Tarracina e Ostia - Península Itálica - 74 a 71 a.C.
Não
foi fácil para o grupo lidar com a morte de Marconus, e não só devido
à dor da perda. Primeiro tiveram que abandonar o corpo do amigo no circo,
fugindo antes que a milícia aparecesse para verificar a causa dos misteriosos
raios. Methos ainda lembrou-se de que deveriam levar-lhe a espada e
as jóias, para que tudo parecesse ter sido um ataque de ladrões, e Gaicus
lavou-se o melhor possível numa fonte, para voltar à hospedaria sem
chamar tanta atenção. Quando o cadáver foi encontrado ao amanhecer,
eles tentaram evitar escândalos - o crime agora grassava pelas ruas
de Roma, e assassinatos não eram novidade. Assim, Titus Marconus acabou
como mais uma vítima da violência urbana, e logo seu corpo foi liberado
para o funeral.
Porém
Eksamus recusou-se a todo custo a chamar Aka para a cerimônia. Queria
estar presente quando a irmã recebesse a notícia, e não acreditava que
ela tivesse condições de viajar até a capital depois de saber o que
acontecera. E, como ninguém sabia onde estava Aediles, seria perigoso
se Aka viajasse sozinha. Com alguns discretos subornos e muita conversa,
os três amigos conseguiram providenciar rapidamente a papelada necessária
em nome de Aka, suposta irmã solteira de Titus e única herdeira de seus
bens por testamento, sem que ela sequer soubesse o que se passava. Infelizmente
eles só puderam voltar à fazenda vários dias após a partida de Eksamus.
Assim
que sentiu a aproximação do grupo, Aka correu à porta da casa para olhar
a estrada. Preocupada demais, não tinha comido nem dormido direito durante
todo esse tempo e, mesmo sendo Imortal, seu corpo não negava os sinais
do desgaste. Com o coração aos pulos, Aka concentrou-se para identificar
quem chegava. Logo contou as vibrações de apenas três Imortais, e um
nó formou-se em sua garganta, mas não podia ainda divisar quem vinha
na quádriga ou nos cavalos. Sentiu um enorme alívio ao identificar a
longa cabeleira descolorida do irmão, e a outra vibração forte só poderia
ser de Methos, ambos a cavalo, porém quem era o dono dos cachos louros,
que vinha por último? Aka sentiu as pernas amolecerem e, se sua criada
não a apoiasse, teria desmaiado. Logo lágrimas quentes correram por
seu rosto, pois acabara de reconhecer que o terceiro Imortal a cavalo
era Gaicus. Aka não soluçava, apenas fitava a pequena comitiva com olhos
arregalados. Incapaz de permanecer em pé, sentou-se no chão com as mãos
cruzadas no peito, lutando para respirar, e nem percebeu a agitação
dos escravos, que acorreram para receber os recém-chegados e logo rodearam-na,
cheios de preocupação.
Vendo-a
de longe, os três amigos aceleraram o galope mas, antes mesmo que pudessem
desmontar, Aka levantou-se com a ajuda das escravas e entrou em casa.
Eksamus correu e alcançou-a no átrio. Aka limitou-se a fitá-lo com um
sorriso torto e, antes que ele dissesse algo, fez-lhe sinal que estava
bem. Methos entrou logo depois e teve que esforçar-se para não demonstrar
o quanto sentia por vê-la assim. Gaicus aproximou-se, mudo como os outros,
trazendo nas mãos a espada de Marconus. Tomando a arma com reverência,
Aka encarou um por um, fez apenas um aceno afirmativo de cabeça e, afastando
até as criadas, trancou-se no quarto sozinha.
Seguiram-se
vários minutos de penoso silêncio, durante o qual os homens apenas trocaram
olhares soturnos e espantaram com gestos os escravos curiosos, sem saber
mais o que fazer. Os três sentiam-se culpados, cada qual por suas razões:
Gaicus porque insistira em arrastar Maconus ao jantar mas depois largara
os amigos para sair com uma mulher fácil, Methos porque ignorara a premonição
e deixara Aediles escapar, e Eksamus porque chegara tarde demais e ainda
quase matara Gaicus por engano.
