Atenas, Grécia - cerca de 500 a 400 a.C.
Pela
manhã, após uma noite de sonhos agitados a respeito de Emrys, os irmãos
saíram juntos para visitar as obras do Partenon. Os alicerces já tinham
sido concluídos e as primeiras colunas estavam sendo cuidadosamente
instaladas, dando uma pálida idéia do que um dia seria um dos mais belos
templos gregos da história.
Fídias
reclamava fervorosamente com um grupo de discípulos e escravos, aparentemente
sobre algo que havia saído errado, e os irmãos permaneceram discretamente
à distância, esperando que ele terminasse, antes de fazê-lo notar que
tinha visitas. Assim que viu o casal de amigos Fídias acorreu pressuroso,
pedindo mil desculpas por ter sido flagrado num momento de destempero.
-
Ah, meus amigos, este trabalho tem dado-me mais dores de cabeça do que
eu imaginava! - choramingou o escultor, já passado dos cinquenta anos
- Péricles pede-me urgência, insiste que devo fazer pessoalmente as
esculturas que adornarão o templo, mas onde sobra-me oportunidade? Estou
pensando seriamente em mandar transportar meu estúdio de trabalho para
cá, assim pelo menos poderei esculpir e controlar esta turba de insensatos
ao mesmo tempo!
Apesar
dos resmungos, Fídias fez questão de guiar Aka por toda a obra, explicando
seu grandioso projeto e desenhando no ar, com grandes e dramáticos gestos,
as esculturas que pretendia realizar em honra da deusa suprema de Atenas.
Eksamat seguia-os a dois passos de distância, distraído, tão acostumado
aos arroubos do amigo que nem prestava-lhes mais atenção. De súbito,
ambos os Imortais trocaram um olhar significativo, que nem foi percebido
pelo escultor - Emrys aproximava-se.
Foi
com certo ciúme que Eksamat viu o outro Imortal subindo em direção à
obra, acompanhado de ninguém menos do que Sócrates! Emrys sorria pacientemente,
ouvindo o rapaz, e parecia entretido com o assunto, fazendo-lhe perguntas
e observações. Sócrates, arqueando as sobrancelhas ou coçando o nariz
arrebitado, ponderava as palavras de Emrys e rebatia com entusiasmo.
Via-se que finalmente o jovem filósofo tinha encontrado alguém capaz
de entendê-lo.
-
Por Hades (1), lá vem o danado do rapazola novamente! - lamuriou-se
Fídias, vendo os dois que chegavam - E pelo jeito traz outro chato consigo!
Eurípides há de pagar-me por ter-nos enviado esse incômodo!
Entrementes,
Emrys aproximava-se do trio olhando com certa curiosidade para Aka,
ao mesmo tempo em que concordava com a cabeça a algo que Sócrates lhe
dizia. Avassalada pela vibração atordoante do Imortal, Aka não conseguia
despregar os olhos dele. Eksamat notou que o outro Imortal tinha trocado
a túnica imunda da véspera por uma nova e limpa, e também tinha aparado
a barba segundo os costumes da época, mostrando-se agora ainda mais
impressionante, a despeito de sua simplicidade. Com algumas palavras
em voz baixa, Emrys despediu-se de Sócrates e o rapaz voltou alegremente
pelo caminho, satisfeito como uma criança que ganhou um presente. Era
óbvio o entusiasmo do jovem pelo Imortal, e Eksamat sentiu-se novamente
humilhado. Se alguém como Emrys dava atenção ao rapaz, decerto suas
idéias faziam-lhe sentido, e Eksamat perguntava-se se não tinha sido
estúpido em creditar pouca importância às teorias do aprendiz de filósofo.
Cumprimentando
Eksamat com um aceno de cabeça e dirigindo a Aka um olhar respeitoso,
Emrys apresentou-se a Fídias com humildade, pedindo-lhe permissão para
conhecer o futuro templo de Palas Atena. Supondo que ele poderia ser
tão maçante quanto Sócrates, o artista desmanchou-se em desculpas e,
alegando excesso de trabalho, confiou ao casal de amigos o inesperado
visitante. Eksamat fuzilou o escultor pelas costas com o olhar, porém
Emrys percebeu e sorriu discretamente.
