Não
há propriamente uma história da filosofia cristã, assim como há uma
história da filosofia grega ou da filosofia moderna, pois no pensamento
cristão, o máximo valor, o interesse central, não é a filosofia, e sim a
religião. Entretanto, se o cristianismo não se apresenta, de fato, como uma
filosofia, uma doutrina, mas como uma religião, uma sabedoria, pressupõe uma
específica concepção do mundo e da vida, pressupõe uma precisa solução
do problema filosófico. É o teísmo e o cristianismo. O cristianismo fornece
ainda uma - imprescindível - integração à filosofia, no tocante à
solução do problema do mal, mediante os dogmas do pecado original e da
redenção pela cruz. E, enfim, além de uma justificação histórica e
doutrinal da revelação judaico-cristã em geral, o cristianismo implica uma
determinação, elucidação, sistematização racional do próprio conteúdo
sobrenatural da Revelação, mediante uma disciplina específica, que será a
teologia dogmática.
Pelo
que diz respeito ao teísmo,
salientamos que o cristianismo o deve, historicamente, a Israel. Mas entre os
hebreus o teísmo não tem uma justificação, uma demonstração racional,
como, por exemplo, em Aristóteles,
de sorte que, em definitivo, o pensamento cristão tomará na grande
tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. Isto
se realizará graças especialmente à Escolástica e, sobretudo, a Tomás
de Aquino. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal,
solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo
cristianismo ao pensamento antigo - que sentiu profundamente, dramaticamente,
este problema sem o poder solucionar - frisamos que essa representa a grande
originalidade teórica e prática, filosófica e moral, do cristianismo.
Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais
do pecado original e da redenção da cruz. Finalmente, a justificação da Revelação
em geral, e a determinação, dilucidação, sistematização racional do
conteúdo da mesma, têm uma importância indireta com respeito à filosofia,
porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. Foi esta,
especialmente, a obra da Patrística e, sobretudo, de Agostinho.
Esta
parte, dedicada à história do pensamento cristão, será, portanto, dividida
do seguinte modo: o Cristianismo,
isto é, o pensamento do Novo Testamento, enquanto soluciona o problema
filosófico do mal; a Patrística, a
saber, o pensamento cristão desde o II ao VIII século, a que é devida
particularmente a construção da teologia, da dogmática católica; a Escolástica,
a saber, o pensamento cristão desde o século IX até o século XV, criadora
da filosofia cristã verdadeira e própria.
Características
Gerais do Pensamento Cristão
Foi
conquistada a cidade que conquistou o universo. Assim definiu São Jerônimo o
momento que marcaria a virada de uma época. Era a invasão de Roma pelos
germanos e a queda do Império Romano.
A
avalancha dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais
do mundo antigo.
A
Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política, econômica e
social do Ocidente, agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. Depois
vieram as guerras, a fome e as grandes epidemias. O cristianismo propaga-se
por diversos povos. A diminuição da atividade cultural transforma o homem
comum num ser dominado por crenças e superstições.
O
período medieval não foi, porém, a "Idade das Trevas", como se
acreditava. A filosofia clássica sobrevive, confinada nos mosteiros
religiosos. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino, fazendo
florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. No
Ocidente, fundam-se as primeiras universidades, ocorre a fusão de elementos
culturais greco-romanos, cristãos e germânicos, e as obras de Aristóteles
são traduzidas para o latim.
Sob
a influência da Igreja, as especulações se concentram em questões
filosófico-teológicas, tentando conciliar a fé e a razão. E é nesse
esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões
fundamentais para a história do pensamento cristão.
A
Filosofia Medieval e o Cristianismo
Ao
longo do século V d.C., o Império Romano do Ocidente sofreu ataques
constantes dos povos bárbaros. Do confronto desses povos invasores com a
civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação
européia de vida social, política e econômica, que corresponde ao período
medieval.
Em
meio ao esfacelamento do Império Romano, decorrente, em grande parte, das
invasões germânicas, a Igreja católica conseguiu manter-se como
instituição social mais organizada. Ela consolidou sua estrutura religiosa e
difundiu o cristianismo entre os
povos bárbaros, preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana.
Apoiada
em sua crescente influência religiosa, a Igreja passou a exercer importante
papel político na sociedade medieval. Desempenhou, por exemplo, a função de
órgão supranacional, conciliador das elites dominantes, contornando os
problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza
feudal. Conquistou, também, vasta riqueza material: tornou-se dona de
aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental, numa
época em que a terra era a principal base de riqueza. Assim, pôde estender
seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões
européias.
Conflitos
e Conciliação entre a Fé e Saber
No
plano cultural, a Igreja exerceu amplo domínio, trançando um quadro
intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana.
Em
que consistia essa fé?
Consistia
na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades
reveladas por Deus aos homens. Verdades expressas nas Sagradas
Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da
Igreja.
"A
Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações".
De
acordo com a doutrina católica, a fé representava a fonte mais elevada das
verdades reveladas - especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que
dizem respeito à sua salvação. Neste sentido, afirmava Santo Ambrósio
(340-397, aproximadamente): Toda
verdade, dita por quem quer que seja, é do Espírito Santo.
Assim,
toda investigação filosófica ou científica não poderia, de modo algum,
contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. Segundo essa
orientação, os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade,
pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. Restava-lhes, apenas,
demonstrar racionalmente as verdades da fé.
Não
foram poucos, porém, aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação
racional da fé. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega,
sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o
pecado, a dúvida, o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao
estabelecido pela Igreja, em termos de fé).
Por
outro lado, surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da
filosofia grega, na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como
instrumento a serviço do cristianismo. Conciliado com a fé cristã, o estudo
da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os
hereges com as armas racionais da argumentação lógica. O objetivo era
convencer os descrentes, tento quanto possível, pela razão, para depois
fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos, somente acessíveis à
fé.
Entre
os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho
e Tomás de Aquino. Eles foram os
responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão
e de Aristóteles, respectivamente.
"Tomai
cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações
da "filosofia", segundo a tradição dos homens, segundo os
elementos do mundo, e não segundo Cristo." (São Paulo).
Os
fatores históricos do cristianismo são: em primeiro lugar, a religião
israelita; em segundo lugar, o pensamento grego e, enfim, o direito romano. De
Israel o cristianismo toma o teísmo.
É o teísmo um privilégio único deste povo pequeno, obscuro e desprezado;
os outros povos e civilizações, ainda que poderosos e ilustres, são,
religiosamente, politeístas, ou, no máximo dualistas ou panteístas. De
Israel toma o cristianismo, também, o conceito de uma revelação e
assistência especial de Deus. Daí a idéia de uma história, que é
desenvolvimento providencial da humanidade, idéia peculiar ao cristianismo e
desconhecida pelo mundo antigo, especialmente pelo mundo grego.
Na
revelação cristã é filosoficamente fundamental, básico, o conceito de uma
queda original do homem no começo da sua história, e também o conceito de
um Messias, um reparador, um redentor. Conceitos indispensáveis para explicar
o problema do mal, racionalmente premente e racionalmente insolúvel. No
entanto, o mundano e carnal Israel resistiu tenaz e longamente a esta idéia
de uma radical miséria humana -, e, por conseqüência, à idéia de uma
moral ascética. Idolatrou a vida longa e próspera, as riquezas da natureza e
a prosperidade dos negócios, as satisfações conjugais e domésticas, o
estado autônomo e privilegiado, o poder e a glória - até esquecer-se de
Deus. Perseguiu os Profetas, que o chamavam ao temor
de Deus e à penitência, e recalcitrou contra os flagelos com que Jeová
o castigava, até que Israel, ainda que contra a sua vontade, foi submetido à
sujeição e à renúncia, tendo adquirido, através de dolorosas
experiências, o triste sentido da vaidade do mundo. A solução integral do
problema do mal viria unicamente do mistério da redenção pela cruz -
necessário complemento do mistério do pecado original.
Quanto
ao pensamento grego, deve-se dizer que entrará no cristianismo como
sistematizador das verdades reveladas, e como justificador dos pressupostos
metafísicos do cristianismo; não, porém, como elemento constitutivo,
essencial e característico, porquanto este é hebraico e cristão. E quanto
ao direito romano, deve-se dizer que
entrará no cristianismo como sistematizador do novo organismo social, a
Igreja, e não como constitutivo de seus elementos essenciais e
característicos, que são próprios e originais do cristianismo.
Entretanto,
o verdadeiro criador do cristianismo, em sua novidade e originalidade, é Jesus Cristo. Pode ele dar plena solução ao problema do mal -
solução que representa o maior valor filosófico no cristianismo -
unicamente se é Homem-Deus, o Verbo de Deus encarnado e redentor pela cruz.
Diferentemente, a solução - ascética - cristã do problema do mal seria
vã, como a estóica e todas as demais
soluções filosóficas de tal problema, que ficaria, portanto, sem solução
alguma. E, em geral, a pessoa de Cristo tornar-se-ia inteiramente
ininteligível, se ele não fosse Homem-Deus.
Não
é este o momento de fazer um exame crítico, filosófico e histórico, para
determinar a personalidade de Cristo. Basta lembrar que, uma vez admitido e
firmado o teísmo, logo se segue a possibilidade de uma revelação divina e
da divindade de Cristo, para tanto não precisando, propriamente, senão de
provas históricas. Os argumentos em contrário não são positivos,
históricos, mas apriorísticos, filosóficos; quer dizer, dependem de uma
filosofia racionalista e atéia em geral, humanista e imanentista em especial.
Eis
o esquema lógico da demonstração da divindade de Jesus Cristo. Devem ser
examinados à luz da crítica histórica, antes de tudo, os documentos
fundamentais, relativos à revelação cristã - Novo
Testamento. E achamo-nos diante de uma personalidade extraordinária -
Jesus Cristo - , que ensina uma grande doutrina, leva uma vida santa,
afirma-se a si mesma como divina e comprova explicitamente com prodígios e
sinais - os milagres e as profecias - esta sua divindade. E como Jesus Cristo
se torna garantia de toda uma tradição que o precedeu - o Velho Testamento -
, também se responsabiliza por uma instituição que a ele se segue - a
Igreja católica. A esta, portanto, caberá interpretar infalivelmente a
revelação judaico-cristã e, evidentemente, também a parte que diz respeito
à queda original e à relativa reparação, a qual, por certo, pode dar
origem, humanamente, a várias interpretações.
Como
é notório, Cristo não deixou nada escrito, de sorte que o nosso
conhecimento mais imediato em torno da sua personalidade se realiza através
dos escritos dos seus discípulos. Temos de Cristo testemunhas também pagãs,
além das testemunhas cristãs; estas são extracanônicas e canônicas. Estas
últimas, porém, são fundamentais e mais do que suficientes para o nosso
fim. Cronologicamente, são elas as seguintes: Paulo
de Tarso, os Evangelhos sinópticos e
o Evangelho de São João.
Paulo
de Tarso, na Cilícia, fôra um inteligente e zeloso israelita. Não conheceu
Jesus Cristo durante sua vida terrena, mas, convertido ao cristianismo e
mudado o nome de Saulo para o de Paulo, tornou-se o maior apóstolo do
cristianismo entre os gentios ou pagãos, revelando-lhes em Cristo crucificado
o Deus padecente, vítima e Salvador, que eles procuravam em suas religiões
misteriosóficas - e não acharam. A vida de Paulo é caracterizada por muitas
e longas viagens, realizadas para finalidades apostólicas. Para o mesmo fim
escreveu Paulo as famosas cartas às comunidades cristãs dos vários centros
da Antigüidade, relacionados com ele. As grandes viagens apostólicas de
Paulo são três e têm como ponto de irradiação Antioquia, tocando os
centros mais importantes do mundo antigo: Jerusalém, Atenas e Roma. Nesta
cidade encerra a sua vida mortal com o martírio. Destarte ele se pôs em
contato com todas as formas de civilização do Oriente helenista
e do mundo greco-romano. Quanto às Epístolas
- escritas em grego - devemos dizer que não são cartas logicamente
orgânicas e ordenadas, nem literariamente aprimoradas, tanto assim que podiam
desagradar a um helenista refinado como Porfírio; são porém, densas de
conteúdo, de forma incisiva e eficaz. O problema que, sobretudo, preocupa
Paulo é o do mal, do sofrimento, do pecado, de que acha a solução em Cristo
redentor, crucificado e ressuscitado. É este o aspecto do cristianismo que
mais o impressionou, de sorte que é ele, por excelência, o teólogo da
Redenção. No Velho Testamento Deus tinha dado aos homens a lei
que, devido à miséria do homem decaído, não tirava o pecado, embora fosse
uma lei moral; pelo contrário, até o agradava, tornando o homem consciente
de sua falta. No Novo Testamento, Deus, mediante a graça
de Cristo, tira o pecado do mundo, embora nos deixando na luta e no
sofrimento, que Paulo sentia tão profundamente.
Os
Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas
- chamados evangelhos sinópticos -
formam um grupo à parte, por certa característica histórica e didática,
que os torna comuns e os distingue do quarto evangelho, o de João, de
caráter mais especulativo e teológico. O primeiro em ordem de tempo é o
Evangelho de Mateus, o publicano,
tornando em seguida um dos doze apóstolos. Escrito, originariamente, em
aramaico e destinado ao ambiente palestino, foi em seguida traduzido para o grego
e, nesta língua, transmitido. É o mais amplos dos Evangelhos e relata
amplamente os ensinamentos de Cristo. O segundo é o Evangelho de Marcos,
que não foi discípulo direto de Cristo, mas nos transmitiu o ensinamento de
Pedro. Foi escrito em grego e destinado a um público não palestino. O
terceiro dos Evangelhos sinópticos é, enfim, o de Lucas,
companheiro de Paulo, que o chamava o caro
médico. Também ele não foi discípulo imediato de Cristo, e o seu
evangelho foi também escrito em grego.
O
quarto evangelho, inversamente - como o primeiro - foi escrito por um
discípulo direto de Cristo, um dos doze apóstolos: João,
o predileto do Mestre, testemunha da sua vida e da sua morte. O quarto
Evangelho, juntamente com este valor histórico, tem um especial valor
especulativo, teológico. Como Paulo pode ser considerado o teólogo da
Redenção, João pode ser considerado o teólogo da Encarnação; Cristo é o
Verbo de Deus encarnado para a redenção do gênero humano. Também o
Evangelho de João foi escrito em grego; e, cronologicamente, é o último dos
Evangelhos e dos escritos do Novo Testamento, os quais - no seu conjunto -
podem se considerar compostos na Segunda metade do primeiro século, tomada
com certa amplidão.
Não
há dúvida de que o problema do mal foi o escolho contra o qual debalde se
bateu a grande filosofia grega, como qualquer outra filosofia, visto ser o mal
um problema racionalmente insolúvel. Que coisa é, pois, precisamente este
mal, que tem o poder de tornar teoricamente inexplicável a realidade, e
praticamente dolorosa a vida? Não é, por certo, o mal assim chamado metafísico,
a saber, a necessária limitação de todo ser criado: porquanto esta
limitação nada tira à perfeição dos vários seres a eles devida por
natureza, mas apenas aquela plenitude do ser, que pertence unicamente a Deus,
rigorosamente, isto é, teisticamente concebido como transcendente e criador,
pois esse gênero de mal, no teísmo, é plenamente explicável.
Não
resta, então, senão o mal, o chamado físico
e moral, porquanto é limitação da natureza, verdadeira imperfeição de
um determinado ser. O mal, físico e moral, é um problema, precisamente se se
considerar a natureza específica do homem, a qual é a natureza do animal
racional, o que não significa certamente lhe pertença a racionalidade pura,
devida ao puro espírito; mas certamente exige a subordinação do sensível
ao inteligível, do material ao espiritual. Isto significa exigir que os
sentidos sejam instrumentos do intelecto e o instinto seja instrumento da
vontade, naquele característico processo que é o conhecimento e a operação
humana; exige que o corpo humano e a natureza em geral sejam submetidos às
imposições do espírito, como deveria ser em uma hierarquia racional dos
valores.