De
repente ouviu-se um assustador estrardalhaço de madeira rachando e louças
quebrando. Eksamus esmurrou a porta do quarto da irmã, querendo entrar,
e Aka berrou alguns palavrões em meio à barulheira. Gaicus sugeriu que
arrombassem a porta, mas Methos interveio e forçou Eksamus a afastar-se.
-
Ela precisa descarregar a raiva e a dor! - disse, apesar da própria
preocupação - Podemos comprar tudo novo depois, não importa!
Subitamente
a porta do quarto abriu-se e Aka reapareceu, descomposta e arfante,
ainda com a espada de Marconus em punho. Seu rosto estava banhado em
lágrimas, porém altivo. Atrás dela o aposento jazia completamente arrasado,
e nem a grande cama de casal escapara à sua destruição. Sem uma palavra
ou sequer um olhar aos outros Imortais, Aka cambaleou até o quarto do
irmão, que seguiu-a e trancou-se com ela. Gaicus não resistiu e, colando-se
à porta, percebeu que Eksamus contava à irmã o que tinha acontecido,
enquanto ela chorava alto. Methos fez-lhe sinal para deixar de ser indiscreto
e os dois foram desfazer suas bagagens, a fim de distrair os escravos
que teimavam em permanecer por perto, apreensivos. Eksamus só reapareceu
quando os amigos jantavam, tristonhos, e avisou que a partir de agora
Aka dormiria com ele. Ela estava mais calma, mas recusava-se a sair
do quarto e não queria comer nada.
E
Aka recusou a comida várias vezes nos dias seguintes também, só aceitando
engolir alguma coisa quando Eksamus insistia muito, com broncas ou apelos
preocupados. Ela vivia na cama, como se estivesse doente, sem querer
ver ninguém e chorando o tempo todo. Enfim, após uma semana, Methos
pediu a Eksamus que entregasse a Aka a bolsa que Marconus lhe dera antes
de morrer.
-
Não posso ficar com isso! - explicou Methos, tentando parecer neutro
- Eu estava meio bêbado, Titus fingiu a aposta apenas para zombar de
Aediles e lutar em meu lugar. Se não fosse por ele, talvez eu estivesse
morto hoje! Quem sabe isso sirva de consolo para tua irmã...
Quando
Eksamus entregou-lhe a bolsa, Aka abraçou-o e chorou muito. Cheio de
ternura, ele tentou fazê-la ver que todos estavam sofrendo em silêncio,
e que ela precisava reagir para ajudá-los também.
-
Não é justo que te tranques aqui assim... Já imaginaste a dor de Methos,
que viu Titus morrer sem poder interferir, ou Gaicus, que segurou a
cabeça decepada do mestre e amigo com as próprias mãos? Isso é traumatizante!
Não podes fazê-los sentirem-se ainda mais culpados!
Há
tempos Aka não via o irmão com uma expressão tão cansada no olhar, e
percebeu o quanto estava sendo egoísta. Eksamus vinha descuidando até
da aparência, e seus cabelos descoloridos já apresentavam uma denunciadora
faixa de raízes escuras. Ele estava esforçando-se para cuidar de seu
conforto, ignorando a própria dor pela perda do cunhado. Não, realmente
não era justo exigir dele, e nem dos outros, mais sacrifícios do que
já estavam fazendo, aguentando pacientemente sua crise. Aka compreendeu
que estava repetindo o mesmo erro que cometera após a morte de Imhotep,
quando viveu num mundo só seu enquanto vagava pelo deserto... Mas desta
vez ela não iria esperar que outra catástrofe a trouxesse de volta à
realidade.
-
Perdão, tendes feito tanto por mim e eu retribuo com desconsideração!
- Aka enxugou o rosto com energia - Titus não gostaria de me ver aqui
assim... Vou reagir, eu juro! Voltarei a dormir sozinha em meu antigo
quarto... Sei que Methos mandou remobiliá-lo depois do estrago que fiz,
preciso inclusive desculpar-me com ele por isso!
-
Podes continuar dormindo aqui, se te sentes melhor! - ofereceu Eksamus,
um tanto arrependido.