-
Tens tanto receio assim de minha companhia, Heka Ma'At? - perguntou
Emrys em voz baixa, voltando a falar em egípcio e surpreendendo Aka
- Já não fiz questão de dizer-te ontem que estou na cidade apenas em
busca de sossego?
-
Pois eu sobrevivi tanto tempo à custa de minhas desconfianças! - retrucou
Eksamat, tentando parecer despreocupado - Ou acaso esqueceste que, no
final, só poderá haver um?
-
Contudo vejo que tens aqui uma de nós, e suponho que vivas com ela em
bons termos! - Emrys cumprimentou Aka com um aceno gentil de cabeça,
ao que ela respondeu com outro aceno, visivelmente espantada - Perdoe-me
a grosseria, minha jovem, suponho que nosso amigo já mencionou nosso
encontro de ontem! Sou Emrys, o sacerdote, e pretendo permanecer algum
tempo em Atenas, portanto gostaria que nossas relações pudessem ser
cordiais...
-
Tu és sacerdote? - Aka olhou de soslaio para o irmão, que também parecia
surpreso - E a qual deus respondes em teus ofícios?
-
Ao criador de tudo, seja lá que nome ele receba! - riu Emrys, com um
gesto amplo - A humanidade vive inventando nomes e histórias para seus
deuses, a mim pouco importa! Sou sacerdote desde antes de tornar-me
Imortal, o que interessa-me realmente é ajudar os desvalidos com meus
humildes conhecimentos... O que nem sempre é possível, devo admitir!
De
repente Emrys pareceu entristecer-se, e logo um lampejo de cólera passou
por seus olhos, sumindo tão rápido quanto surgiu. Ele elevou o rosto
para o sol, contemplando o céu com um suspiro, antes de reassumir o
tom despreocupado de antes.
-
Na verdade costumo morar em Solo Sagrado sempre que possível, minha
filha, e assumo as crenças dos povos com quem vivo... É uma questão
de adaptação aos tempos que passam! Mas dize-me teu nome, jovem! Estamos
a conversar e ainda não sei como te chamas!
-
Sou Akh Kheper-Apet de Abtu! - explicou Aka, lembrando-se de que Emrys
fizera pergunta similar a Eksamat na véspera - Mas aqui chamo-me simplesmente
Aka.
-
Dois Imortais com nomes divinos nascidos em Abtu! - Emrys sorriu novamente,
com seu jeito enigmático - Estranha coincidência! Sois portanto casados?
A
pergunta tomou Aka e Eksamat de surpresa, fazendo-os rir contra a vontade.
-
Somos irmãos! - explicou Eksamat, baixando definitivamente a guarda
- Ou melhor, fomos criados como irmãos, e tornamo-nos Imortais juntos,
por uma perfídia do destino! Eu também fui sacerdote em meu tempo, como
o pai que adotou a nós ambos, contudo minhas experiências ensinaram-me
a manter-me longe do clero de qualquer tipo!
-
Porém continuas em Solo Sagrado! - comentou Emrys, olhando ao redor.
-
O templo ainda está em construção, senhor! - disse Aka, corrigindo-o
polidamente - E há algumas décadas tentaram construir um templo aqui,
porém que eu saiba ele foi destruído antes de ser concluído e consagrado!
-
Ainda assim, aqui é Solo Sagrado! - Emrys parecia estranhar a surpresa
dos dois - Neste mesmo local, há tempos perdidos no passado, erguia-se
outro templo, na verdade um altar bastante simples, dedicado a divindades
que hoje nem têm mais nome, e percebo a ironia desta suntuosa obra!
A história, meus jovens, insiste em repetir-se, basta viver o suficiente
para observá-la na plenitude de seus caprichos!
-
Eu não sabia que aqui é Solo Sagrado! - exclamou Eksamat, visivelmente
confuso - Por isso tu não tiveste medo de aproximar-te de mim ontem,
quando chegaste!
-
Mesmo que não estivesses abrigado em Solo Sagrado, eu teria vindo a
ti da mesma forma! - agora Emrys tinha uma luz de infinita paciência
nos olhos, revelando a incomensurável idade de sua alma - Senti que
não és mau, e não havia nada a temer! Já disse, estou aqui em busca
de sossego, e não seria desafiando-te que eu encontraria paz! Se não
fosse pela maldição de ter que lutar por minha vida contra outros como
nós, decerto eu seria muito mais feliz...