Ora,
se se considerar, sem preconceitos, o indivíduo e a humanidade, a psicologia
e a história, as coisas serão bem diferentes. Com efeito, demais vezes o
sentido - do qual o conhecimento deve no entanto partir - sobrepuja o
intelecto. E bem poucos homens e só com muitas dificuldades e não sem graves
erros, chegam ao conhecimento daquelas verdades racionais - Deus, a alma, etc.
- que são, entretanto, indispensáveis para uma solução humana do problema
da vida. E, mais freqüentemente ainda, o instinto assenhoreia-se da vontade,
e a maioria dos homens viveu e vive cegamente, contra as exigências da
própria natureza racional, mesmo quando a verdade é conhecida pelo
intelecto.
Este
é o mal moral, espiritual, que domina o mundo humano. Pelo que diz respeito
ao mal físico, a coisa é ainda mais patente: basta lembrar o sofrimento e a
morte. Com isto, naturalmente, não se quer dizer que a impassibilidade e a
imortalidade sejam uma exigência da natureza humana, como tal, mas unicamente
se quer frisar que a dor e a morte - bem como a ignorância e a
concupiscência - em sua atual
intensidade, se evidenciam como um estado inatural com respeito ao nosso
ser espiritual e racional.
Temos,
pois, uma natureza, a natureza humana, que nos parece desordenada. A filosofia
conhece a essência metafísica dessa natureza humana, deve reconhecer-lhe
também a desordem, mas ignora-lhe a causa. A filosofia é certamente
construtiva, metafísica; mas, chegada ao seu vértice, deve tornar-se
crítica, isto é, deve reconhecer os próprios limites, porquanto não
consegue resolver plenamente o seu problema, o problema da vida, precisamente
por causa do mal. Não pode, todavia, renunciar absolutamente à solução
deste problema, já que, desta maneira, comprometeria também a sua maior
conquista: Deus. É antiga e famosa a objeção: de que modo concordar a
absoluta sabedoria e poder de Deus com todo o mal que há no mundo, por ele
criado? Deve-se entender, naturalmente, o mal físico e moral, e este
propriamente em relação ao homem.
Se
a filosofia é impotente para resolver plenamente o seu próprio problema,
há, porventura, outro meio a que pode o espírito humano razoavelmente
recorrer para a solução de um problema tão premente? Apresenta-se a
religião, e especialmente uma religião entre as religiões, a qual nos fala
de uma queda do homem no começo de sua história, e afirma esta verdade - bem
como todo o sistema dos seus dogmas - como divinamente revelada.
Quanto
à possibilidade de uma queda do espírito, em geral, isto é, quanto à
possibilidade do mal moral, do pecado, basta lembrar que o ser criado pode,
por sua natureza, desviar-se da ordem: porquanto há nele algo de não-ser, de
potência, precisamente pelo fato de
ser ele um ser criado. E o livre arbítrio proporciona-lhe o modo de realizar
essa possibilidade, a saber, proporciona-lhe o modo de desviar-se efetivamente
do ser, da racionalidade, enveredando pelo não-ser, pela irracionalidade.
Quanto à realidade de uma queda original do homem, remetemos ao fato da
Revelação em que é contida.
Da
Escritura e da Tradição, garantidas pela interpretação da Igreja e
sistematizadas pela teologia, evidencia-se, fundamentalmente, como o homem
primigênio não só teria possuído aquela harmonia natural,
de que agora é privado, mas teria sido outrossim elevado, como que por nova
criação, à ordem sobrenatural,
com um conveniente conjunto de dons preternaturais. Noutras palavras, o homem teria participado -
com uma natureza extraordinariamente dotada - da vida de Deus, teria gozado de
uma espécie de deificação, não por direito, mas por graça. E evidencia-se
também que - devido a uma culpa de orgulho contra Deus, cometida pelo
primeiro homem, do qual, pela natureza humana, devia descender toda a
humanidade - teria o homem perdido aquela harmonia e a dignidade sobrenatural,
juntamente com os dons conexos.
Há,
portanto, uma enfermidade, uma debilitação espiritual e física na natureza
humana, essencial desde o nosso nascimento, e que deve, por conseguinte, ser
herdada. Basta, por exemplo, lembrar como, pela lei da hereditariedade, se
podem transmitir deficiências materiais e, por conseqüência, também
morais: deficiências que não dependem dos indivíduos, visto que eles a
sofrem. O pecado original, pois - que importa na privação da ordem
sobrenatural, isto é, na privação do único fim humano efetivo, até ao
sofrimento e à concupiscência, quer dizer, até à vulneração da própria
natureza - voluntário e culpado em Adão, seria culpado em seus descendentes,
enquanto não quiserem servir-se das misérias provindas do pecado original
como estímulo para a Redenção, praticando o Cristianismo, ingressando na
Igreja.
O
aspecto da condição primitiva do homem, concernente à elevação
sobrenatural, por mais supereminente e central que seja no cristianismo, aqui
não interessa. Com efeito, a elevação à ordem sobrenatural sendo, por
definição, gratuita, isto é, não
devida à natureza humana, bem como a nenhuma natureza criada, a privação da
mesma, provinda do pecado, não podia causar vulneração em a natureza
humana, nem a perda dos dons praternaturais. E, logo, não podia suscitar o
problema do mal, que temos considerado insolúvel pela filosofia.
Mas,
que sentido tem o mal no mundo? Conseguiu o homem, mediante o pecado, frustar
o plano divino da criação? Ou o próprio mal soube Deus tirar, mediante uma
divina dialética, o bem e até um bem maior? É o que explica um segundo
dogma da revelação cristã, o dogma da redenção operada por Cristo.
Segundo este dogma, Deus, isto é, o Verbo de Deus, a Segunda pessoa da
Trindade divina, assume natureza humana, precisamente para reparar o pecado
original e, por conseguinte, suas conseqüências naturais também. Visto a
ofensa feita a Deus pelo pecado ser infinita com respeito ao Infinito
ofendido, Deus precisava de uma reparação infinita, que unicamente Deus
podia dar. Sendo, porém, o homem que devia pagar, entende-se como o verbo de
Deus assuma em Cristo a natureza humana. Para a Redenção, teria sido
suficiente o mínimo ato expiatório de Cristo, tendo todo ato seu um valor
infinito, devido à dignidade do operante. Ao contrário, ele se sacrifica
até à morte de cruz. Fez isto para dar toda a glória possível à infinita
majestade de Deus no reino do mal e da dor proveniente do pecado; é, pois, a
glória de Deus o fim último de toda atividade divina.
Das
precedentes considerações segue-se que o cristianismo importa sempre e
essencialmente numa praxe ascética com respeito ao mundo, e não pelo fato de
o sobrenatural oprimir a natureza, mas por causa da desordem introduzida na
ordem da natureza pelo pecado original.
Em
verdade, a raiz metafísica desta praxe ascética acha-se no próprio teísmo,
e, precisamente, no conceito de criação, tomando-se esta palavra
"ascética" não no sentido rigoroso de renúncia aos bens criados,
mas no sentido de que o homem, sendo criatura e portanto dependendo totalmente
de Deus, deve reconhecer praticamente esta sua dependência absoluta, este seu
nada ser por si.
A
razão humana constata, nem pode deixar de constatar, que o mundo, de que
temos imediatamente experiência, não se pode explicar por si mesmo, e, logo,
exige absolutamente uma explicação. Entretanto, para que o problema do mundo
tenha verdadeiramente solução, é preciso chegar até Deus. E Deus, para que
seja verdadeiramente a explicação do mundo, não pode certamente ser
imanente, mas deve ser transcendente e criador, o que eqüivale dizer, a
relação entre Deus e o mundo deve ser concebida segundo o conceito de
criação, retamente definido como uma produção das coisas do nada por parte
de Deus.
Ora,
tal definição exclui que Deus organize uma pressuposta matéria qualquer,
com respeito à qual Deus seria passivo e, logo, não mais ato-puro, não mais
Deus, não mais explicação do mundo. Contrariamente a quanto pensava o dualismo
grego, Deus cria toda a realidade. Daí nada se poder levantar contra ele
e proclamar a sua autonomia. Além disso, é excluído que o mundo seja, de
qualquer modo, formado pela mesma natureza de Deus, pois, neste caso, haveria
a contradição de que Deus seria da mesma natureza do mundo, que não tem em
si a sua explicação e, por isso, a procura em Deus. Contrariamente ao que
pensa o panteísmo, Deus, criando, dispõe uma realidade essencialmente
distinta de si, de modo que nenhum ser criado pode, de modo nenhum, exigir de
participar da natureza divina e enaltecer como tal a sua natureza.
A
este segundo princípio é conexa a absoluta liberdade da criação. Com
efeito, se ela fosse necessária, ter-se-ia uma contradição semelhante à
precedente, a saber: Deus teria necessidade do mundo que ele deve explicar.
Deus, portanto, pode ou não pode criar, pode criar este ou um outro mundo,
entre infinitos mundos possíveis, de modo que Deus, querendo criar o mundo,
pode única e absolutamente criá-lo para a sua glória - embora esta já seja
interiormente infinita, sendo Deus a atualidade, a perfeição plena. Se se
admitisse para a obra de Deus uma finalidade diversa, extrínseca, seria
também preciso admitir em Deus uma indigência, com todas as conseqüências
acima mencionadas. Deus, portanto, cria o mundo do nada, e não o tira de sua
substância, mas o cria livremente e para a sua glória. E o homem faz parte
dessa criação.
Compreende-se,
então, como a atitude prática, fundamental, da criatura racional deva ser,
em conseqüência do conceito de criação, uma atitude de reconhecimento do
próprio nada, não só na ordem do ser, mas também na ordem de operar,
porque nada de quanto é real pode escapar à absoluta causalidade de Deus.
Aqui falamos, evidentemente, do operar positivo, isto é, do bem, porquanto o
mal, sendo negação, privação, não tem causa eficiente, mas deficiente,
como diz Agostinho. Não Deus, por
conseqüência, mas o homem é o autor do mal. Então, a humildade será a
virtude essencial do sábio, como o orgulho será o pecado essencial do
estulto; nas relações práticas com Deus - que constituem o objeto da
religião em geral - e também nas relações com a remanente realidade, não
em si, mas enquanto querida por Deus.
Deus
quis remir o homem, exigindo ao mesmo tempo que a sua justiça fosse
dignamente satisfeita mediante uma expiação infinita por parte do Verbo
humanado. Esta expiação divina, porém, não dispensava, mas apenas tornava
possível a expiação por parte do homem, precisamente através dos
sofrimentos provenientes da desordem decorrida do pecado. Unicamente deste
modo o homem era redimido, unicamente através da justiça se manifestava a
misericórdia de Deus. Antes, quis Deus que fosse juntamente realizada a sua
maior glória e o maior bem do homem, através do sacrifício mais completo
por parte de Cristo, bem como por parte do homem, dada sempre a desordem das
coisas, proveniente do pecado.
Esta
- tão significativa - praxe ascética tem a sua primeira e perfeita
realização em Cristo, redentor pela cruz. Tornando-se ele, deste modo, o
modelo e o ideal da vida cristã. Mas, para o mundo, esta praxe ascética
será loucura e escândalo. Os Gentios julgavam naturalmente loucura a
renúncia cristã. Os próprios israelitas sonhavam o Redentor cercado de
grandeza e poder, e não de humildade e sofrimento. Cristo, ao contrário,
menosprezando a prudência e a fortaleza humanas, envereda pelo caminho da
cruz, que repugna à natureza, mas já é a única via de salvação e de
santificação. E, assim, Cristo - realizando a sua obra - foi julgado justo,
mas não lhe foi feita justiça pela majestade do direito; foi condenado pelo
povo que ele viera remir; foi abandonado pelos próprios e mais chegados
discípulos, um dos quais - o que devia ser seu vigário - até o renegou, e
um outro o traiu de morte. E morreu abandonado sobre a cruz, assistido por
algumas pobres mulheres. Humanamente e também racionalmente falando,
unicamente desta maneira se realizava a glória de Deus e a redenção do
homem em toda a sua plenitude.
Cristo
não apenas realizou na sua pessoa o sacrifício redentor, mas também apontou
aos homens este caminho como sendo o caminho único para a salvação e a
perfeição, e confirmou a doutrina com o exemplo, propondo-se como modelo de
todos os cristãos: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. A vida cristã
será, portanto, a imitação de Cristo crucificado - diversamente embora,
segundo os graus de perfeição cristã e as concretas diferenças
individuais. Tal ensinamento ascético de Cristo - que, em concreto, se acha
em toda a sua vida e, em especial, na sua morte - em abstrato se acha em toda
a sua doutrina, mas especialmente no sermão da montanha, o sermão das
bem-aventuranças, que se pode considerar o compêndio do espírito do
Cristianismo. Aí são invertidos os valores terrenos, e exaltados não os
ricos, os gozadores, os poderosos, que o mundo inveja, mas os pobres, os
sofredores, os mesquinhos, conforme a sabedoria cristã, o que à orgulhosa
razão humana parece estultícia. Deste modo Cristo dirá que o busquemos -
isto é, que procuremos a sua imagem, a sua imitação - não no homem feliz,
para gozarmos a vida em sua companhia, mas no homem sofredor, com o qual e
para o qual sofremos e, destarte, acharemos alimento ascético.
Este
ensinamento, Cristo dirige a todos os seus seguidores, como condição
necessária para a salvação - se alguém quer vir após mim, renuncia-se a
si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Entretanto, aos que aspiram à santidade,
à plenitude da vida cristã, à perfeita imitação dele, impõe Cristo a
renúncia total aos grandes bens do mundo: renúncia à riqueza, à família,
à liberdade, para abraçar a pobreza, a castidade, a obediência. E esta a
chamada via dos conselhos evangélicos, em contraposição com a vida comum
dos preceitos. E realiza-se na clássica praxe cristã dos votos religiosos,
sempre idêntica e imutável na substância, embora variável nas aplicações
concretas.
Esta
moral ascética cristã é racionalmente fundada sobre o teísmo e a
Revelação. Garante, pois, ao homem, a consecução da felicidade na vida
eterna, e de uma felicidade que transcende toda aspiração e capacidade
humana. Na vida temporal esta moral ascética apresenta-se também como a mais
sábia, porquanto torna conformada e voluntária a aceitação do sofrimento,
já que não se apresenta mais como inesperado e trágico, pois não fica
certamente dispensado da dor quem neste mundo entende de viver apenas
moralmente e não heroicamente, e nem sequer quem entende de gozar livremente
dos bens da terra. Provê igualmente esta moral ascética o bem dos outros, ou
não parece, ao contrário, - por causa da renúncia ao mundo devastado pelo
mal - isolar fatalmente os homens dos seus semelhantes? E este isolamento não
é ainda mais acentuado, quando a perfeição se eleva dos preceitos aos
conselhos?
Poderia
assim parecer, mas assim não é. Antes de tudo, tal egoísmo está em franco
contraste com o conceito de caridade, dominante na moral cristã, em lugar do
clássico conceito de justiça. A caridade cristã purificou a civilização
antiga da barbárie da exposição das crianças, da escravidão, das lutas
dos gladiadores, barbárie que se repete, mais ou menos intensamente, no
egoísmo de toda civilização puramente humana. A caridade cristã favoreceu
ainda obras numerosas e fecundas para os infelizes, os velhos, os pobres, os
doentes, mais ou menos desprezados e negligenciados na civilização antiga,
bem como em toda civilização mundana em geral, apesar das aparências
contrárias.
Em
segundo lugar, a convivência social, moral, racional, não é possível nas
atuais condições de egoísmo e malvadez humana, mas faz-se mister a
ascética cristã para vencer este egoísmo mediante a paciência, a
humildade, a caridade. Considere-se, por exemplo, a questão econômica e o
problema da autoridade, que preocupam tão profundamente a sociedade humana. A
questão econômica não se pode resolver naturalmente. Com efeito -
prescindindo do fato de que o trabalho, em seus termos atuais, é uma pena,
como claramente o prova a dura experiência, e a Revelação disto dá
explicação e justificação - não somente a justiça não consegue abolir a
pobreza, mas nem sequer a caridade, a própria caridade cristã, consegue
tirar a humilhação do receber. Menos ainda conseguem isto a filantropia e os
demais equivalentes humanistas. Resolve isto verdadeiramente só a ascética
cristã, valorizando a dor, exaltando o sofrimento: bem-aventurados os pobres.