-
Não, se eu ficar acabarei me acovardando novamente! - respirando fundo,
Aka pulou da cama e na mesma hora começou a arrumar suas coisas, lutando
para não chorar mais - Não posso continuar desse jeito! Preciso tomar
uma atitude e ser firme... Titus merece isso de mim!
Nos
meses seguintes, com o apoio do irmão e dos amigos, Aka esforçou-se
para combater a tristeza, afinal era necessário que alguém cuidasse
dos bens de Marconus, herdados por ela. Contudo, após duas viagens rápidas
a casas onde tinha passado bons tempos com o falecido marido, Aka quase
caiu em mórbida melancolia novamente. As lembranças eram-lhe dolorosas
demais e, na tentativa de livrar-se delas, Aka pediu a Eksamus que a
ajudasse a vender tudo o que um dia fora de Marconus, inclusive escravos,
móveis e objetos pessoais.
-
Não consigo me conformar! - choramingou Aka para o irmão - Sei que eu
já devia ter me acostumado a perder aqueles que amo, mas Titus era meu
marido e era Imortal... Ele poderia ter vivido para sempre!
As
únicas coisas que Aka fez questão de guardar foram a última espada de
Marconus e as jóias que ele lhe dera nos aniversários de seu casamento.
Eksamus não demorou a desfazer-se das propriedades do falecido cunhado,
trocando-as por outras casas para alugar, pequenas oficinas, mercadorias,
novos escravos e também ouro e mais jóias para a irmã.
Gaicus
ainda estava com remorsos por ter deixado os amigos sozinhos na noite
fatídica e, não importava o que dissessem, também achava que devia algo
a Aka. Para o rapaz, era sua culpa que ela agora estivesse viúva, esforçando-se
tanto para parecer bem, quando na verdade ele sabia que Aka continuava
chorando escondida. Após presenciar sem querer outra crise de choro,
Gaicus saiu apressado para espairecer no jardim e deparou-se com Methos
encostado a uma coluna, olhando silenciosamente para as nuvens. Sentindo
o peito oprimido, o rapaz aproximou-se do amigo e desabafou:
-
Viver nesta fazenda me sufoca, precisamos mudar para outro lugar. Esta
casa só nos trouxe má sorte!
-
Titus morreu brincando com a sorte, então não me fale nunca mais essa
palavra! - retorquiu Methos com mau humor, pois estivera justamente
pensando na aposta que fizera com o amigo na noite fatídica. E se Marconus
não tivesse entendido a piada, permitindo que ele duelasse embriagado
contra Aediles? Por que Emrys lhe soprara uma premonição sobre uma tragédia
que não pudera evitar?
-
Perdão, Methos, mas a amargura de Aka me enche de culpas... Ela continua
chorando pelos cantos e somos obrigados a fingir que não percebemos,
enquanto escondemos nossa própria dor. Teria sido melhor se eu tivesse
morrido no lugar de Titus!
-
Que besteira! - Methos voltou a fitar as nuvens - Um dia essa dor irá
passar para todos nós, como já passaram tantas outras. Aka está sofrendo
o período normal de luto antes de encontrar forças para recomeçar a
vida.
-
Tu ainda gostas dela? - perguntou Gaicus, sem rodeiros - Eu sei que,
mesmo sem confessar, tu sentias falta dela quando estavas em Bedriacum.
Por que não te casas com ela novamente?
-
Estás louco? - Methos franziu o cenho e fitou o amigo com espanto -
Isso foi há mais de cem anos e Aka esteve com Titus por quase um século!
Como podes pensar que ela esteja disposta a cair de volta nos meus braços,
como se o tempo não tivesse passado?
-
Aka não merece viver solitária, nem tampouco pode casar-se com qualquer
um! - Gaicus parecia estar desenvolvendo algum pensamento e não deu
atenção à indignação do amigo - Ela é uma de nós, casá-la com um estranho
seria perigoso para ela e para os nossos segredos. E no estado de tristeza
em que se encontra, temo que ela não possa defender-se sozinha em caso
de necessidade...
-
Ela não corre perigo, Gaicus, somos três aqui para protegê-la e Eksamus
com certeza não pretende deixá-la sozinha em momento algum. E também
não passaria pela cabeça dele permitir que a irmã se case com um estranho!
De onde tiraste tal idéia?