-
Conheci outro de nós que usava esta mesma palavra! - Aka deixou o pensamento
vagar por um instante, perdida em saudosas recordações - Maldição...
Sofro muito por ele não estar aqui conosco! Era um homem bom, que ensinou-nos
sobre nossa Imortalidade e a quem devemos o fato de ainda estarmos vivos!
Chamava-se Imhotep... Talvez já tenhas ouvido falar dele, hoje no Egito
Imhotep é adorado como um deus!
Emrys
pareceu ligeiramente surpreso, mas não pelos motivos que eles pensavam.
-
Imhotep? - repetiu Emrys - Então ele sobreviveu muito tempo? Que fim
levou ele?
-
Tu o conheceste? - indagou Eksamat, pensando ter finalmente encontrado
o misterioso mestre de seu próprio mestre - Ele morreu há quase dois
milênios!
-
Nunca o vi pessoalmente! - confessou Emrys, decepcionando-os sem querer
- Ouvi falar dele pela boca de outro Imortal que conheci, mas com quem
perdi contato há tempos! Pensei até que ele andasse por estas bandas...
Ao que parece, esse meu amigo sabia de Imhotep, contudo jamais contou-me
nenhum detalhe, e ele próprio duvidava que Imhotep tivesse vivido muito.
É uma pena que um homem tão inteligente tenha desaparecido... Ouvi histórias
fantasiosas a seu respeito no Egito, porém suponho que tenha sido um
bom mestre!
Percebendo
que Aka corava involuntariamente, Emrys mudou o rumo da conversa e,
distraídos, os três permaneceram entretidos por várias horas. Só quando
os estômagos começaram a roncar foi que lembraram-se que estavam a tagarelar
amistosamente há tanto tempo, esquecendo completamente quem eram e os
motivos que tinham para temer-se. Emrys emanava uma tranquilidade e
uma sabedoria sem limites, e os irmãos viam-se compelidos instintivamente
a confiar nele. Suas palavras eram carregadas de paciência e de bondade,
apesar de muitas vezes ele parecer divertir-se com a ingenuidade dos
outros dois, afinal para ele ambos não passavam de crianças que ainda
tinham muito o que aprender. Mesmo assim, tratava-os com a condescendência
daqueles que já viram de tudo no mundo, e percebia-lhes os bons propósitos,
chegando a sentir até uma certa estima pelos dois mais jovens. Eles
não representavam-lhe uma ameaça, pelo contrário, eram pobres almas
perdidas que tinham sofrido muito e procuravam um novo caminho.
Era
uma sorte encontrar dois Imortais tão antigos ainda vivos, morando juntos
e com tão pouca experiência. Em geral, Emrys encontrava Imortais mais
velhos com alguns mais novos, vivendo em relacionamentos de professor
e aluno, porém raramente tinha visto casais, e nunca soubera de dois
Imortais que consideravam-se como irmãos. Os dois à sua frente eram
especiais, e Emrys decidiu tomar conta deles assim que possível. Ou
melhor, assim que ambos o permitissem.
-
Gostaria imensamente de continuar nossa interessante palestra, mas o
adiantado da hora chama-me de volta a meus afazeres! - despediu-se Emrys
de repente, com um sorriso sincero - Não atrevo-me a convidar-vos para
almoçar no templo onde consegui pousada, pois a comida lá não é das
melhores, nem o ambiente é tão acolhedor! Entretanto, se acaso quiserdes,
encontraremo-nos nos próximos dias pela cidade! Agora com licença, meus
jovens!
Aka
e Eksamat observaram-no descer lepidamente a colina em direção à ágora,
ainda profundamente impressionados com o carisma do outro Imortal.
-
Ele às vezes parece tão velho que chega a doer-me no peito! - comentou
Aka, com os olhos pregados no vulto branco que afastava-se - E ao mesmo
tempo é tão jovem! Será que um dia ficaremos assim, Eksamat? Almas anciãs
prisioneiras de um corpo imutável?
-
Nós já somos anciãos, Aka! - Eksamat atestou, esforçando-se por compreender
as muitas coisas que Emrys lhes havia dito - Para ele nós somos crianças,
porém para os demais mortais nós já somos velhos além do imaginável!
