
errado e fazia-se de bobo. Preferia isso do que dar um vexame e perdê-la
de vez. Marconus já entendia Methos o suficiente para saber que ele
não reagiria negativamente se soubesse que a ex-esposa estava de caso
com um de seus melhores amigos, mesmo que no fundo talvez ficasse com
ciúmes - quando Methos abandonava uma mulher, era definitivo. Mas e
Aka, ela não se sentiria ultrajada se ele tentasse uma aproximação agora,
após tantos anos de amizade aparentemente inocente? Pensando bem, eles
ainda tinham a eternidade pela frente, o que custaria esperar um pouco
mais até ter certeza de que ela estava mesmo interessada nele?
*************
Tarracina, Península Itálica - 173 a.C.
-
Cansei, está muito quente hoje! - reclamou Eksamat, jogando-se de costas
na grama, ofegante e com os cabelos úmidos grudados no rosto - O sol
está insuportável!
A
poucos passos de onde ele estava estirado, Aka e Marconus encaravam-se
em silêncio. Cada um portava um escudo de bronze circular e um gládio,
além de protetores de couro nos braços, no peito e nas pernas. Livrando-se
das próprias armas, Eksamat ergueu-se nos cotovelos e ficou observando-os.
Com o cabelo preso numa trança desgrenhada, Aka já tinha diversos arranhões
com sangue pelo corpo, mas continuava firme e decidida. Rodeando-a com
cautela, Marconus também apresentava alguns pequenos cortes e até rasgos
na túnica, porém parecia cansado e seus movimentos estavam ficando mais
lentos. A tática de Aka era manter-se na defensiva, esperando-o atacar
para desviar e fugir, e Marconus, sendo maior e mais pesado, acabava
perdendo o fôlego depressa. Depois de uma nova e fracassada tentativa
de atingi-la, Marconus também entregou os pontos e caiu na grama ao
lado do amigo, deixando que Aka cantasse sua vitória.
-
Essa pestinha é terrível! - comentou Marconus, aceitando o cantil de
couro com água que Eksamat lhe ofereceu - Com quem ela aprendeu essas
coisas? É frustrante, ainda mais nesse calor! Eu me sinto caçando um
frango selvagem num matagal, debaixo de chuva... E ela ainda debocha!
-
Quem quer duelar comigo com adagas? - perguntou Aka, aproximando-se
e largando o escudo e o gládio ao lado deles - Algum dos dois ainda
aguenta outra luta?
-
Eu vou para casa tomar um banho! - decidiu Eksamat, espreguiçando-se
- Estou cansado e com calor, talvez ainda dê um mergulho no mar antes...
Fiquem e divirtam-se!
-
Tudo bem, vamos tentar as adagas! - aceitou Marconus, diante do olhar
desafiador de Aka - Se achas que podes vencer-me desta vez, verás que
ainda tenho muito fôlego!
Eksamat
recolheu suas coisas e retornou sozinho para a cidade, enquanto Aka
sorria e fitava Marconus nos olhos, esperando que ele fizesse o primeiro
movimento. Na luta com adagas ele levava a melhor quando conseguia engalfinhar-se
com ela, jogando com seu peso e sua força, porém o difícil era aproximar-se
o suficiente para atracar-se com Aka. E ela adorava lutar com ele com
adagas, pois sabia que Marconus uma hora ou outra tentaria agarrá-la.
Imaginava que um dia ele enfim a tomaria nos braços impulsivamente e
a beijaria com paixão... Sonhos bobos de adolescente apaixonada, Aka
sabia, e na idade dela isso parecia até ridículo, mas continuava esperando
em vão que ele desse o primeiro passo para conquistá-la.
Após
alguns ataques frustrados, Marconus avançou com uma sequência rápida
de golpes, forçando-a a recuar. Sem perceber onde pisava, Aka escorregou
no odre de água perdido na grama e caiu de costas bem no momento em
que Marconus dava um novo bote. Tropeçando nela, Marconus caiu também
e por pouco não atingiu-a em cheio no peito com a adaga.