-
Methos, pensa bem, o que Aka precisa é de alguém para consolá-la, protegê-la
e fazê-la voltar a ter amor pela vida! Se realmente não a amas mais,
então talvez eu deva tentar...
Assumindo
uma expressão neutra, Methos fitou Gaicus por um instante, pesando as
palavras. Quando enfim falou, seu tom era condescendente:
-
A morte de Titus foi um duro golpe, mas casamento não é remédio e eu
duvido que Aka aceite um marido que sente apenas compaixão por ela...
-
Ora, Aka não é mulher por quem se possa sentir compaixão, é claro! -
Gaicus gaguejou e corou - Eu apenas creio que ter um companheiro firme
a seu lado poderia ajudá-la a recuperar-se. Ela chora tanto e às vezes
diz que nunca mais encontrará a felicidade... Ela não pode passar a
eternidade pensando tal absurdo!
-
Tenho certeza de que um dia essa tristeza passará e ela voltará a ser
como antes! - Methos tentou dar um tom casual à voz - Mas afinal, por
que pensaste em casar com uma mulher que não amas?
-
Eu não falava a sério, eu... Tens razão, perdoa-me, já nem sei mais
o que pensar! - Gaicus abaixou a cabeça, lutando contra lágrimas repentinas
- Não comentes sobre minhas loucuras com Eksamus e muito menos com Aka,
por favor! É que sinto muita falta de Titus, às vezes as lembranças
daquela noite me assaltam e chegam quase a me sufocar... Talvez por
isso eu queira consolar Aka, pois nossa dor é parecida. Se ela conseguir
superar esta perda, então terei certeza de que eu também superarei!
Methos
sentiu um carinho enorme pelo rapaz e, desprevenido para lidar com aquela
emoção, puxou o amigo para um abraço. Não era comum que Gaicus lhe mostrasse
seus sentimentos com tanta franqueza e isso desarmou suas defesas, forçando-o
a engolir as próprias lágrimas antes que o rapaz as visse. Apesar de
fazer de tudo para exibir tranquilidade, Methos também estava sentindo,
a seu próprio modo, a dor da perda de Titus Marconus. Todos estavam
confusos, tendo que enfrentar a realidade cruel do Jogo dos Imortais.
Não era fácil reconhecer que nenhum deles estava a salvo, independente
de sua idade, seu bom caráter ou do carinho e lealdade de seus amigos.
O duelo era sempre um contra um, e mesmo o melhor e mais honrado lutador
poderia ser pego de surpresa num dia ruim.
Mas
algo poderia ser feito para melhorar a situação, e uma delas era mudar-se
daquela fazenda entediante. Gaicus tinha razão, aquele lugar só lhes
trouxera dissabores. O casal de irmãos concordou com a sugestão de mudança,
e logo Methos e Gaicus trataram de providenciar a venda da propriedade.
Eksamus havia comprado uma casa razoável para Aka em Ostia, a cidade
portuária que abastecia Roma, e ela pediu que todos se mudassem para
lá antes mesmo que a negociação da fazenda fosse concluída. Nenhum deles
tinha vontade de voltar a viver dentro dos muros da capital em si, pois
as lembranças que ela lhes trazia ainda eram tristes demais, mas morar
numa cidade vizinha não seria tão desagradável assim.
Em
poucas semanas os quatro partiram para Ostia. E sua mudança ocorreu
em boa hora pois, enquanto ainda viajavam com seus móveis e bagagens
rumo ao norte, uma violenta fuga de escravos estourou ao sul, em Cápua.
O movimento cresceu rapidamente, espalhando-se pela península, e causou
reflexos até em Roma, com badernas e protestos populares. Dizia-se que
o número de envolvidos na rebelião logo chegou às centenas de milhares
(1), e os relatos de crimes promovidos pelos fugitivos eram assustadores.
-
Com tantos estrangeiros vivendo como escravos ou plebeus miseráveis
entre nós, é fácil entender como os rebeldes conseguiram tal número
de seguidores! - comentou Aka, ao ouvir as tristes novidades - E a cada
vez estas revoltas estão ficando mais perigosas!