Nem consigo pensar o que este homem pode ter visto e vivido... Admiro-me
por ele conservar a sanidade!
-
Eu gostaria de conversar mais vezes com ele! - Aka confessou - Mesmo
com tanta simpatia, ele me fez sentir tão pequena, tão despreparada!
Quanto mais eu o ouvia, mais desejava ouvir... Já pensaste o quanto
poderíamos aprender com ele?
-
Creio que isso está acima da minha capacidade, minha irmã! - Eksamat
foi forçado a admitir - Nunca confiei que tal criatura pudesse mesmo
existir e, agora que conheço-o pessoalmente, custa-me crer em tamanha
maravilha! Temos muita sorte, Aka, muita sorte... Se um dia eu finalmente
morrer, pelo menos levarei comigo o orgulho de ter visto este homem
com meus próprios olhos! Só espero que possamos mesmo confiar nele...
Aka
assentiu com um gesto de cabeça, perdida em pensamentos assombrados.
Só depois de alguns instantes foi que ambos lembraram-se que continuavam
com fome, e desceram silenciosamente para casa.
*************
Durante
as duas semanas seguintes os irmãos encontraram-se diversas vezes com
Emrys pela cidade. A vibração dele parecia atraí-los, e podiam vê-lo
catando ervas pelas colinas, cuidando de doentes em plena rua, orando
sozinho em algum templo ou mesmo entre os filósofos, escutando-os humildemente
como qualquer discípulo. Emrys era simpático e generoso com todos, estava
sempre disponível para uma conversa e em pouco tempo cumprimentava diversos
atenienses como se morasse na cidade há anos. Entretanto, nunca viam-no
frequentando a casa de ninguém. Mesmo mostrando-se expansivo, Emrys
não dava motivos para que comentassem suas atitudes ou perguntassem
sobre seu passado. Ninguém sabia de onde ele viera, por que estava ali
ou quando partiria. Ele simplesmente pedira abrigo num dos templos e,
em troca de seus serviços, recebia cama, comida, roupas e banho.
Durante
o dia inteiro Emrys andava por todo lado e parecia não seguir nenhuma
rotina específica, fazendo o que bem entendesse e quando bem lhe aprovesse.
Eksamat sentia-se compelido a sentar-se perto dele quando encontrava-o
nas aulas dos sábios, porém justamente por isso procurava sentar-se
longe, fingindo que a presença do outro não o incomodava. Mesmo assim,
Emrys sorria todas as vezes em que seus olhares se cruzavam e parecia
não perceber que estava sendo evitado.
-
Ele é tão BOM que chega a ser irritante! - comentou uma noite Eksamat
com a irmã - Todos gostam dele, todos parecem sentir essa coisa estranha
que ele tem! E ele está em toda parte, não consigo passar um dia sem
vê-lo várias vezes... Até ao ginásio ele tem ido!
-
Sinceramente acho que não há porque continuar evitando-o... - Aka comentou,
após pensar por um momento - Nós temos nossas experiências desagradáveis,
é verdade, porém também vivemos muito tempo em paz com Imhotep, e esse
Emrys inspira-me uma confiança inexplicável! A conversa que tivemos
aquele dia foi tão interessante! Acho que devemos deixar o medo de lado
e unirmo-nos a ele... Pensa bem, Eksamat, ele poderia ensinar-nos tantas
coisas!
Eksamat
concordou em silêncio, entregando os pontos. Ardia de curiosidade por
conversar com Emrys, perguntar-lhe milhões de coisas, expôr-lhe seus
problemas e idéias. Aka também mais de uma vez tinha encontrado Emrys
pela rua, e ele sempre mostrou-se simpático, dando todas as chances
para que ela iniciasse uma conversa. Por que não tratá-lo com a mesma
cordialidade? Se teriam que conviver com ele, então melhor que fosse
como amigos. E foi o que ela fez.
Na
tarde seguinte, vendo Emrys brincando com um grupo de crianças, Aka
aproximou-se com a criada a tiracolo. O outro Imortal sorriu-lhes enquanto
recitava versinhos, que as crianças repetiam alegremente, como se fosse
uma canção. Só após alguns instantes foi que Aka percebeu tratar-se
de uma fábula cheia de conteúdo moral e religioso, e ficou espantada.
