Atenas, Grécia - cerca de 500 a 400 a.C.
Discreto,
Emrys raramente ia às reuniões de amigos na casa de Aka e Eksamat, mesmo
sabendo que seria sempre bem recebido - preferia encontrá-los ao ar
livre, nos ginásios ou templos, onde poderia atraí-los para alguma atividade
mais útil do que simplesmente discutir filosofia e artes. O sacerdote
na verdade andava mais ocupado do que parecia, pois mesmo suas conversas
ocasionais com conhecidos na rua eram sua maneira de passar mensagens
de amor e paz. Tudo e todos lhe interessavam, até quando ele fingia
não reparar em nada. Atenas era uma excelente cidade para seus propósitos,
com muitos sábios, escritores e artistas talentosos, atraindo muitos
jovens inteligentes e formando um terreno fértil para as propostas de
Emrys. Sendo sacerdote, sobre ele não recaíam tantos preconceitos como
os que atingiam os estrangeiros comuns, e ele podia conversar com mulheres
na rua sem que alguém interpretasse aquilo como um desrespeito. As crianças
o cercavam chamando para brincadeiras, os criados tagarelavam com ele
no mercado e até muitos políticos o cumprimentavam com simpatia.
-
Tens um coração enorme! - comentou Aka uma vez em que viu o mestre atendendo
uma senhora idosa, que sofria de tosse crônica e viera pedir-lhe um
remédio - Nunca vi niguém tão sábio e tão generoso quanto tu!
-
Eu apenas faço o que gosto, minha filha! - os olhos de Emrys brilhavam
de felicidade - Recebi da vida mais do que jamais poderei dar em troca...
Por que não ajudar aqueles que receberam menos? E o que eu faço é tão
pouco, perto do muito que ainda é necessário fazer!
-
Emrys, ensina-me de onde tiras tanta força e tranquilidade! - pediu
Aka, comovida - Eu às vezes irrito-me com coisas tão pequenas, reclamo
de insignificâncias, revolto-me sem motivo... E tu tens sempre uma palavra
amorosa para todos, um sorriso para tudo!
-
Pensa apenas em tudo o que já viste e já viveste, em todos os que já
passaram por tua vida e tudo aquilo que aprendeste! - disse Emrys -
Tudo isso é uma benção, pois tu és testemunha viva da passagem dos tempos,
e tiveste oportunidades que praticamente ninguém mais terá! Mesmo entre
os de nossa espécie, poucos conseguem ultrapassar mais do que alguns
séculos... Sejas grata pelo que conquistaste e recordas-te que, se hoje
perdeste algo, depende só de ti ganhar isso de volta, amanhã ou daqui
há décadas! Quem mais pode ter certeza disso senão nós, que somos prova
de que nada dura para sempre à nossa volta? Impérios crescerão e desaparecerão,
monumentos serão erguidos e destruídos, crenças e civilizações sumirão
no passado... Por isso, minha filha, aproveita cada dia de hoje com
boa vontade, pois daqui a milênios terás saudades deles!
Os
anos passavam e o respeito de Aka e Eksamat por ele crescia cada vez
mais, principalmente porque Emrys nunca tirava partido de nenhuma situação
e continuava a mesma criatura humilde e prestativa de sempre. Nada era
insignificante ou indigno para o sacerdote, e ninguém atrevia-se a criticá-lo.
Emrys não chegava a viver na boca do povo, mas poucos em Atenas não
tinham ouvido falar de suas boas ações ou recebido sua carinhosa atenção,
ainda que fosse em segredo. Alguns tomavam-no por visionário, outros
por ingênuo, porém todos o admiravam.
-
Outro dia Emrys confessou-me que pode ler e controlar a mente de certas
pessoas, mas que só usa isso para tratar doentes, induzindo-os à cura...
- comentou Aka com Eksamat durante um almoço em que estavam a sós -
Acreditas que tal seja possível?
Eksamat
concordou imediatamente com um gesto de cabeça. Tinha ouvido Emrys dizer
coisa parecida, e contou rapidamente à irmã o que presenciou dias antes,
quando surpreendeu o outro Imortal conversando com um leproso, que mostrou-se
melhor só em ouvir as palavras do sacerdote. Ao contrário de Aka, Eksamat
evitava participar do atendimento aos doentes, mas na ocasião ficou
curioso, pois ele próprio sentiu-se estranho com as palavras do mestre
para o leproso, e percebeu que tinha sido influenciado pelo tom de voz
diferente que Emrys usara. Quando perguntou-lhe que tipo de feitiço
tinha sido aquele, Emrys respondera apenas: amor!