E também não se pode resolver naturalmente o problema árduo da sujeição
à autoridade, no entanto necessária para que a sociedade possa sustentar-se.
O fato de a autoridade ser necessária à existência da sociedade, não é
argumento suficiente para que todos obedeçam à autoridade; e isto é
evidente se se examinam as paixões humanas, especialmente o orgulho, a
violência, a fraude, freqüentemente mais fortes em quem domina. E isto
acontece não apenas na sociedade civil, mas também na religiosa, porquanto
formada de homens. E, então, não fica senão a obediência no sentido
cristão, ascético, como renúncia à própria vontade. Tal renúncia não é
imoral, porque tem como objeto não a pessoa, mas o ofício, nem pode
objetivamente, de modo nenhum, transpor os confins da ética.
Finalmente,
a renúncia ascética não é estéril egoísmo, mas o contrário.
Precisamente pelo fato de que o homem, renunciando a si mesmo e dando-se em
holocausto a Deus, é disposto, até desejoso, imensamente capaz, cheio de boa
vontade para sacrificar-se inteiramente para com todos. Não considera,
todavia, a humanidade como fim último, como divina, mas conforme à
transcendente vontade de Deus, que criou o homem à sua imagem, e o remiu com
a Paixão do seu Verbo encarnado. A ética cristã da renúncia perfeita ao
mundo é a mais proveitosa para a sociedade - familiar, nacional, universal.
De fato, a prescindir dos demais, mesmo razoáveis, motivos de altruísmo,
unicamente quem é indiferente às qualidades alheias, até solícito dos mais
miseráveis, não encontra limites no altruísmo, no heroísmo, mas uma
oportunidade de engrandecimento mediante o sacrifício.
Este
será o caminho percorrido - embora de modos diferentes - pelos santos, os
super-homens do cristianismo: o caminho dos conselhos evangélicos, que é o
caminho mais perfeito do que o dos preceitos. E os santos mais facilmente
florescem nas Ordens Religiosas, precisamente porque é característica das
Ordens Religiosas a via dos conselhos, da renúncia ao mundo, cada qual
realizando este ascetismo cristão com diversa intensidade, de modos muito
diferentes, conforme os tempos, os lugares, os temperamentos pessoais e as
necessidades sociais. E é mediante e através desta renúncia ascética, que
os santos se tornam os grandes benfeitores da humanidade.
Com
o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se
seguiu à época neotestamentária, e chega até ao começo da Escolástica:
isto é, os séculos II-VIII da era vulgar. Este período da cultura cristã
é designado com o nome de Patrística, porquanto representa o pensamento dos
Padres da Igreja, que são os construtores da teologia católica, guias,
mestres da doutrina cristã. Portanto, se a Patrística interessa sumamente à
história do dogma, interessa assaz menos à história, em que terá
importância fundamental a Escolástica.
A
Patrística é contemporânea do último período do pensamento grego, o período
religioso, com o qual tem fecundo contato, entretanto dele diferenciado-se
profundamente, sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. E é
também contemporâneo do império romano, com o qual também polemiza, e que
terminará por se cristianizar depois de Constantino. Dada a culminante
grandeza de Agostinho, a Patrística
será dividida em três períodos: antes de Agostinho, período em que,
filosoficamente, interessam especialmente os chamados apologistas
e os padres alexandrinos; Agostinho, que merece um desenvolvimento à parte,
visto ser o maior dos Padres; depois de Agostinho vem o período que, logo
após a sistematização, representa a decadência da Patrística.
A
Patrística do II século é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo
contra o paganismo, o hebraísmo e as heresias. Os padres deste período
podem-se dividir em três grupos: os chamados padres
apostólicos, os apologistas e
os controversistas. Interessam-nos particularmente os segundos, pela
defesa racional do cristianismo contra o paganismo; ao passo que os primeiros
e os últimos têm uma importância religiosa, dogmática, no âmbito do
próprio cristianismo.
Chamam-se
apostólicos os escritos não canônicos, que nos legaram as duas
primeiras gerações cristãs, desde o fim do primeiro século até a metade
do segundo. Seus autores, quando conhecidos, recebem o apelido de padres
apostólicos, porquanto floresceram no templo dos Apóstolos, ou os conheceram
diretamente, ou foram discípulos imediatos deles.
Costuma-se
designar como o nome de apologistas
os escritores cristãos dos fins do segundo século, que procuram de um lado
demonstrar a inocência dos cristãos para obter em favor deles a tolerância
das autoridades públicas; e provar do outro lado o valor da religião cristã
para lhe granjear discípulos. Seus escritos, portanto, são, por vezes,
apologias propriamente ditas, por vezes, obras de controvérsia, às vezes,
teses. E são dirigidas às vezes contra os pagãos, outras vezes contra os
hebreus. Os apologistas, mais cultos do que os padres apostólicos,
freqüentemente são filósofos - por exemplo, São Justino Mártir - ainda
que não apresentem uma unidade sistemática; continuam filósofos também
depois da conversão, e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia.
Para bem compreendê-lo, é mister lembrar que o escopo por eles visado era,
sobretudo, por em focos os pontos de contato existentes entre o cristianismo e
a razão, entre o cristianismo e a filosofia. E apresentavam o cristianismo
como uma sabedoria, aliás, como a sabedoria mais perfeita, para levarem,
gradualmente, até à conversão os pagãos.
O
maior dos apologistas é certamente São
Justino. Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém na Palestina em
princípios do segundo século, e morreu mártir no ano 170. Depois de Ter
peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas - peripatética,
estóica, pitagórica - em busca da
verdade para a solução do problema da vida, abandonando o platonismo,
último estádio da sua peregrinação filosófica, entrou no cristianismo,
onde encontrou a paz. Ufana-se ele de ser filósofo e cristão; leigo embora,
Justino dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. Imitando os
filósofos, abriu em Roma uma escola para o ensino da doutrina cristã. Suas
obras são duas Apologias - contra os pagãos - e um Diálogo
com o judeu Trifão - contra os hebreus. Escreveu suas obras nos meados do
segundo século.
Justino
procura a unidade, a conciliação entre paganismo e cristianismo, entre
filosofia e revelação. E julga achá-la, primeiro, na crença de que os
filósofos clássicos - especialmente Platão
- dependem de Moisés e dos profetas, depois da doutrina famosa dos germes do
Verbo, encarnado pessoalmente em Cristo, mas difundidos mais ou menos em todos
os filósofos antigos.
O
terceiro século apresenta um interesse particular pelo que diz respeito ao
pensamento cristão. Tentou-se um renovamento do paganismo com bases no
panteísmo neoplatônico e nos cultos orientais, fundidos numa característica
síntese filosófico-religiosa em oposição ao cristianismo, que já ia
afirmando mesmo culturalmente. Os Padres deste período polemizam
filosoficamente com os pensadores pagãos, levados a estimarem seus
adversários.
O
cristianismo, sem mudar a sua fisionomia original, está em condições de
desenvolver do seu seio um pensamento, uma filosofia, uma teologia, que
representarão a sua essência doutrinal. Daí a distinção que então se
afirmou entre os simples fiéis e os
gnósticos - sábios - cristãos. Este gnosticismo cristão se
afirmou especialmente em Alexandria do Egito, o grande centro cultural da
época, mesmo do ponto de vista católico. Naquele famoso didascaléion,
naquela celebrizada escola catequética, espécie de faculdade teológica,
foram luminares Clemente e Orígenes.
O
cristianismo filosófico é próprio e característico dos padres
alexandrinos, que vivem na tradição cultural helenista, enaltecedora e
potenciadora dos valores intelectuais, teoréticos, especulativos,
metafísicos, dos quais teremos, em tempo oportuno, o primeiro sistema
orgânico de teologia cristã, graças a Orígenes. É, entretanto,
hostilizado pelos padres chamados africanos, pertencentes não à África
oriental, ao Egito, mas África ocidental, latina, que se ressentem, por
conseguinte, do espírito prático, pragmatista, jurídico, moralista latino -
que produziu os estóicos e os
cínicos romanos - em oposição ao gênio grego. Se bem que entres os padres
africano-latinos apareçam vulto notáveis, como por exemplo Tertuliano, os
padres africanos - bem como os padres latinos em geral - não apresentam
interesse particular para a história da filosofia.
Tito
Flávio Clemente - nasceu no ano 150, provavelmente em Atenas, de família
pagã. Converteu-se ao cristianismo talvez levado por exigências
filosóficas; desejoso de um conhecimento mais profundo do cristianismo,
empreendeu uma série de viagens em busca de mestres cristãos. Depois de ter
visitado a Magna Grécia, a Síria e a Palestina, foi, pelo ano 180, para
Alexandria do Egito, onde o seu espírito achou finalmente paz junto do
eminente mestre Panteno. Falecido este no ano 200, Clemente foi chamado para
dirigir a famosa escola catequética, cabendo-lhe a glória de ter o grande
Orígines entre seus discípulos. Devido às perseguições anticristãs do
imperador Setímio Severo, que mandou fechar a escola, Clemente teve de
suspender o seu ensino alguns anos depois. Retirou-se para a Ásia Menor,
junto de um seu antigo discípulo, o bispo Alexandre de Capadócia, e morreu
nessa cidade entre 211 e 216.
Embora
as preocupações de Clemente sejam sobretudo morais e pedagógicas, e os
meios empregados, satisfatoriamente, religiosos e cristãos sobretudo,
valoriza ele também, e grandemente, a filosofia, à maneira de Justino, sendo
ademais dotado de uma erudição prodigiosa e de uma cultura incomparável. As
obras principais de Clemente são: o Protréptico - isto é, o Verbo promotor da vida cristã - pequena
apologia em doze capítulos, perfeitamente acabada na forma e no conteúdo; o Pedagogo,
em três livros, apresentado no primeiro o Verbo como educador das almas, e
indicando nos demais dois livros os vícios mais graves, que os cristãos
devem evitar; os Strômata - tapetes - que é uma coleção de pensamentos,
considerações, dissertações filosóficas, morais e religiosas, de
interesse especialmente ético.
Filosoficamente
importante e característica é a distinção que faz Clemente dos cristãos
em simples fiéis e gnósticos, isto
é, sábios, perfeitos. O gnóstico cristão, diversamente do simples fiel ou
crente, é consciente de sua fé, justificando-a e organizando-a
racionalmente, filosoficamente. "Querendo harmonizar a doutrina cristã
com a filosofia pagã, acentuava demasiadamente a última, negligenciando um
tanto a Sagrada Escritura e a Tradição".
Discípulo
de Clemente, Orígenes, chamado adamantino
por sua energia incomparável, é o maior expoente filosófico da escola
alexandrina. Nasceu em Alexandria do Egito, pelo ano 185, de família cristã.
O precoce menino recebeu do pai, Leônidas, a primeira formação literária
e, sobretudo, religiosa. Durante a perseguição de Septímio Severo,
Orígenes, desprezando os mais graves perigos, foi encarregado pelo bispo de
Alexandria, Demétrio, da direção da famosa escola didascaléion,
que o seu mestre Clemente teve que abandonar. Tinha então Orígenes dezoito
anos. Aos vinte e cinco, sentindo a necessidade de conhecer profundamente as
doutrinas que desejava combater e querendo completar a sua formação, escutou
- como Plotino - as lições de
Amônio Saca. Empreendeu então longas viagens para se instruir, sobretudo,
religiosamente, e para atender aos desejos de grandes personagens que queriam
consultá-lo. Ordenado sacerdote no ano 230 pelos bispos de Cesaréia e de
Jerusalém, contra a vontade de seu bispo, de volta à pátria, foi proibido
por este de ensinar e foi condenado, devido também a algumas opiniões
heterodoxas contidas na sua grande obra Sobre
os Princípios, e também por ciúme, talvez, no dizer de São Jerônimo.
Retirou-se então Orígenes para a Palestina, abrindo em Cesaréia uma escola
teológica ( chamada depois neo-alexandrina - , que superou a de Alexandria
pelo seu caráter científico. Aí lecionou ainda durante vinte anos,
falecendo em Tiro pelo ano 254.
A
atividade literária de Orígenes não conhece igual, atribuindo-se-lhe
milhares de obras. Prescindindo dos escritos exegéticos e as céticos, que
não nos interessam, mencionamos a obra Sobre
os Princípios e os oito livros Contra
Celso. Por princípios Orígenes entende os artigos principais do ensino da
Igreja, e as verdades primordiais deduzidas mediante a razão teológica das
premissas reveladas, por falta de revelação formal. A obra Sobre
os Princípios nos proporciona a ciência baseada na Revelação, e
representa uma suma teológica
verdadeira e própria. Representa, talvez, a primeira grande síntese
doutrinal da Igreja, segundo a tendência metafísica dos doutores orientais.
Granjeou ao autor grande nomeada e contém o origenismo, que depois suscitou a grande polêmica origenista. A
obra Contra Celso é a mais célebre
de Orígenes sob o aspecto apologético. É uma resposta à obra Sermão
Verdadeiro de Celso, filósofo pagão. Antes de tudo, declara Orígenes
que a melhor apologia do cristianismo é constituída pela vitalidade divina
da Igreja, isto é, pela sua força e virtude para a reforma moral dos homens
e pela sua difusão universal, apesar dos ataques dos adversários. A maior
parte do escrito é, todavia, dedicada ao exame atento e pormenorizado das
profecias, dos milagres e das afirmações solenes de Cristo, visto que Celso,
que tinha estudado as fontes do cristianismo, o ataca em todos os pontos.
Nesta obra, Orígenes ostenta uma erudição extraordinária, uma serenidade
nobre e inigualável, bem como uma fé inabalável. Orígenes pode ser
considerado o verdadeiro fundador da teologia científica, bem como o primeiro
sistematizador do pensamento cristão em uma vasta síntese filosófica.
O
século quarto, especialmente a Segunda metade, representa a idade de ouro da
Patrística. Basta lembrar, para a igreja oriental, Atanásio, o malho do
arianismo, os luminares de Capadócia - Basílio, Gregório Nazianzeno e
Gregório de Nissa - , e João Crisóstomo, o mais celebrado representante da
escola de Antioquia; para a igreja ocidental, Ambrósio de Milão e Jerônimo.
Os padres dessa época se exprimem em aprimorada forma clássica e possuem uma
profunda cultura filosófica. Os maiores dentre eles são solidamente formados
na solidão monástica e ascética e pertencem, geralmente, às altas classes
sociais. A igreja católica, declarada livre pelo Edito de Milão, protegida
por Constantino, torna-se religião do estado com Teodósio. Estas condições
de paz e de privilégio, eram certamente favoráveis à cultura cristã.
Entretanto,
a grandeza da Patrística, no quarto século, não é tanto científica,
quanto dogmática, teológica. A teologia, sobretudo graças aos luminares de
Capadócia, torna-se uma construção intelectual sistemática, imponente,
devido naturalmente à filosofia, à lógica
aristotélica, que proporcionam o instrumento, o método, para a precisão
e a organização do dogma. As grandes heresias da época obrigaram os padres
a defender racionalmente, filosoficamente, a doutrina católica, atacada
especialmente por Ário (256-336), padre alexandrino oriundo da Líbia,
negador da divindade do Verbo. A heresia ariana - arianismo - foi condenada
pelo concílio de Nicéia (325), sendo Atanásio o mais destacado e forte
opositor.
de
Antioquia, nasceu de família ilustre, pelo ano 344. Recebeu uma educação
clássica aprimorada, estudando retórica, filosofia, direito, que, depois de
batizado, valorizou cristãmente na solidão e no ascetismo. Padre em
Antioquia, e depois bispo de Constantinopla, faleceu, degredado pela fé, em
407. É significativo neste grande prelado o senso profundo da vaidade do
mundo, e a grande estima do cristianismo, concebido como ascética.