As crianças continuavam repetindo as rimas, decorando-as, e Emrys começou
a desenhar na areia as primeiras letras de cada verso, que elas copiavam
enquanto falavam, como num jogo. Em poucos minutos todo o alfabeto estava
traçado no chão, e as crianças bateram palmas, reiniciando os versos
e o desenho das letras, umas corrigindo as outras com risadas. Só quando
viu que elas conseguiriam continuar a brincadeira sozinhas foi que Emrys
separou-se do grupo e veio até onde Aka estava esperando.
-
Nunca vi coisa parecida! - exclamou ela, observando as crianças - Tu
lhes ensinaste filosofia e o alfabeto ao mesmo tempo, tudo num instante
de brincadeiras!
-
Eu gosto de criar estes jogos, os pequenos aprendem melhor quando divertem-se
do que quando são forçados a estudar! - Emrys tinha novamente aquele
olhar de infinita paciência e humildade que Aka nunca cansava-se de
admirar - Com a música, elas guardarão esta pequena aula na memória
e poderão um dia ensiná-la a seus irmãos e filhos... É apenas um truque
que aprendi há algum tempo!
Os
dois Imortais iniciaram uma longa conversa a respeito da moral contida
na canção, e Aka ficava cada vez mais impressionada. Emrys tinha sempre
uma visão maior das coisas, uma experiência insuperável, mas mesmo assim
ouvia-a atentamente e nunca corrigia-a ou zombava de suas idéias, que
eram simplistas perto das dele. Andando a passos lentos, com a impassível
criada seguindo a uma distância respeitosa e forçando-os a evitar certos
comentários, os dois rumaram inconscientemente para o Partenon. Aka
só percebeu para onde estavam indo quando sentiu a presença do irmão.
Em seguida, Eksamat aparecia por trás da sombra de uma coluna, com um
enorme papiro nas mãos.
Desta
vez Eksamat cumprimentou Emrys com boa vontade, e mostrou-lhe o esboço
de uma das estátuas que Fídias pretendia fazer para o frontispício do
templo. Aka aproveitou a companhia do irmão para dispensar a criada,
evitando que a mulher ouvisse algo que não deveria. Os três então conversaram
sobre arte, religião e rituais antigos por horas, e só pararam quando
o sol abaixava no horizonte. Aka nem precisou lançar um olhar ao irmão
para saber o que ele pensava e convidou Emrys para jantar com eles,
insistindo que deveriam continuar a agradável palestra. Contrariando
as expectativas, Emrys não se fez de rogado e os três desceram para
a ágora, matraqueando sem parar.
Na
verdade os três mais falaram do que comeram, e prosseguiram trocando
opiniões durante a noite toda. Emrys recusou-se a ingerir vinho ou cerveja,
mostrou-se parcimonioso ao comer e foi respeitoso até com os criados,
coisa que os irmãos apreciaram mais do que tudo. Já era tarde quando
ele enfim retirou-se de volta ao templo, receoso de que talvez nem o
deixassem mais entrar para dormir. Ainda assim, recusou terminantemente
passar a noite na casa dos irmãos, agradecendo a hospitalidade e pretextando
que precisaria atender alguns doentes pela manhã.
Depois
que ele saiu os irmãos sentiram uma certa tristeza. Estavam há tantos
anos sozinhos que nem lembravam-se direito como era bom poder falar
francamente com outro de sua espécie, principalmente alguém com a vivência
de Emrys. De repente, sem ele, a casa pareceu-lhes vazia e triste, como
se o velho Imortal tivesse levado consigo o brilho da noite.
*************
Depois
do primeiro passo ter sido dado, os três Imortais rapidamente tornaram-se
amigos. Aka agora inventava mil pretextos para procurar Emrys pelas
ruas, chegando a ajudá-lo com doentes ou indo com ele às campinas colher
ervas, aprendendo coisas que nunca imaginou.
-
Esta pequena flor, se usada junto com as folhas daquela outra, resultam
num poderoso analgésico para os males do estômago! - explicava Emrys,
pulando entre os arbustos - Já se misturares a ambas esta outra raiz
aqui, povocarás um vômito violento! Esta frutinha, por exemplo, produz
uma seiva venenosa mas que, se bem diluída em um chá feito com a casca
daquela árvore, resulta num ótimo tratamento para problemas infecciosos
da pele...