-
Acho que, com sua idade, Emrys aprendeu muito mais do que nos deixa
perceber! - arrematou Eksamat - Acreditas que um dia ele nos ensinará
tudo o que sabe?
-
Espero que sim! - Aka suspirou - Se todos os da nossa espécie fossem
como ele, certamente a humanidade viveria tempos melhores! Talvez um
dia até pararíamos de lutar uns contra os outros...
-
Gostaria que isso fosse possível! - afirmou Eksamat - Emrys disse que
alguns são amigos entre si e nem todos querem nossas cabeças, mas infelizmente
a maioria gosta de lutar, por isso precisamos estar sempre preparados
para enfrentá-los! Ele teme que um dia algum de nós que tenha um mau
coração consiga vencer o Jogo, e isso pode transformar o mundo num caos...
Tenho medo disso!
-
Ele disse que tu e eu já somos bons o bastante para educar outros como
nós e transformá-los em guerreiros do bem! - disse Aka, pensativa -
Mas se ele não nos ensina tudo o que sabe, creio que não estejamos tão
preparados quanto ele diz! Às vezes sinto-me estúpida ouvindo ele falar,
pois sempre há algo novo, algum aspecto de certos assuntos que eu ainda
não tinha visto! Como posso ensinar alguém se eu mesma ainda tenho tanto
a aprender? Tenho medo de fazer tudo errado!
-
Eu também às vezes sinto que, apesar de ter mais de 2.500 anos de idade,
sou como uma criança perto de Emrys! - Eksamat sorriu para si mesmo
- E foi assim que ele tratou-me na primeira vez em que nos encontramos!
Na hora fiquei ofendido, mas hoje confesso que ele tem razão!
-
Vou pedir a ele que nos ensine a usar o poder das palavras! - Aka decidiu,
voltando a comer com apetite - Se ele aceitar, então é porque estamos
realmente prontos para ser mestres como ele!
Para
surpresa de Aka, Emrys aceitou ensiná-los a usar a Voz, como ele chamava
seu poder. Antes, porém, fez ambos os irmãos jurarem por tudo o que
consideravam mais sagrado que jamais usariam esse dom para vencer um
duelo contra outros Imortais, ou para obter qualquer vantagem pessoal.
-
A Voz é uma magia muito mais difícil de dominar do que parece, e muito
perigosa também! - alertou o velho Imortal - Ela não funciona com qualquer
um e, se não estiverdes preparados, vós mesmos podereis acabar dominados
pelo que disserdes! É preciso saber usar a Voz sem cair sob o próprio
encanto. E tomai muito cuidado se um dia ensináreis isso a alguém!
As
aulas foram complicadas e, de certa forma, engraçadas. Emrys primeiro
ensinou-lhes algumas palavras em línguas estranhas, para que eles treinassem
a pronúncia de certos tons vocais que não estavam acostumados a usar.
As palavras nada tinham de mágicas, eram apenas um exercício vocal que
deveriam repetir à exaustão. Então, Emrys obrigou-os a entoar cânticos
simples, para harmonizar e afinar a voz. Só depois ensinou-os a aplicar
isso ao diálogo do dia-a-dia, transformando simples frases em encantamentos.
Nas primeiras vezes, ambos os irmãos sentiram-se estranhos ouvindo a
própria voz, e Emrys precisou tanto ensiná-los a fechar os ouvidos ao
que diziam quanto a desfazer a magia, para que ninguém ficasse preso
eternamente a um transe por descuido. No início Aka e Eksamat brincavam
de tentar hipnotizar um ao outro, até que finalmente ficaram imunes
ao feitiço.
Emrys
deixou-os divertirem-se livremente nos primeiros meses, enquanto descobriam
o potencial do novo poder. Os irmãos treinavam nas reuniões com amigos,
cumprimentando passantes na rua ou mesmo com animais, que eram os mais
sujeitos a tal tipo de encanto. Após mais de um ano de treinos diários,
os dois já estavam prontos para pequenos truques, como acalmar pessoas
nervosas ou provocar súbitas gargalhadas nos criados em casa. Quando
enfim achou que ambos estavam suficientemente treinados, obrigou-os
a suspender as brincadeiras.