Também
os grandes representantes da escola neo-alexandrina, os luminares de
Capadócia, foram grandes testemunhas do caráter fundamentalmente ascético
do Cristianismo. São Basílio, nascido em Cesaréia de Capadócia pelo ano de 330 de
família rica e cristã, fez longos e aprofundados estudos, aperfeiçoando-se
em Atenas. Recebido o batismo, abandona o mundo e se retira para a vida
ascética, organizando a vida solitária dos que o seguiram, e escrevendo uma Grande
Regra e uma Pequena Regra, para
a vida monástica, em que a atividade dos monges é distribuída entre o
trabalho, o estudo, a oração, pelo que será considerado o legislador do
monaquismo oriental. Trata-se, porém, de regras morais, e não jurídicas,
destinadas a um monaquismo culto, aristocrático. Grande admirador de
Orígenes, insigne promotor da beneficência cristã quando bispo de Cesaréia,
e organizador da vida monástica na Capadócia, faleceu em 379. Também São
Gregório, chamado Nizianzeno, nasceu pelo ano 330 em Capadócia, de
família cristã, fez estudos aprofundados, que aperfeiçoou em Atenas.
Também ele admirou e praticou a vida ascética com o amigo Basílio,
compartilhando com ele a admiração para com Orígenes. Bispo de Sásima
antes e, em seguida, de Constantinopla, inflamou os fiéis com a sua
pregação brilhante e comovedora. Aristocrático e delicado, pouco afeito à
vida prática, retirou-se depois para a solidão, em conformidade com o seu
ideal ascético e contemplativo, falecendo pelo ano 390.
foi
o maior dos luminares de Capadócia e, talvez, de todos os padres gregos sob o
aspecto especulativo e filosófico. Irmão de Basílio, nasceu pelo ano 355 em
Cesaréia e recebida uma informação cultural aprimorada, foi destinado ao
estado eclesiástico; entretanto, deixou-se desviar da sua vocação, foi
professor de retórica e casou-se. As exortações do irmão e de Gregório
Nazianzeno persuadiram-no da vaidade do mundo, até que afinal, abandonando a
cátedra de retórica, retirou-se para a vida ascética contemplativa. Em
seguida, foi feito bispo de Nissa, cidadezinha da Capadócia, primando pela
sua cultura teológica e filosófica. Faleceu, provavelmente, em 395.
Gregório de Nissa é o maior filósofo dos padres gregos. Esforça-se para
mostrar que os dados da razão e os ensinamentos da fé não se hostilizam,
mas se harmonizam reciprocamente. Possui, como verdadeiro filósofo, o gosto
das definições claras e das classificações metódicas. Como em teologia é
origenista, em filosofia é neoplatônico.

Aurélio
Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás
de Aquino se destaca entre os Escolásticos.
E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles,
e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã, Agostinho inspira-se
em Platão, ou melhor, no neoplatonismo.
Agostinho, pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo,
fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter
prático da patrística latina, ainda que os problemas que fundamentalmente o
preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal, a liberdade, a
graça, a predestinação.
Aurélio
Agostinho nasceu em Tagasta, cidade da Numídia,
de uma família burguesa, a 13 de novembro do ano 354. Seu pai, Patrício, era
pagão, recebido o batismo pouco antes de morrer; sua mãe, Mônica, pelo
contrário, era uma cristã fervorosa, e exercia sobre o filho uma notável
influência religiosa. Indo para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos,
começados na pátria, desviou-se moralmente. Caiu em uma profunda
sensualidade, que, segundo ele, é uma das maiores conseqüências do pecado
original; dominou-o longamente, moral e intelectualmente, fazendo com que
aderisse ao maniqueísmo, que atribuía realidade substancial tanto ao bem
como ao mal, julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do
mal e, por conseqüência, uma justificação da sua vida. Tendo terminado os
estudos, abriu uma escola em Cartago, donde partiu para Roma e, em seguida,
para Milão. Afastou-se definitivamente do ensino em 386, aos trinta e dois
anos, por razões de saúde e, mais ainda, por razões de ordem espiritual.
Entrementes
- depois de maduro exame crítico - abandonara o maniqueísmo, abraçando a
filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a
negatividade do mal. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida - no
começo do ano 386. Entretanto a conversão moral demorou ainda, por razões
de luxúria. Finalmente, como por uma fulguração do céu, sobreveio a
conversão moral e absoluta, no mês de setembro do ano 386. Agostinho
renuncia inteiramente ao mundo, à carreira, ao matrimônio; retira-se,
durante alguns meses, para a solidão e o recolhimento, em companhia da mãe,
do filho e dalguns discípulos, perto de Milão. Aí escreveu seus diálogos
filosóficos, e, na Páscoa do ano 387, juntamente com o filho Adeodato e o
amigo Alípio, recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio, cuja
doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. Tinha
trinta e três anos de idade.
Depois
da conversão, Agostinho abandona Milão, e, falecida a mãe em Óstia, volta
para Tagasta. Aí vendeu todos os haveres e, distribuído o dinheiro entre os
pobres, funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. Ordenado padre
em 391, e consagrado bispo em 395, governou a igreja de Hipona até à morte,
que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto do ano
430. Tinha setenta e cinco anos de idade.
Após
a sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada
Escritura, da teologia revelada, e à redação de suas obras, entre as quais
têm lugar de destaque as filosóficas. As obras de Agostinho que apresentam
interesse filosófico são, sobretudo, os diálogos filosóficos: Contra
os acadêmicos, Da vida beata, Os solilóquios, Sobre a imortalidade da alma,
Sobre a quantidade da alma, Sobre o mestre, Sobre a música. Interessam
também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre
os costumes, Do livre arbítrio, Sobre as duas almas, Da natureza do bem.
Dada,
porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam
juntas, compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas
e religiosas, especialmente: Da
Verdadeira Religião, As Confissões, A Cidade de Deus, Da Trindade, Da
Mentira.
Agostinho
considera a filosofia praticamente, platonicamente, como solucionadora do
problema da vida, ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral.
Todo o seu interesse central está portanto, circunscrito aos problemas de
Deus e da alma, visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a
solução integral do problema da vida.
O
problema gnosiológico é
profundamente sentido por Agostinho, que o resolve, superando o ceticismo
acadêmico mediante o iluminismo platônico. Inicialmente, ele conquista uma
certeza: a certeza da própria existência espiritual; daí tira uma verdade
superior, imutável, condição e origem de toda verdade particular. Embora
desvalorizando, platonicamente, o conhecimento sensível em relação ao
conhecimento intelectual, admite Agostinho que os sentidos, como o intelecto,
são fontes de conhecimento. E como para a visão sensível além do olho e da
coisa, é necessária a luz física, do mesmo modo, para o conhecimento
intelectual, seria necessária uma luz espiritual. Esta vem de Deus, é a
Verdade de Deus, o Verbo de Deus, para o qual são transferidas as idéias
platônicas. No Verbo de Deus existem as verdades eternas, as idéias, as
espécies, os princípios formais das coisas, e são os modelos dos seres
criados; e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por
meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. Como se vê, é
a transformação do inatismo, da reminiscência platônica, em sentido
teísta e cristão. Permanece, porém, a característica fundamental, que
distingue a gnosiologia platônica da aristotélica
e tomista, pois, segundo a gnosiologia platônica-agostiniana, não bastam,
para que se realize o conhecimento intelectual humano, as forças naturais do
espírito, mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus.
Em
relação com esta gnosiologia, e dependente dela, a existência de
Deus é provada, fundamentalmente, a
priori, enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de
Deus. Ao lado desta prova a priori,
não nega Agostinho as provas a
posteriori da existência de Deus, em especial a que se afirma sobre a
mudança e a imperfeição de todas as coisas. Quanto à natureza de Deus,
Agostinho possui uma noção exata, ortodoxa, cristã: Deus é poder racional
infinito, eterno, imutável, simples, espírito, pessoa, consciência, o que
era excluído pelo platonismo. Deus é ainda ser, saber, amor. Quanto, enfim,
às relações com o mundo, Deus é concebido exatamente como livre criador.
No pensamento clássico grego, tínhamos um dualismo metafísico; no
pensamento cristão - agostiniano - temos ainda um dualismo, porém moral,
pelo pecado dos espíritos livres, insurgidos orgulhosamente contra Deus e,
portanto, preferindo o mundo a Deus. No cristianismo, o mal é,
metafisicamente, negação, privação; moralmente, porém, tem uma realidade
na vontade má, aberrante de Deus. O problema que Agostinho tratou, em
especial, é o das relações entre Deus e o tempo. Deus não é
no tempo, o qual é uma criatura de
Deus: o tempo começa com a criação. Antes da criação não há tempo,
dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são, portanto,
criadas.
Também
a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão.
Por certo, o corpo não é mau por natureza, porquanto a matéria não pode
ser essencialmente má, sendo criada por Deus, que fez boas todas as coisas.
Mas a união do corpo com a alma é, de certo modo, extrínseca, acidental:
alma e corpo não formam aquela unidade metafísica, substancial, como na
concepção aristotélico-tomista, em virtude da doutrina da forma e da
matéria. A alma nasce com o indivíduo humano e, absolutamente, é uma
específica criatura divina, como todas as demais. Entretanto, Agostinho fica
indeciso entre o criacionismo e o traducionismo, isto é, se a alma é criada
diretamente por Deus, ou provém da alma dos pais. Certo é que a alma é
imortal, pela sua simplicidade. Agostinho, pois, distingue, platonicamente, a
alma em vegetativa, sensitiva e intelectiva, mas afirma que elas são fundidas
em uma substância humana. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e
razão discursiva; e é atribuída a primazia à vontade. No homem a vontade
é amor, no animal é instinto, nos seres inferiores cego apetite.
Quanto
à cosmologia, pouco temos a dizer. Como já mais acima se salientou, a
natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho, preso pelos
problemas éticos, religiosos, Deus e a alma. Mencionaremos a sua famosa
doutrina dos germes específicos dos seres - rationes
seminales. Deus, a princípio, criou alguns seres já completamente
realizados; de outros criou as causas que, mais tarde, desenvolvendo-se, deram
origem às existências dos seres específicos. Esta concepção nada tem que
ver com o moderno evolucionismo, como alguns erroneamente pensaram, porquanto
Agostinho admite a imutabilidade das espécies, negada pelo moderno
evolucionismo.
Evidentemente,
a moral agostiniana é teísta e cristã e, logo, transcendente e
ascética. Nota característica da sua moral é o voluntarismo, a saber, a
primazia do prático, da ação - própria do pensamento latino - ,
contrariamente ao primado do teorético, do conhecimento - próprio do
pensamento grego. A vontade não é determinada pelo intelecto, mas precede-o.
Não obstante, Agostinho tem também atitudes teoréticas como, por exemplo,
quando afirma que Deus, fim último das criaturas, é possuído por um ato de
inteligência. A virtude não é uma ordem de razão, hábito conforme à
razão, como dizia Aristóteles, mas
uma ordem do amor.
Entretanto
a vontade é livre, e pode querer o mal, pois é um ser limitado, podendo agir
desordenadamente, imoralmente, contra a vontade de Deus. E deve-se considerar
não causa eficiente, mas deficiente da sua ação viciosa, porquanto o mal
não tem realidade metafísica. O pecado, pois, tem em si mesmo imanente a
pena da sua desordem, porquanto a criatura, não podendo lesar a Deus,
prejudica a si mesma, determinando a dilaceração da sua natureza. A fórmula
agostiniana em torno da liberdade em Adão - antes do pecado original - é: poder
não pecar; depois do pecado original é: não
poder não pecar; nos bem-aventurados será: não poder pecar. A vontade humana, portanto, já é impotente sem a
graça. O problema da graça - que
tanto preocupa Agostinho - tem, além de um interesse teológico, também um
interesse filosófico, porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta
de Deus com o livre arbítrio do homem. Como é sabido, Agostinho, para salvar
o primeiro elemento, tende a descurar o segundo.
Quanto
à família, Agostinho, como Paulo apóstolo, considera o celibato
superior ao matrimônio; se o mundo terminasse por causa do celibato, ele
alegrar-se-ia, como da passagem do tempo para a eternidade. Quanto à política,
ele tem uma concepção negativa da função estatal; se não houvesse pecado
e os homens fossem todos justos, o Estado seria inútil. Consoante Agostinho,
a propriedade seria de direito positivo, e não natural. Nem a escravidão é
de direito natural, mas conseqüência do pecado original, que perturbou a
natureza humana, individual e social. Ela não pode ser superada naturalmente,
racionalmente, porquanto a natureza humana já é corrompida; pode ser
superada sobrenaturalmente, asceticamente, mediante a conformação cristã de
quem é escravo e a caridade de quem é amo.
Agostinho
foi profundamente impressionado pelo problema do mal
- de que dá uma vasta e viva fenomenologia. Foi também longamente desviado
pela solução dualista dos maniqueus, que lhe impediu o conhecimento do justo
conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. A solução deste problema
por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta
filosófico-teológica, e marca uma diferença fundamental entre o pensamento
grego e o pensamento cristão. Antes
de tudo, nega a realidade metafísica do mal. O mal não é ser, mas
privação de ser, como a obscuridade é ausência de luz. Tal privação é
imprescindível em todo ser que não seja Deus, enquanto criado, limitado.
Destarte é explicado o assim chamado mal
metafísico, que não é verdadeiro mal, porquanto não tira aos seres o
lhes é devido por natureza. Quanto ao mal
físico, que atinge também a perfeição natural dos seres, Agostinho
procura justificá-lo mediante um velho argumento, digamos assim, estético: o
contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. Mas é esta a
parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal.
Quanto
ao mal moral, finalmente existe realmente a má vontade que livremente
faz o mal; ela, porém, não é causa eficiente, mas deficiente, sendo o mal
não-ser. Este não-ser pode unicamente provir do homem, livre e limitado, e
não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser. O mal moral entrou no
mundo humano pelo pecado original e atual; por isso, a humanidade foi punida
com o sofrimento, físico e moral, além de o ter sido com a perda dos dons
gratuitos de Deus. Como se vê, o mal físico tem, deste modo, uma outra
explicação mais profunda. Remediou este mal moral a redenção de Cristo,
Homem-Deus, que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a
possibilidade do bem moral; mas deixou permanecer o sofrimento, conseqüência
do pecado, como meio de purificação e expiação. E a explicação última
de tudo isso - do mal moral e de suas conseqüências - estaria no fato de que
é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal, do que não permitir o mal.
Resumindo a doutrina agostiniana a respeito do mal, diremos: o mal é,
fundamentalmente, privação de bem (de ser); este bem pode ser não devido
(mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza;
se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal; a solução deste
problema é estética para o mal físico, moral (pecado original e Redenção)
para o mal moral (e físico).
Como
é notório, Agostinho trata do problema da história na Cidade
de Deus, e resolve-o ainda com os conceitos de criação, de pecado
original e de Redenção. A Cidade de
Deus representa, talvez, o maior monumento da antigüidade cristã e,
certamente, a obra prima de Agostinho. Nesta obra é contida a metafísica
original do cristianismo, que é uma visão orgânica e inteligível da
história humana. O conceito de criação é indispensável para o conceito de
providência, que é o governo divino do mundo; este conceito de providência
é, por sua vez, necessário, a fim de que a história seja suscetível de
racionalidade. O conceito de providência era impossível no pensamento
clássico, por causa do basilar dualismo metafísico. Entretanto, para
entender realmente, plenamente, o plano da história, é mister a Redenção,
graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua
função. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino, a
cidade de Deus, é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda
sobre a terra, e pela Igreja depois de seu advento. Contra este cidade se
ergue a cidade terrena, mundana,
satânica, que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos
tempos.