-
Perdão! - pediu ele, branco de susto, estatelado por cima dela - Machuquei-te?
-
A culpa foi minha... - Aka fez uma careta - Tropecei em alguma coisa...
Mas estou bem!
Marconus
rolou rapidamente para o lado. Ainda deitada de costas, Aka ficou de
olhos fechados por um minuto, limpando o suor da testa com as mãos.
Sentir a respiração ofengante de Marconus junto a seu rosto, mesmo que
por acidente, tinha deixado-a zonza. Após alguns instantes, abriu os
olhos e viu que ele fitava-a com admiração escancarada. Pego em flagrante,
Marconus desviou o olhar e corou violentamente. Erguendo-se, ele começou
a recolher suas armas em silêncio. Também sem dizer uma palavra, Aka
espiava-o de rabo de olho, retirando os protetores de couro e guardando-os
num saco de estopa. Devia ter feito alguma coisa quando ele estava tão
perto, qualquer coisa! Por que ele nunca tomava a iniciativa? Aquilo
era irritante! Se ele ao menos abrisse uma brecha...
-
Não gosto quando ficas assim tão quieto! - provocou ela, enfiando o
vestido por sobre a túnica curta de homem.
Marconus
encarou-a por alguns instantes, tentando encontrar palavras para confessar
seus sentimentos, mas pela milésima vez não conseguiu. A forma como
ele desviou o olhar novamente, ruborizado, fizeram o coração de Aka
disparar. Seu estômago contraiu-se dolorosamente, na expectativa, mas
Marconus virou-se e começou a caminhar sozinho para a cidade. Aka sentiu
uma angústia enorme pela oportunidade perdida e correu estabanadamente
atrás dele com sua sacola. Não suportava mais aquele suspense, tinha
pesadelos até, e se não tomasse uma atitude acabaria enlouquecendo!
Ia ser hoje ou nunca!
-
Espera, Titus! - pediu timidamente ao alcançá-lo, puxando-o pelo cotovelo
- Queria conversar contigo!
-
Vamos para casa! - pediu Marconus, arrepiado com as emoções tumultuadas
que via no rosto dela - Já está ficando tarde, Eksamat acabará...
-
Titus, eu queria... - Aka sentia-se a ponto de gritar, mas não encontrava
as palavras certas - Diabos! Há muito tempo queria dizer-te que eu...
Titus, é tão difícil para mim!
-
Aka, por favor! - Marconus sentiu o que estava por vir e teve medo -
Depois vais arrepender-te do que disseres e... E eu...
Marconus
não acreditou no que estava acontecendo quando ela pulou em seu pescoço,
erguendo-se na ponta dos pés para beijá-lo. Aka tremia inteira, porém
não afastou-se quando ele tentou empurrá-la gentilmente, ainda cheio
de receios. Para Marconus parecia que, após tanto tempo de espera infrutífera,
tudo estivesse acontecendo depressa demais, e temia que um dos dois
acabasse magoado. Tinha imaginado esse momento de forma tão diferente!
-
Não é certo! - murmurou ele, ofegante, tentando reagir - Não quero estragar
tudo...
Mas
Aka agarrou-se firmemente a ele, com aquela força que sempre o surpreendia,
e Marconus não pôde mais resistir, abraçando-a e beijando-a com paixão.
Logo derrubou-a na grama sem pensar no que fazia, arrancando-lhe as
roupas em silêncio e amando-a com todo o fogo de anos e anos de espera.
Quando caiu em si, Marconus sentiu-se culpado, imaginando que tinha
passado dos limites. Quis fugir, mas Aka rolou sobre ele e prendeu-o
ao chão, sussurrando:
-
Não podes deixar-me agora, não depois disso tudo!
-
Não devíamos ter ido tão longe, foi loucura...
-
Titus, eu te amo! Esperei tanto que isso acontecesse, mas nunca me deste
uma chance!