-
A Voz deve ser usada com inteligência e humildade! - ditou o sacerdote
- Ela não é um dom banal e, se for aprendida por alguém com más intenções,
pode transformar-se num instrumento de destruição, dominação e morte!
Não usem esse poder à toa, meus filhos, sejam sábios e responsáveis!
Dois
anos passaram-se após esse diálogo, quando Aka acordou de madrugada
com o som de uma das músicas preferidas do irmão e surpreendeu-o dedilhando
o alaúde no jardim, tocando sob as estrelas. Com os longos cabelos presos
por uma faixa na testa, Eksamat nem olhava o instrumento, evidentemente
perdido em pensamentos profundos, contemplando um canteiro florido ao
pé de um chafariz. A noite estava quente, o perfume das flores chegava
quase a ser intoxicante.
-
Eksamat, meu irmão, estou preocupada em ver-te acordado até agora! -
Aka sussurrou-lhe, temendo atrair algum criado da casa - Há algo que
te incomoda a ponto de tirar-te o sono desta forma?
-
Desculpa, não quis acordar-te! - Eksamat parecia ter caído das nuvens,
sem ter sequer reparado na aproximação dela - Nem notei que já era tão
tarde... Estava pensando que estamos aqui há tempo demais, Aka, isso
me preocupa! Logo irão comentar!
Aka
sentou-se no banco de pedra ao lado do irmão. Já tinha pensado naquilo
antes, porém não teve coragem de tocar no assunto. - Tens razão! - concordou
- Cada um de nossos amigos tomou um rumo na vida. Fídias mal terminou
o Partenon e precisou fugir para Olímpia por causa daquela acusação
terrível. Sócrates já é um homem maduro e tem dito que abandonará a
política para lecionar, enquanto Eurípides está novamente enfiado em
Salamina. Até Aristófanes, que nós praticamente vimos nascer, hoje está
ficando famoso graças àquelas idéias maliciosas que tu lhe destes (1)...
É perigoso continuarmos aqui!
-
Eu também tenho medo dessa guerra contra Esparta, que Péricles diz ser
inevitável... - murmurou Eksamat, depositando o alaúde ao pé do banco
e encolhendo os joelhos de encontro ao peito, parecendo uma criança.
-
Isso tudo é culpa de Aspásia! - Aka nunca suportara a ex-hetaira com
quem o governador tinha se casado - Ela faz a cabeça de Péricles e o
bobo nem percebe! Ainda bem que tu te livraste dela antes de ele conhecê-la...
Aquela mulher é uma sonsa, tenho certeza que foi ela quem convenceu
Péricles a não marchar em socorro de Platéia! Agora os espartanos estão
a caminho de Elêusis também e Atenas terá que fazer alguma coisa (2)!
-
Eu queria ir embora antes que essa guerra se espalhasse! - Eksamat estremeceu
- Mas não quero deixar Emrys aqui! E duvido que ele queira partir. Acho
que ele já previa essa guerra, pois jogou-me algumas indiretas... Ele
disse que esperava tempos difíceis para os próximos anos, dizendo que
nós três teríamos muito o que fazer na cidade!
-
Crês que será tão ruim assim? - Aka de repente teve medo - E o que ele
acha que poderemos fazer, só nós três, se Atenas realmente entrar nessa
guerra? Ele acaso quer que usemos a Voz para impedir o conflito?
-
Guerras são sempre ruins, lembras o que aconteceu quando os persas invadiram
a península há algumas décadas? - Eksamat também tinha seus maus presságios
- Emrys deve ter algum propósito em mente, só não sei qual é... Acho
que não tem nada a ver com usar a Voz! Queria ao menos convencê-lo a
esconder-se conosco em alguma de nossas propriedades. Pelo que tenho
ouvido, o conflito é iminente e teremos que fugir em breve! Péricles
ainda vai arrasar com Atenas e eu não quero ficar aqui para ver isso
acontecer!
-
Podemos voltar a Creta, ou subir para alguma das polis neutras da região
de Épiro! - sugeriu Aka - Temos alguns olivais em Aulon, Apolônia e
Epidamnus, lá dificilmente haverá conflitos! Ou então podemos ir para
a Magna Grécia, ainda temos aqueles vinhedos em Taranto (3)!
-
São boas possibilidades, quanto mais longe daqui melhor! - apanhando
o alaúde com um gesto lento, Eksamat demonstrou que era hora de dormir
- Falarei amanhã francamente com Emrys, dependendo do que ele disser
poderemos tomar nossas decisões! Agora está tarde, vamos descansar!