Agostinho
distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. A primeira
concerne à história das duas cidades,
após o pecado original, até que ficaram confundidas em um único caos
humano, e chega até a Abraão, época em que começou a separação. Na
Segunda descreve Agostinho a história da cidade
de Deus, recolhida e configurada em Israel, de Abraão até Cristo. A
terceira retoma, em separado, a narrativa do ponto em que começa a história
da Cidade de Deus separada, isto é, desde Abraão, para tratar paralela e
separadamente da Cidade do mundo, que culmina no império romano. Esta
história, pois, fragmentária e dividida, onde parece que Satanás e o mal
têm o seu reino, representa, no fundo, uma unidade e um progresso. É o
progresso para Cristo, sempre mais claramente, conscientemente e divinamente
esperado e profetizado em Israel; e profetizado também, a seu modo, pelos
povos pagãos, que, consciente ou inconscientemente, lhe preparavam
diretamente o caminho. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas
cidades; elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade, com a
diferença, porém, de que já não é mais união caótica, mas configurada
na unidade da Igreja. Esta não é limitada por nenhuma divisão política,
mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na
unidade dos homens com Deus. A Igreja, pois, é acessível, invisivelmente,
também às almas de boa vontade que, exteriormente, dela não podem
participar. A Igreja transcende, ainda, os confins do mundo terreno, além do
qual está a pátria verdadeira. Entretanto, visto que todos, predestinados e
ímpios, se encontram empiricamente confundidos na Igreja - ainda que só na
unidade dialética das duas cidades,
para o triunfo da Cidade de Deus - a divisão definitiva, eterna, absoluta,
justíssima, realizar-se-á nos fins dos tempos, depois da morte, depois do
juízo universal, no paraíso e no inferno. É uma grande visão unitária da
história, não é uma visão filosófica, mas teológica: é uma teologia,
não uma filosofia da história.
A
Escolástica representa o último período do pensamento cristão, que vai do
começo do século IX até o fim do século XVI, isto é, da constituição do
sacro romano império bárbaro, ao fim da Idade Média, que se assinala
geralmente com a descoberta da América (1492). Este período do pensamento
cristão se designa com o nome de escolástica,
porquanto era a filosofia ensinada nas escolas da época, pelos mestres, chamados, por isso, escolásticos. As matérias ensinadas nas escolas medievais eram
representadas pelas chamadas artes liberais, divididas em trívio -
gramática, retórica, dialética - e quadrívio - aritmética, geometria,
astronomia, música. A escolástica
surge, historicamente, do especial desenvolvimento da dialética.
A
falta dessa distinção - específica do pensamento agostiniano - manifesta-se
não apenas na corrente chamada mística,
mas também na orientação denominada dialética
do pensamento medieval pré-tomista. Misticismo e dialeticismo, todavia, se
diferenciam profundamente entre si. O segundo, com efeito, embora parta da
revelação e do sobrenatural, toma-os como dados e pretende penetrá-los
mediante a filosofia, até procurar as razões necessárias dos mistérios,
finalizando uma espécie de racionalismo (Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo).
É, porém, um racionalismo inconsciente, proveniente da ignorância da
verdadeira natureza e dos verdadeiros limites da razão. E, mesmo que os
resultados lógicos pudessem ser os mesmos do racionalismo verdadeiro e
próprio, o escopo não era reduzir a religião aos limites da razão humana,
mas levantar esta à compreensão do supra-inteligível, a uma espécie de
intuição mística.
A
tendência mística, pelo contrário, (São Pedro Damião e São Bernardo de
Claraval) põe, acima e contra a razão e o intelecto, uma outra forma de
conhecimento, de experiência do Divino: o sentimento, a fé, a vontade, o
amor, culminando na união mística, no êxtase.
Depois
destas premissas, podemos dividir a escolástica em três períodos, colocando
o período central da escolástica a figura soberana de Tomás
de Aquino. Teremos, assim, um período pré-tomista em que persiste a
tendência teológica-agostiniana. Este primeiro período da escolástica vai
do começo do século IX (Carlos Magno) até à metade do século XIII (Tomás
de Aquino), e pode ser assim dividido: séculos IX e X (Scoto Erígena e a
questão dos universais); séculos
XI e XII (místicos e dialéticos); século XIII (o triunfo do aristotelismo).
O
segundo período da escolástica é dominado pela figura soberana de Tomás de
Aquino, o Aristóteles do pensamento
filosófico cristão; este período coincide com a Segunda metade do século
XIII.
Depois
de Tomás de Aquino, a escolástica declina como metafísica (séculos XIV e
XV), devido a um anacrônico e ilógico retorno ao agostinianismo. Afirmam-se,
entretanto, ao mesmo tempo, tendências novas para a experiência e a
concretidade, representando como que o prelúdio do pensamento moderno. Tal
desenvolvimento da escolástica no sentido da experiência e da concretidade,
é devido em especial aos franciscanos ingleses de Osford - Rogério Bacon,
Duns Scoto, Guilherme de Occam -, em conformidade com as tendências positivas
e práticas do espírito anglo-saxônio.
Carlos
Magno pretendia dar uma unidade interior, espiritual, ao seu vasto e vário
império e, portanto, educar intelectual, moral e religiosamente os povos
bárbaros que o constituíam. Deste modo restauraria a civilização e a
religião, a cultura clássica e o catolicismo e lhes daria incremento. Para
tanto, o meio natural eram as escolas, e o clero se apresentava como o mais
apto e preparado docente, quer pelo seu imanente caráter de mestre do povo,
quer pela cultura de que era dotado. Na intenção de Carlos Magno, complexo
devia ser o papel das escolas, que ele ia fundando e desenvolvendo: formar,
antes de tudo, mestres adequados para as escolas, isto é, um clero culto;
educar, em seguida, a massa popular, seu escopo final; preparar uma classe
dirigente em geral e, em especial, os funcionários do império.
Havia
nos mosteiros beneditinos escolas monásticas, surgidas da própria exigência
de uma observância adequada da Regra de São Bento. Paulatinamente
espalharam-se também as escolas episcopais, imitações atualizadas das
escolas catequéticas do cristianismo primitivo. As escolas
monásticas dos mosteiros visavam, antes de tudo, a formação dos monges
futuros (escolas internas), e, depois, a formação dos leigos cultos (escolas
externas), proporcionando, ao mesmo tempo, o ensino religioso e os rudimentos
das ciências profanas. O programa de ensino era, inicialmente, bastante
elementar: leitura, aprender a escrever, canto orfeônico e um tanto de
aritmética. As escolas episcopais - que surgem nas cidades, ao passo que as escolas
monásticas surgem nos mosteiros afastados das cidades - visavam, em especial,
a formação do clero secular e também de leigos instruídos, para a vida
civil. Presidia a estas escolas um eclesiástico chamado scholasticus,
dependente diretamente do bispo, donde o nome de escolástica
à doutrina e, por conseguinte, à filosofia ensinadas. Os docentes eram
também eclesiásticos e denominados também scholastici.
Carlos Magno dará muito incremento a ambas as escolas e, ademais, fundará
junto da corte imperial a assim chamada escola palatina,
que pode ser considerada como a primeira universidade medieval. Mencionamos
também como, com o correr do tempo, no âmbito das paróquias, as escolas
paroquiais, destinadas a ensinar ao povo os primeiros elementos do saber.
Para
elaborar o seu vasto plano de política escolar, Carlos Magno chamou à corte Alcuíno
(735-804, mais ou menos), que veio da Inglaterra, o viveiro da cultura naquela
época. E sob a sua inspiração, a partir do ano 787, foram emanados os decretos
capitulares para a organização das escolas, enquanto o douto inglês
ditava-lhes o programa relativo, que se espalhou pelo vasto império e
perdurou invariado, podemos dizer, durante toda a Idade Média.
O
programa de Alcuíno abraçava as sete artes liberais, de que acima falamos,
repartidas no trívio e no quadrívio. O trívio abraçava as disciplinas
formais: gramática, retórica, dialética, esta última desenvolvendo-se,
mais tarde, na filosofia; o quadrívio abraçava as disciplinas reais:
aritmética, geometria, astronomia, música, e, mais tarde, a medicina.
Sob
a direção de Alcuíno, foi constituída junto da corte de Carlos Magno a
famosa escola palatina. Nela
ensinaram os homens mais famosos da época, como, por exemplo, o historiador
Paulo Diácono, o gramático Pedro de Pisa, o teólogo Paulino de Aquiléia.
Freqüentavam esta escolas o próprio imperador, os príncipes e os jovens da
nobreza. Outras escolas surgiram, em seguida, especialmente na França,
modeladas na escola palatina.
Ao
lado desta instrução e educação eclesiásticas, ministradas por
eclesiásticos e, sobretudo, a eclesiásticos, temos na Idade Média uma
educação militar, ministrada por militares e a militares; a Igreja, bem
cedo, imprimiu também a esta educação uma orientação ética, religiosa,
católica. Como é sabido, o feudalismo é uma organização social,
política, econômica, militar, inicialmente baseada na força, segundo o
espírito dos bárbaros dominadores.
Scoto
Erígena e o Problema dos Universais
A
história da filosofia escolástica começa propriamente com o nome de Scoto
Erígena. João Scoto Erígena
nasceu na Irlanda, dita Scotia maior,
Eriu em língua céltica, donde o
nome de Scoto Erígena. Pelo ano de 874 é chamado à corte culta e brilhante
de Carlos o Calvo, para presidir e lecionar na escola palatina. Parece Ter
falecido em França pelo ano 877. A sua obra principal é Da
Divisão da Natureza (847), em cinco livros; é um diálogo entre mestre e
discípulo e se inspira no neoplatonismo
do pseudo Dionísio Areopagita, que Erígena traduziu do grego para o latim.
Foi condenada pela Igreja (1225), e pode-se dizer que representa a falência
definitiva das tentativas de síntese entre neoplatonismo emanatista e
criacionismo cristão.
Erígena
parte da revelação divina para, depois, penetrar os mistérios mediante a
razão iluminada por Deus. Tal pretensão de penetrar racionalmente os
mistérios revelados devia acabar logicamente no racionalismo e, por
conseqüência, na supressão do sobrenatural, por mais ortodoxa que fosse a
intenção do autor.
Eminentemente
neoplatônico é o esquema especulativo de Da
Divisão da Natureza: a descida da Unidade à multiplicidade, e retorno da
multiplicidade à Unidade. De Deus desce-se às idéias supremas, aos
gêneros, às espécies, aos indivíduos, e vice-versa. Deste modo, a divisão
da natureza, da realidade, fica assim configurada:
1°.
- A natureza que não é criada e cria (Deus Padre);
2°.
- A natureza que é criada e cria (o Verbo de Deus, em que são contidas as
idéias eternas, exemplares e causas das coisas);
3°.
- A natureza que é criada e não cria (as coisas, realizadas mediante o
Espírito de Deus);
4°.
- A natureza que não é criada e não cria (isto é, Deus, concebido, porém,
como ômega, termo, fim da
realidade, e não como alfa,
princípio). Como se vê, as fases primeira e Quarta coincidem (Deus = não
criado), bem como coincidem as fases Segunda e terceira (mundo = criado).
O
problema dos universais, isto é, do valor dos conceitos, das idéias, problema
que tão cedo e tão longamente interessou a escolástica, teve uma solução
radical no pensamento escotista. Que valor têm os conceitos, que são
universais, em relação e enquanto representativos das coisas, que são, ao
contrário, particulares? O problema tem uma importância fundamental
filosófica, não apenas lógica e dialética, mas também gnosiológica e
metafísica.
As
soluções desse problema oferecidas pela escolástica são substancialmente,
três: a solução chamada do realismo transcendente (platônica);
a solução do realismo moderado, imanente (aristotélica);
a solução nominalista.
Segundo
a solução do realismo transcendente, o universal, a idéia de uma realidade em
si, não existe apenas fora da mente, mas também fora do objeto (universal ante
rem): - é a solução platônica, geralmente adotada pela escolástica
incipiente. Segundo a solução do realismo
moderado, imanente, o universal tem em si uma realidade objetiva, fora da
mente, mas é imanente nos objetos singulares de que é essência, forma,
princípio ativo (universal in re):
- corresponde à posição aristotélica, com a doutrina da forma que
determina a matéria. A solução conceptualista-nominalista
sustenta que o universal não tem nenhuma existência objetiva, mas apenas
mental (universal post rem), ou até
puramente nominal (nominalismo) - no mundo clássico esta posição é
defendida pelos sofistas, estóicos,
epicuristas, céticos, isto é, pelas
gnosiologias empirista e sensitista.
Depois
da decadência cultural que se seguiu à renascença carolíngia, começa e se
manifesta nos séculos XI e XII um renascimento especulativo. E isto não
obstante a luta dos teólogos, dos místicos, contra a ciência (a filosofia)
por eles considerada um resíduo pagão, uma distração mundana, vaidade e
orgulho; e, portanto, contra os filósofos, e os dialéticos que a cultivavam.
Os maiores representantes da corrente mística são: São Pedro Damião no
século XI, São Bernardo de Claraval no século XII; da corrente dialética
os maiores expoentes são: Santo Anselmo de Aosta no século XI e Pedro
Abelardo no século XII.
São
Pedro Damião, cardeal e arcebispo ostiense,
conselheiro do monge Hildebrando, mais tarde Papa Gregório VII, escreveu Da
Divina Onipotência. Nesta obra enaltece a onipotência de Deus, até
colocá-la acima de toda lei racional, inclusive o princípio de
contradição; daí a vaidade da ciência, da filosofia para entender Deus e
as suas obras. São Bernardo de Claraval
rejeita, asceticamente, o saber profano como um perigo e um luxo. A verdadeira
sabedoria consiste no conhecimento da própria miséria, na compaixão para
com a miséria do próximo, na contemplação de Deus, dos divinos mistérios,
de Cristo crucificado, e culmina no êxtase. O caminho da sabedoria é a
humildade.
Santo
Anselmo (1033-1109) nasceu em Aosta; foi monge
prior e abade do mosteiro beneditino de Bec na Normandia e, depois, arcebispo
de Canterbury na Inglaterra. As suas obras principais são: O Monologium, onde se propõe demonstrar a existência de Deus com
um argumento simples e evidente, capaz de convencer imediatamente o ateu.
Anselmo de Aosta é o primeiro grande filósofo medieval, após Scoto Erígena.
Também ele é um platônico-agostiniano. O seu lema é: creio
para compreender, o que significa partir da revelação divina, da fé e
não da razão; mas é preciso penetrar depois a fé mediante a razão.
O
nome de Anselmo de Aosta é ligado ao famoso argumento ontológico,
a priori, para demonstrar a
existência de Deus; este argumento é contido no Proslogium.
Pretende ele demonstrar a existência de Deus, partindo do mero conceito de
Deus. O conceito que temos de Deus é o de um ser perfeitíssimo e, logo, Deus
deve também existir realmente, do contrário não mais seria perfeitíssimo,
faltando-lhe a existência. Em realidade, o argumento ontológico não vale:
porquanto não podemos, no nosso conhecimento, passar da ordem lógica para a
ordem ontológica, das idéias aos fatos, mas deve-se passar das coisas às
idéias, da ordem real à ordem ideal.
Pedro
Abelardo (1097-1142), natural de Bretanha,
estudante e, mais tarde, professor famoso em Paris, centro cultural do mundo
católico, tornou-se religioso e foi peregrinando por muitos mosteiros e
cátedras, após uma aventura amorosa com Heloísa, que lhe acarretou
trágicas conseqüências. Acusado de heresia, foi condenado por dois
concílios. Abelardo é uma das mais originais figuras do mundo medieval,
mesmo faltando-lhe a profundidade e a capacidade sistemática de Santo
Anselmo. Em conclusão, Abelardo é, ao mesmo tempo, filósofo e teólogo,
grego e cristão, cético e sistemático, com um grande pendor para a crítica
e a dialética.