Aka
fitava-o como se nunca o tivesse visto, parecendo que tentava decorar
seu rosto. Marconus não entendia nada, sentia apenas que era feliz e,
se o mundo tivesse acabado naquele momento, teria morrido com uma alegria
imensa. Decidiu que, se um dia fosse necessário, daria a vida por aquela
mulher sem pensar duas vezes, mesmo que ela não lhe pedisse isso. Como
Methos fora idiota ao abandoná-la!
Depois
de longos instantes admirando-se mutuamente, entre beijos apaixonados,
Aka sentiu que era hora de sacudir o encanto e voltar ao mundo real:
-
Não tens fome? Teremos carneiro hoje para o almoço!
-
Eu acho que seria capaz de devorar um boi inteiro! - Marconus riu, beijando-a
mais uma vez - Vamos antes que Eksamat venha procurar-nos e encontre-nos
nesse estado!
Os
dois vestiram-se às pressas e voltaram para a cidade abraçados, parando
aqui e ali para um último beijo afogueado. Foi com cara de culpa que
enfrentaram o olhar curioso que Eksamat lhes dirigiu, chegando da praia
no mesmo momento que eles viravam a esquina da rua. Marconus foi tomar
banho em sua própria casa, vermelho de vergonha. Eksamat nem precisou
perguntar, era evidente o que havia acontecido - Aka ainda tinha grama
no vestido e passou por ele na porta evitando encará-lo. Apesar de morrer
de ansiedade por dentro, Eksamat esperou que a irmã também saísse do
banho e sentasse com ele para comer. Só então propôs-lhe um inesperado
brinde:
-
À redescoberta da felicidade, e que desta vez ela seja eterna!
-
Eu te amo, meu irmão! - Aka corou, pulando ao pescoço dele - Por que
desta vez não me deste uma ajudinha?
-
Já fiz uma asneira tremenda ao casar-te com Methos, não achei certo
atrapalhar-te com Titus! - Eksamat beijou-a e abraçou-a com força -
Mas confesso que ele já estava a irritar-me com seu silêncio... Não
precisas contar-me o que houve, já percebi que estás radiante e isso
é o que importa!
-
Queria tanto que tu também pudesses encontrar alguém!
-
Não me venhas com dramas, vais estragar o almoço! - Eksamat obrigou-a
a sentar-se novamente - Vou fingir que não sei de nada até que ele comente
algo comigo, porém desde já tens minha aprovação para fazeres o que
quiseres!
-
Ainda é cedo para fazer planos! - Aka suspirou - Vamos deixar como está,
não quero estragar tudo!
Aka
praticamente não comeu direito durante o almoço, comentando alegremente
o quanto Titus a fazia feliz. Durante a tarde o próprio Marconus apareceu
para visitá-los, no horário costumeiro, porém seu olhar apaixonado e
seu sorriso constante para Aka quase custaram a seriedade de Eksamat,
que torcia-se por dentro para fingir-se de distraído e não irromper
em gargalhadas.
Ao
final da noite, após um jantar a três em que Aka e Marconus não paravam
de suspirar um pelo outro, Eksamat retirou-se cedo pretextando cansaço.
Trancando ruidosamente a porta do quarto para que soubessem que ele
não atrapalharia o que quer que os outros dois quisessem fazer, Eksamat
permaneceu contudo de ouvido colado às paredes até perceber que a irmã
também trancava a porta do próprio quarto. Só então estirou-se na cama
e dormiu com um sorriso malicioso nos lábios.
*************
Na
manhã seguinte ao início do namoro com Aka, Titus Marconus fez questão
de anunciar a novidade a Eksamat, a fim de oficializar o relacionamento.
Nem houve chance de tentar o contrário, pois Aka e Marconus perderam
a hora de acordar e, quando saíram do quarto, deram de cara com Eksamat,
que já tomava seu desjejum placidamente recostado num divã junto ao
jardim.
-
Ave, que o sol já vai alto! - saudou-os Eksamat ironicamente, oferecendo-lhes
com um gesto amplo as frutas das bandejas na mesa à sua frente - E pelo
visto teremos um belo dia hoje! Que tal um mergulho logo mais?