*************
-
Se queres fugir, deves apressar-te! - disse Emrys num tom soturno -
Os espartanos tomaram Elêusis e dirigem-se para cá, logo Atenas será
fechada! Agora há pouco ouvi dizer que Péricles mandou reunir os rebanhos
para enviá-los para lugar seguro. Ele pretende mandar os animais para
a ilha de Eubéia, que pelo menos prometeu continuar aliada de Atenas!
O
sacerdote não disfarçava uma certa decepção por Eksamat ter-lhe dito
que pretendia partir, porém também não poderia forçá-lo a ficar. Tinha
acalentado esperanças de que Aka e o irmão pudessem permanecer em Atenas
para ajudá-lo a socorrer os feridos e doentes, pois previa tempos negros
para a cidade. Contudo, já imaginava que eles prefeririam fugir ao conflito,
como sempre fizeram. Os dois estavam há tempo demais por ali e a guerra
serviria apenas como um pretexto para que eles se mudassem novamente.
Talvez fosse melhor assim.
-
E tu vais mesmo ficar? - Eksamat lutava contra a vontade de chorar,
tinha-se apegado a Emrys e doía-lhe ver a tristeza nos olhos do mestre
- Mesmo sabendo que a cidade será fechada, que os ataques são iminentes?
Tu também corres perigo!
-
Muitos precisarão de mim aqui, meu filho! - Emrys tentou parecer conformado
- Já te disse que posso prever certas coisas, e sei que serei necessário
em Atenas! Com certeza não lutarei nessa guerra estúpida, com a qual
não concordo, porém poderei salvar algumas vidas como médico...
Com
um suspiro, Eksamat virou-se para que o mestre não visse a raiva em
seu olhar. Há muito tempo tinha renegado a medicina e o sacerdócio,
não queria voltar a cuidar de doentes como Aka às vezes fazia. De que
lhe valeram seus grandes conhecimentos se nunca pudera realmente salvar
uma vida, quando a morte chegava impiedosamente? Algumas de suas esposas
morreram doentes, tantos amigos seus envelheceram sem que pudesse ajudá-los...
Nem a Voz poderia vencer a Morte. Eksamat odiava a própria impotência
e decididamente não sentia-se capaz de ajudar Emrys. Melhor partir logo,
tirar Aka de Atenas e esconder-se com ela em lugar seguro.
-
Espero poder rever-te um dia... Adeus!
Reunindo
todo seu orgulho e egoísmo para fortalecer-se naquela hora decisiva,
Eksamat sequer abraçou Emrys para despedir-se e mal ouviu o que o ancião
lhe respondeu, correndo de volta para casa. Se permanecesse ali por
mais um segundo que fosse, começaria a chorar e gritar como uma criança,
tentaria arrastar o mestre consigo à força, daria um escândalo. Preferia
partir num momento de cólera e impulsividade do que demonstrar sua fraqueza,
sabendo que seria em vão. Por que Emrys cismava em ser tão bom com os
outros, arriscando a própria segurança? Não seria melhor sobreviver
e ensinar tantas coisas boas às próximas gerações? Eksamat no fundo
entendia as razões do mestre, mas não conseguia ser como ele.
Alarmada
pelas notícias que o irmão lhe trazia, Aka ordenou que os criados arrumassem
suas bagagens às pressas. Se Péricles mandasse mesmo fechar os portões
de Atenas, depois não teriam como escapar. Os espartanos estavam muito
próximos, cada hora que passasse seria crucial para sua segurança. Talvez
Emrys mudasse de idéia e fosse encontrá-los no último minuto...
Antes
do fim do dia Atenas já estava em polvorosa. Mensageiros chegavam e
partiam correndo a todo instante, trazendo mensagens de apoio das polis
aliadas ou notícias da movimentação das tropas espartanas. Dezenas de
famílias que moravam nas proximidades acorriam à ágora fortificada,
com seus rebanhos e servos, em busca de proteção. Alimentos começavam
a ser estocados, mercadores fechavam suas lojas, todos preparavam-se
para sobreviver ao conflito. Poucos pensavam em fugir, como os Imortais,
e não foi fácil conseguir carros de aluguel para levar sua bagagem para
fora da cidade. O único transportador disposto a deixar Atenas que Eksamat
conseguiu encontrar sairia apenas na manhã seguinte, e só aceitou levá-los
até a polis de Deceléia, ao norte - lá os irmãos teriam que conseguir
novos carros para alcançar a costa, de onde pretendiam zarpar para Erétria,
na ilha de Eubéia.