Por
seu lado, Eksamat em breve não desgrudava mais de Emrys nem nas aulas
dos filósofos nem no ginásio, onde literalmente caiu de costas diante
da agilidade e da rapidez do vetusto companheiro. Mesmo aparentando
ser um homem entrando na maturidade, Emrys era mais rápido e ágil do
que qualquer adolescente, derrotando inclusive Eurípides e Eksamat,
nos jogos e nos combates.
-
O segredo é prestar atenção no teu oponente! - explicava ele aos muitos
rapazes que juntavam-se invariavelmente a seu redor - Observa como ele
anda, como ele move os braços, a postura que ele assume quando está
parado! Tudo isso pode fornecer detalhes importantes das qualidades
e dos defeitos dele, que devem ser usados para derrotá-lo!
Eksamat
sabia de tudo aquilo, mas Emrys era ainda mais preciso em suas observações,
demonstrando com facilidade suas teorias de combate. E lá ia Eksamat
novamente ao chão, derrubado por um volteio rápido do outro Imortal.
-
Tu te mostras para teu oponente se acaso seguras a espada com muita
força, ou se apóias teus pés desta maneira! Ele saberá onde repousa
o peso de teu corpo e a intensidade de tua ansiedade, podendo vencer-te
sem que tu sequer saibas por quê! Economizas teus gestos ao lutar, para
não te cansares nem revelares teus pontos fracos!
-
Falar é fácil! - resmungou Eksamat, batendo a poeira dos braços - Não
sei como consegues prestar atenção em tantas coisas ao mesmo tempo!
-
Paciência, disciplina e dedicação! - ditou Emrys - Aprendas a manter
a calma e verás como tudo será mais fácil! Concentra-te!
Para
ajudá-lo, Emrys ensinou-lhe técnicas de relaxamento e meditação, mostrando-lhe
como controlar a respiração e ouvir a pulsação do próprio coração. Impaciente
e volúvel, Eksamat reclamava que alguns dos exercícios eram tolos, e
Emrys foi obrigado a provar-lhe na prática, fazendo-o levar novos tombos,
a utilidade de seus ensinamentos. Vencido diante dos amigos, Eksamat
viu-se forçado a aprender, mesmo que motivado pela raiva, só para provar
que podia chegar onde Emrys queria. E Aka era, obviamente, sua cobaia.
Quando
não estavam cuidando da própria vida ou atrás de Emrys, os irmãos treinavam
agora arduamente. Os dois exercitavam-se juntos em casa, longe das vistas
dos empregados e dos amigos, pois seria inconcebível para a sociedade
daqueles tempos que uma mulher lutasse como um homem, ou contra um homem,
mesmo dentro do próprio lar. Aka gostava das técnicas estranhas que
Emrys ensinava, percebendo-lhes um significado que o nervosismo natural
de Eksamat não lhe permitia admitir. Com os brios ofendidos, ele queria
resultados imediatos, enquanto ela raciocinava e aprendia melhor do
que ele.
-
Vês como tu moves o ombro antes de liberar teu golpe? - implicava Aka,
antes mesmo que Eksamat levantasse o braço - Agora eu sei que tu me
atacarás pela direita!
-
Mas onde viste que eu movi meu ombro? - Eksamat desesperava-se - Eu
nem sequer ergui a espada!
-
Tu sempre moves o ombro desse jeito quando pretendes atacar pela direita!
-
Tu sabes disso porque sempre lutas comigo! Um estranho não saberia!
-
Então agora adivinhes por onde eu irei atacar-te!
Aka
permaneceu imóvel alguns instantes e, de repente, sua espada estava
na altura do cotovelo do irmão. Se fosse um golpe real, Eksamat poderia
ter perdido o braço!
-
Como fizeste isso tão depressa? - Eksamat sussurrou, empalidecendo -
Eu não despreguei os olhos de ti!
-
Lembras o que Emrys falou-te sobre olhar sem ver, enquanto enxerga-se
tudo? - Aka explicou, triunfante - Tu ficaste tão concentrado em meu
rosto, buscando um sinal, que não usaste teus instintos, tua percepção
do ambiente! Se tivesses mantido a visão mais aberta, terias percebido
meu movimento! Tens que relaxar!