-
Eksamat, não vou fazer-me de tolo porque também não o és! - disse Marconus,
envergonhado - Sei que tens consciência do que está acontecendo entre
eu e tua irmã, contudo gostaria de comunicar-te oficialmente o fato
e pedir tua aprovação...
-
Aka é livre, sensata e amadurecida o bastante para tomar suas decisões!
- afirmou Eksamat, fingindo-se de sério em respeito ao constrangimento
dos dois - Se ela escolheu-te entre qualquer outro homem, certamente
sabe o que faz e reconhece teu valor. Longe de mim intrometer-me novamente
na vida dela! Já vi que sou péssimo conselheiro, por isso aprovo qualquer
decisão que minha irmã tomar. Eu já te apreciava como amigo, Titus,
agora amo-te como irmão e fico feliz por finalmente ver-vos juntos!
Eksamat
e Marconus abraçaram-se com carinho. Aka sentiu-se orgulhosa por enfim
ter-se livrado do fantasma de Methos. Estava mais do que na hora de
recomeçar a viver!
*************
Tarracina,
Península Itálica - 166 a.C.
Os
anos seguiram-se em rápida e feliz sucessão para os três, com Eksamat
viajando constantemente por causa das amantes e dos negócios, e Aka
e Marconus vivendo em alegre lua-de-mel. Os contatos com Bedriacum ainda
continuavam, pois sentiam necessidade de saber o paradeiro de Methos
e Gaicus como se eles fossem parentes, a outra parte da exótica família
Imortal que haviam formado em Roma.
Foi
através de cartas que informaram aos amigos no norte sobre o inesperado
encontro de Eksamat com uma Imortal desconhecida, quando retornava de
uma viagem aos vinhedos do sul.
-
Encontrei outro de nós em Sinuessa (4), uma mulher! - despejou ele assim
que chegou - Não sei quem era, apenas senti-a e em seguida a vi passar
por uma rua próxima. Ela estava nervosa, parecia fugir de alguém...
Fui atrás para saber de quem se tratava, mas a danada de repente pulou
sobre mim! Fiquei furioso e lutei, é lógico, mas aí ela olhou-me direito,
disse algo estranho sobre eu não ser quem ela procurava, e saiu correndo!
-
Acalma-te e senta, Eksamat! - pediu Marconus - Que mulher é essa? E
como assim, não eras quem ela procurava?
-
Afinal, ela procurava alguém ou estava fugindo? - questionou Aka, pálida
- Quem ela pensou que fosses?
-
Ela parecia fugir mas depois disse isso, falou claramente que eu não
era quem ela procurava! - Eksamat também estava confuso - Era noite
e não havia mais nenhum de nós por perto, ao menos não naquela área!
Eu senti medo nela, mas ao mesmo tempo senti muito ódio... Ela me assustou
quando me atacou, eu queria ajudá-la e não lutar! Só sei que não tive
coragem de segui-la novamente e nem vi para onde ela foi. Mesmo assim
achei melhor voltar logo e avisar-vos!
-
Fizeste bem, pode ser que quem a estivesse perseguindo, ou que ela perseguisse,
viesse para estas bandas! - afirmou Marconus - Sentiste alguém mais
pelo caminho durante tua viagem, na ida ou na volta?
-
Não, sempre passo por Sinuessa quando vou ao sul e nunca encontrei ninguém,
tu mesmo já foste comigo mais de uma vez e conheces o caminho. Já ouviste
falar de outros de nós naquela região? Talvez algum que viva nas fazendas,
longe das cidades?
-
Nunca, realmente é curioso! - Marconus pôs-se a pensar - Deve haver,
já que tu encontraste essa mulher e ela pelo visto sabia de mais alguém...
Ela era romana?
-
Não posso afirmar... Ela falou em latim e vestia-se como plebéia, contudo
não era escrava. Se fosse não poderia andar sozinha à noite com aqueles
trajes, ainda mais armada!
-
Talvez fosse uma prostituta! - sugeriu Aka, apesar de detestar pensar
mal de outra mulher - Quem sabe estivesse fugindo de algum cliente?