Aka
passou a noite em claro com os criados, fechando a casa e separando
tudo o que tivesse valor que pudessem levar, enquanto Eksamat saía constantemente
à rua atrás de novidades de última hora, batendo à casa dos amigos ou
mesmo sondando os guardas do palácio de Péricles. Quando o sol nasceu,
o transportador apareceu com seus carros e, em pouco mais de uma hora,
os irmãos abandonavam Atenas e Emrys. Aka chorou por não ter podido
despedir-se do mestre, mas conseguiu enviar-lhe uma mensagem relatando
seus planos de viagem, na esperança de que o outro Imortal resolvesse
segui-los depois.
A
viagem para o litoral não foi fácil, pois por onde passavam encontravam
propriedades abandonadas, fazendas desertas e estradas congestionadas.
Essa movimentação de gente era normal quando irrompia uma guerra, porém
dessa vez os irmãos seguiam no contra-fluxo, evitando as polis ao invés
de buscarem proteção como os outros. A passagem para Eubéia foi relativamente
fácil, muitos navios aglomeravam-se nos portos à espera dos rebanhos
atenienses e um capitão concordou em transportar os Imortais por uma
bela quantia em ouro.
Após
atravessarem a ilha para noroeste, os irmãos voltaram ao continente
desembarcando numa região aliada de Atenas, por onde puderam transitar
sem grandes incômodos rumo a oeste. Às vezes ouviam rumores de que os
espartanos tinham interrompido os ataques e debandado suas tropas, enquanto
Atenas armava-se para marchar contra a polis de Mégara. Em outra ocasião,
ouviram que uma peste tinha atacado os atenienses, enfraquecendo a cidade,
e a oposição a Péricles levou Aspásia a julgamento por impiedade, porém
o governador teria conseguido salvá-la. As notícias em geral eram desencontradas,
desatualizadas ou exageradas pelo povo, e ninguém sabia ao certo em
que acreditar.
Os
dois Imortais atravessaram a Tessália até chegar à região de Épiro,
finalmente estabelecendo-se em uma de suas fazendas em Epidamnus. Lá,
recebiam notícias esparsas dizendo que Péricles tinha sido finalmente
deposto pelo povo, mas a peste assolava a Ática e o governador foi convocado
para reassumir o poder, liderando uma invasão à ilha de Zakynthos. Infelizmente
a peste acabou vitimando o próprio Péricles no ano seguinte, e os espartanos
arrasaram Platéia definitivamente, iniciando um ciclo de invasões periódicas
à Ática. Durante o sexto ano de conflito, uma série de terremotos e
enchentes por todo o Peloponeso levaram a uma breve trégua, porém logo
a guerra recomeçou, ora dando vantagem a Esparta, ora a Atenas. Várias
vezes foram propostos tratados de paz, sem sucesso, e ao final de 28
anos Atenas sucumbiu - Esparta tornou-se a mais poderosa das polis gregas.
Nesse
meio tempo, Eurípides tinha falecido na Macedônia, Aristófanes fizera
enorme sucesso com suas comédias e Sócrates tomara por discípulo um
jovem promissor chamado Platão. Somente de Emrys os irmãos não recebiam
notícia, por mais que enviassem cartas a Atenas. Souberam apenas que
o sacerdote fizera de tudo para lutar contra a peste durante a guerra,
mas depois sumira sem dizer para onde iria.
*************
Peloponeso
e Península Itálica - cerca de 399 a 200 a.C
Durante
os primeiros quinze anos do novo século, os dois Imortais esperaram
em vão que o velho mestre aparecesse para reencontrá-los. Quando o império
da Macedônia começou a esticar seus tentáculos sobre o Peloponeso, Aka
e Eksamat desfizeram-se de suas propriedades na região de Épiro e rumaram
de navio para seus vinhedos em Taranto. De lá, assistiram em segredo
ao crescimento do poder macedônio, o reinado glorioso de Alexandre Magno
que chegou ao Egito e à Ásia, e a posterior divisão do impressionante
império em regiões independentes.