O
movimento terminou de forma aterradora, pois os rebeldes em sua maioria
acabaram massacrados em combate, e os capturados foram duramente punidos
por Marcus Licinius Crassus - cerca de 6.000 foram crucificados lado
a lado, ao longo da interminável Via Appia, como exemplo para que não
ocorressem novas rebeliões.
Gaicus
e Methos tinham ido a Neapolis (2) a negócios e dali partiram direto
para Roma, a fim de aprontar certa documentação urgente. Porém, era
justamente o dia das execuções dos rebeldes, e os dois Imortais viram-se
retidos quase à entrada da capital, lutando para abrir passagem em meio
ao povaréu na estrada. Os soldados, em número insuficiente para conter
os curiosos à distância, tinham desistido de impôr qualquer ordem e
limitavam-se a esperar pelas tropas de reforço. Muitos plebeus estavam
adorando o espetáculo, zombando dos crucificados como se tudo não passasse
de pura diversão e não a morte pública, torturante e desonrosa de milhares
de seres humanos de uma só vez. Mortandades também aconteciam no circo
durante as lutas, porém aquilo era demais!
Com
muito custo, sob a proteção dos soldados que na verdade deveriam afastar
a plebe das cruzes, os grupos de viajantes seguiam lentamente até a
capital, perdendo mais de uma hora num trajeto que, normalmente, levaria
apenas alguns minutos. Irritado com o atraso e intimamente perturbado
pelo que vira, Methos pulou de sua liteira assim que alcançaram a primeira
hospedaria decente, perto da entrada da cidade.
-
Devíamos ter vindo de barco e subido pelo Tibre ao invés de usar a estrada!
- disse ele, permitindo que um escravo silencioso o ajudasse a recompor
sua toga e seu manto - Teríamos chegado ontem e não precisaríamos aturar
tal inconveniente! Por que não mandaram todos aqueles infelizes para
morrer na arena? Assim não atrapalhariam a passagem, e ainda teríamos
festas por vários dias!
-
Prefiro as estradas ao mar mas, hoje, eu teria enjoado de muito bom
grado em qualquer barco fedorento! - respondeu Gaicus, também descendo
de sua liteira e espreguiçando-se - Acho que nunca fiz uma viagem tão
desagradável!
-
Bom, já está tarde e preciso limpar-me da poeira da estrada! - Methos
fez um gesto de enfado - Queres ir comigo a uma casa de banhos?
-
Estou com fome, se não te importas eu prefiro ficar e pedir um jantar
decente! - Gaicus entregou a bolsa a um criado e mandou-o tratar com
o dono da hospedaria - Se eu entrar agora na água, sou capaz de dormir
e afogar-me, de tão cansado!
Dando
uma série de ordens secas aos outros escravos, para que preparassem
seus aposentos antes de sua volta, Methos logo afastou-se com seu criado
pessoal. O hospedeiro saiu para receber Gaicus com uma profusão de saudações
bajuladoras, oferecendo-lhe seus melhores quartos e providenciando a
guarda das liteiras.
Concordando
maquinalmente com tudo o que o homem dizia e dispensando-o junto com
seus criados bem treinados, para que providenciassem o que fosse preciso,
Gaicus assustou-se com a aproximação súbita de um terceiro Imortal.
Methos não estava mais à vista, já devia ir longe e talvez nem pudesse
sentir a ameaça, pois o outro parecia vir do lado oposto da rua. Gaicus
ia correr à procura de Methos, porém um odioso pensamento de repente
o fez parar e voltar-se impulsivamente para a direção de onde vinha
a nova vibração. Seria Marcus Aediles? Agarrando o cabo da espada, o
rapaz vasculhou, com os olhos em brasa, as portas e janelas das casas
próximas, atento a todas as pessoas que passavam.
Uma
figura alta surgiu numa esquina, também olhando para todos os lados,
até perceber Gaicus postado sozinho no meio da rua, encarando-o. Era
um comandante de uma das legiões romanas, trajando uniforme de batalha
e trazendo um capacete reluzente sob o braço. Fazendo um gesto para
dispensar o oficial que o acompanhava, o comandante então marchou diretamente
para Gaicus em seu passo duro de militar, medindo-o de cima a baixo
com uma expressão intimidante, e cumprimentou-o com um breve aceno de
cabeça:
-
Sou Marcus Constantinus! - disse em voz baixa, porém firme - Não pretendo
lutar, a menos que estejas disposto, porém creio que este não seja o
melhor lugar!