Após
algumas semanas, vendo que Eksamat ia ficando cada vez mais desgastado
por perder para Emrys e até para ela, Aka mudou de atitude. Ao invés
de só lutar com ele, passou a incentivá-lo a fazer outras atividades
que pudessem abrir-lhe a mente para os novos ensinamentos. Como Eksamat
às vezes fugia do ginásio para evitar tomar outra sova do mestre, Aka
levava-o para passear em lugares calmos, explicando-lhe sobre as ervas
novas que Emrys tinha-lhe apresentado. Quando o tempo não estava bom
para passear, Aka incitava-o a dedilhar seu velho alaúde para os amigos,
ou a fazer serviços que demandassem paciência, chegando até a ensiná-lo
a fiar.
-
Mas por que precisas de mim para isso? - resmungava Eksamat, embananado
com o fuso e a roca - Poderias chamar uma das criadas!
-
Eu não suporto mais a companhia delas! - Aka estava sendo sincera, porém
com segundas intenções - Fica e ajuda-me, qual o problema?
Diante
dos pedidos insistentes dela, Eksamat ficava, aprendia e fiava para
a irmã. Ele sempre tivera paciência para tarefas monótonas e delicadas,
concentrando-se em detalhes sem perceber, teimoso e exigente consigo
mesmo, e Aka sabia disso. O problema dele era quando algo envolvia seus
brios - Eksamat então simplesmente enfurecia-se à toa e abandonava tudo
pela metade, arrumando os pretextos mais absurdos só para não ter que
admitir o próprio fracasso. Quando ele não precisava provar nada para
ninguém, podia perder dias dedicando-se a qualquer coisa que para outros
pareceria insignificante, esquecendo até de comer ou dormir, e não sossegava
enquanto não alcançava o objetivo. Para Eksamat, aprender a fiar era
até fácil demais, o difícil era continuar apanhando no ginásio e ainda
ter que reconhecer que Emrys tinha razão.
Um
dia, depois de tagarelar incansavelmente ao ouvido do irmão e fazê-lo
fiar por horas, até perceber que ele estava mais concentrado no trabalho
do que nela, Aka surpreendeu-o jogando-lhe uma taça vazia, que estava
esquecida numa mesinha próxima. Num reflexo, Eksamat apanhou a taça
no ar, olhando para a irmã com cara feia.
-
Eu só queria que tu escutasses o que eu estava falando! - mentiu ela,
fingindo-se de chateada e logo falando sem parar assim que viu-o voltar
a fiar - Pois bem, naquele dia eu disse para Fâmulo que ele deveria...
Minutos
depois, sem avisar, Aka jogou um pêssego para o irmão, e novamente ele
agiu por instinto, apanhando a fruta no meio do caminho.
-
Qual o teu problema? - Eksamat resmungou - Desta vez eu estava ouvindo
o que dizias!
-
Isso foi só para mostrar-te que tu não precisas estar com os olhos fixos
em mim para saber o que eu estava fazendo! - Aka correu a beijá-lo -
Tu estavas olhando para a roca e ouvindo minhas palavras, mas eu não
avisei que ia jogar nada nem viste meu gesto! É isso o que Emrys te
ensinou!
Eksamat
tinha estado tão distraído com a maldita roca que nem lembrava-se de
Emrys. Pensando por algum tempo nas observações da irmã, ele começou
a entender o que ela queria dizer.
-
Tu fizeste com que eu prestasse atenção em duas coisas ao mesmo tempo,
e reagisse a uma terceira... - ele tentava concatenar as idéias - Eu
estava relaxado, mas meu instinto avisou-me de que algo vinha em minha
direção... Eu me defendi sem perceber, é isso?!
O
rosto de Eksamat iluminou-se num sorriso. A coisa toda tinha sido óbvia
o tempo inteiro - ele não tinha entendido Emrys porque estava concentrado
em vencê-lo! Forçando-se a querer antecipar os golpes, acabava errando
justamente por não abrir-se para o inesperado. Não precisava ficar com
os olhos fixos nas mãos ou nos olhos do adversário para prever os ataques,
pois muitas vezes um simples trejeito do rosto ou uma respiração mais
profunda podia indicar o próximo movimento. Era preciso relaxar e concentrar-se
no todo, não em um detalhe de cada vez.
Com
essa nova idéia finalmente entrando em sua cabeça, Eksamat obrigou-se
a fazer os exercícios de meditação e concentração que Emrys lhe ensinou.