Através
de contatos muito bem remunerados, documentações falsas e procurações,
os irmãos conseguiram vender aos poucos a maior parte de suas propriedades
no Peloponeso, trocando-as por investimentos na Península Itálica ou
na Sicília. Obviamente sofreram um grave prejuízo, pois muitas de suas
terras tinham sido invadidas, arrasadas ou simplesmente tomadas pelos
novos governantes. Mesmo assim, ainda puderam recuperar boa parte de
sua fortuna, e mudaram-se depois para Nápoles, ao norte. Roma, a capital
do novo reino do Lácio, começava a aflorar como uma das mais poderosas
cidades fora do domínio dos macedônios, e impunha sua influência a toda
a Península Itálica.
*************
Roma,
Península Itálica - 195 a.C.
Recém-chegados
à grande capital latina, após uma longa viagem, Aka e Eksamat foram
surpreendidos pela sensação múltipla de vários Imortais em Roma. Era
noite quando puderam entrar com seus carros na cidade, pois durante
o dia as vias públicas eram tomadas por um trânsito tão grande de carruagens,
pedestres e liteiras carregadas por escravos, que Eksamat preferiu esperar
algumas horas antes de prosseguir com o cortejo da mudança. O trânsito
continuava, porém menos intenso, e ainda nem tinham encontrado a casa
que lhes fora comprada por procuradores quando os irmãos perceberam
o perigo que corriam.
-
Manda voltarem com os carros, Eksamat! - sussurrou Aka ao irmão, olhando
ao redor com pavor - Não podemos ficar aqui, manda voltarem agora!
-
Está escuro, para onde vamos fugir? - Eksamat tentava em vão identificar
alguma vibração mais próxima conforme o cortejo avançava - Não podemos
passar a noite fora da cidade, seria pior!
-
Há vários deles aqui, Eksamat!
-
Mas eles não ousarão nada agora, estamos com muita gente conosco e as
ruas ainda estão cheias! - Eksamat fez sinal ao chefe dos transportadores
para que andasse mais depressa - Se encontrarmos nossa casa ficaremos
mais seguros, pelo menos por esta noite!
Outros
carros passavam por eles, carregados com produtos do mercado. Quádrigas
elegantes levavam patrícios romanos para festas, mensageiros voavam
em velozes bigas (4) gritando para que abrissem-lhes caminho, soldados
a cavalo faziam a ronda em pequenos grupos passeando sob a luz de archotes
públicos acesos a noite toda. Roma sempre dormia tarde.
De
repente, uma sombra moveu-se num beco próximo, aparentemente escondendo-se.
Num reflexo, Aka e Eksamat sacaram discretamente as espadas, sabendo
que aquele era um dos Imortais que sentiam. Quando a caravana de carros
passou pelo beco, não havia mais ninguém à vista. Os irmãos trocaram
um olhar sombrio. Finalmente, algumas casas adiante, o chefe dos transportadores
deu um sinal e parou em frente a um suntuoso palacete. A propriedade
não era das maiores que tinham visto, mas tinha colunas soberbas em
mármore ladeando a porta, e que cintilavam à luz dos archotes dos transportadores.
Disfarçando
a apreensão, Eksamat desceu da quádriga em que viajava com a irmã e
abriu o portão da casa com a chave que lhe tinha sido enviada por seu
procurador. A propriedade deveria estar limpa, a maioria dos móveis
já teria sido trocada e inclusive a despensa estaria cheia, com tudo
pronto para recebê-los. Os carregadores começaram a descarregar a enorme
quantidade de bagagem, deixando tudo no vestíbulo ou no átrio (5). Após
alguns instantes observando as ruas, Aka desceu e entrou também, escondendo
novamente a espada sob o longo manto de viagem que a envolvia da cabeça
aos pés. A dupla de jovens criados que tinham trazido de Nápoles já
estava dentro do palacete, acendendo lamparinas e enchendo a casa de
luz.
-
Ele nos seguiu! - sussurrou Aka para Eksamat, que inspecionava o trabalho
de descarga das malas - Deve estar curioso a nosso respeito!
-
Eu percebi, acho que vi de novo a sombra dele duas casas atrás! - Eksamat
praguejou quando um dos carregadores derrubou um baú, depois voltou-se
para a irmã, novamente sussurrando - Aposto como ele está nos vigiando
agora! O desgraçado já sabe onde moramos!
-
Paga aos carregadores para arrumar a mudança lá dentro, assim eles ficarão
mais tempo aqui! - sugeriu Aka - Quanto mais gente tivermos por perto
durante a noite, mais fácil será manter o perigo afastado!