Escreveu
as obras seguintes: História das
Calamidades, conto biográfico da sua aventura com Heloísa; Dialética;
Conhece-te a ti mesmo; Sic
et non. No ensaio ético Conhece-te
a ti mesmo valoriza, na vida moral, o elemento subjetivo, intencional, -
elemento descurado na Idade Média - em confronto com o elemento objetivo,
legal. Reconhecendo embora que são necessários os dois elementos, a fim de
que haja ação plenamente moral, Abelardo sustenta ser mais moral um ato
executado com reta intenção, ainda que objetivamente mau, do que um ato
executado conforme a lei, mas com intenção má. Também interessante é a
sua posição crítica na pesquisa filosófica: a dúvida nos leva para a
investigação, a investigação nos leva à ciência. Na obra Sic
et non - coleção de sentenças contrastantes dos padres sobre assuntos
da Escritura e da teologia - Abelardo se integra nas fileiras dos sentenciários,
isto é, dos autores dos libri
sententiarum entre os quais o mais famoso é Pedro Lombardo, (século
XII), chamado precisamente magister
sententiarum. Os livros das sentenças eram coleções sistemáticas -
mais ou menos críticas - das doutrinas das Padres, ordenadas segundo o
esquema: Deus, criação, queda, redenção, meios de salvação. Preparam as
grandes sumas medievais,
especialmente as tomistas, que são construções sistemáticas elaboradas
criticamente.
Encerra-se
assim o século XII e está nos albores o século XIII, o século de ouro da
escolástica e do pensamento filosófico cristão.
A
atividade filosófica da escolástica pré-tomista foi essencialmente
lógico-dialética e, logo, formal. Esta atividade formal, intensa e
penetrante, esperava um conteúdo adequado, racional, filosófico. E tal
conteúdo lhe foi proporcionado pela descoberta do sistema aristotélico
integral, que representa o ápice do pensamento helênico. O mundo
latino-cristão, escolástico, depois de conhecido Aristóteles
através da cultura árabe, apaixonou-se pela filosofia aristotélica, que
estudou intensamente. Este movimento cultural e filosófico se desenvolveu
especialmente no âmbito das universidades, então surgidas e organizadas
eficientemente, graças aos pensadores pertencentes às ordens religiosas, os
quais a tudo renunciaram, salvo à ciência e à caridade.
A
atitude do mundo latino-cristão perante Aristóteles foi tríplice: uma
decidida aversão à filosofia que queria constituir-se unicamente com meios
racionais, e um retorno ao agostianismo (São Boaventura); um culto
idolátrico para com o Estagirita, que foi identificado com a própria razão
humana e preferido, no fundo, à revelação cristã, quando não concordava
com a razão (averroísmo latino); uma aceitação e valorização do sistema
aristotélico, mas crítica e racional, pelo qual se chegou à construção de
uma filosofia distinta e autônoma, mas em harmonia hierárquica com a fé (Tomás
de Aquino).
Como
dissemos, foram os árabes - e
secundariamente os hebreus - que levaram ao conhecimento do mundo
latino-cristão a filosofia de Aristóteles. Os árabes, após terem
conquistado o oriente helenista, entraram em contato com a cultura grega,
especialmente na Síria. Em seguida, estendendo suas conquistas até o
ocidente europeu, trouxeram-lhe a própria cultura impregnada de aristotelismo.
Os árabes foram admiradores de Aristóteles
e da sua filosofia, que salvaram das invasões bárbaras durante as trevas
medievais do Ocidente latino. E assim, originariamente bárbaros eles mesmos,
os árabes, por sua vez, foram civilizados pelo pensamento grego,
aristotélico. Os maiores filósofos árabes conhecedores de Aristóteles e
que influíram profundamente sobre o Ocidente latino-cristão, foram Avicena e
Averroés. Avicena tentou harmonizar
a filosofia aristotélica com a religião islâmica. Averroés,
- o famoso comentador de Aristóteles - afirmava ao invés a subordinação da
religião a filosofia quando as argumentações delas fossem contrastantes, e
considerava a religião como uma filosofia simbólica para o vulgo.
Era
preciso traduzir do árabe para o latim as obras de Aristóteles e os
comentários árabes. Foi o que fez, nos meados do século XII, uma sociedade
de homens cultos surgida em Toledo, na Espanha. Mais tarde sentiu-se a
necessidade de traduzir diretamente do grego as obras de Aristóteles, e, por
conselho de Tomás de Aquino, Guilherme de Maerbeke (falecido em 1286) fez essa tradução, que
proporcionou aos latinos o conhecimento do genuíno pensamento do Estagirita.
Ao
mesmo tempo se desenvolveram as universidades,
as grandes universidades medievais, surgidas geralmente das escolas
episcopais; famosas mais que todas as outras, foram as universidades de Paris
e de Oxford. A universidade de Paris, a mais ilustre universidade da Idade
Média, desenvolveu especialmente a filosofia e a teologia, inspirando-se na
mentalidade aristotélica, ao passo que a universidade de Oxford dedicou-se
especialmente às ciências naturais, inspirando-se na mentalidade
agostiniana. O conjunto dos professores e dos alunos da universidade de
Paris, em princípios do século XII, constituiu um corpo único, uma universitas
única, e obteve das autoridades civis e religiosas reconhecimento jurídico e
grandes privilégios. Especialmente os papas protegeram a universidade de
Paris, devido à importância que tinha naquele estabelecimento do ensino
superior universitário a teologia. Desta sorte, tal universidade se tornou
como que a cidadela cultural da ortodoxia católica,
o seminário dos filósofos e dos teólogos de todo mundo.
Nessas
universidades recém-organizadas, bem cedo, contra a vontade dos leigos e por
desejo dos papas, entraram e tiveram preponderância professores pertencentes
as duas ordens religiosas surgidas no século XIII: os Dominicanos,
fundados por São Domingos de Gusmão, espanhol, e os Franciscanos,
fundados por São Francisco de Assis, italiano. A característica nova e comum
destas duas ordens religiosas foi a pobreza individual e coletiva, donde o
nome de mendicantes a elas
atribuído, e também certa liberdade a respeito das obrigações conventuais,
para melhor facultar o cultivo do estudo e a pregação apostólica entre o
povo. Os dominicanos dedicaram-se mais ao estudo, à ciência, inspirando-se
no pensamento aristotélico, exercendo, destarte, sua maior influência entre
as classes sociais elevadas; os franciscanos, ao contrário, propuseram-se
como finalidade principal a caridade ativa e tiveram uma enorme influência
sobre o povo, inspirando-se na mentalidade agostiniana.
Os
filósofos franciscanos julgaram fosse mister dar uma forma teórica à
atitude prática, afetiva, sentimental do Pobrezinho de Assis que entrevia
Deus e Jesus Cristo em todas as coisas. E julgaram os filósofos franciscanos
que, para tanto, se prestasse o agostinianismo, com o seu misticismo e
voluntarismo - julgando inapto para esse fim o racionalismo, o empirismo e o
intelectualismo aristotélicos.
O
maior representante do agostinianismo antiaristotélico foi São
Boaventura (1221-1274); nasceu na Itália, estudou em Paris e, mais tarde,
foi geral da sua ordem e depois cardeal de Albano. Suas obras principais são:
os Comentários a Pedro Lombardo, o Itinerário
da Mente para Deus, sobre a Redução das Artes à Teologia.
Segundo
São Boaventura, a tarefa da filosofia não é teórica e racional, mas
prática e religiosa, isto é, a filosofia deve levar a Deus, que se atinge
imediatamente em todas as coisas e se possui pela união mística, como ele
descreve no Itinerário. A
gnosiologia de Boaventura inspira-se no iluminismo agostiniano, que lhe
sugeriu a prova intuitiva da existência de Deus, enquanto ele é
imediatamente presente ao espírito humano. A metafísica de Boaventura, pois,
afirma três princípios diretamente opostos ao aristotelismo tomista: a
existência de uma matéria geral sem as formas específicas; a pluralidade
das formas em um mesmo ser, tantas quantas são as suas propriedades
essenciais; a universalidade da matéria fora de Deus, porque todos os seres
são compostos de matéria e de forma, inclusive as essências angélicas e as
almas humanas. A psicologia de Boaventura, pois, sustenta que a alma humana é
uma substância completa independentemente do corpo, composta de forma e
matéria, auto-suficiente.
Diametralmente
oposto a este aristotelismo agostiniano, é o aristotelismo exagerado
averroísta, que aceita o sistema aristotélico sem crítica nenhuma, e, por
conseqüência, será inteiramente infecundo. Esta orientação filosófica é
chamada averroísta, porquanto admite - como admitia Averroés - que haja
teses filosóficas em contraste com o teísmo da religião, ainda que pareça
limitar-se a sustentar a existência de duas verdades paralelas e
contrastantes, e não chegar até subordinar a religião à filosofia. O maior
representante do averroísmo latino
é Siger de Brabante (falecido pelo
ano de 1284), professor na universidade parisiense, condenado mais tarde pela
Igreja. A sua obra principal é Da Alma
Intelectiva. As teses mais notáveis de Siger em contraste com o
cristianismo são: a negação da providência divina; a afirmação da
eternidade do mundo; a afirmação da unidade do intelecto na espécie humana
e a conseqüente negação da imortalidade pessoal do homem. Entre estas duas
posições extremadas - de idolatria ou de irredutível hostilidade - a
respeito de Aristóteles, medeia Tomás de Aquino, que realizará a
justificação da filosofia e da teologia.
"Os
caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus".
No
século VIII, Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império
e fundar escolas ligadas às instituições católicas. A cultura
greco-romana, guardada nos mosteiros até então, voltou a ser divulgada,
passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. Era a
renascença carolíngia.
Tendo
a educação romana como modelo, começaram a ser ensinadas as seguintes
matérias: gramática, retórica e dialética (o
trivium) e geometria, aritmética, astronomia e música (o
quadrivium). Todas elas estavam, no entanto, submetidas à teologia.
A
fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez
surgir uma produção filosófico-teológica denominada escolástica
(de escola).
A
partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no
pensamento escolástico, marcando-o definitivamente. Isso se deveu à
descoberta de muitas obras de Aristóteles,
descobertas até então, e à tradução para o latim de algumas delas,
diretamente do grego.
A
busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se, no entanto,
como problema básico de especulação filosófica. Nesse sentido, o período
escolástico pode ser dividido em três fases:
Primeira
fase - (do século IX ao fim do século XII):
caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão.
Segunda
fase - (do século XIII ao princípio do século
XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos,
merecendo destaques nas obras de Tomás de
Aquino. Nesta fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão
pôde ser parcialmente obtida.
Terceira
fase - (do século XIV até o século XVI):
decadência da escolástica, caracterizada pela afirmação das diferenças
fundamentais entre fé e razão.
A
Questão dos Universais:
O
que há entre as palavras e as coisas
O
método escolástico de investigação, segundo o historiador francês Jacques
Le Goff, privilegiava o estudo da linguagem
(o trivium) para depois passar para
o exame das coisas (o
quadrivium). Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual
a relação entre as palavras e as coisas?
Rosa,
por exemplo, é o nome de uma flor. Quando a flor morre, a palavra rosa
continua existindo. Nesse caso, a palavra fala de uma coisa inexistente, de
uma idéia geral. Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi
o inspirador neoplatônico
Porfírio, em sua obra Isagoge: "Não tentarei enunciar se os gêneros e as
espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência, nem, no caso de
subsistirem, se são corpóreos ou incorpóreos, nem se existem separados dos
objetos sensíveis ou nestes objetos, formando parte dos mesmos".
Esse
problema filosófico gerou muitas disputas. Era a grande discussão sobre a
existência ou não das idéias gerais,
isto é, os chamados universais de Aristóteles.
O
tomismo era, talvez, um movimento excessivamente novo e arrojado, para poder
súbita e definitivamente impor-se no âmbito do pensamento cristão medieval.
Houve, portanto, no mesmo século XIII, logo depois de uma reação violenta
contra o tomismo, um retorno especulativo ao agostinianismo, que julgou
encobrir o seu anacronismo, tentando uma superação do racionalismo tomista.
Entretanto esse movimento terminará nas posições fideístas do pré-tomismo,
acentuadas e tornadas piores após a poderosa construção crítica e racional
do Aquinate; e terminará, consequentemente, na ruína da metafísica, da
filosofia, da ciência. A escolástica pós-tomista, contudo, sentiu
profundamente o problema da concretidade e da experiência, indubitavelmente
negligenciado pela escolástica clássica, donde surgirão a história e a
ciência modernas - com suas técnicas - que constituem o valor do pensamento
moderno.
O
centro desta escolástica pós-tomista é a universidade de Oxford, na
Inglaterra, cujas características tendências empiristas, experimentais,
positivas, práticas, são conhecidas.
Rogério
Bacon (1210-1294), nascido na Inglaterra, entrou
na ordem franciscana e estudou nas universidades de Oxford e de Paris. Após
Ter lecionado algum tempo em Oxford, foi obrigado a deixar a cátedra.
Estabeleceu-se então em Paris, onde levou uma vida agitada e foi condenado à
prisão pelos próprios superiores da sua ordem. Crítico agressivo das
maiores autoridades da sua época, foi um temperamento genial e original,
enciclopédico e místico, cientista e supersticioso. A sua obra mais
importante é a chamada Obra Maior;
publicou ainda a Obra Menor e a Terceira Obra.
Segundo
Bacon, três são as fontes do saber: a autoridade, a razão, a experiência.
A autoridade dá-nos a crença, a
fé não porém a ciência, porquanto não nos fornece a compreensão das
coisas que formam o objeto da crença. A razão
proporciona essa compreensão, quer dizer, a ciência; no entanto, não
consegue distinguir o sofisma da demonstração verdadeira, se não achar
fundamento e confirmação na experiência. A ciência
experimental constitui a fonte mais sólida da certeza. Conforme Bacon,
todavia, deve-se entender por experiência não apenas a que se alcança pelos
sentidos externos e nos oferece o mundo corpóreo, mas também a experiência
proporcionada pela iluminação interior de Deus. É, como se vê, um
vestígio do agostinianismo tradicional. Do agostinianismo, Bacon aceita
também a unidade entre filosofia e teologia, que Tomás tinha distinguido.
O
maior expoente da escolástica pós-tomista é, sem dúvida, João
Duns Scoto, o doutor sutil. Também ele, inglês e franciscano, foi aluno
e professor nas universidades de Oxford e de Paris. Faleceu em 1308. Suas
obras principais são: a Obra Oxoniense,
isto é, o tradicional comentário das sentenças de Pedro Lombardo; os Teoremas Sutilíssimos, as Questões
Várias, a Obra Parisiense.
Nestas obras revela-se um crítico e um pensador de muito superior a São
Boaventura.
O
agostinianismo de Scoto manifesta-se, antes de tudo, no conceito de filosofia,
entendida como instrumento para entender a fé e não como obra autônoma do
espírito, como julga Tomás de Aquino. E,
por sua vez, a teologia não é - segundo Scoto - disciplina essencialmente
especulativa - como julga Aquinate - mas unicamente prática, em conformidade
com o espírito do voluntarismo agostiniano.
A
gnosiologia iluminista-intuicionista agostiniana firma-se no escotismo não
tanto como participação da inteligência humana na luz divina, quanto como
sendo a espontaneidade e a independência do intelecto com respeito ao
sentido. Em todo caso, está contra o chamado empirismo aristotélico-tomista,
conforme o qual o nosso conhecimento começa pela sensibilidade. Scoto
concede, em linha de fato, o empirismo do nosso conhecimento; não o admite em
linha de direito, como exige o tomismo. E isso seria devido - segundo o doutor
sutil - à escravidão da alma com respeito ao corpo, decorrente do
pecado. Pelo contrário, deveria a alma, por sua natureza, conhecer
diretamente as essências, não só as materiais mas também as espirituais.
Na
teodicéia, Scoto (contra a corrente agostiniana e em harmonia com o tomismo)
ensina que Deus não é conhecido por intuição; a existência de Deus é
demonstrável apenas com argumentos a
posteriori, embora procure também combinar esta demonstração com o
argumento ontológico, a priori. Quanto à natureza divina, o atributo essencial de Deus
seria a infinidade.
Na
psicologia escotista aparece ainda uma doutrina inspirada no agostinianismo.
É a doutrina do conhecimento intuitivo da essência da alma, princípio de
todos os demais conhecimentos. E também inspira-se no agostinianismo a
doutrina de certa independência da alma com respeito ao corpo; seria a alma,
por natureza, uma substância completa.