Gaicus
também mediu Constantinus de cima a baixo, mas com grande espanto. Lançando
um rápido olhar ao redor, na tênue esperança de que Methos reaparecesse,
o rapaz precisou engolir em seco antes de conseguir responder:
-
Sou Peter Gaicus... Amigo de Titus Marconus! - a voz de Gaicus tremeu
e ele ofereceu a mão para cumprimentar o comandante - Hoje uso o nome
de Petrus Iolaus... Tenho imensa honra em conhecê-lo, mestre Constantinus!
A
expressão séria do militar transformou-se em assombro e depois abriu-se
em um sorriso. Titus Marconus fora seu aluno, há muitas décadas atrás,
e um de seus melhores amigos. Tomando a mão de Gaicus, Constantinus
puxou-o e estreitou-o num inesperado abraço, dizendo:
-
Eu soube de ti pelas cartas de Titus, mas perdemos contato há tanto
tempo... Que coincidência encontrar-te aqui! Prefiro ficar longe da
capital com meus exércitos, só vim para cá agora cumprindo ordens...
Ajudei a conter a revolta dos escravos, servindo sob o comando de Pompeu!
- o comandante esboçou um sorriso amargurado, depois relaxou - Se eu
soubesse que estavas em Roma, teria vindo antes para conhecer-te!
-
Fico feliz e agradeço muito! Titus sempre falou-me de seu primeiro mestre,
porém jamais pensei que chegaria o dia em que eu pudesse encontrar-me
pessoalmente contigo!
-
E onde está Titus? Quero abraçá-lo também!
-
Titus faleceu! - Gaicus não sabia como dar a notícia de forma menos
chocante e fez uma careta, como se pedisse desculpas - Ele perdeu para
um de nós em Roma, há alguns anos!
-
Sinto muito! - Constantinus inclinou a cabeça, tomado de visível pesar
- Titus era um bom homem, foi um grande amigo meu e um excelente soldado
na época em que estivemos juntos... Acaso sabes quem o matou?
-
Marcus Aediles. Sabes de quem se trata?
-
Sim, sei, encontrei o bastardo durante a rebelião! - o semblante do
militar tornou-se novamente altivo, sombrio e ameaçador - Ele estava
tentando pegar um novato da nossa raça que andava com um tal de Spartacus,
um dos líderes rebeldes. O homem ainda nem sabia de sua nova condição
e teria sido uma vítima fácil, se não fosse um gladiador experiente.
Foi muita sorte eu tê-los encontrado lutando!
-
E tu mataste Aediles?
-
Infelizmente não, o desgraçado fugiu antes que eu pudesse dar cabo dele!
- por um instante os olhos de Constantinus brilharam como metal polido
- Da próxima vez, ele não me escapará!
-
E o gladiador, que fim levou ele? - perguntou Gaicus, cauteloso, lembrando-se
das cruzes na estrada.
-
Tomei-o como meu aluno, é claro! - Constantinus deu de ombros, parecendo
acalmar-se - Levo-o comigo como meu criado particular, agora ele deve
estar cuidando de meus cavalos no acampamento. É um homem difícil, revoltado
por ter sido escravizado... Só quero prepará-lo para futuros confrontos
com outros como nós, depois o deixarei partir livremente.
A
conversa teria prosseguido se o oficial uniformizado não tivesse voltado
e, respeitosamente, avisado Marcus Constantinus de que suas tropas o
aguardavam.
-
Gostaria de conversar mais contigo, mas devo viajar amanhã cedo e ainda
preciso tomar algumas providências! - lamentou o comandante, despedindo-se
de Gaicus com outro abraço - Espero ver-te novamente! Continuarás morando
ainda muito tempo em Roma?
-
Na verdade moro em Ostia, com outros amigos de Titus! - Gaicus relutava
em deixar Constantinus partir sem apresentá-lo a Methos, porém achou
melhor ficar quieto - Se puderes, por favor visite-nos! Será um prazer
receber-te, e a teu aluno também!
-
Irei na próxima oportunidade, meu rapaz! Cuida-te, e até breve!