Eksamat
assentiu com a cabeça e, saindo novamente à rua, negociou com o chefe
dos transportadores um acréscimo no pagamento para que distribuíssem
a bagagem dentro do palacete, ao invés de deixá-la empilhada à entrada,
como fora combinado antes. O homem reclamou, regateou e por fim aceitou,
gritando com seus homens para que carregassem os volumes para onde lhes
indicassem. Enquanto isso, Aka deu uma volta rápida pelo interior da
casa, decidindo onde colocar cada coisa, e deu instruções aos criados
para que coordenassem a arrumação. Novas lamparinas foram acesas e logo
a propriedade estava um caos, com baús sendo carregados para diversos
cômodos, homens gritando, móveis sendo arrastados. Eksamat percebeu
que várias pessoas assomavam silenciosamente às portas das casas próximas,
curiosas para ver o que acontecia, e sorriu com satisfação, fingindo
não notar aquilo - não tinha intenção de alvoroçar a vizinhança desse
jeito, porém seria ótimo para afugentar o Imortal que os vigiava no
escuro.
Realmente,
depois de quase meia hora, o outro Imortal afastou-se. Os irmãos trocaram
um olhar aliviado, torcendo para que nenhum outro se atrevesse a chegar
perto. Sabiam da presença de mais Imortais, porém ninguém tão próximo
a ponto de representar uma ameaça imediata. Após certificar-se de que
tudo ficaria em paz, Eksamat dispensou os carregadores e pediu que os
criados preparassem uma rápida ceia fria, deixando o resto da arrumação
para o dia seguinte.
-
Roma é um ninho de Imortais! - comentou Aka assim que os criados deixaram
as bandejas com frutas junto aos divãs do tablinum (6) e recolheram-se
para dormir - Viemos nos meter no pior lugar possível!
-
Acho estranho tantos de nós assim, juntos! - Eksamat cuspiu alguns caroços
de uva antes de continuar - Será que há um líder entre eles? Sinto que
Emrys não está por perto, então quem mais poderia agrupar tantos de
nossa espécie?
-
Acreditas que seja um exército ou algo parecido? - Aka arrepiou-se -
Não seria possível... Eu senti pelo menos quatro, e tu?
-
Quatro, também. Todos espalhados... Pode ser que haja mais e não sentimos.
-
Será possível que eles estejam unidos? - Aka de repente perdeu o apetite
- Se eles andam juntos, nós estamos em desvantagem! Somos os invasores
do território deles, e a essa altura aquele curioso já deve ter divulgado
nosso endereço!
Subitamente
uma pedra entrou voando pela enorme janela aberta para o peristilium,
por pouco não atingindo a cabeça de Eksamat, e caiu com um baque surdo,
rolando pelo tapete. Num segundo, ambos os Imortais estavam pregados
às paredes da sala, em lados opostos, encarando-se com olhos arregalados.
Aka agachou-se e engatinhou rapidamente até onde a pedra tinha caído,
sob um dos divãs, enquanto Eksamat arriscava uma espiada pela janela.
Sem ver ninguém no jardim, Eksamat desconfiou que a pedra tivesse entrado
por cima do telhado e correu pelo posticum (7) com a espada em punho.
Colocando a cabeça cuidadosamente para fora, espiou pelo beco estreito
e escuro que ladeava a casa.
-
Há um bilhete aqui! - gritou Aka, ainda ajoelhada - É uma mensagem!
-
Foi um moleque que jogou a pedra, o pestinha desceu a rua correndo!
- Eksamat encostou as vidraças da janela ao voltar e correu até onde
a irmã estava - Por isso não sentimos ninguém, eles mandaram um menino!
Praguejando,
Aka sacou da espada para conseguir finalmente desfazer o nó que prendia
o bilhete à pedra, desdobrando um pergaminho amarrotado. Dentro, apenas
as palavras "PAX VOBISCUM", em letras grossas e graúdas.
-
"A paz esteja convosco"? - Eksamat tomou o bilhete da irmã e encarou
as palavras latinas com incredulidade - É uma proposta de paz? Quem
manda mensagens de paz no meio da madrugada, jogando pedras na casa
dos outros? Quase me acertaram!
-
Só pode ser uma piada de mau gosto! - Aka estava começando a ficar irritada
- Eles estão nos provocando! Se isso fosse sério, mandavam um mensageiro
durante o dia, como se deve, e esperariam pela resposta! Isso é coisa
de doidos!
-
Se eu soubesse onde eles moram, jogava a pedra de volta! Mas podes ter
certeza de que minha pontaria seria bem melhor e alguém teria uma bela
dor de cabeça no dia seguinte!