Com
efeito, segundo Scoto, todos os seres, mesmos os espirituais, são compostos
de matéria e de forma. A matéria não é mera potência, inexistente sem a
forma, mas tem uma realidade sua própria; a forma não é única, mas há
multiplicidade de formas em cada indivíduo. A individuação não depende da
matéria (pelo que o indivíduo fica incognoscível intelectualmente), mas de
um elemento formal individual, chamado haecceitas
(que se sobrepõe à matéria por si subsistente e à hierarquia das formas);
destarte, o indivíduo se tornaria intelectualmente cognoscível.
Contra
o intelectualismo tomista, Scoto sustenta a primazia da vontade: a vontade
não depende do intelecto, mas o intelecto depende da vontade. A tarefa do
homem é conhecer para querer e amar; na vida eterna, Deus seria atingido, na
visão beatífica, pela vontade, pelo amor e não pelo intelecto. Scoto põe
também em Deus esse primado de vontade sobre o intelecto. Desse modo, as
coisas criadas por Deus não dependem fundamentalmente da razão divina, e sim
da vontade divina. E a própria ordem ética não é intrinsecamente boa por
motivo racional, mas unicamente porquanto é querida por Deus, que poderia
impor uma ordem moral oposta, em que, por exemplo, a mentira, o adultério, o
furto, o homicídio, etc., seriam ações morais, e imorais as ações
opostas.
Guilherme
de Occam é, ao mesmo tempo, um opositor e um
discípulo de Scoto: discípulo, no sentido de que desenvolve o individualismo
de haecceitas escotista no
nominalismo, que ele fez reviver no ambiente experimental da universidade de
Oxford, depois do realismo imanente aristotélico-tomista. Guilherme nasceu em
Occam na Inglaterra pouco antes do ano de 1300; fez-se franciscano, estudou e
lecionou na Universidade de Oxford. Processado por heresia pela Santa Sé,
refugiou-se junto do Imperador, então em luta contra o Papa, e escreveu
várias obras para defender o imperador contra a Santa Sé. Faleceu pelo ano
1350. Suas obras especulativas são, além do Comentário
às Sentenças de Pedro Lombardo: Sete
Várias Questões, Suma de Toda a
Lógica, Centilóquio Teológico.
Segundo
Occam, o conhecimento sensível é superior ao conhecimento intelectual,
porquanto o primeiro é intuitivo, ao passo que o segundo é abstrato; o
primeiro dá-nos a realidade, concreta e individual, ao passo que o segundo
nos dá apenas as semelhanças entre seres reais (as idéias gerais), e, por
conseguinte, um conhecimento vago e confuso deles, que não nos permite
distingui-los um do outro. O conhecimento sensível dá-nos as relações
reais entre as coisas reais (o nexo causal, que se conhece só pela
experiência), ao passo que o conhecimento intelectual nos proporciona
conhecer as relações lógicas entre conceitos abstratos, sem nada nos dizer
em torno da realidade das coisas. Em conclusão, a sensação é o sinal de um
objeto na alma; o conceito é sinal de mais objetos percebidos como
semelhantes. O conceito, pois, é um sinal natural, representado pelo nome que
é, porém, um sinal artificial, variável segundo as diversas línguas.
Estamos
na linha do experimentalismo inglês da Universidade de Oxford; desse
experimentalismo deriva o empirismo, e deste deriva logicamente a ruína do
conceito e, conseqüentemente, da ciência, da filosofia, da moral, etc. E
deriva também a ruína das próprias noções de substância e causa,
indispensáveis à própria ciência natural, porquanto essas noções de
substância e causa não são experimentáveis. Pelo fato de a alma e Deus
não serem sensíveis, segue-se que não são cognoscíveis. Deus não se pode
provar a posteriori mediante o
princípio de causalidade, válido empiricamente; e também não se pode
provar - pela via de causalidade - a alma, de que é impossível demonstrar
cientificamente a imortalidade.
Dado
que em torno de Deus nada conhecemos filosoficamente, e dado outrossim o
voluntarismo divino escotista, a vontade de Deus é absolutamente livre para
criar uma moral mesmo oposta à presente, e para estabelecer uma outra ordem
sobrenatural (por exemplo, se Deus quisesse, o Verbo poderia Ter-se encarnado
num burro). Destarte, a ciência humana reduz-se à física, que nos faz
conhecer os seres materiais, sensíveis, a lógica que nos ilustra as
relações entre os conceitos. Portanto, nenhuma metafísica: o conhecimento
de Deus, da alma, da moral, etc., é abandonado inteiramente à Revelação,
à fé (fideísmo). Esta absoluta divisão entre a razão e a fé, coloca o
ocamismo em uma posição afim à do averroísmo da dupla verdade. Com o
diminuir da fé medieval e com o firmar-se do humanismo moderno, bem cedo a
razão se porá contra a fé e a substituirá. O ocamismo tem um êxito vasto
e imediato nos séculos XIV e XV; mas logo declina, degenerando num formalismo
lógico. Com ele declina e, historicamente, termina a escolástica medieval.

Após
uma longa preparação e um desenvolvimento promissor, a escolástica chega ao
seu ápice com Tomás de Aquino. Adquire plena consciência dos poderes da
razão, e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. Assim,
converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico, mas
também o pensamento patrístico, que culminou com Agostinho,
rico de elementos helenistas e neoplatônicos, além do patrimônio de
revelação judaico-cristã, bem mais importante.
Para
Tomás de Aquino, porém, converge diretamente o pensamento helênico, na
sistematização imponente de Aristóteles.
O pensamento de Aristóteles, pois, chega a Tomás de Aquino enriquecido com
os comentários pormenorizados, especialmente árabes.
Nasceu
Tomás em 1225, no castelo de
Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido
pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França,
Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de
Montecassino, passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade.
Depois de ter estudado as artes liberais, entrou na ordem dominicana,
renunciando a tudo, salvo à ciência. Tal acontecimento determinou uma forte
reação por parte de sua família; entretanto, Tomás triunfou da oposição
e se dedicou ao estudo assíduo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno,
primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia.
Também
Alberto, filho da nobre família de
duques de Bollstädt (1207-1280), abandonou o mundo e entrou na ordem
dominicana. Ensinou em Colônia, Friburgo, Estrasburgo, lecionou teologia na
universidade de Paris, onde teve entre os seus discípulos também Tomás de
Aquino, que o acompanhou a Colônia, aonde Alberto foi chamado para lecionar
no estudo geral de sua ordem. A
atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes
tratando dos assuntos mais variados - ciências naturais, filosofia, teologia,
exegese, ascética.
Em
1252 Tomás voltou para a universidade de Paris, onde ensinou até 1269,
quando regressou à Itália, chamado à corte papal. Em 1269 foi de novo à
universidade de Paris, onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante;
em 1272, voltou a Nápoles, onde lecionou teologia. Dois anos depois, em 1274,
viajando para tomar parte no Concílio de Lião, por ordem de Gregório X,
faleceu no mosteiro de Fossanova, entre Nápoles e Roma. Tinha apenas quarenta
e nove anos de idade.
As
obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos:
1.
Comentários: à lógica, à
física, à metafísica, à ética de Aristóteles; à Sagrada Escritura; a
Dionísio pseudo-areopagita; aos quatro livros das sentenças de Pedro
Lombardo.
2.
Sumas: Suma Contra
os Gentios, baseada substancialmente em demonstrações racionais; Suma Teológica, começada em 1265, ficando inacabada devido à
morte prematura do autor.
3.
Questões: Questões
Disputadas (Da verdade, Da alma, Do mal, etc.); Questões
várias.
4.
Opúsculos: Da
Unidade do Intelecto Contra os Averroístas; Da
Eternidade do Mundo, etc.
O
Pensamento: A Gnosiologia
Diversamente
do agostinianismo, e em harmonia com o pensamento aristotélico, Tomás
considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética, para
resolver o problema do mundo. Considera também a filosofia como absolutamente
distinta da teologia, - não oposta - visto ser o conteúdo da teologia arcano
e revelado, o da filosofia evidente e racional.
A
gnosiologia tomista - diversamente
da agostiniana e em harmonia com a aristotélica - é empírica e racional,
sem inatismos e iluminações divinas. O conhecimento humano tem dois
momentos, sensível e intelectual, e o segundo pressupõe o primeiro. O
conhecimento sensível do objeto, que está fora de nós, realiza-se mediante
a assim chamada espécie sensível.
Esta é a impressão, a imagem, a forma do objeto material na alma, isto é, o
objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera, sem a
materialidade do sinete; a cor do ouro percebido pelo olho, sem a
materialidade do ouro.
O
conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível, mas transcende-o.
O intelecto vê em a natureza das coisas - intus
legit - mais profundamente do que os sentidos, sobre os quais exerce a sua
atividade. Na espécie sensível - que representa o objeto material na sua
individualidade, temporalidade, espacialidade, etc., mas sem a matéria - o
inteligível, o universal, a essência das coisas é contida apenas
implicitamente, potencialmente. Para que tal inteligível se torne explícito,
atual, é preciso extraí-lo, abstraí-lo, isto é, desindividualizá-lo das
condições materiais. Tem-se, deste modo, a espécie
inteligível, representando precisamente o elemento essencial, a forma
universal das coisas.
Pelo
fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível, é
mister um intelecto agente que abstraia, desmaterialize, desindividualize o
inteligível do fantasma ou representação sensível. Este intelecto agente
é como que uma luz espiritual da alma, mediante a qual ilumina ela o mundo
sensível para conhecê-lo; no entanto, é absolutamente desprovido de
conteúdo ideal, sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo
agostiniano. E, ademais, é uma faculdade da alma individual, e não noa
advém de fora, como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo
averroísta. O intelecto que propriamente entende o inteligível, a essência,
a idéia, feita explícita, desindividualizada pelo intelecto agente, é o intelecto passivo, a que pertencem as operações racionais humanas:
conceber, julgar, raciocinar, elaborar as ciências até à filosofia.
Como
no conhecimento sensível, a coisa sentida e o sujeito que sente, formam uma
unidade mediante a espécie sensível, do mesmo modo e ainda mais
perfeitamente, acontece no conhecimento intelectual, mediante a espécie
inteligível, entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. Compreendendo
as coisas, o espírito se torna todas as coisas, possui em si, tem em si mesmo
imanentes todas as coisas, compreendendo-lhes as essências, as formas.
É
preciso claramente salientar que, na filosofia de Tomás de Aquino, a espécie
inteligível não é a coisa entendida, quer dizer, a representação da coisa
(id quod intelligitur), pois, neste
caso, conheceríamos não as coisas, mas os conhecimentos das coisas,
acabando, destarte, no fenomenismo. Mas, a espécie inteligível é o meio
pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é, logo, id
quo intelligitur). E isto corresponde perfeitamente aos dados do
conhecimento, que nos garante conhecermos coisas e não idéias; mas as coisas
podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens, e não podem
entrar fisicamente no nosso cérebro.
O
conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção
realista do mundo, e é justificado experimentalmente e racionalmente. A
verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto, mas na
adequação entre a coisa e o intelecto: veritas
est adaequatio speculativa mentis et rei. E tal adequação é possível
pela semelhança entre o intelecto e as coisas, que contêm um elemento
inteligível, a essência, a forma, a idéia. O sinal pelo qual a verdade se
manifesta à nossa mente, é a evidência; e, visto que muitos conhecimentos
nossos não são evidentes, intuitivos, tornam-se verdadeiros quando levados
à evidência mediante a demonstração.
Todos
os conhecimentos sensíveis são evidentes, intuitivos, e, por conseqüência,
todos os conhecimentos sensíveis são, por si, verdadeiros. Os chamados erros
dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis,
devidas ao intelecto. Pelo contrário, no campo intelectual, poucos são os
nossos conhecimentos evidentes. São certamente evidentes os princípios
primeiros (identidade, contradição, etc.). Os conhecimentos não evidentes
são reconduzidos à evidência mediante a demonstração, como já dissemos.
É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro, consistindo em
uma falsa passagem na demonstração, e levando, destarte, à discrepância
entre o intelecto e as coisas.
A
demonstração é um processo dedutivo, isto é, uma passagem necessária do
universal para o particular. No entanto, os universais, os conceitos, as
idéias, não são inatas na mente humana, como pretendia o agostinianismo, e
nem sequer são inatas suas relações lógicas, mas se tiram fundamentalmente
da experiência, mediante a indução, que colhe a essência das coisas. A
ciência tem como objeto esta essência das coisas, universal e necessária.
A
Metafísica
A
metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. A metafísica geral -
ou ontologia - tem como objeto o ser
em geral e as atribuições e leis relativas. A metafísica especial estuda o
ser em suas grandes especificações: Deus, o espírito, o mundo. Daí temos a
teologia racional - assim chamada,
para distingui-la da teologia revelada; a psicologia
racional (racional, porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna
psicologia empírica, que é ciência experimental); a cosmologia
ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras, ao
passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas).
O
princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato.
Ato significa realidade, perfeição; potência
quer dizer não-realidade, imperfeição. Não significa, porém, irrealidade
absoluta, mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma
determinada perfeição, capacidade de concretizar-se. Tal passagem da
potência ao ato é o vir-a-ser, que
depende do ser que é ato puro; este não muda e faz com que tudo exista e
venha-a-ser. Opõe-se ao ato puro a potência pura que, de per si,
naturalmente é irreal, é nada, mas pode tornar-se todas as coisas, e
chama-se matéria.
Uma
determinação, especificação do princípio de potência e ato, válida para
toda a realidade, é o princípio da matéria e de forma. Este princípio vale
unicamente para a realidade material, para o mundo físico, e interessa
portanto especialmente à cosmologia tomista. A matéria
não é absoluto, não-ente; é, porém, irreal sem a forma, pela qual é
determinada, como a potência é determinada, como a potência é determinada
pelo ato. É necessária para a forma, a fim de que possa existir um ser
completo e real (substância). A forma
é a essência das coisas (água, ouro, vidro) e é universal. A
individuação, a concretização da forma, essência, em vários indivíduos,
que só realmente existem (esta água, este ouro, este vidro), depende da
matéria, que portanto representa o princípio de individuação no mundo
físico. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na
filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino, toda substância corpórea é um
composto de duas partes substanciais complementares, uma passiva e em si mesma
absolutamente indeterminada (a matéria), outra ativa e determinante (a
forma)".
Além
destas duas causas constitutivas (matéria e forma), os seres materiais têm
outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. A causa
eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade, é a que
realiza o sínolo, a saber, a
síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente; é esta causa
final que determina a ordem observada no universo. Em conclusão: todo ser
material existe pelo concurso de quatro causas - material, formal, eficiente,
final; estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com
os demais seres do universo físico.
Quando
a forma é princípio da vida, que é uma atividade cuja origem está dentro
do ser, chama-se alma. Portanto, têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se
alimenta, cresce e se reproduz), e os animais (alma sensitiva: que, a mais da
alma vegetativa, sente e se move). Entretanto, a psicologia racional, que diz respeito ao homem, interessa apenas a
alma racional. Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e
sensitiva, a alma racional entende e quer, pois segundo Tomás de Aquino,
existe uma forma só e, por conseguinte, uma alma só em cada indivíduo; e a
alma superior cumpre as funções da alma inferior, como a mais contém o
menos.
No
homem existe uma alma espiritual - unida com o corpo, mas transcendendo-o -
porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva, que são materiais, se
manifestam nele também atividades espirituais, como o ato do intelecto e o
ato da vontade. A atividade intelectiva é orientada para entidades
imateriais, como os conceitos; e, por conseqüência, esta atividade tem que
depender de um princípio imaterial, espiritual, que é precisamente a alma
racional. Assim, a vontade humana é livre, indeterminada - ao passo que o
mundo material é regido por leis necessárias. E, portanto, a vontade não
pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial, espiritual, ou seja,
da alma racional, que pelo fato de ser imaterial, isto é, espiritual, não é
composta de partes e, por conseguinte, é imortal.