Num
instante Marcus Constantinus desapareceu, com seu oficial seguindo-o
de perto. Abalado, Gaicus permaneceu alguns minutos fitando o chão,
até que o hospedeiro tirou-o de seu devaneio, anunciando o jantar. Contudo,
Gaicus perdera o apetite, ansioso pela volta de Methos. Assim que o
amigo chegou, relaxado e perfumado, o rapaz contou-lhe, um só fôlego,
tudo sobre seu cordial encontro com o militar romano.
-
Mas Titus achava que Constantinus estava morto há muito tempo! - murmurou
Methos, ao fim da entusiasmada narrativa do rapaz - Para mim ele era
quase uma lenda, nós nunca o encontramos em Roma!
-
Pois a lenda está viva e muito saudável, lutando nos confins do nosso
território! - retrucou Gaicus, empolgado - Para ser franco, eu evitaria
duelar com Constantinus mesmo sem saber quem ele é... Aquele uniforme
já me bastaria como aviso! Devias tê-lo visto, Methos, não sei como
não o sentiste!
-
E quem pensas que sou, para senti-lo de tão longe? - Methos deu de ombros
- Emrys poderia fazer isso, mas eu não. Agora vamos jantar em paz, por
favor!
Assim
que os dois finalmente voltaram para Ostia, Gaicus despejou a novidade
sobre Constantinus para Aka e Eksamus, que ouviram-no com grande assombro.
- Então o safado do Aediles anda caçando Imortais inexperientes? - Eksamus
reclinou-se em sua cadeira, cruzando os braços - Bem que Emrys estranhou
quando eu lhe disse que nunca encontrávamos alguém de nossa espécie
em estado latente por estas bandas! Aediles com certeza está dando cabo
deles, antes que cheguem até nós!
-
Decapitar os que ainda não reviveram não adianta nada, eles não têm
poder para transmitir! - opôs-se Methos, bebericando seu vinho com ar
de pouco caso - É um desperdício, nem Aediles seria estúpido a esse
ponto!
-
Ele pode vigiá-los até que revivam e tenham alguma força! - sugeriu
Aka, séria - Ou pode estar usando-os como iscas, para atrair Imortais
mais velhos!
-
Sim, Aediles sempre foi um covarde nojento! - concordou Eksamus - De
alguma forma ele está tratando de acumular poder, Methos, por isso sentiu-se
bom o bastante para desafiar-vos em Roma!
-
Tomara que Constantinus venha visitar-nos em breve, eu adoraria conversar
com ele sobre isso e muito mais! - Gaicus devaneou - O homem é um eterno
militar, deve ter uma experiência enorme de combate...
*************
Ostia
- Península Itálica - 70 a 68 a.C.
Passada
a comoção após a rebelião e o encontro de Gaicus com Constantinus, a
vida dos Imortais voltou ao normal. Ainda preferindo ficar mais em casa,
Aka aprendia a lutar com novas armas para passar o tempo, e Gaicus revelou-se
um companheiro generoso e paciente, ensinando muito sobre lanças e machados
a ela e a Eksamus, além de aprender alguns truques sobre adagas com
eles. O rapaz também formou sociedade com os irmãos em alguns negócios
locais, aproveitando os conhecimentos de comércio de Eksamus e o grande
volume de mercadorias que passava pelo porto de Ostia.
Algumas
vezes eles sentiram outros Imortais na cidade, provavelmente marinheiros
ou viajantes que logo sumiam pelas vielas, em geral antes mesmo de serem
avistados, deixando o grupo em paz. Numa manhã Eksamus chegou a ver
de longe uma mulher Imortal, num pequeno barco ancorado no porto, porém
seu rosto estava oculto sob um amplo manto com capuz e ela sequer virou-se
para olhá-lo, dando ordens a seus escravos para que zarpassem imediatamente.
-
Já é a segunda mulher de nossa espécie que foge de mim! - reclamou ele
para a irmã, ao chegar em casa - Nem sequer pude vê-la direito, a única
coisa que sei é que ela tinha longos cabelos louros!
-
Talvez seja a mesma maluca que tu encontraste da outra vez, mas agora
com os cabelos descoloridos! - comentou Aka, sem saber o que dizer para
consolá-lo - Se não a viste direito, como podes ter certeza de que é
outra mulher?