-
Tranca as janelas e vamos dormir, Eksamat! - Aka tomou novamente o bilhete
e dobrou-o - Ainda teremos que passar pelo menos mais um dia na cidade
e precisamos estar preparados para o que eles nos aprontarem amanhã!
Eksamat
saiu para o peristilium e deixou a pedra cair pesadamente entre as roseiras
do jardim, lançando um último olhar para o céu estrelado. Assim que
ele entrou e encostou as janelas, um menino despregou-se do muro da
casa ao lado e correu silenciosamente pelo beco, apressado por levar
o relatório de sua bem-sucedida incumbência ao patrão.
*************
Notas
explicativas:
1
- Em cerca de 432 a.C. Fídias foi falsamente acusado de roubar parte
do ouro do tesouro público, que lhe foi entregue por Péricles para fazer
a grandiosa estátua de Palas Atena (Athena Parthenos) que ornou o altar
do Partenon, esculpida em ouro e marfim. Fídias viu-se forçado a abandonar
Atenas e refugiar-se na cidade de Olímpia, onde faleceu. Após alguns
insucessos que quase custaram-lhe a vida, Sócrates realmente deixou
a vida política, preferindo dedicar-se à educação dos jovens. Na verdade,
foi isso justamente que mais tarde provocou sua morte, pois Sócrates
foi acusado de perverter a juventude e condenado a beber cicuta, falecendo
envenenado em 399 a.C.. O teatrólogo Eurípides ficou famoso nos esportes,
quando jovem, mas sempre preferiu viver recluso. Seus problemas familiares
e a inveja de seus conterrâneos várias vezes levaram-no a enfurnar-se
na ilha de Salamina, para compôr suas peças em paz. E Aristófanes foi
um dos mais famosos dramaturgos da época áurea do teatro grego clássico.
2
- Durante a primavera de 431 a.C., Esparta invadiu a região da Ática
e tomou a cidade de Platéia, aliada de Atenas, porém Péricles decidiu
não intervir, alegando que aquela era uma disputa territorial. Contudo,
por não encontrarem oposição, os Espartanos reuniram outras polis aliadas
e marcharam em seguida contra a cidade de Elêusis, tomando-a em junho
do mesmo ano. Depois, os espartanos acamparam na região da Arcânia,
próxima a Atenas, forçando a rival a reagir e reunir suas próprias polis
aliadas para rechaçar a invasão. Foram esses conflitos que originaram
a Guerra do Peloponeso, que durou até 404 a.C., culminando com a destruição
de Atenas. Vários fatos mencionados a seguir nesta história, sobre a
guerra, são verídicos.
3
- As polis de Aulon, Apolônia e Epidamnus, na região de Épiro, foram
fundadas por Corinto, aliada de Esparta, mas eram consideradas independentes
e preferiram não tomar parte na Guerra do Peloponeso. A Magna Grécia
era a região do sul da Península Itálica, incluindo a ilha da Sicília,
onde foram fundadas diversas colônias gregas.
4
- Quádrigas eram carros romanos de passageiros com quatro rodas e puxados
em geral por quatro ou mais cavalos. As bigas, menores e mais leves,
eram puxadas por um ou dois cavalos e tinham apenas duas rodas, e seus
passageiros precisavam viajar em pé. Mais rápidas e fáceis de manobrar,
as bigas eram geralmente usadas por mensageiros ou por comandantes militares
durante batalhas, enquanto as quádrigas eram preferidas para passeios
e/ou transporte.
5
- O vestíbulo era uma pequena área recuada da rua na fachada das casas
romanas, e na qual ficava o portão propriamente dito. O átrio era um
grande pátio interno e coberto, na parte dianteira das casas romanas,
ao redor do qual ficavam os quartos de dormir e as principais salas
de uso social.
6
- O tablinum era uma espaçosa sala de estar e jantar que normalmente
ficava em linha reta com a porta de entrada da casa, atrás do átrio,
do qual era separado apenas por cortinas. Do lado oposto ao átrio, o
tablinum abria-se em amplas janelas para o peristilium, que seria o
jardim dos fundos.
7
- O peristilium era cercado por muros ou pelos aposentos de serviço da
casa, e possuía uma área coberta ao redor, como um alpendre, mas sua grande
parte central, com o jardim, era descoberta. O posticum era um corredor
lateral de serviço que ligava o peristilium às ruelas que passavam entre
uma casa e outra.