Como
a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste, isto é,
é imortal, assim transcende a origem material do corpo e é criada
imediatamente por Deus, com relação ao respectivo corpo já formado, que a
individualiza. Mas, diversamente do dualismo platônico-agostiniano, Tomás
sustenta que a alma, espiritual embora, é unida substancialmente ao corpo
material, de que é a forma. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma,
nem viver, e também a alma, por sua vez, ainda que imortal, não tem uma vida
plena sem o corpo, que é o seu instrumento indispensável.
Como
a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da
potência e do ato, mediante a doutrina da matéria e da forma, assim a teologia
racional tomista depende - e mais intimamente ainda - da doutrina da
potência e do ato. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser
Deus conhecido imediatamente por intuição, Tomás sustenta que Deus não é
conhecido por intuição, mas é cognoscível unicamente por demonstração;
entretanto esta demonstração é sólida e racional, não recorre a
argumentações a priori, mas
unicamente a posteriori, partindo da
experiência, que sem Deus seria contraditória.
As
provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a
característica de se firmar em evidência (sensível e racional), para
proceder à demonstração, como a lógica exige. E a primeira dessas provas -
que é fundamental e como que norma para as outras - baseia-se diretamente na
doutrina da potência e do ato. "Cada uma delas se firma em dois
elementos, cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma
experiência sensível, que pode ser a constatação do movimento, das causas,
do contingente, dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas
reina; e uma aplicação do princípio de causalidade, que suspende o
movimento ao imóvel, as causas segundas à causa primeira, o contingente ao
necessário, o imperfeito ao perfeito, a ordem à inteligência
ordenadora".
Se
conhecermos apenas indiretamente, pelas provas, a existência de Deus, ainda
mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina, como sendo a
que transcende infinitamente o intelecto humano. Segundo o Aquinate, antes de
tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa), entretanto conhecemos
também algo de positivo em torno da natureza de Deus, graças precisamente à
famosa doutrina da analogia. Esta
doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se
deve realizar partindo das criaturas, porquanto o efeito deve Ter semelhança
com a causa. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus
as perfeições criadas positivas, tirando, porém, as imperfeições, isto
é, toda limitação e toda potencialidade. O que conhecemos a respeito de
Deus é, portanto, um conjunto de negações e de analogias; e não é falso,
mas apenas incompleto.
Quanto
ao problemas das relações entre Deus e o mundo, é resolvido com base no
conceito de criação, que consiste numa produção do mundo por parte de
Deus, total, livre e do nada.
Também
no campo da moral, Tomás se distingue do agostinianismo, pois a moral tomista
é essencialmente intelectualista, ao passo que a moral agostiniana é
voluntarista, quer dizer, a vontade não é condição de conhecimento, mas
tem como fim o conhecimento. A ordem moral, pois, não depende da vontade
arbitrária de Deus, e sim da necessidade racional da divina essência, isto
é, a ordem moral é imanente, essencial, inseparável da natureza humana, que
é uma determinada imagem da essência divina, que Deus quis realizar no
mundo. Desta sorte, agir moralmente significa agir racionalmente, em harmonia
com a natureza racional do homem.
Entretanto,
se a vontade não determina a ordem moral, é a vontade todavia que executa
livremente esta ordem moral. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade,
recorrendo a um argumento metafísico fundamental. A vontade tende
necessariamente para o bem em geral. Se o intelecto tivesse a intuição do
bem absoluto, isto é, de Deus, a vontade seria determinada por este bem
infinito, conhecido intuitivamente pelo intelecto. Ao invés, no mundo a
vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que,
portanto, não podem determinar a sua infinita capacidade de bem; logo, é
livre. Não é mister acrescentar que, para a integridade do ato moral, são
necessários dois elementos: o elemento objetivo, a lei, que se atinge
mediante a razão; e o elemento subjetivo, a intenção, que depende da
vontade.
Analisando
a natureza humana, resulta que o homem é um animal social (político) e
portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. A primeira forma
da sociedade humana é a família, de que depende a conservação do gênero
humano; a Segunda forma é o estado, de que depende o bem comum dos
indivíduos. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e
transcendente, se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado,
mas o estado um meio para o indivíduo. Segundo Tomás de Aquino, o estado
não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica), mas
também positiva (organizadora) e espiritual (moral). Embora o estado seja
completo em seu gênero, fica, porém, subordinado, em tudo quanto diz
respeito à religião e à moral, à Igreja, que tem como escopo o bem eterno
das almas, ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos
indivíduos.
Em
torno do problema das relações entre filosofia
e teologia, ciência e fé, razão e revelação, e mais precisamente
em torno do problema da função da razão no âmbito da fé, Tomás de Aquino
dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as
duas ordens. Com base no sólido sistema aristotélico, é eliminada a
doutrina da iluminação, agostiniana, que levava inevitavelmente a uma
confusão da teologia com a filosofia. Destarte, é finalmente conquistada a
consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional,
ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para
conclusões inteligíveis. E compreende-se, portanto, que não é possível
demonstração racional em matéria de fé, onde os princípios são, para
nós, não evidentes, transcendentes à razão, mistérios, e igualmente
ininteligíveis suas condições lógicas.
Em
todo caso, segundo o sistema tomista, a razão não é estranha à fé,
porquanto procede da mesma Verdade eterna. E, com relação à fé, deve a
razão desempenhar os papéis seguintes:
1.
A demonstração da fé, não com argumentos intrínsecos, de evidência, o
que é impossível, mas com argumentos extrínsecos, de credibilidade
(profecias, milagres, etc.), que garantem a autenticidade divina da
Revelação.
2.
A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência,
mediante argumentos prováveis.
3.
A determinação, enucleação e sistematização das verdades de fé, pelo
que a sacra teologia é ciência, e ciência em grau eminente, porquanto
essencialmente especulativa, ao passo que, para os agostinianos, é
essencialmente prática.
Tomás,
portanto, não confunde - como faz o agostinianismo - nem opõe - como faz o
averroísmo - razão e fé, mas distingue-as e as harmoniza. De modo que nasce
uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé; tal unidade dialética
nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana;
esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou
possível a averiguação das reais, efetivas vulnerações da natureza
humana; estas vulnerações são filosoficamente, racionalmente,
inexplicáveis. E demandam, por conseguinte, a Revelação e, precisamente, os
dogmas do pecado original e da redenção pela cruz.
O
tomismo afirma-se e caracteriza-se
como uma crítica que valoriza a orientação do pensamento
platônico-agostiniano em nome do racionalismo aristotélico, que pareceu um
escândalo, no campo católico, ao misticismo agostiniano. Ademais, o tomismo
se afirma e se caracteriza como o início da filosofia no pensamento cristão
e, por conseguinte, como o início do pensamento moderno, enquanto a filosofia
é concebida qual construção autônoma e crítica da razão humana.
Sabemos
que, segundo a concepção platônico-agostiniana, o conhecimento humano
depende de uma particular iluminação divina; segundo esta doutrina,
portanto, o espírito humano está em relação imediata com o inteligível, e
tem, de certo modo, intuição do inteligível. A esta gnosiologia inatista,
Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica, em virtude da
qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo
sensível. Acima do sentido há, sim, no homem, um intelecto; este intelecto
atinge, sim, um inteligível; mas é um intelecto concebido como uma faculdade
vazia, sem idéias inatas - é uma tabula
rasa, segundo a famosa expressão - ; e o inteligível nada mais é que a
forma imanente às coisas materiais. Essa forma é enucleada, abstraída pelo
intelecto das coisas materiais sensíveis.
Essa
gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e, em especial, a uma
antropologia, assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma
correspondente metafísica e antropologia. Por isso a alma era concebida quase
como um ser autônomo, uma espécie de natureza angélica, unida
extrinsecamente a um corpo, e a materialidade do corpo era-lhe mais de
obstáculo do que instrumento. Por conseguinte, o conhecimento humano se
realizava não através dos sentidos, mas ao lado e acima dos sentidos,
mediante contato direto com o mundo inteligível; precisamente como as
inteligências angélicas, que conhecem mediante as espécies
impressas, idéias inatas. Vice-versa, segundo a antropologia
aristotélico-tomista, sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma,
a alma é concebida como a forma substancial do corpo. A alma é, portanto,
incompleta sem o corpo, ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza
racional; logo, o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento
humano, que, por conseqüência, tem o seu ponto de partida nos sentidos.
Terceira
característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo, com todas
as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. A
característica do tomismo, ao contrário, é o intelectualismo, com a
primazia do intelecto sobre a vontade, com todas as relativas conseqüências.
O conhecimento, pois, é mais perfeito do que a ação, porquanto o intelecto
possui o próprio objeto, ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo.
Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural,
de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus, mas na
visão beatífica da Essência divina.
A
Existência de Deus é Evidente?
Sobre
a existência de Deus, três questões se colocam:
1.
A existência de Deus é uma verdade evidente?
2.
Ela pode ser demonstrada?
3.
Deus existe?
1.
- Parece que a existência de Deus é evidente. Com efeito, chamamos verdades
evidentes aquelas cujo conhecimento está em nós naturalmente, como é o caso
dos primeiros princípios. Ora, de acordo com o que diz Damasceno: "O
conhecimento da existência de Deus é inato em todos". Por conseguinte,
a existência de Deus é evidente.
2.
- Por outro lado, são ditas evidentes as verdades que conhecemos desde que
compreendamos os termos que as exprimem. É o que o Filósofo (Últimos
Analíticos, I, 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. De
fato, quando sabemos o significado de todo o significado da parte, sabemos, de
imediato, que o todo é maior que a parte. Ora, desde que tenhamos
compreendido o sentido da palavra "Deus", estabelece-se, de
imediato, que Deus existe. De fato, essa palavra designa uma coisa de tal
ordem que não podemos conceber algo que lhe seja maior. Ora, o que existe na
realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento.
Daí resulta que o objeto designado pela palavra Deus, que existe no
pensamento, desde que se compreenda a palavra, também existe na realidade.
Por conseguinte, a existência de Deus é evidente.
3.
- Além disso, a existência da verdade é evidente. Pois, aquele que nega a
existência da verdade, concorda que a verdade não existe. Mas se a verdade
não existe, a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. E se
alguma coisa há de verdadeira, a verdade existe. Ora, Deus é a própria
verdade, segundo o que diz São João, 14, 6: "Eu sou o caminho, a
verdade e a vida". Por conseguinte, a existência de Deus é evidente.
Mas,
em compensação, ninguém pode pensar o oposto do que é evidente, conforme
nos mostra o Filósofo (Metafísica, 4 e Últimos Analíticos, I, 10), a
propósito dos primeiros princípios da demonstração. Ora, o oposto da
existência de Deus pode ser pensado, conforme diz o salmo 52, 1: "O
insensato diz em seu coração que não há Deus". Logo, a existência de
Deus não é evidente.
Resposta
- Temos duas maneiras para dizer que uma coisa
é evidente. Ela o pode ser em si mesma e não por nós; ela o pode ser em si
mesma e por nós. De fato, uma proposição é evidente quanto o atributo
está incluído no sujeito, por exemplo: o homem é um animal. Animal, de
fato, pertence à noção de homem. Se, portanto, todos sabem o que são o
sujeito e o atributo de uma proposição, essa proposição será conhecida de
todos. É verdadeiro, pelos princípios das demonstrações, que os termos
são coisas gerais que todos conhecem, como o ser e o não-ser, o todo e a
parte, etc. Mas, se alguns não sabem o que são o atributo e o sujeito de uma
proposição, é certo que a proposição será evidente em si mesma, mas não
para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. É por isso que
Boécio diz: "Certos juízos só são conhecidos pelos sábios, por
exemplo, aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão num mesmo
lugar". Por conseguinte, eu afirmo que a proposição "Deus
é", considerada em si mesma, é evidente por si mesma, uma vez que o
atributo é idêntico ao sujeito. Deus, de fato, é seu ser. Mas como não
sabemos o que é Deus, ela não é evidente para nós; tem necessidade de ser
demonstrada pelas coisas que, menos conhecidas na realidade, o são mais para
nós, isto é, pelos efeitos.
À
primeira objeção devemos responder que, em estado vago e confuso, o
conhecimento da existência é naturalmente inato em nós, uma vez que Deus é
a felicidade do homem. De fato, o homem deseja naturalmente a felicidade e,
aquilo que ele deseja naturalmente, ele conhece naturalmente. Mas isto não
é, propriamente falando, conhecer a existência de Deus; exatamente como se
pudéssemos saber que alguém chega, sem conhecer Pedro, quando é o próprio
Pedro que chega. Muitos, de fato, colocam o supremo bem do homem nas riquezas,
outros o colocam nos prazeres, outros alhures.
À
segunda, podemos responder que aquele que ouve pronunciar a palavra Deus pode
ignorar que essa palavra designa uma coisa tal que não se possa conceber algo
que lhe seja maior. Alguns, com efeito, acreditaram que Deus fosse um corpo.
Mesmo que sustentemos que todos entendem a palavra Deus nesse sentido, isto
é, no sentido de uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja
maior, isto não significa que todos representam a existência dessa coisa
como real e não como representação da inteligência. E não se pode
concluir sua existência real salvo se se admite que essa coisa existe
realmente. Ora, isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência
de Deus.
À
terceira, devemos responder que a existência da verdade indeterminada é
evidente por si mesma, mas que a existência da primeira verdade não é
evidente em si mesma para nós.
A
Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja?
Dificuldades:
Isso parece exato; de fato Dionísio diz que o mal está fora do objeto da
vontade. Por conseguinte, ela tende necessariamente para o bem que lhe é
proposto.
O
objeto está para a vontade assim como o motor está para o móvel. Ora, o
movimento do móvel segue, necessariamente, o impulso do motor. Por
conseguinte, o objeto da vontade move-a necessariamente. Assim como o que é
conhecido pelos sentidos é objeto da afetividade sensível, assim o que é
conhecido pela inteligência é objeto do apetite intelectual ou vontade. Mas
o objeto dos sentidos move, necessariamente, a afetividade sensível; segundo Santo
Agostinho, os animais são arrastados pelo que vêem. Por conseguinte,
parece que o objeto conhecido pela inteligência move a vontade
necessariamente.
Entretanto:
Santo Agostinho diz que a vontade é a faculdade pela qual pecamos ou vivemos
segundo a justiça. Desse modo, ela é capaz de desejar coisas contrárias.
Por conseguinte, ela não quer, por necessidade, tudo o que deseja.
Conclusão:
Eis como podemos prová-lo. Assim como a inteligência adere, necessária e
naturalmente, aos primeiros princípios, assim a vontade adere ao fim último.
Ora, existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros
princípios; tais são as proposições contingentes cuja negação não
implica na negação desses princípios. A inteligência não concede,
necessariamente, seu assentimento a tais verdades. Mas existem proposições
necessárias que possuem esta relação necessária; tais são as conclusões
demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios. A estas
últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente, na medida
em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma
demonstração. Faltando isto, o assentimento não é necessário.
O
mesmo acontece com relação à vontade. Existem bens particulares que não
possuem relação necessária com a felicidade, visto que se pode ser feliz
sem eles. A tais bens, a vontade não adere necessariamente. Mas existem
outros bens que implicam nessa relação; são aqueles pelos quais o homem
adere a Deus, pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. Todavia,
antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da
visão divina, a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a
ele se relacionam. Mas a vontade daquele que vê Deus em sua essência adere
necessariamente a Ele, do mesmo modo como agora nós queremos,
necessariamente, ser felizes. Por conseguinte, é evidente que a vontade não
quer, por necessidade, tudo o que deseja.
Solução:
A vontade não pode tender para nenhum objeto, se este não se lhe apresenta
como um bem. Mas como existe uma infinidade de bens, ela não é
necessariamente determinada por um só.
A
causa motora produz, necessariamente, o movimento do móvel, no caso em que a
força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que
este tem de agir fica submetida à causa. Mas a capacidade da vontade, na
medida em que se dirige para o bem universal e perfeito, não pode estar
inteiramente subordinada a qualquer bem particular. Desse modo, ela não é,
necessariamente, acionada por ele.
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