-
Ou talvez ela tenha desembarcado de algum navio! - lembrou Marconus
- Pode até ser que tenha saído da cidade por mar... Que mulher misteriosa
foste arranjar, meu caro!
-
Ah, Marconus, ela era maravilhosa, com olhos azuis enormes! - Eksamat
soltou um suspiro e não disfarçou um sorriso - Pena que não sei nem
seu nome nem pude ajudá-la... Ainda bem que ela fugiu, eu odiaria ter
que matá-la se ela continuasse me enfrentando!
-
E eu morreria se tu tivesses perdido a cabeça por correres atrás de
uma saia! - Aka enfureceu-se - Devias estar louco ao perseguir uma Imortal
estranha por becos escuros!
-
Acalma-te, eu sei defender-me! - Eksamat riu - Ela pode ter atingido
meu coração com aqueles olhos de fera, mas eu jamais permitiria que
ela fosse além disso! Ela era boa com a espada, mas parecia sem treino
e não seria difícil vencê-la se fosse o caso. E eu estava curioso, nunca
vi outra mulher Imortal além de ti!
-
Será que ela procura alguém que conhecemos? - Marconus arregalou os
olhos ao pensar na hipótese - Methos e Gaicus estão juntos em Bedriacum,
talvez seja melhor avisá-los! Pedirei que nos alertem caso saibam de
outros Imortais, é sempre bom ficarmos atentos a possíveis ameaças!
*************
Tarracina, Península Itálica - 161 a.C.
-
Acaba de chegar uma carta de Gaicus, de Bedriacum! - Marconus entrou
acenando com um pergaminho aberto nas mãos - Diz que um Imortal andou
rodeando a cidade, mas não aproximou-se e acabou partindo após uma semana.
Eles nem sabem quem era!
-
Será que foi aquela maluca que meu irmão viu há alguns anos? - Aka largou
o bordado numa cesta junto ao divã e espreguiçou-se - Eles não procuraram
para ver de quem se tratava?
-
Duvido que procurassem, Gaicus não tem mais paciência para isso e Methos
provavelmente fechou-se em casa como se a peste estivesse à porta! -
Marconus riu com gosto - Aquele enfia-se debaixo da cama para fugir
a um duelo, tu não tens idéia de como ele ama a própria cabeça! Deve
ter sido alguém atrás de Gaicus que desistiu quando sentiu Methos por
perto também...
-
Ou talvez fosse apenas alguém de passagem pela região! - Aka sorriu
maliciosamente e fez um gesto insinuante para que Marconus sentasse
a seu lado - Se a criatura foi embora sem mostrar-se, então não há o
que temer por enquanto. Hoje o dia está lindo, não achas?
-
Eksamat volta hoje? - murmurou Marconus, atirando a carta de Gaicus
para o alto - Ou será que vai passar a noite com aquela namorada nova
daquela vila... Como é mesmo o nome do lugar?
-
Não sei... - Aka puxou-o para si com um sorriso cheio de promessas -
E quem se importa com o nome da maldita vila?
-
Que vila? - Marconus soltou as presilhas do penteado dela com um ar
falsamente distraído - Eu falei em vila?
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Notas
explicativas:
1
- Marcus Aemilius Lepidus foi censor do patriciado da República Romana
entre 179 e 174 a.C.
2
- Marcus Fulvius Nobilior foi censor da plebe da República Romana entre
179 e 174 a.C.
3
- Tarracina é o nome original de uma cidade bastante antiga, sendo sua
fundação creditada por alguns estudiosos a povos de origem indoeuropéia
e por outros aos etruscos. Acredita-se que foi depois chamada pelos
volscos de Anxur e rebatizada novamente pelos latinos de Tarracina (ou
Terracina, como é chamada atualmente) em 329 a.C., quando recebeu o
status oficial de "colônia marítima do povo romano". Tarracina foi ligada
a Roma pela famosa Via Appia.
4
- Sinuessa foi uma colônia Romana fundada em 295 a.C. na região da Campânia
e era ligada a Tarracina e Roma, ao norte, pela Via Appia.