-
Esta parecia mais alta, e havia algo nobre no porte dela! - Eksamus
suspirou - Eu queria tanto travar amizade com outros como nós! Emrys
perdeu-se no mundo, Titus morreu e o tal de Constantinus nunca veio
nos visitar... Methos está estranho e não sei mais quanto tempo ele
continuará conosco. Espero que pelo menos Gaicus não nos abandone!
Na
verdade o rapaz não tinha a mínima intenção de separar-se dos irmãos,
ao contrário - ainda carente pela perda do grande amigo e mentor, ele
a cada dia estreitava mais seus laços com Aka e Eksamus. Gaicus tinha
aprendido que manter segredo sobre suas verdadeiras origens era parte
da estratégia de sobrevivência dos mais velhos, por isso não pressionava-os
e aceitava com prazer os pedaços de informação que eles lhe ofereciam.
Ele
também notava que os irmãos evitavam Imortais desconhecidos. Antes eles
nunca encontravam outros de sua espécie, provavelmente porque a vibração
de seu grupo espantava os demais, ou porque Aediles caçara-os traiçoeiramente.
Mas agora alguns Imortais passavam por Ostia com frequência e, apesar
de dizer que gostariam de fazer novos amigos, Aka e Eksamus normalmente
escondiam-se deles. Aka corria para casa, como Methos em geral também
fazia, enquanto Eksamus afastava-se rapidamente dos estranhos e ficava
a espiá-los de longe. Analisando os amigos, Gaicus percebia como tinha
sido atrevido no começo de sua vida como Imortal, aceitando todos os
desafiantes ou mesmo provocando-os, como se nunca corresse o risco de
perder. Quanta tolice!
Methos,
por seu lado, envolvido com a importação de textos, levava uma vida
cada vez mais independente dos outros três Imortais, saindo com amigos
diferentes e não dando muita satisfação do que fazia. E como Eksamus
logo tratou de arrumar namoradas pelas proximidades, Gaicus acostumou-se
a ficar em casa conversando ou treinando com Aka, temendo que ela caísse
outra vez em melancolia se a deixassem muito tempo sozinha. O rapaz
nunca tinha sido muito íntimo dela, talvez por Aka estar sempre envolvida
com um de seus amigos. Agora, como quase nunca havia alguém por perto
além dos escravos, Gaicus descobriu que ela era uma companhia agradável,
capaz de passar horas discutindo qualquer assunto ou de rir escandalosamente
de uma história boba. O rapaz gostava de ouvi-la gargalhar, e sentia-se
importante quando ela o escutava com seriedade.
Se
Methos notava aquela amizade crescente, não demonstrava. Dedilhando
seu alaúde, Eksamus às vezes observava Gaicus lendo ou cochilando aos
pés de Aka, entretida com um bordado qualquer, e Methos passando por
eles como se nem os visse, ocupado demais com sua correspondência comercial
ou sua nova vida social agitada, e perguntava-se o que estaria reservado
para o futuro do grupo, que parecia desmantelar-se lentamente desde
a morte de Marconus.
*************
Notas
explicativas:
1
- A
terceira grande revolta de escravos de Roma iniciou-se em 74 a.C. numa
escola de gladiadores em Cápua. Liderados pelo trácio Spartacus, os
rebeldes arrebanharam milhares de outros fugitivos e arruaceiros e instalaram-se
no monte Vesúvio. Ensinando técnicas de luta dos gladiadores aos revoltosos,
Spartacus derrotou algumas legiões e rumou com seu bando para o norte
da Itália, pensando em escapar ao domínio romano. Como grande parte
de seus homens decidiu depois voltar ao sul para continuar saqueando
e liderando fugas, Spartacus acompanhou-os. As legiões de Crassus enfim
derrotaram e mataram Spartacus e seus seguidores na região da Lucânia,
no sul da Itália, em 71 a.C.. Os que escaparam foram depois mortos ou
capturados ao norte pelas tropas de Pompeu o Grande, que retornava de
uma campanha na Hispânia.
2
- Neapolis é a atual cidade de Nápoles, na Itália.