Isso abriu-lhe a mente de uma forma que Eksamat a princípio não imaginava
possível - seus sentidos ficaram mais alertas e suas reações tornaram-se
mais velozes. Em poucos dias Aka notou a diferença, e Emrys também.
-
Muito bom! - elogiou o velho Imortal, pulando para escapar por um triz
de um golpe de Eksamat - Estás melhorando visivelmente, meu filho! Sorte
a minha ser rápido, senão este teria me acertado!
No
fundo, Emrys tinha sentido todas as fases por que o aluno passara nos
últimos meses. Sua experiência lhe dizia claramente que Eksamat treinava
com a irmã, e a própria Aka perguntara-lhe indiretamente, e muito discretamente,
sobre algumas coisas que o rapaz tinha lhe falado. Várias vezes ela
até arriscara-se indo com as criadas ao ginásio, mantendo-se à distância
para observá-los o mais possível antes de ser notada, e depois pretextando
que queria apenas dar algum recado importante ao irmão. Sem demonstrar
o que notava, Emrys viu Eksamat passar pela ânsia de aprender, depois
pela raiva de perder, pelo desgaste de não progredir e finalmente pela
desistência e pela fuga. Por isso, jogava pistas para Aka a respeito
da influência que ela poderia ter sobre o irmão e fez com que ela o
incentivasse. Seu plano deu certo e eis que Eksamat voltava a frequentar
o ginásio como antes, porém ainda mais bem preparado do que no início!
Emrys
poderia ter facilitado as coisas para o rapaz, fingindo perder algumas
vezes, porém não seria esse o caminho que faria Eksamat aprender o que
precisava. Quando mostrasse seu verdadeiro potencial, Emrys seria desmascarado
e Eksamat ficaria furioso por ter sido enganado. Da forma como as coisas
aconteceram, o rapaz ensinou tudo o que sabia à pobre irmã, que não
podia aprender pessoalmente por causa das imposições sociais. Aka digeriu
esses conhecimentos e devolveu-os ao irmão sob uma nova forma. Agora,
Eksamat evoluía por si próprio e podia orgulhar-se de surpreender o
mestre, além de trazer de volta outras coisas para Aka, numa troca constante.
Ambos chegaram onde Emrys queria, e nenhum teve seu orgulho ferido por
isso. Era apenas uma questão de jogar com as circunstâncias, e ninguém
melhor do que Emrys para conhecer esse jogo.
Mesmo
sem confessar, o velho mestre preocupava-se com os dois irmãos. Sabia
que ambos eram ingênuos, de bom coração, com praticamente nenhuma experiência
das lutas dos Imortais. Apesar da idade e da esperteza, os dois tinham
sobrevivido por muita sorte. Tinha descoberto que Aka e Eksamat permaneceram
a maior parte de suas vidas na solidão dos desertos ou do imenso mar,
vagando de um lado para outro e convivendo apenas com pequenos grupos
de cada vez, aqui e ali. Eles raramente ficavam muito tempo em algum
lugar, viajavam demais, quase nunca voltavam a viver numa cidade onde
já tivessem morado e fugiam das áreas marcadas por guerras. Isso decerto
dificultava que alguém os seguisse com más intenções ou que caíssem
sob a influência de mestres perversos.
Diversos
alunos de Emrys transformaram-se em sacerdotes, professores ou médicos,
enquanto todos os que ele precisou decapitar eram salteadores, conquistadores,
mercenários, assassinos, fanáticos, tiranos. Infelizmente, a maioria
dos Imortais adotava a violência como forma de vida - assim que eles
descobriam seu poder, imaginavam-se especiais e, em nome da ambição
e do orgulho, cometiam atrocidades. Destes, poucos tinham salvação e
quase todos pereciam pela própria espada que elegeram como guia. Aka
e Eksamat eram humildes e tinham começado pelo lado bom, como sacerdotes
e curandeiros, tendo-se afastado das origens por uma questão prática.
Por sorte não tinham instinto para a violência, portanto agora cabia
a Emrys trazê-los de volta ao caminho certo.
E
ele estava conseguindo.
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Notas
explicativas:
1
- Hades é o nome grego do deus dos infernos, que mais tarde os romanos
nomearam de Plutão.
